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Full text of "Portugal e os estrangeiros"

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9 



PORTUGAL 

ESTRANGEIROS 



Tl 



ESTCSÇeSS 

MAGOEI. BKRNAIIIIES BRANCO 






Obra MrtunuidM tlp ooic rMrniuK 



TOMO L" 



LISBOA 

LiriMKU UK A. M. reflCIUA— HDnOK 
OS— Au li^U — Sá 



} 



PORTUGUL [ OS [STRÍNGEiS 



PORTUGAL 



£ OS 



ESTRANGEIROS 



n 



OBRA DIVIDIDA EM QUATRO PARTES 

CONTENDO OS SEGUINTES ASSUMPTOS 

I — Dicrionario dos escriptorcs estrangeiros, 

qae escreveram obras consagradas a Portugal ou a assump'os portu^uczes, 

com a tradoc^io dos trechos mais notareis d'essas obras 

n — Diccionario das obras portuguezas vertidas em linguas estrangeiras 

in — Soticia dos portuguezes que no estrangeiro se distinguiram nas Icttras, 
e resenha das obras portujuezas reimpressas nos piizes estrangeiros 

IV — Solicia das recordações e monumentos eiistcntes 
em di>er$as partes do mundo, construídos por portuguezes, ou eiigidos em honra d*elies. 

ADORNADA DE NOVE RETRATOS * 



• ■ I 



ESTUDOS DE 
MANOEL BERNARDES BRANCO 

DA ACADEMIA REAL DAS 8CIEHCIAS DB LISBOA 



5% 



TOMO i 






■•I < • • • 



LIVRARIA DE A. M. PEREIRA— EDITOR 
50 -RUA AUGUSTA — 5i 

1879 



J.5P. 



Â^ 





A SUA MAGESTADE EL-REI 



DOM LUIZ I 



o. D. C. 



ílcal SenT}or! 



'O meu trahall^o — Tortugal e os Estrangeiros — no 
qual já consumi uns dez annos, vai provar, até á evi- 
dencia, que é glorioso o ser portuguez; julguei por isso 
que só ao digno ^l/efe doeste povo, ^b^fe, que também 
sahe perfeitamente avaliar a importância doestes traba- 
lhos, devia ser dedicada a obra, composta por aquelle 
que tem a l^onra de ser de 



Vossa Magestade 



o MAIOR ADMIRADOR E RESPEITADOR 



Q^^anoéi SBtinaiiieò Sõíaneo. 



PROLOGO 



Rien ne peut arréter dans leuri projeU noureaax 
Ces Portagais ardens qai Tolent sar les eaux. 
Oh combicD de heros gaidèrent lear audaeei 
Qae de faito ímmorteis ont signaló lear trace! 

EsMEitABDE. — Ghant. t. 

«Ninguém deie negar qae a lingaa portogueza foi 
qaasi a lingua aniversal de todos os povos marítimos ; 
ningaem deve negar que os maiores potentados da Ásia 
disputavam a preferencia de serem nossos vassallos.» 

YisGORDK BK Sáktabem. — Quodro DipUmaiico, tom. i. 

Portugal; um dos mais pequenos paizeS; e situado na parte 
mais meridional da Europa, encravado entre o oceano e um esta- 
do potentíssimo, parecia pela sua posiçllo votado ao esquecimento; 
não sendo de presumir que houvesse pelos seus feitos de conquis- 
tar muitas paginas na historia; por \mi século dar leis a uma por- 
ção de território superior áquelle em que os romanos dominaram; 
apresentar um grande numero de homens distinctos em todo o 
género de conhecimentos^; e dar religião e idioma culto a um 
grande numero de povos, de maneira tal que, se em virtude das 
vicissitudes humanas um dia Portugal perder sua autonomia, e 
escravisado pelo direito do mais forte, for convertido n^uma obscura 

1 «Encontram- se nomes portugnezes nas listas das corporações litterarias 
de Berlim, Bordeauz, Edimburgo, Philadelphia, Florença, Leão, Liège, Lon- 
dres, Madrid, Marselha, Paris, Sazonia, Stockholm, Toscana e Turim.» José 
Maria Dantas Pereira, Memorias da Academia Real das Seiendoê de Liêboa^ 
vol. X. 



VIII 



província de qualquer outro paiz, ainda assim nem ha de deixar 
de cultivar a lingua de seus maiores^ c na qual suas glorias foram 
oscriptas, nem os povos civilisados deixarão de estudar o idioma 
de Fernão Lopes, João de Barros, Mendes Pinto, Thomó de Je- 
sus, Amador Ârraes, Luiz de Sousa, Herculano, Camões, Bocage, 
Philinto Elysio, Nicolau Tolentino, João de Lemos, Gonzaga, Gar- 
rett, Castilho, Júlio Diniz, Thomás Ribeiro e tantod outros^; nem os 
commerciantes hão de despresar o estudo de um idioma, do qual 
tantos milhões de individues se servem nas suas transacções commer- 
ciaes, pois que a lingua portugueza não é só cultivada em Portugal, 
suas numerosas possessões e Brazil. Â nossa lingua, forrando-me ao 



1 «Parece que os hespunhoes ecmpre se acharam convencidos que nunca 
podiam attín^ir a ternura romântica dos portuguezes. Uma certa simplicida- 
de e intensidade na expressão dos sentimentos ternos, aos quaes a lingua de 
Portugal é particularmente favorável, tem sido em todos os tempos uma das 
feições características da poesia portugueza desde o xv secule até aos pre- 
sentes tempos.» Frcderick Boutcrwck, Hisiory of Spanish and Portugutat 
Litlerature, vol. ii, pag. 17. 

«O numero preponderante dos escriptores poéticos de Portugal, compara- 
do com os de Hespanha durante o século xv, é uma òircumstancia merecedora 
de especial noticia, por isso que prova que o solo de Portugal era então, bem 
como em epochas de maior antiguidade, mais fértil do que a Hespanha em 
génio poético.» Frederick Bouterwck, History of Spanish aiid Fortuguese 
Litíerature, vol. ii, pag. 19. 

«No glorioso reinado de D. Manuel nenhum poeta hespanhol tinha alcan- 
çado tanta celebridade, como aquella de que gosaya o portugucz Bernardim 
Ribeiro. A litteratura hespanhola n'aqueile tempo n&o podia ter orgulho 
d*alguma obra cscripta n*um cstylo tào culto.» Frederick Bouterwek, History 
of Spanish and Portugiese Litte.rature, pag. 38. 

«Portugal pode ser considerado como a verdadeira pátria da poesia ro- 
mântica pastoril, a qual, todavia, pelo mesmo período florescia na Itália, onde 
assumiu formas mais cultas, particularmente depois que Sannazaro escreveu; 
porém propriamente nacional só o foi em Portugal.» Frederick Bouterwek, 
Hiêtory of Spanish and Porlugucse LtUeraturCf pag. 43. 

♦ ♦ 

«Nenhuma nação nos séculos zv e xvi mostrou maior audácia, emprehendeu 
ou assombrou mais os homens com proezas maiores do que o fazia um estado tao 
pequeno. Descobriram e frequentaram os portuguezes, commerciaimenteou com 
guerra cinco mil léguas de costa; conquistaram Goa, Malaca, Ormuz, Ceylao, 
fundaram Macau, subjugaram parte da índia, por toda a parte precederam 
os inglezes: mas perco-me n^estas conquistas!... £ é depois do desenvolvi- 
mento da grandeza portugueza na índia, que o génio da naçào se manifesta: 
encontrar-se*hia nas cartas de Albuquerque, como nos versos de Camões; 
nas versões de alguns missionários, como nas paginsis eloquentes do historia- 
dor Barros. Os homens d'acçao foram n*aquelle tempo homens de lettras, e o 
talento de escrever recebeu d*es(a alliança uma valentia particular no xvi 
século. Portugal é um paiz encantador ! Em nossos dias, «juando um grande 
poeta, fatigado pelos prazeres, tendo o spleen da saciedade e ò do génio, dei- 
xou melancolicamente sua nebulosa pátria com o iim de se desenfastiar, ape- 
nas tocou Portugal, sentiu «se reuascer á vista doeste bello clima, e d'esta 
terra outr*ora gloriosa, e sempre fértil.» Ferdinand Denis, H. de la LiU. Fort. 



IX 



trabalho de dizer em que si tios da Africa se faz uso d'ella; é fallada por 
alguns milhSes de individues tanto noParaguay, como em varias loca- 
lidades- da America do sul; é lingua ainda conhecidissima em vários 
pontos do globo. A lingua portugueza (segundo nos assevera pes- 
soa muito competente, o sr. Joaquim Heliodoro da Cunha Rivara, 
no seu prologo (pag. xxvi) á Grammatica da lingua Concani) — 
cFalla-se, e é vulgar desde o Guzarate até o Cabo Comorim. Não 
é desconhecida na costa de Coromandel até Bengala. É commum, 
com maior ou menor pureza, em Ceylao, no archipelago Malaio e 
na China. Entende -se em Sião, e em vários grupos dos archipela- 
gos oceânicos, etc. Não duvidamos de que seja o inglez a lingua 
em que no dia de hoje um natural bem educadoy chegando da ín- 
dia superior, de Bengala ou de Madrasta, se faça entender de ou- 
tro natural bem educado em Bombaim; que seja o inglez a única 
lingua que o mesmo natural bem educado use para escrever a seus 
amigos Bengali de Calcuttá ou Tamil de Madrasta; mas é ao mes- 
mo tempo certo, que em todas as classes da população, não só do 
continente indiano, mas dos archipelagos e territórios acima men- 
cionados, ainda mesmo n'aqueilas classes, que não passam por mais 
illustradas, haverá quem saiba comprehender e exprimir o portu- 
guez; c sem duvida uma carta escripta em portuguez será enten- 
dida no logar do seu destino em todas aquellas vastas regiões.» 

Foi talvez pela celebridade que Portugal adquiriu pelos seus 
feitos, pelas suas descobertas mormente, pela extensão de seu 
eommereío, que ainda no fím do século passado, segundo a expres- 
são do um celebre escriptor francez, era prodigioso, e por suas 
glorias litterarias em todos os ramos de conhecimentos, e até mesmo 
pelo estudo das linguas orientaes, (chegando F. Dinis a dizer que 
n'este género não se deve mais aos inglezes do que aos portugue- 
zes), que um extraordinário numero de escriptores se occupou de 
nossas cousas, já escrevendo um incalculável numero de livros so- 
bre assumptos portuguezes, havidos não poucos d'estes como obras 
primas na litteratura, já traduzindo os escriptos mais notáveis ou 
úteis que pelos nossos foram compostos; já finalmente fazendo edi- 
çSes sobre ediç3es em um extraordinário numero de cidades es- 
trangeiras dos livros que saiam dos nossos prelos em Portugal'. 

A historia dos primeiros tempos da monarchia portugueza pôde 
ser estudada, quanto possivel, nas antigas chronicas, compostas 



1 «NiiO 88 julgue que a lingua portugueza é unicamente restringida ao 
povo, que a falia. Ella é ainda a lingua do commorcio asiático: está derra- 
mada desde o cabo Nâo até ás ilhas do Japão, e desde a ilha da Madeira até 
o Brazil. Além d*isto esta lingua é bella, sonora, harmoniosa, livre d^essa as- 

fiiraçAo gutural, que censuramos á hcspanhola: tem toda a doçura, e flexibí- 
idade da italiana, a gravidade e o colorido da latina. Uma outra qualidade 



tanto por nacionaes como por hespanhoes. De D. JoSoI por diante 
servem também de subsidio os chronistas francezes, o celebre 
Froissart consagra mais de mna pagina aos gloriosos feitos dos 
heroes de ÁH abarrota e o mesmo pratica Filippe de Commines a 
respeito de D. Áffonso V. Tendo, porém, o mestre d'Ayiz por um 



â'e8te idioma é, que ainda uSo enyelhecea: é sempre a mesma ha tresentos 
amios.» — Sane, Poesie Lfpiq* Pori. 

* * 

No século passado o celebre viajante inglez Bmce, com o fim de examinar 
as nascentes ao Nilo tinha chegado a Jiddah. N*e8te porto tratava de obter 
passagem n*um nayio. O capitão inglez Thomill fatiando com Bmce servia^se 
da lingna inglesa, e fallando com seu próprio filho usava do português, pen- 
sando que Bmce nSo entendia o que elle disia. Bruce porém gaba-se em seus 
escriptos de saber perfeitamente o português, mostrando nMsso certo orgulho, 
e ria-se interiormente do engano em que Thomill se achava. — James Bruce, 
Voyaaeê aux êourees du NU en Nvbit et en Abysnnit en 1768 à 1772, tom. u, 
pag. 206. 

«Em muitos reinos da Ásia, principalmente nos portos marítimos, se falia 
nm dialecto português, como linguagem commum entre aquelles povos, qnasi 
da mesma maneira que na Europa nos servimos do francês. O capitSo inglez 
King refere que na primeira visita que fes á ilha Melville, na costa do norte 
da Austrália, os naturaes que sairam á praia o chamavam disendo: Vem acá, 
6 que bem mostra que conheciam os portugueses e d^elles tinham aprendido 
estas e por ventura outras palavras.» — Panorama de 1842, pag. 56. 

«La lingua portoghese, ai pari deiritaliana, francese e spagnaola, é filia 
delia latina, ed é assai ricca, armoniosa, adattata alia poesia, à tntti generí 
di letteratura, ed in nulla inferiore alie sue sorclle.» 

« Questa bella lingua non é ristretta ai solo regno di Portogallo e alie sue 
isole neirEuropa; ma é la lingua di cui si serve il commercio asiático, e corre 
per tutta la costa occidentale e meridionale deli* Africa e deli' Ásia: ed é per 
consequensa una lingua cbe si parla, o s*intende in tútte le quattro parti dei 
mundo.» — D. Vittore Felicíssimo Francesco, ChrammaUca PoHogheãe ad uto 
dtgVIteliani^ Parigi, 1869. 

«Em Siam ha um grande numero de descendentes portugueses, fallando a 
nossa lingua, e tendo nomes portugueses. Entre estes distingue-se Paschoal 
Bibeiro de Albergaria, mandarim e general de artilhería de Siam.» — Archivo 
PiUoresco de 1863, pag. 344. 

4r m 

«Em 1833 tendo* se feito um tratado de commercio entre o rei de Siam e 
o governo dos Estados-Unidos da America, apesar de ser escripto em inglez 
e siamês Juntou-se-lhe uma traducçâo em português para testemunho do seu 
contendo.» — Ârchivo PiUoresco de 1863. 

E em 1872 mandou o governo doesta mesma republica publicar um Me- 
morandum acerca da celebre questão do navio Alabama, pela qual esteve im- 



XI 

lado conquistado Ceuta, e por outro o infante D. Henrique dado 
começo á ntiaravilhosas descobertas, que tomaram immorredouro 
o nome lusitano, Portugal, este cantinho da peninsula, saiu da ob- 
scuridade, e desde então fez com que todos os povos civilisados ti- 
vessem os olhos fitos n*um paiz, que diariamente pelo espaço de 

minente uma guerra entre os Estados-Unidos e a Inglaterra, escripto em três 
idiomas francez, inglez e portuguez, o que um jornal considera uma grande 
honra para o nosso paiz. 

Mr. George Harrison, cidadão americano, na Pensilvânia mandou erigir 
no sen jardim em honra de Philinto Elysio um monumento, no qual fez gra* 
yar alguns versos da sua famosa Odo á Liberdade Americana. — Sr. José Ma- 
ria de Sousa Monteiro, Historia de Portugal, vol. ii, pag. 463. 

Nos Estados- Unidos a língua portugueza deve ter um grande numero de 
cultores, servindo de prova os magníficos jornaes illustrados que n'este idioma 
86 publicam n^aquelle paiz. 

Ha pouco tempo publicou na Hespanha, para ensino de portuguez aos 
hespanhoes, uma grammatica D. Agostinho Blasco, parocho de Criptana, 
doutor em direito e philosophia, e membro de varias sociedades scientifícas 
e litterarias. 

Como se verá n'este trabalho é extenso o numero de grammaticas coor- 
denadas para uso dos estrangeiros, que querem aprender a língua portugue- 
sa. A de António Vieira contava já em 1869 treze edições, como se vê do seu 
titulo: A. Vieira. Â Grammar of the Portugutse language, 13'i^ edition. Care- 
follj revised, corrected and improved by M. G. Henriquez, London. 

* ♦ 

«Na edade média esta mesma impressão dos logares, esta natureza suave 
e rica, este bello céu sem nuvens dispunham a alma dos portuguezes para 
cantares táo maviosos, quanto sua vida era trabalhosa e aguerrida. Sim: alem 
dos mares, em Macau, em Goa, em Ceylilo, o portuguez era indomável, duro, 
intolerante até á ferocidade: mas o portuguez nas margens do Tejo, quando 
nào era inflamado pelo ardor do comoate, e pela rapacidade da conquista, pa- 
recia um povo pacifico occupado na lavoura, e gostando de cantar seus doces 
folgares. Suas poesias teem alguma coisa de distincto entre os cantos meri- 
dionaes. Ignoro a causa que approxímou a lítteratura portugueza d'esse ca- 
racter de meditação e de melancolia, que se attribue principalmente aos po- 
Tos do norte. Vem -me n'este instante ao pensamento esta expressão de Ca- 
mões n'um de seus sonetos, Camões, cuja lyra sonorosa será mais afamada 
mie ditosa. Este encanto da tristeza não se pôde definir. £ncontra-se debaixo 
de mil formas nos poetas precursores de Camões, e offuscados pela sua glo- 
ria. Não é entre os portuguezes esse jubilo susurraute, essa louca alegria dos 
provençaes; também não é a g^vidade austera dos hespanhoes, e essa alti- 
Tez, que deseja enternecer- se, e essa imaginação pomposa que exagera e ca- 
rece de sentimento* Não: é uma emoção ao mesmo tempo viva e reflectida, 
que se deleita com as imagens do amor e dos campos. D'ahi nasceu entre os 
portuguezes a poesia pastoril . Essas poesias ao mesmo tempo ideaes e natu- 
raes, esses versos bucólicos, que foram inspirados aos portuguezes pelo seu 
bello clima e génio scismador.» 

«Quando no século xv um portuguez, de alma viva e apaixonada, errante 
•obre as margens floridas do Tejo, sobre as bordas do Mondego, perto d'esse 
rio, onde D. Fedro ia ter com Ignez, quando um portuguez, penetrado d*essas 
lembran^, então reeentes, cantava éclogas em sua lingua harmoniosa 
que facia contar a seus pastores a vida aprasivel doestes, suas laranjeiras 



xn 



um século, enriquecia aa sciencias com descobertas novaS; e prin- 
cipalmente a geographia, cujos verdadeiros progressos só datam 
d'aquella epocha, verdade reconhecida pelos próprios inglezes, que 
n?[o duvidam confessar que mesmo todas as descobertas, que 
d*aqui por diante se fizerem n'este ramo, sSU) devidas á iniciativa 



suas ceifHS quasi sem amanho da terra, diividaes ?Ó8 do encanto d'aquella 
poesia? Nilo devia esta ser inais simples ainda que a de Virgílio, cujas éclo- 
gas sáo, para melhor dizer, imitações de Theocrito, aue dos campos? 

«Os portugnezes deviam possuir em grau extraordinário o talento descri- 
ptlvo. O paiz os inspirava, e as emprezas longiquas o desenvolviam também. 
Deixavam as margens do Tejo para percorrerem as florestas da ilha de Cej- 
lâo, o litoral de Moçambique, a península do Ganges. £m as narrações de 
seus historiadores scintillam todos os thesouros, todas as maravilhas d*aquel* 
las ricas regiões. Camões com a imaginação dominada pela poesia antiga des- 
presou as scenas da natureza oriental patenteadas a seus olhos.» — Villemain, 
Coura de LitUr<Uufe^ pag. 695 e seguintes. 

♦ ♦ 
«Náo admira, pois, que o conhecimento da lingua portugueza se propagasse 
tanto, lembremo-nos do que disse o famoso Baynal: «Sem a descoberta de 
Vasco da Gama a luz da liberdade apagava-se de novo, e talvez para sempre. 
«Os turcos iam substituir essas nações ferozes, que das extremidades da 
terra vieram substituir os romanos, para se tomarem como estes o flagello 
do género humano, e nossas barbaras instituições teriam sido substituídas 
por um jugo ainda mais pesado. Este resultado éra inevitável, se os ferozes 
vencedores do Egypto não tivessem sido repellidos pelos portugaezcs nas 
differentes expedições tentadas por aquelles nas índias.» 
«As riquezas da Ásia lhes asseguravam as da Europa. 
«Senhores de todo o commerclo do globo, teriam tido necessariamente a 
mais formidável marinha, que em tempo algum se viu no mundo. Que obstá- 
culos teriam podido conter este povo, que era conquistador pela índole de 
sua religião e de sua politica?» 

«Se nos devemos assombrar do numero das victorias dos portugueses e da 
rapidez de suas conquistas, que direito não teem á nossa admiração seus ho- 
mens intrépidos? Tinha-se visto até então um povo com tão pouco poder fazer 
tão grandes coisas? Não havia quarenta mil portugueses em armas, e comtudo 
faziam tremer o império de Marrocos, todos os bárbaros da Africa, os mame- 
lucos, os árabes, o oriente inteiro desde a ilha de Ormuz até á China. 
Eram um contra cem; e atacavam tropas, que muitas vezes com armas eguaes 
disputavam seus bens e sua vida até ao ultimo arranco. Que homens deviam 
então ser os portuguezes, que macbinismo extraordinário tinha formado d*elles 
um povo de heroes!... Raynal^ Histoirt Fhiloêophique et Politique des étabUsêe- 
mente et du eommerce dea Europienê dons le$ deux Indeã, Geneve, 1781, vol. i, 
pag. 170. 

«Mesmo em epochas muito roais próximas de nós Portugal pesava alguma 
coisa na balança da Europa, «Em 20 de janeiro de 1770 representava-se ao 
governo francez n*uma memoria, que no caso de guerra das forças hespa- 
nholas e francezas contra Portugal era mister reflectir: Que a conquista de 
um reino na Europa era materta que requeria maduras reflexões; e que para 
avassalar Portugal seriam necessários exércitos de sessenta mil homens cada 
«m.»— Visconde de Santarém, Quadro elementar das rdações politicM e di- 
plomáticas de Portugal com as ditiersoM potencias do mvndoyiúm, vn, pag. 894. 
«Apenas o gabinete inglês declarou gaerra a Lais AIY, mandou a Lis* 



XIU 

doe nossos. Os maiores nomes na historia das navegaçSes figura- 
vam entilo a bordo das frotas portuguezas, nas quaes Colombo, 
Américo Vespucci, Cadamosto e outros muitos se habilitaram para 
adquirirem um nome immortal. Um paiz n'estas condições, fossem 
quaes fossem os destinos que lhe estivessem reservados, não podia 



boa em missão extraordinária o chanceller de Irlanda, o cavalheiro Methwea, 
o aual propoz a el-rei D. Pedro em nome do sou governo, bem como do de 
Hollanda, que se Portugal se quizesse declarar em favor doestas potencias, 
de lhe darem o numero de navios, que o mesmo monarcha pedisse, vinte mil 
homens de tropas, e alem d'is80 de garantirem as conquistas, que as armas 
portuguezas podessem fazer aos hespanhoes e finalmente de nos auxiliar em 
qualquer tempo, e em todas as circumstancias em que fossemos atacados 
pela Fnmça oo pela Europa, e de darem por saldadas as reclamações pecu- 
niárias, e outras que a Inglaterra e a Hollanda tinham contra Portugal. 

«Com effeito D. Pedro veiu a seguir a politica ingleza, e por isso dizia 
o embaixador francez que (segundo as noticias de Inglaterra) constava que em 
Londres se tinham feito grandes regosijos por se ter concluído o tratado.» 

«Em 1733, por occasião da eleição do novo rei da Polónia foi a nossa ai* 
liança, ou antes a nossa neutralidade buscada á porfia, como em todos os 
tempos aconteceu, pelas grandes potencias belligcrantes. Ao passo que a 
França e a Hespanha tratavam de conseguir abraçar-se, o nosso gabinete, o 
partíao da neutralidade, as cortes de Vienna e de Londres, e o eleitor de 
Saxonia não cessavam de negociar para alcançarem egual resultado, chegan- 
do o imperador a offerecer a Portugal a Sicilia e a Córsega para o infante 
D. Manuel, caso que com elle fizéssemos causa commum, e acenando-nos a 
Inglaterra com o augmento do território, se por ventura nos declarássemos 
por ella contra a Hespanha, obrigando-se o monarcha iuglez a assegurar-nos 
na paz geral a dita posse e senhorio. 

«Em 1753 officiava o conde de Baschi ao ministro de França, que Portu- 
gal estava bem longe de se considerar debaixo do jugo dos inglezes, os quaes 
esperava pelo contrario que fossem seus tributários. 

«N'outro officio: Que o ministro Carvalho lhe havia expedido os passa- 
portes, servindo-se dos termos mais lisonjeiros para com a França, mas sem- 
pre afectando de pôr o nome de Portugal em primeiro logar, como faziam 
as grandes coroas, que queriam hombrear com a de França; que elle embai- 
xador se lhe inandara queixar por terceira pessoa, e viera a saber que fora 
el-rei seu amo, que assim lh*o ordenara, porém que depois de vários debates 
consentira em que se pozesse Âs ducu Coroas, em logar de Portugal e França. 
D*Í8to tomava o embaixador pretexto para animar contra nós o seu governo, 
disendo que elle nos havia estragado com mimos. 

«No anno seguinte officiava o mesmo Bachi: Quefxando-se amargamente 
da pouca contemplação que a nossa corte tinha com os representantes das 
potencias estrangeiras, dando por prova o modo como fora tratado o duque de 
botomajor, que no seu tempo estivera para arrebentar de paixão; que ver- 
dade era que n'aquella mesma occasião o embaixador de Hespanha e o mi- 
nistro de Hespanha eram tratados com distincção e agrado, mas que a^uillo 
era momentâneo e fingido, e que no meio d*aquellas mostras de cordealidade 
transpirava a soberba portugueza, e o aborrecimento que aquella nação tinha 
aos estrangeiros. 

«9 de maio de 1769. Officio do cavalheiro de Clermont para o duque de 
Choiseul participando: Que lhe era forçoso dar conta da seusivel diflFereuça, 
qne observara entre as tropas hespanholas e portuguezas, sendo estas ultimas 
a todos os respeitos superiores ás primeiras, tanto no pessoal das praças, eo- 



XIV 

d'ahi por diante deixar de interessar aos estrangeiros, e com effeito 
muitos, quer arrastados pela sede do oiro, quer aguilhoados pelo 
amor da sciencia, de remotas regiSes se encaminhavam a Lisboa 
com o fím de observarem as frotas carregadas de riquezas entran- 
do a foz do delicioso Tejo, e de estudarem aquellas drogas e espe- 



mo no aceio, disciplina e conhecimento das manobras: que a comparaç&o de 
Elvas com Badajoz ofiferecia a maior disparidade, não havendo n^esta ultima 
praça uma só peça de artilheria com reparo nos baluartes, nem nos arma- 
zéns, nem um só jornaleiro no arsenal, assim que o serviço da praça estava 
posto de parte, de sorte que era uma dôr de eoraç&o, e o que mais a augmen- 
tava era ver a conâança em aue estava a este respeito o ministério nespa- 
nhol, e o despreso com que olhava para o seu inimigo natural: que era opi- 
niáo sua que a Hespanha só poderia levar a melhor de Portugal abrindo a 
campanha com tropas francezas, e com commandantes da mesma naç2o á 
frente das suas; mas se o ministro hespanhol persuadido da fraqueza do ini- 
migo fosse o primeiro a atacai -o, desfallecido de tudo quanto elle acabava de 
mencionar, n*esse caso era para temer que fizessem os portuguezes em Hes- 
panha taes progressos, que apenas os poderiam reparar os esforços de mui- 
tas campanhas bem succedidas. 

«Em 21 de janeiro o embaixador francez avisava sua corte da continua- 
ção de nossos armamentos militares, dizendo que a mão que os dirigia, mos- 
trava uma habilidade consummada, e que era mister que a Hespanha fosse 
mui hábil para poder escapar aos perigos de que a ameaçávamos. Todo o 
Rio Grande na America ficará nas mãos dos portuguezes, e ver-se-ha que 
este acontecimento tornará immortal o marquez de Pombal.» Visconde de 
Santarém, Qwidro Diplomático, 

* 4r 

«Ainda aue a nação portugueza se sustentou gloriosamente por séculos, 
nada bom tudo a faz mais recommendavel que o que obrou n'estes últimos 
tempos por suas descobertas e conquistas no mundo novo. Ha nada mais il- 
lustre que o ter levado nossa religião até ás extremidades da terra, e o ter 
feito com aue uma infinidade de nações mergulhadas nas trevas do mahome- 
tismo ou idolatria abrisse os olhos á luz? Ha nada mais famoso que ter leva- 
do a todos os povos da Europa a facilidade do commercío de que gosamhoje, 
abrindo- lhes um caminho até então desconhecido para reunir no seio d^elles 
08 thesouros e riouezas dos paizes mais longiquos? 

«Mesmo senão pouco assombrados com estas grandes vantagens deve- 
mos sentir que lhe devemos nosso reconhecimento por nol-as terem grangea- 
do, especialmente se attendermos a que são o fructo de duzentos annos de 
trabalnos e de fadigas immensas. 

«Durante este longo periodo de tempo vé-se esta nação no decurso de 
uma historia continuada e sempre interessante, vencer os obstáculos mais in- 
yenciveis por meio do uma paciência e coragem a toda a prova, apresentar 
grandes homens em todos os géneros, terem a superioridade, apesar dp seu 
pequeno numero em toda a parte, aue se apresentam; estabelecer sua repu- 
tação e seu domínio sobre a mina aos impérios, forçar de alguma sorte a tor- 
tuna a auxilial-os sempre por meio de prósperos successos. 

«Deve isto ainda parecer mais digno de admiração, quando considerarmos 
que Portugal é um remo muito pequeno, e encerrado em limites muito es- 
treitos, e que por isso não era natural presumir que podesse encontrar em si 
mesmo tantos recursos, formar tão vastas emprezas, abranger uma tão gran- 
de extensão de paizes, poder com tão grandes despezas, subjugar tão diversos 



ciarias, que pela primeira vez appareciam nos mercados europeus, 
e das quaes Amador Ârraes eloquentemente falia em seus diálogos. 
Veneza, a orgulhosa Veneza, estava abatida, e a Europa salva da 
ferocidade dos turcos! E eram só quarenta mil portuguezes, excla- 
ma o abbade Sajnal, cheio de assombro! E os Uvros portuguezes 
eram então anciosamente procurados pelos outros povos, lidos com 
avidez e immediatamente traduzidos em todas as Unguas euro- 
peas! 

poros, e pôr em acção um tão glande numero de indivíduos capazes de fazer 
com tão grande eloria terem seus projectos tão bom êxito.» 

«Não teem faltado á nação portugueza escriptorcs para celebrar a gloria 
de suas conquistas em linguas differentes da nossa, e talvez que o mérito 
d'e88e8 escriptores tenha desanimado aquelles d'entre nós que tivessem que- 
rido emprehendel-a. — Lafítau, Hiatoirt dta découveríe$ et conquêtes des Por- 
tugaiê aanê U nouveau monde. Prefacio. 

«Não é o próprio Portugal que entregou alternadamente a Península a 
Richelien e á Inglaterra, e que mais recentemente na presença da Europa 
abatida inaugurou a lamentável decadência da França imperial? 

«Por maior tristeza que possa inspirar a situação actual de Portugal, a 
historia doeste pequeno reino não fica por isso menos uma das mais dramáti- 
cas e maravilhosas. O imperador tinha tido o cuidado de recommendar o es- 
tudo d^ella nos Ivceus. Encontrava n'ella com rasão uma excellente escola de 
enthusiasmo e ae heroísmo para essas jovens gerações, que elle arrastava 
após si para todas as capitães da Europa. 

«Qne aoge de gloria e de grandeza! 

«Apenas Portugal tocou seus limites naturaes, repelliu os infiéis, con- 
fondia o orgulho castelhano, e fundou sua constituição intei^ior, que não quer 
contentar-se somente com o ser livre. Falta-lhe immediatamente o ar nós 
seus estreitos limites, e impaciente de derramar fora do paiz sua actividade, 
soa coragem e seu zelo, eil-o que se apressa em levar á Africa a guerra, que 
de lá tinha vindo tantas vezes. D'ahi todos esses prodigiop, que illnstraram 
o seeolo seguinte, as fecundas meditações do infante D. Henrique, todas as 
costas da Africa reconhecidas, a America descoberta como uma magnifica re- 
compensa conferida pelo acaso á audácia portugueza, o grande Oceano impu- 
nemente atravessado, as índias descobertas, a Ásia avassalada, todo o com- 
mercio do mundo mudado, o homem entrando finalmente na posse de toda a 
soa resideocial Que repentina revolução, e que nação poderosa levou jamais 
ao cabo empreza mais iinportante?» Auguste Bouchot, HUtoire de Portugal 
mm» la direetion de mr. Duruy, 

«A nação portugueza em particular, pôde revindicar a gloria da iniciativa 
dai viagens longiquas sobre o Atlântico, e das grandes explorações dirigidas 
para oeste e sul. 8ua missão foi a de estabelecer as primeiras relações dire- 
ctas da Europa com a índia por meio do oceano. Não é isto ainda tudo: a 
oolooisação de metade da America do Sul è obra sua. 

«Um povo que se apresenta perante a posteridade com egual titulo, está 
psgiiro que quaesquer revezes que tenha depois experimentado, de conservar 
na historia nm lc«par honroso, que ninguém lhe poderá contestar sem ingrati- 
dio.»— Charles Yoge!, Le Portugal et »m eolomet. 



Que illusão a de alguns, que julgam terem apenas as poesias 
de CamSes sido traduzidas ! As obras do nosso padre Vieira não con- 
tam menor numero de versSes do que as do nosso poeta; as Pere- 
grinciçZes de Fernão Mendes Pinto, ainda hoje são traduzidas em 
vários paizes, o Hissope acaba agora mesmo de encontrar um novo 
traductor, e n'uma palavra difficilmente se encontrará um bom livro 
composto pelos nossos, aos quaes os estrangeiros não tenham tribu- 
tado esta honra, que ainda não ha muitos annos a douta AUemanha 
mais uma vez prestou ás Décadas do nosso Barros. Não admira, po- 
rém, que os estranhos pagassem um tal tributo de admiração aos 
escriptos de nossos maiores, narravam aquelles, feitos nunca prati- 
cados, e hoje diJBScilmente cridos, se não foram comprovados por 
monumentos de mais de uma espécie. Ao mesmo tempo combatiam 
em Marrocos contra os moiros, sustentavam cercos apertadíssimos, 
ganhavam batalhas campaes, descobriam paizes nem sequer sonha- 
dos pelos antigos, e não só isto, opulentavam as sciencias e aperfei- 
çoavam as artes. Apresentavam o primeiro poema épico moderno, 
e a segunda tragedia, e na poesia bucólica tomavam o primeiro 
logar, davam a conhecer á Europa as plantas asiáticas e america- 
nas, enriqueciam as sciencias mathematicas e naturaes, escreviam 
um numero extraordinário de obras sobre as linguas da Ásia, 
America e Africa, e Deus sabe até onde chegariam, se a inquisição 
e os jesuítas não lhes tivessem atalhado voos tão arrojados!... 

Desde então as coisas mudaram completamente; em Portugal já 
não era possivel escrever senão o que fosse grato, ou a tão detestá- 
vel tribunal, ou ao governo sopeado pelos jesuítas e frades, e o jugo 
era tal que qualquer escriptor tinha de declarar mui positivamente 
que não acreditava nos deuses do paganismo ! Não procureis d^aqui 
por diante a historia de Portugal nos escriptores portuguezes, a ver- 
dade só a encontrareis nos escriptos estrangeiros. Innumeraveis são 
as obras publicadas em todos os paizes a respeito da catastrophe de 
Alcácer Quibir, da deposição de D. Affonso VI, da administração 
do marquez de Pombal, n*ellas podereis encontrar a narração dos 
factos taes quaes se passaram; mas, se os procurásseis conhecer 
com toda a exactidão nos escriptos nacionaes, darieis prova de que 
éreis pouco sabedores do modo de viver d^aquella epocha. 

O conhecimento, pois, das obras publicadas por estrangeiros 
em tantos e tão vários paizes tornasse indispensável para aquelle, 
que desejar conscienciosamente escrever acerca de nossas coisas. 
Não havia, porém, um guia. Que obras ler relativas á acclama- 
ção de D. João IV, ou á nossa heróica lucta contra Napoleão I? 
Sabia*se apenas que existiam muitas. Havia conhecimento d'uma 
ou outra. Mas o presente trabalho vae mostrar que ha dezenas. 
Vae declarar o titulo exacto de cada uma, sempre que seja possi- 
vel, o nome por extenso do author, e até mesmo fazer extractos 



d'aquelles trechos que mais directamente nos interessam^ respei- 
tando com tudo os limites próprios d'este trabalho. 

O leitor vae ficar talvez um pouco surprehendido ao ver a gran- 
de aureola de gloria que cinge o nome Portugal entre os estranhos. 
Escríptores de primeira ordem consagram-lhe paginas repassadas da 
maior admiração e respeitO; e acerca de nossas coisas escrevem obras 
tSo importantes, que não podem deixar de ter um logar distincto nas 
primeiras bibliothecas do mundo. O prussiano conde de Hoffinansegg 
emprega perto de cincoenta contos de réis na publicação da sua 
Flora Portugueza^ e p8e em perigo sua vida nos pincaros da Serra 
da Estrella. Seu companheiro de iornada, o celebre botânico 
Link, escreve sua viagem a Portugal e n'ella tece òs mais pom- 
posos elogios ao nosso paiz. A marqueza de Abrantes fica absorta 
ao contemplar as bellezas do TeiO; e não cessa de gabar as mara- 
vilhas que encontra em Portugal, maravilhas cantadas por poetas 
e poetizas em todas as linguas. Murphy escreve sobre as bellezas 
da Batalha uma obra verdadeiramente monumental, o mais bello 
trabalho que a respeito d'ella existe. O architecto firancez Taylor 
na sua magnifica obra nada encontra comparável ás columnas de 
Belém. O prussiano conde de Rackzynski é o primeiro que em dois 
volumes dá esclarecimentos relativos ao nosso legendário Orão 
Vasco. Poucos annos depois vae da Inglaterra expressamente a 
Vizeu o inglez Robertson com o fim de estudar o mesmo assum- 
pto. Adamson escreve uma biographia de Camões, verdadeira- 
mente digna de «preço, e Henry Major ainda bem não acaba de 
dar á luz a Vida do infante D. Henriguej logo pega na penna para 
trabalhar n'outra obra relativa ás nossas navegações. Lamartine, 
n'uma soberba ode, immortalisa o nosso Philinto Elysio. E o leitor 
encontrará elogios de Chateaubriand, Racine, Boileau, Quiaet e 
outros aos nossos escríptores. Em remate as melhores historias da 
litteratura portugueza são escríptas por estrangeiros, e muitos sa- 
bem as obrigaçSes em que estamos para com Ferdinand Diniz, 
Stanley, Smith^ Ruscala, Schaeffer, e muitos outros. ^ 

1 £m 26 de janho de 1876, o rei de Dahomej, em guerra com os ingleses, 
ranette ama carta escrípta na língua portugueza^ ao commodoro britannico 
Hewett, pedindo qoe este lhe enviasse um parlamentarío para tratar d*nm 
aeoordo. 

«Amo e venero a ];iobilÍ88Íma nação portugueza (diz o celebre hespanhol 
Feijóo no seu Theairo Critico) pelas rasoes que a fazem gloriosa em todo o 
orbe. O nascimento me fez seu visinho, e o conhecimento apaixonado. Os que 
sabem a primeira coisa estranharão a segunda, porque entre povos limitro- 
pbes sujeitos a diversas coroas, costuma reinar certa espécie de emulação 
que os toma mal avindos. Porém como o céo me deu um espirito desembara- 
çado d'estas preoocopaçÒes vulgares, estimo o mérito om qualquer parte que 
o eneontre. 

TOMO I. # # 



XVIII 

Quereis conhecer o importante papel que na política europeia 
representou o celebre D. António Prior do Crato? Nâo o procureis 
nos livros nacionaes; pois ai d^aquelle que tivesse o arrojo de dizer a 
verdade em Portugal n^aquelle tempo, mas procurae-a no grande nu- 
mero d^elles; que por então se publicaram em muitos paizes. Quereis 
ter informações sobre a maneira como a inquisição tratava seus pre- 
sos no reinado de ÁíFonso VI? Só as podereis obter lendo-as na 
obra que Dellon escreveu a tal respeito. Quereis ver nossos monu- 
mentos? Vel-os-heis também no Portugal Ulustratedy de Kinsey, 
e em muitas outras obras especialmente dedicadas a este objecto. 

Não trata; porém, o presente trabalho somente dos livros com- 
postos por estrangeiros relativos a assumptos portuguezes, e dos 
traductores que verteram em linguas estranhas obras compostas 
pelos nossos patrícios: darei também noticia resumida de muitas 
obras escriptas pelos nossos, quer em portuguez quer n^outros idio- 
mas, reimpressas firequentes vezes em paizes estrangeiros; e ter- 
minarei dando uma succinta noticia, extrahida em geral de traba- 
lhos estrangeiros, de vários monumentos que pelos nossos foram 
erigidos em vários paizes. 

nNem o paíz onde o sugeito nasce, nem o partido que segne, ajuntam um 
8Ó grão de peso na balança em que examino o que vale. 

«Torno pois a dizer que venero a nação portugueza por suas muitas qua- 
lidades relevantes que conciliam o meu respeito. Brazões são que ornam a 
sua gloria militar, continuada até hoje desde os mais remotos séculos; o seu 
ardente zelo pela conservação da fé, a sua alteza nas letras, e a sua fecundi- 
dade em proauzir excellentes engenhos.» 

♦ « 
£ tinha rasão Feijóo: não foram só as navegações, guerras e descober- 
tas que tomaram Portugal conhecido dos estrangeiros; em todos os ramos de 
conhecimentos humanos Portugal contou sempre grandes engenhos: Pereira, 
auctor do methodo de ensinar os mudo-surdos, que recebia uma pensão de 
Luiz XIV; Constantino, o Aei dos floristas, estabelecido em Paris; Sequeira, 
que no Louvre cxpoz o admirável quadro de Camões moribundo. Coelho, cu- 
jas telas ornam o Escurial; Moura, tão conhecido em Londres pelas suas pin* 
turas; Fr. Francisco de Santo Agostinho, em Roma e Pádua disputando de 
omni scibili com os maiores sábios da Europa; Arthur Napoleão, em tenra 
edade, despertando a admiração do mundo musical com seus concertos nas 
primeiras capitães da Europa; Bomtempo, pianista tão conhecido em Londres 
e em toda a Europa; Marcos de Portugal, cujas operas eram cantadas nos thea- 
tros de primeira ordem; Todi, recebendo applausos pela maestria do seu canto 
em S.Petersbourg e n^outras capitães; António Vieira, pregando em Romana 
presença de Christina, rainha da Sueeia, onde então se achavam oradores dos 
mais distinctos. Canonistas e theologos da maior reputação, que no concilio 
de Trento attrahiam as attençoes d*aaue11e illustrado congresso; o Visconde 
de Santarém, cujos trabalhos geographicos hão de ser em todas «s epochas 
de primeira ordem; Casado Giraldes que n^esia sciencia egualniente me faz 
distincta companhia; António Vieira Transtagano, professor de linguas orien- 
taes em Londres; P. Manuel Alvares, por cuja grammatica (segundo declara 
a edição impressa em Lucca) se aprendia o latim em quasi toda a Europa. 



XIX 

Notará o leitor quo alguns artigos sSo longos, ao passo que 
outros apparecem muito succintos. Provem a causa ou de o auctor 
possuir o livro mencionado, ou do o ter á sua disposição, ou de 
apenas poder momentaneamente lançar sobre elle um relance de 
olhos, ou vel-o tao somente mencionado n'um catalogo, ou citado 
em qualquer livro. 

Qualquer leitor conhecerá de quão grande difficuldade é escre- 
ver uma obra a respeito de assumpto tao espinhoso. No entanto 
trabalhei por alguns annos, e fíz quanto pude, n^ mo poupando ao 
trabalho. De muitas obras, apesar das maiores diligencias, nunca 
me foi possível obter um exemplar, entre as quaes a de Ebeling. 
Como seria possível a qualquer individuo ver tantas obfas com^ 
postas em tantos idiomas e localidades tSLo differentes, sendo n'ou- 
tro tempo a entrada de muitas rigorosamente prohibida em Portu- 
gal, escriptas por pessoas que nSo respeitavam a inquisiç^ nem 
as ceremonias religiosas dos portuguezes?^ Outro tanto succede na 



D. Francisco de Mello, o author da celeberrima Historia dos movimentos de 
CaUdunha, uma das mais notáveis obras da litteratura hespanhola. Também 
mn portaguez foi medico de Catharina II, imperatriz da Rússia^ e n'esta 
sciencia contamos actualmente varões muito abalisados, entre os quaes brilha 
o nome do sr. Alvarenga. 

£m 1806 a academia de Copenhague offereceu um premio ao melhor li- 
▼ro sobre a composição das forças, e o professor de hydraulica na universi- 
dade de Coimbra, Manuel Pedro de Mello, foi quem o ganhou. 

Ab obras do abbade Correia da Serra acham-se impressas nas PhilosO' 
phical Transactions, de Londres, e nos Ânnaes do Miueu de Paris, 

Nas actas da academia de Munich estão publicados trabalhos do nosso 
José António Monteiro, e o Catalogo dos Manuscriptos da Bibliotheca d'Al- 
cobaça, por Fr. Fortunato de S. Boaventura recebeu elogios de Mal e d'ou- 
tros sábios. O nosso João Pedro Ribeiro disputava com o celebre auctor da 
Eipeâía Sagrada^ o P. Florez, e censurava passagens das suas obras. Brotero 
era am botânico distincto, e a Flora da CoMnchina, do nosso padre Loureiro, 
era reimpressa e accrescentada na Allemanha, a qual tantas reimpressões e 
tniducções está fazendo das obras portuguezas. £ em remate, como o leitor 
ba de ver^ os trabalhos dos nossos patrícios sobre os idiomas chinez e japoncz 
estam sendo ou reimpressos, ou extractados em Roma, Paris e n*outras partes. 
As obras do nosso arabista Fr. João de Sousa são conhecidas em toda a par- 
te, e o celebre professor de línguas orientaes em Paris, mr. Dubeux, fez seus 
primeiros estnaos em Lisboa. Qual será o sábio estrangeiro que não conheça 
as obras do nosso Silvestre ii^inheiro Ferreira, e o diplomata que não aprecie 
o merecimento do nosso fallecido Duque de Palmella? Se o nome dç Silvestre 
Pinheiro Ferreira é conhecido pelos seus livros phtlosophicos, também os tra- 
balhos publicados em diversas epochas pela universidade de Coimbra com- 
mentando as obras de Aristóteles são de grande apreço (segundo dizem es- 
trangeiros competentes) e a Lógica de Verney não só foi bem acceite na Itá- 
lia, mas até mesmo recebeu grandes elogios no Journal des Savanf^. 

^ Apenas chegava um navio estrangeiro a qualquer porto portuguez, era 
a embarcação visitada pelos padres de S. Domingos, ou indivíduos da Inqui- 
sição, que apprehendiam todos os livros que dissessem mal dos costumes re- 
ligiosos dos portugueses. 



França. N^aquelle paÍ2 sSo rarissimas; segundo diz o sr. F. Diniz, 
as primeiras traducçSes que se fizeram das obras portuguezas rela- 
tivas ás nossas primeiras viagena e descobertas. £ em Portugal 
quantas pessoas se podem gabar de ter visto um Garcia da Horta 
em francez; ou um F. Mendes Pinto em hollandez? 

Divide-se pois este trabalho em quatro partes, tratando cada 
uma d'ellas do seguinte assumpto: 

I — Diccionario de todos os escriptores estrangeiros que escre- 
veram obras expressamente consagradas a Portugal ou a assum» 
ptos portuguezes, acompanhado da traducção dos trechos mais no- 
táveis que provam á evidencia o alto apreço que os maiores sábios 
estrangiirJfizeram dos portugaezes. 

U — Diccionario dos traductores estrangeiros que verteram 
para os seus idiomas, obras portuguezas, trabalho digno de ser lido 
por aquelles que julgam que os estrangeiros ou nSo conhecem a 
nossa litteratura, ou não lhe dão o devido apreço. 

III — Resenha das obras compostas por portuguezes, impressas 
em Portugal e reimpressas repetidas vezes em paizes estrangeiros 
pelo grande credito que n'elles obtiveram. 

IV — Noticia dos monumentos existentes em varias cidades do 
mundo, construídos por portuguezes ou erigidos em honra dos nos- 
sos compatriotas. 

Termina o 2.® volume em um indice remissivo, o qual com & 
maior facilidade indica as obras que podemos consultar a respeito 
de qualquer assumpto. 

E tempo de terminar, mas cumpre-me dar agradecimentos 
áquellas pessoas que me obsequiaram, já dando-me algumas noti- 
cias, já mvorecendo-me com o empréstimo de algumas obras, com 
o fim d'ellas eu poder fazer extractos. Serei por conseguinte sem- 
pre grato aos obséquios recebidos dos ill."®* e ex.""* srs. 

Angelo Carrero 

António Henrique Leal 

António Maria Pereira Júnior 

António Rodrigues 

António da Silva Tullio 

Cassassa, e vários empregados da Bibliotheca publica de 

Lisboa 
Conde de Geraz de Lima 
Francisco Arthur da Silva 
Francisco Marques de Sousa Viterbo 
Manuel José Ferreira 
Marquez de Sousa Holstein. 



XZI 

• 

Declaro francamente que ao ex.^^ sr. Silva Tullio devo o ter- 
mo dado conhecimento de algumas obras existentes naBibliotheca 
Publica de Lisboa, sem o qual eu as não mencionaria, pois eram 
para mim completamente desconhecidas. 

Não sendo mfelizmente versado no conhecimento do idioma alle- 
m2o, tive de recorrer aos ex."^*"* srs. Alfredo Keil, e Sophia Boeder 
nas traducçSes que indispensavelmente tive de apresentar de vários 
trechos de obras escriptas n'esta lingua. 

Ainda mais uma vez repito: lutei com muitas difficuldades, 
mas subiram ellas de ponto principalmente na 2.^ parte d'este tra- 
balho, quando trato das versSes dos escriptos portuguezes para 
idiomas estrangeiros. 

Se, porém, este meu trabalho for bem recebido pelos meus con- 
terrâneos, dar-me.hei por bem pago de todas as minhas fadigas e 
vigilias, e com muitos outros, exclamarei: 

£a d*e8ta gloria só fico contente 

Qae a minha pátria amei e a minha gente ! 



PARTE I 




n 




iPÍORES MNGEI 





QEE ESCREVERll OBRAS 
CONSAGRADAS A PORTUGAL OU A ASSUMPTOS PORTUGUEZES 

COM A TRADUCÇÃO 

DOS TRECHOS MAIS NOTÁVEIS D'ESSAS OBRAS 



«Lusitânia 1 
Regnorum Regina potens, quam Solís ab ortu 
SolÍ8 ad occasus Orbis utcrqac colit.w 

LoBEOf^lTZ* 



l 



PORTUGAL E OS ESTRANGEIROS 



A 



I) ABBEVILLE (OLEMENT FOULLON OLAUDE D') — Missioná- 
rio 6 escriptor francez da ordem dos Capuchos, nascido em Paris no anno de 
1632. 1 

E. — Histoire de la míssion des PP, Capucins à Vile de Maragnon et íerres 
circonvoisines, oit il est traité des singularités admirables et des tnoeurs mer^ 
veilleuses des Indiens, Paris, 1614. 

(Historia da missão dos padres capuchinhos na ilha do Maranhão, etc.) 

í) ABBTS (THOMAS). 

E. — Fragment der Portugiesischen Geschichte. Berlin et Stellin, i78i, 8.» 

(Resumo dos feitos dos portuguezes, etc.) 

3) ABLANOOURT (Monsieur d'). 

E. — Memoires de— Envoyé de sa Majesté Trés-Chréi 'mne Louis XIV en 
Portugal, contenant VHistoire de Portugal, depuis le TraUé des Pyrenées de 
4659 jusqu'à 1668. Avec les Revolutions arrivées pendant ce temps-là à la Cour 
de lÂsbonne, et un détail des batailles données et des Sieges formes 50us les or- 
ares et le commandement du Duc de Schomberg^ avec le Traité de Paix, fait 
entre les Róis d^Espagne et de Portugal, et celui de la Ligue offensive et defen^ 
sive, conclú entre Sa Majesté Très-Chretienne et cette Couronne, A la Haye, 
Chez Abraham de Hondt, Marchand Libraire, prés de la Porte de la Príson. 
1701, 8.% 382 pag. 

(Memorias de mr. d'AbIancourt desde í6d9 até 1668.) 

Esta obra tem sido consultada, e ha de sel-o em todos os tempos por aquel* 
les, que quizcrem escrever circumstanciadamente a historia dos reinados de 
D. João IV e D. Affonso VI. Fremont d*Ablancourt, segundo nos diz o viscon- 

* Firmiu Didot ~ Nouvelle Biographie Générole^ vol. 10.®, pag. 69o. 



2 AB 

de de Santarém^ ^ era indívídao algum tanto enfatuado, e mal acceito aos por- 
tugaezes. O aactor d'estas Memorias faz ama horrível descripçao da índole de 
Affonso VI; elogia extraordinariamente os feitos de Schomberg, apesar de ser 
quasi sempre contrariado pelos portaguezes, e lamenta o poaco desejo, que os 
nossos tinham de augmentar seu território, pois que toda a Galliza até à Co- 
runha deveria pertencer a Portugal, no dizer d'este escriptor. 

4) ABRANTES (LAUHE PEHMON, Duchessb d') — Mulher do ge- 
neral Junot, commandante da primeira invasão franceza em Portugal. 

Nasceu em Montpellier a 6 de novembro do anno de 1784, e falleceu em 
Paris a 7 de junho de 1834. ^ Viveu sempre com tào excessivo luxo e ostenta- 
ção, que se arruinou completamente a ponto de por fim ter de viver com o 
producto de seus escriptos. Alem de muitas outras obras, escreveu também : 

Souvenirs d*une amhassade et d^un sejour en Espaçne et en Portugal, de 
1808 a 1811.Bruxelles, Société Belge de Librairie, de Hauman, Gattoir et Comp.% 
1838, 12.» gr., 289, imprimerie de P. Marz. 

O tomo 2.'» tem exactamente o titulo do 1.% mas com o accrescentamento 
das seguintes palavras: Leipzig. L. Míchelsen. 326 pag.^ 

A viagem em Portugal começa a pag. 113 d'este 2.» vol. 

cQu^m não tem visto ÍÃsboa, não tem visto cousa boat^ Estas palavras ad- 
mirativas, que o orgulho nacional inspira sempre a qualquer portuguez habi- 
tante de Lisboa, serão reconhecidas como verdadeiras por aqueiles, que tive- 
rem tido a ventura de viver sobre as margens encantadas do Tejol... Ck)m ef- 
feito, nada mais bello, que a vista de Lisboa, chegando ao rio, ou por Aldeia 
Gallega, ou por Cacilhas, ou pela Moita. — Tenho percorrido toda a Europa, 
e, exceptuando Nápoles^ nada vi que me tenha penetrado de admiração como 
esta cidade, levantando-se em forma de amphitheatro na margem da immensa 
planície de agua do Tejo. É especialmente ao vir de Aldeia Gallega que seu 
aspecto é o mais magestosamente imponente. No primeiro plano do quadro o 
Tejo, cuja largura n'este sitio é de mais de duas léguas francezas, está cober- 
to de milhares de embarcações, cujos mastros empavezados annunciam, que 
toda a marinha do mundo pôde vir demandar asylo á bahia de Lisboa. É do 
seio d'este lago, ou antes d'este mar, que se levantam como amphitheatro as 
coliinas, sobre que assenta Lisboa. Á medida que o barco se desvia da mar- 
gem do Alemtejo, descobre-se uma nova belleza no quadro, que se tem diante 

^ Quadro elemenlar das relações politicas e diplomáticas de Portugal com as diver- 
sas potencias do mundo, yo\. 4.«, parte 2.*, pag. 145. 

2 Firmin Didol— Nouvelle Biographie Universelle, toI. S7.«, pag. Í5I. 

3 Ha outra edição de 1837, feita em Paris, e mencionada na mesma pag. do vol. 27.* 
da Biographie Vnicerselle de Firmin Didot. 

* «No vayas á creer, leclor amigo, que es dei todo cierto el axioma portugaox de 
quo quien non veu Lisboa, non veu cosa boa». G. Calvo Asensio. Lisboa em 1870, pag. 
SG R' um dos livros mais recbeiados de falsidades que teom saido dos prelos estran- 
gciroí. 




UAUHr. rEHíiCh 




LAURE PERMON 



AB 3 

dos olhos. A cidade estende-se sobre as collinas^ qae limitam o rio, e se vos 
apresenta com seus zimbórios, seus conventos, palácios, jardins, campos cul- 
tivados, que separam um palácio de um mosteiro, uma praça publica de 
um cemitério, e lhe dão assim parecença com uma cidade oriental; e de- 
pois #esenrolam-se ao longe esses jardins embalsamados^ essas quintas, que 
estio em roda de Lisboa, como um rico e suave cinto. Sobre um plano mais 
longínquo, as rochas de Cintra formam o fundo d'esse rico quadro, phantastico 
de l)elleza... Eis o conjuncto, que se vos offerece, quando, ao sahirdes de Al- 
deia Gallega, depois de terdes atravessado a árida e areienta província do 
Alemtejo, embarcaes no rio d'este nome n'um escaler dirigido por vinte re- 
níadores, e avançaes rapidamente para a cidade maravilhosa, sobre esse rio 
coberto de navios de todas as nações... cada impulso do remo descobre uma 
parte d'essa rica decoração, que se torna cada vez mais visivel. É principal- 
mente pela manhã, ao nascer do sol, que devemos ver dourar com seus raios, 
(antes que sejam mais ardentes), suas novas ruas, a bella Praça do Commer- 
cio, o Arsenal, o Terreiro de Trigo, e Belém com sua quinta e sua egreja go- 
thica,! Ajuda e seus pomares de laranjas e limoeiros... ao passo que o rio mais 
rápido e mais profundo e stà apertado entre as serras de Almada, e se preci- 
pita para o mar, onde se lança entre coUinas, que limitam o lado do sul. Não 
somente o aspecto de Lisbo a offerece uma prespectiva tão rara, como nota- 
velmente bella; mas uma vez na cidade, a estranheza da direcção de suas 
ruas, de suas praças, a m aneira caprichosa como seus próprios defeitos se 
apresentam á curiosidade do estrangeiro, suas bellezas, que não são communs 
a nenhuma outra cidade europe a, tudo a toma uma cidade á parte entre as 
mais extraordinárias, e dà o desejo de voltar para ella, quando já se habitou 
uma vez. 

íA pretenção de todas as cidades fundadas sobre montes é de ter sete, á 
maneira de Roma. Lisboa faz como as outras, e os portuguezes sustentam que 
tem sete montes. 

«Porém uma particularidade notável é que em 1806, cincoenta annos de- 
pois da catastrophe, viam-se ainda nas ruas de Lisboa não somente signaes 
do terremoto de i755, mas até os entulhos, taes como os deixara aquelle anno 
maldlcto. Varias ruas de Lisboa, pequenas praças continham ainda esses res- 
tos da cólera de céu. Immundicies, esqueletos de cães, cabras, jumentos, até 
de machos, jaziam por cima das minas, e a cidade ameaçada de peste pelas 
exhalações mephiticas d'esses montões de matérias algumas vezes em putre- 
facção, não devia sua salvação mais que ao ar activo e salubre, que purifica 
com seu sopro, e dá saúde a uma cidade, que deveria, como se vé, perecer 
com a morte commum aos povos do oriente. 

«Via frequentemente em Lisboa uma senhora encantadora, para quem 
minha amizade se tomou dentro em pouco muito forte, a duqueza de Cada- 
val, irmã do duque de Luxemburg. Era mulher, a quem tanto eu, como toda 
a gente achávamos bella; mas depois de produzida esta impressão, tinha cau- 

^ Aliás de estylo manuelino ou porlaguez. 



4 AB 

sado uma oatra em mim com soa alma, e todo encanto, de que era dotada; 
indulgente para com tudo, que podia tomal-a sev«^ tema, Ona e espirituosa 
ao mesmo tempo, joTial com uma agradável facilidade de se divertir, e uma 
necessidade de ver os outros alegres, nâo se achava feliz senão com as pes- 
soas, a quem elU amava, bem certa de que nenhuma d'ellas tinha pezar no 
coração, nem sequer uma contrariedade. ^ Quantas noites passámos juntas a 
conversar a respeito d'e5sa França, cujo nome só bastava para a fazer chorar ! 
Quanto era donairosa, bella até, quando entrava n'um festim com sua rica e 
elegante Ogura ornada com a fita azul de Maria Luiza, e de côr de rosa e 
branco de Santa Isabel 1 Tinha o porte tão magestoso, como de quem mais o 
tivesse no mundo, apezar de o ter algum tanto curvado. Não vi este mesmo 
porte gracioso de cabeça, e:»te andar altivo e flexível, com uma gentileza pe- 
regrina, senão a uma outra senhora, a duqueza de Montmorency. 

«A duqueza de Cadaval era uma senhora, cujo grande encanto principal- 
mente consistia em senão modelar por ninguém; seu modelo eraella própria, 
6 a naturalidade era encantadora. Pelo que diz respeito a seu marido, era 
coisa bem dífferente, e principalmente uma outra natureza. Era bello, pelo 
menos assim o pretendiam em Lisboa. Eu, porém, em tempo algum o pude 
achar tak Era alto, bem apessoado, semsaborão, no género do Príncipe da Paz, 
e além d*isto ignorava as qualidades e os encantos de sua mulher, como se fora 
cego, e lhe tivessem explicado tudo em hebreu. Tinha tomado uma regra de 
proceder bem singular. Assim, por exemplo, era elle em Portugal, o que o du- 
que de Orleans fora na França, o primeiro príncipe de sangue. Então fazia 
opposição sem saber o que era. Começava as hostilidades com o príncipe, seu 
real primo, o que não era difficil, porque, como todos os estúpidos, arrufava-se 
por ninharias, e somente d'isto se occapava, e também de arremedar o re- 
gente e o duque de Orleans, morto na revolução. Sobre tudo tinha a mania 
de contrahir dividas, e fazer corte ás mulheres, porque o regente tinha ar- 
ruinado a França, e fora dissoluto. 

«Ora, como tinha a pretenção de parecer-se com o regente, copiava*o cm 
todos os seus defeitos, mas a duqueza, que se não modelava por ninguém, 
senão por si mesma, que era um anjo de perfeição, disselhe um dia, que 
quería saber o estado de sua casa. Pobre senhora! Que conhecimento tão 
triste ! N'esse mesmo dia soube que podia ter saudades do exilio, e dos des- 
gostos da emigração... Conteve se comtudo, e quiz pôr em ordem sua casa. 

«Entre as dividas mysteriosas, que tinha o duque, existia uma principal- 
mente, a de seu cosinheiro, a qual era de nove contos de réis. Como tinha o 
duque deixado chegar as cousas a tal ponto ? Eis o que a duqueza perguntou 
sem obter resposta. Comtudo dispoz as cousas, e pagou por inteiro ao rei da 
cassarola. Disse-o ao duque no mesmo dia, recommendando-ihe, que nunca 
mais contrahisse dívidas d'oste género.— Mas hei de pôr minha casa em ordem, 
disse ella ! Ao saber que os neve contos tinham sido pagos integralmente, o 
duque ficou furioso. 

1 Souvenirs d*une ambassadij vol. 2 % pag. 1Í5, 



AB 

cQae é isso? Vai pagar a um homem, qae talvez me roubou cinco contos 
D'e9sa quantia de nove t 

«É minha opinião, replicou a duqueza, que, visto o criado do du.jue se ter 
tomado seu credor, o dnquf está abaixo d'elie, porque lhe deve. Esta posição 
falsa não é conveniente I Eu devia fazel-a cessar, fosse qual fosse o sacrifício. 
Agora ella é o que deve ser. O duque acha-se livre para o despedir, se quizer: 
mas creio que continuará a tel-o em seu serviço I... 

«O duque passeiava d'nm lado para outro, sem saber como exprimir seu 
descontentamento. 

«Pagar àqnelle homem t exclamava elle, pagar àquelle homem!... 

«A duqueza não lhe prestou attenção, e poz-se a trabalhar. 

«N'essa epocha achava-me eu em Lisboa, e visitava a duqueza muito a 
miúdo. Tive noticia d'este caso quasi logo, que se passou: porém o duque re- 
senrava-nos um desenlace, que nós estávamos bem longe de esperar. 

«Alguns dias depois da explicação, que tivera com a duqueza, entrou em 
casa pulando, dansando, cantando, pozse de joelhos diante d'ella, beijando- 
lhe as mãos e dizendo-lhe mil sandices. A duqueza fícou assustada, pois tudo 
isto era opposto ao seu génio habitualmente macambúzio. Mas seu espanto 
depois ainda veiu a ser maior. 

«Sabe duqueza a minha felicidade? 

«Esta abanou a cabeça. 

«Lembra-se dos nove contos de réis, que pagou ao maroto do cosinheiro. 
Pois é verdade: eu não dormia nem comia depois de saber que uma tão bella 
quantia se achava nas mãos d'elle: era indispensável que ella para cá tornasse! 

«Santo Deus, misericórdia, exclamou a duqueza 1 Então foi pedir-lhos em- 
prestados? E suas faces ficaram como purpura. 

«Não, não; disse o duque ás gargalhadas, a ponto de cair por cima d'um 
camapé. Não, por t)eus: não era eu tão estúpido. Elle joga: propuzlhe uma 
partida, ganhei, disse elle, erguendo-se, e esfregando as mãos ! 

«A duqueza fícou como anniquilada; julgou ao principio ser gracejo. Não, 
o facto era bem verdadeiro. Com eíTeito o duque tinha apanhado os nove 
contos. 

«Que acção tão nobre I ^ 

«Encontrei em Lisboa quem tinha mudado o aspecto d'esta cidade, o conde 
de Novion. Antes d'elle as ruas d esta capital apenas eram illuminadas por 
pequenas lanternas, suspensas diante das imagens de Nossa Senhora, que es- 
tão quasi a cada canto; porém esta luz baça guiava o assassino, mostrando- 
Ihe a victima, e não era de nenhum soccorro; por isso é que as ruas de Lisboa 
eram mais perigosas para se andar por ellas a pé em 1797 por exemplo, que 
por qualquer de nossas estradas. Á meia noite ninguém ousava sair sem ir 
armado, e as próprias armas quasi sempre eram inúteis, porque os bandos de 
ladrões eram tão numerosos, que mal se lhes podia resistir. Teemse visto 
pessoas presas pelos bandidos, serem completamente roubadas, e obterem d'el- 

* Súuvenirs d'un€ ambanade en Portugal, vol. i/, pag. 1!K). 



6 AB 

les am saLvo-condacto para não serem atacadas seganda vez. Pelo que toca 
aos assassinatos, era costume ir a certas egrejas, onde se encontravam homens 
que faziam justiça prompta e sanguinolenta, conforme a vingança que Ih a 
pedia. Aquelies homens viviam aii,n'aquelie logar santo, como n'um logar de 
refugio, onde a própria Inquisição não os podia ir arrancar; e além d'isto as 
egrejas quasi todas estão contíguas a conventos de homens, ou de mulheres, 
e o assassino estava certo da impunidade, se trabalhasse^ como dizia, para o 
abbade ou abbadessa do convento. Eis um caso acontecido na própria Lisboa 
em i798. 

<0 cônsul d'nma nação estrangeira teve uma questão com o parente d'um 
outro cônsul. Poderia vingar-se com sua espada, mas preferiu ir procurar 
n'uma d'essas egrejas pessoa, que trazia sempre escondido um punhal prestes 
a ferir. Encontrou a quem desejava; fez seu ajuste, deu metade da somma 
exigida, que foi (creio que attendendo à qualidade da victima) 24^000 réis- 
Devia receber a outra metade depois do assassinato. 

«O sicário, depois de ter tomado todas as informações possíveis, despe- 
diu seu freguez, porque tinha outro negocio entre mãos. 

cMas o freguez não era cruel; sentiu depois acalmar essa agitação febril , 
que dá o furor d*uma offensa a uma alma nobremente nascida. Bem depressa 
sentiu uma outra tempestade levantar-se em logar d^aquella, que se extinguia, 
e esta tornou-se terrível, e bem ameaçadora, porque era contra elle, e elle 
tinha andado mal. Finalmente os remorsos tornam se insuportáveis. 

«Eram apenas nove horas; a cidade estava ainda animada e susurrante. 

«Embrulhou-se em seu capote, poz seu chapéu baixo, e com passos rapí- 
dos dirigiu-se para casa do homem, que por um pouco de ouro devia tomar 
a desforra. ^ N'este momento a torre de Belem soou as dez horas, o grande 
sino vibrava no ar, levando para longe o som argentino, e por isso solemne do 
suas badaladas. O individuo estremeceu. 

«Ia finalmente descer, quando ouviu barulho no quarto do homem, bara- 
lho que se parecia com o ranger d'um leito, quando alguém se vira. O indi- 
viduo bateu com força, e d'esta vez uma voz lhe respondeu: era a do scele- 
rado. Abriu sua porta ao reconhecer o som da voz de F... 

«Oht já vós por aqui, disse elle bocejando, e estendendo os braços. Por 
Santa Mana da Gloria, que bem apressado sois. Julgava que só nós, que vive- 
mos ao ardor do sol, elevávamos a vingança a tal ponto 1 Mas parece... 

«Oht Não, interrompeu o outro, pelo contrario venho dizer-vos que já não 
quere a morte d^aquelle, a quem eu tínha condemnado. 

«Aht exclamou o assassmo com um espanto de que estava possuído pela 
primeira vez, isso é indifferente; porém é tarde de mais. 

«Já o mataste, miserável f 

«E que outra cousa me tínheis vós dito que fizesse senão que o assassi- 

^ Obra ultimamente citada, pag. 139. E' possível ser yerdadei ro este facto: a bas 
tantes pessoas ouyi dizer que nas egrejas é que se procuravam os assassinos, os qoaes 
n'ellas se fingiam beatos os mais fervorosos. 



AB 7 

nasse? Quem poderia esperar qae, depois de terdes condemnado vosso inimigo 
DO tribanal de vosso ódio, vós o fosseis absolver n'esse mesmo tribunal, uma 
hora depois? 

cNósnâo procedemos assim em nossa terra. Pelo que me toca, disse elle, 
com uma expressão de demónio, a única pena que tenho do meu inimigo, é 
nio estar elle ainda em estado de sentir meu punhal. 

•F. estava abatido. N'este momento o clarão da lua reflectia perfeitamente 
por cima do pequeno terraço, que âcava ao lado da parta do homem. O clarão 
caiu direito sobre este, e fez ver uma longa mancha de sangue na manga e na 
mão do assassino. F. não poude conter um grito, e deitou a fugir pela escada 
abaixo; mas foi agarrado por esta mesma mão ensanguentada. 

•Mais um momento^ um momento, senhor I Tenho pena, apezar de tudo, 
que e nosso negocio andasse tão depressa; mas julguei que fazia bem, e de- 
ve-se-me a minha paga. Dae-ma então, e que não haja mais questão entre nós: 
bem vos conheço, e eu sabia bem procurar*vos, se me não quiz&«seis pagar 
meu trabalho. 

cF. atirou-lhe com a bolsa, sem querer tocar n*aquella mão manchada de 
sangue. O malvado apanhou a bolsa, e contou o dinheiro, que continha. 

«Está aqui mais do que é preciso, disse elle ao separar sua paga do resto 
do dinheiro. Aqui está isto que vos pertence. 

«Ficae com tudo, respondeu F. 

«Então ficarei com elle, visto estardes penalisado da morte d^aquelle ho« 
mem, que todavia era um homem valente, e não vos disse isso por ser inútil 
para o nosso fim. Defendeu-se como um diabo, e vi-me obrigado a chamar 
em minha ajuda um dos meus homens, um dos meus ajudantes, porque mui- 
tas vezes o negocio é custoso, e corre seus riscos. Um de nossos collegas, Se- 
bastião, bem novo ainda no offlcio, foi morto por um inglez, a quem não ata- 
cava, e do qual somente queria a bolsa. Sua mulher ficou sem nada, e nós 
vjmo-nos na necessidade de lhe fornecermos uma pequena mezada, contri- 
buindo cada um de nós com sua quota. Se quizerdes, senhor, as três peças, 
que sobram, serão para a viuva de Sebastião, e para mandar dizer missas por 
ahna do rapaz, por cuja morte estaes mortificado. Ouvi então; a culpa não foi 
minha; disseste-me ás onze horas... o rapaz passou porém em occasião favo- 
rável para a ponta do meu punhal... ás oito horas e meia... a occasião era 
excellente... ahl palavra de honra^ caiu, mas levantou-se ainda... 

«Esta historia, que me foi narrada por aquelle mesmo^ que d'ella foi o 
heroe, pôde fazer conhecer os costumes de Portugal no fim do ultimo século 
somente. 

• • 

«A festa do Corpo de Deus em Lisboa ó uma solemnidade desconhecida 
em qualquer outro paiz. ^ É uma theoria pagã; é uma céremonía fabulosa; é 
phantastica de riqueza e de maravilhas. 

* Souvenirs d'une ambassadCf tomo â.*, pag. 158. 



8 AB 

• • 

«O monte ao Este de Lisboa é o mais bem situado para morada. Moitas 
vezes o subi para contemplar o painel magniOco, que se ostenta como um 
panorama phantastico causado pelas impressões d'um sonho, no qual vós ti- 
vésseis sonhado um paiz encantado, debaixo d*um ceo puro e azul, onde um 
sol de ouro luz sempre sem nuvens. Doesta altura domina-se todo o valle de 
S. Bento. 

•Á esquerda, conventos, egrejas, jardins, quintas, pomares de larangeiras, 
onde os áureos pomos brilham ao lado das flores embalsamadas. Em frente, 
a Íngreme altura, sobre que está construído o castello, que defende a cidade. 
à direita o Tejo, coberto de navios com pavilhões de mil cores, ao passo que 
ao longe, e de todas as partes, se descobrem campos, prados, flores por todos 
os lados, e por todos os sitios um ar doce e embalsamado, que vos enfeitiça, 
que vos penetra com seu encanto, e por cima de tudo isto dardeja um sol puro 1 
Tudo em volta de vós respira uma duplicada alegria; tudo, até os edifícios, 
que parecem cobertos d'um veo de varias cores, dando ares d'um docel 
lançado por cima de suas grimpas. N'este paiz a natureza está sempre em fes- 
tival. Nunca lhe pedi uma distracção, uma consolação, que me nào respon- 
desse concedendo -m^as com profusão. Não ha soíTrimento da alma, não ha dôr 
de corpo, que me não tenham sido mitigadas com a vista d*este paraizo. Du- 
rante minha residência em Portugal, vi chegarem áquelle paiz doentes con- 
demnados a morrer, o todavia prendiam se á vida I Muitos desmentiram a 
sentença, e aquelles que a padeceram, não sofTriam pelo menos o aguilbão 
ardente da morte. Sem duvida, n'este paiz morre-se, chora-se, soffre-se como 
em todas as outras partes; a dôr é uma lei de nossa natureza, a que não po- 
demos fugir : mas, assim como o ópio adormenta os padecimentos do corpo, a 
vista d'este paiz lhe mitiga os soíTrimentos. 

«Na margem do Tejo fica a bella Praça do Gommercío. Nada temos em 
Paris, mesmo actualmente, tão bello como os cães, que terminam este lado da 
praia. 

«Muito tenho viajado; ^ percorri o norte e o meio-dia da Europa, e nunca 
se patenteou a meus olhos uma cidade tão extraordinária, e ao mesmo tempo 
tão notável e tão formosa, como Lisboa. Nunca um céu mais bello espargiu 
sua luz sobre uma cidade rodeada d'uma natureza^ que a cinge com suas 
maravilhas : mas ao mesmo tempo em logar nenhum eu vi tantos dons de 
Deus tão mal conhecidos e inntilisados. 

«É nos arrabaldes de Lisboa que se torna necessário aprender a conhecer 
este paiz, que se pôde descrever, mas nunca pintar. Estas circumvisinhanças 
parecem ser formadas para fazerem uma decoração à maneira de vestíbulo, e 
de entrada a este valle de Cintra, cantado pelo amor com sua voz de cisne 
em Camões, e celebrado por lord Byron em Child Harold, e admirado por 
quantos o percorreram, a ponto de não o quererem deixar. 

' SoHvenirs (Vune ambaníade, pag. 165. 



AB . 9 

«Entre os emigrados fraacezes, residentes em Lisboa, distinguiase tam- 
bém o conde de Artaize, da casa de Roqaefeaille. O conde de Artaize estava 
na legião estrangeira do marquez d'Alprna, e tinha mesmo um esquadrão co- 
mo propriedade n'esta legião. Era amigo e ajudante de campo do referido 
marquez. Conheceu, ha algum tempo, que nós não possuíamos traducção de 
Gamões, e verteu em verso o beilo episodio de Iguez de Castro. Leu-me a 
versão ha poucos dias, e fiquei não somente encantada da Gdelidade bem 
guardada das pinturas e das descrípções, cousa tão rara n'uma traducção em 
verso d*uma obra também escripta em verso; mas fui agradavelmente surpre- 
hendída achando n'élla o sainete primitivo do poeta portuguez, tão insolente- 
mente mutilado por La Harpe, que julgou poder-se fazer uma traducção pe- 
gando n'uma grammatica e n'um díccionario. Não é d'um homem tal que 
Carlos Y disse : Um homem que sabe quatro linguas, vale por quatro ho- 
mens. 

•Fiquei pois encantada d'esta traducção de Camões; lamento que seja ape- 
nas d'um episodio. A fidelidade, com que o conde de Artaize tratou este episo- 
dio, serve de fiadora, que empregaria para nos apresentar a passagem do Cabo 
da Boa Esperançai O gcnio das tempestades erguendo-se em frente de Vasco 
da Gama, e predizendo-lhe o futuro! Todas as vezes que leio em Camões esta 
passagem admirável, fico cheia de respeito á vista d'esta elevação do espirito 
humano, que approxima da divindade o homem ! 

«O nome de Ignez de Castro quasi que é magico para evocar tudo quanto 
se refere á sua bella pátria, ^ a essas margens encantadoras do Mondego, a 
esses maravilhosos arrabaldes de Coimbra, cuja belleza pôde rivalisar com 
tudo, quanto a Hespanha podo por sua vez oíTerecer ao estrangeiro, que per- 
corre aquelle paiz. Posso mesmo accrescentar que a universidade de Coimbra 
levava muita vantagem a todas as outras de Hespanha. Ai ! Que dôr ao ver 
aquellas bellas margens do Mondego manchadas pelo sangue, e assoladas pelo 
ferro e fogo! Nada pôde dar uma idéa dos arredores de Coimbra! Apesar de 
montanhosos são bem cultivados, e todos os montes estão coroados de peque- 
nos bosques de bellos pinheiros de topo elegante, e d'esses magníficos carva- 
lhos de França, cuja sombra secular redobra do bcUeza, maior em cada anno, 
que passa por cima d'elles. 

«São os valles cortados pelos ribeiros, que conservam não somente uma 
grande frescura, mas até uma fertilidade desconhecida em nossos paizes do 
Meio -dia; elegantes casas de campo, quintas, mosteiros, fabricas mesmo, cer- 
cadas de pomares de laranjas, de oliveiras, do bello arbusto, cujo porte ele- 
gante é realçado ainda por sua bclla verdura, e pelo rubor de seus fructos, o 
medronheiro. O bello cypreste de Portugal, todas as arvores da Europa, e até 
aquellas, que admiramos nás bellas florestas da Baixa Saxe, formam nas cir- 
cumvisinhanças de Coimbra retiros encantados, e bordam o bello rio Monde- 
go, que banha as muralhas da cidade, e gyra no estreito, mas fértil valle, on- 
de Coimbra está fundada. Ao longe enxerga- se no horisonte a alta serra da 

^ Engano da dcqaoza dAbrantes: Ignei de Castro era bespanbola. 



10 AB 

• 

Loazãy e ainda mais longe a do Bussaco, em cajo pincare está constraldo a 
famoso mosteiro dos Carmelitas, afamado por suas relíquias. Á fronte asso- 
cioa<lhe Massena depois mna oatra celebridade. 

«Foi n'esta serra do Bussack) que se feriu aquella cruenta e funesta pe- 
leja, em que seis mil francezes foram exterminados pela loucura de um chefe 
que fora hábil, mas n*outro tempo. O marechal Ney, o duque de Abrantes, 
bem como o general Reynier, todos três primeiros chefes dos três corpos de 
exercito, que formavam o de Portugal, foram todos de opinião contraria. O 
príncipe de Essling a nada quiz attender; foi atacar esta serra, que era a pico, 
e cujo alto estava coroado pelas tropas inglezas e portuguezas, que atira- 
vam contra os francezes como sobre caça, que tivessem cercado com o fim de 
a levarem para sustento do exercito. Oh que recordação a d'aquelles desgra- 
çados, mortos quasi sem defesa, pelo ferro de um inglez, cahindo debaixo da 
baila certeira de um portuguez, ao passo que este mesmo exercito anglo- 
luso, forte de mais de quarenta mil homens, formava dois annos antes uma 
ponte de oiro a quinze mil francezes para os verem afastar-se de Portugal! 

«Defronte de Coimbra fica a quinta das Lagrimas. M. de Forbin, encan- 
tado da belleza do assumpto, fez um quadro representando a coroação de 
Ignez. Este quadro tem merecimento, como todos que elle pintava então. Sa- 
be-se que Forbin não é hábil na pintura de^ figuras. Mostrou um outro gé- 
nero de habilidade i^o painel de Ignez, cujo belio colorido, transparência e 
pureza das aguas, são admiráveis; mas não se encontra n'elle um só rosto. 
O de Ignez fica de tal sorte na sombra, que se não vé, e alem d'ísto as fei- 
ções estão desbotadas de propósito. D. Pedro tem, segundo creio, a vizeira 
baixa; o fidalgo de Portugal, que rende homenagem, está iniclinado, com a 
cabeça cabida. O príor do mosteiro tem seu capuz muito puchado para dian- 
te. Emquanto aos outros personagens estão na sombra, ou teem seu capuz ou 
vizeira cabidos na frente. 

«O quadro de Saint-Evre, que o duque de Orleans deu a Victor Hugo, e que 
representa o mesmo assumpto, foi pintado talvez d'um modo mais intellígente. 
Ignez está assentada no seu throno, debaixo do docel, e seu esqueleto coberto 
com um lençol, deixa-se ver atravez das pregas, que deixam contemplar a forma 
horrível e óssea do esqueleto. Os braços principalmente pendentes, deslocados 
e cobertos de luvas brancas, mettem pavor na verdade. É um bello painel. 

«É pois sobre as margens do Mondego que Luiz de Camões imaginou seu 
terceiro canto dos Lusíadas, esse terceiro canto, que bastaria só para fazer es- 
quecer as imperfeições do grande poeta; esse terceiro canto, no qual a dita 
de Ignez é pintada por um modo tão mavioso. [Nossa língua não pôde tra- 
duzir aqueUes versos admiráveis. Nada tenho encontrado tão harmoniosamente 
poético em Tasso, e em Dante, como estes dois versos : 

De noite em doces sonhos, que mentião, 
De dia em pensamentos, que voavão. ^ 

^ Souvenin d'une embas$ade^ tomoS.*, pag. 249. 



AB n 

«O qae muito contribue para a belleza do paiz n^eata parte de Portugal, 
é um ornato da natureza, que ella n'esta terra produz profusamente, e que 
lhe dá um caracter particular de belleza — é o cypreste de Portugal {cu- 
pressus Lusitanw de Lhéritier). Não é bello senão nas margens do Mondego, 
e perto da serra do Bussaco, para onde foi primeiramente levado de Goa por 
um frade. 

«Alii se acham os bellos loureiros da índia vindos d'esta ultima cidade 
aquellas bellas arvores tomadas indigenas, e trazidas da ilha da Madeira, 
aquellas larangeiras, aquelles limoeiros. Oh) Em logar nenhum se pôde ver 
um paiz mais favorecido do céu) Granada, sem duvida; mas Granada é única 
no mundo; é a ramha das cidades; com tudo Coimbra é sua nobre e encan- 
tadora irmã!» 

Eis algumas das passagens mais notáveis, que dizem respeito a Por- 
tugal. O que porém mais se distingue n'este livro, é a descripção da fa- 
mília real portugueza, da nossa aristocracia, e do corpo diplomático estran- 
geiro, residente em Lisboa, no qual fazia uma figura tão sahente o manhoso 
núncio italiano. O que ella também faz com mais desenvolvimento na obra tão 
conhecida Memoires, a começar do vol. I."" por diante. 

A duqueza de Abrantes tinha emprehendido com Alexandre de Laborde, 
Charles Nodier e o marquez de Custine, uma obra intitulada La Péninsuley ta- 
bleau pUtoresque de fEspagne et du Portugal, obra de que, segundo diz a 
N. B, Universelle, apenas appareceu um fasciculo publicado em Paris no anno 
de 1835. y. Laborde. 

5) ABREGÉ CHRONOLOGIQUE de Vhistoire d^Espagne et de Por- 
tugalf avec des remarques particulieres à la fin de choque periode, Paris^ 
1765, 2 vol. 

(Resumo da Historia de Hespanha e de Portugal.) 

«O Novo Dic€ionario Histórico por uma sociedade de gente de letras, em 
firancez, hoje 9 vol. em d."», diz que o seu auctor é Filippe Malquer, na- 
tural de Paris, advogado do parlamento. Chega até parte do reinado de 
D. José L> 1 

6) ABREGÉ SUCCINCT d'une infinité de maux lamentables et de dé- 
gaU déplorables que la violence et la conjuration des quatre élements ont fait 
éprouver à la grande ville et à la cour de Ldsbonne, le i" novembre de cette 
année 1755. Traduction litttrale de IHmprimé espagnol, Orleans, 1756, folheto. 

(Resumo dos estragos causados pelo terremoto de 1755 à cidade de Lis- 
boa.) 

Vem mencionada esta obra no catalogo manuscripto dos livros portugue- 
zes, e escriptos em varias linguas, mas relativos a Portugal, que existem na 
Bibliotheca Imperial de Paris, catalogo de que existe uma copia na Bibliothe- 

* Bibliolhtca histórica de Portugal e seus dominios ultramarinos, pag. 389. 



12 AD 

ca Publica de Lisboa, e do qual tive conhecimento por indicações do ex."*' sr. 
Silva Tollio. 

7) ACCOUNT (AN) of the Court of Portugal urider the reign of the pre- 
sent king D. Peter the second. London, 1700. ^ 

(Notícias da corte de Portugal no reinado de D. Pedro ÍI.) 

8) ACCOUNT of the discovery of the Madeira Island. Letter to a friend 
on ditto. 

Vi mencionada esta obra n'um catalogo de livros antigos, e não me acho 
habilitado para dar mais pormenores a respeito d'ella. 

9) ACCOUNT ofthe most remarcable places and curiosUies in Spain 
and Portugal. LoAdon, 1749. 

(Noticia dos legares e causas mais notáveis de Hespanha e Portugal.) 

10) ADAMS. 

E. — A Guide to Madeira with an account of the climate, London, 1801. 
(Guia da Madeira, etc.) 

11) ADAMSON (JOHN). 

John Adamson descendia de uma familia respeitável do condado de Dur- 
ham. Foi o ultimo filho do tenente da armada real Gutberth Adamson, e nas- 
ceu em Gateshead a 13 de setembro de 1787. Sendo muito novo foi mandado 
para Lisboa, onde seu irmão mais velho se achava estabelecido, porém viu- 
se obrigado a regressar á sua pátria na occasião da invasão dos francezes. 
Falleceu a 27 de setembro de 1855. ^ 

Conservou sempre uma agradável impressão do paiz, em que tinha residi- 
do, ao qual tinha particular affeição, bem como á sua litteratura, que cultivou 
toda a sua vida. Possuia a mais completa collecção das edições e obras de 
Gamões, a qual constava de uns cento e vinte volumes, e uma collecção ico- 
nographiea composta de uns tresentos desenhos, gravuras, retratos, meda- 
lhas do barão de Dillon, morgado Matheus, correspondências, etc. 

E. — Memoii$ of the life and writings of Luis de Camoens, by. — F. S. A. 
London, Edinburg^ and New-Gastle upon Tyne. London. Printed for Long- 
man, Hurst, Rees, Orme and Brown, 1820. Gom o retrato do poeta. 

(Memorias da vida e escriptos de Gamões.) 

8.<>, 310 pag. e com uma vinheta representando a gruta de Gamões em 
Macau. 

vol. 2.'', composto de 392 pag. é adornado com um supposto retrato de 
D. Ignez de Gastro, com o de Manuel de Faria e Sousa, de Luiz de Gamões, 

1 Vem mencionada etlà obra no catalogo manoscripto da livraria do conde de La- 
vradiOf catalogo que apenas ligeiraraenle pude consultar. 

' í5r. ^Uconde de Juroracnha — Obras de Camões^ vol. 1.*, p;ig 279. 



AD a 

D. Francisco de Almeida, e de D. G. de Noronha, conforme a edição de Ma* 
nuel Correia. 

Esta obra é dedicada a Tbomás Davidson, Esqaíre, Glerk of the Peace for 
the Goontry of Nortbumberland. 

A dedicatória segaese am soneto de J. X. de Mattos em bonra de Gamões, 
e traduzida para inglez pelo dr. J. Leyden. 

Gomeça o prefacio, no qual nos diz Adamson que o fim do seu traba^bo 
é dar aquellas informações a respeito da vida e escriptos de Luiz de Gamões 
que possam ser colligidas dos pormenores deixados por seus primeiros bio - 
grapbos, ajudados com a leitura das obras do poeta, e com uma diligente in- 
vestigação entre os artigos, que apenas se encontram uma ou outra vez. A este 
prefacio, no qual agradece a varias pessoas que lhe prestaram serviços na 
composição doesta obra, seguem-se immediatamente as memorias da vida de 
Camões. 

«A apparição dos Luziadas^ ^ o primeiro poema épico moderno, foi saudada 
como uma era nova na poesia. O sol da fortuna nunca brilbou sobre este poe- 
ta, nem este participou de algum de seus favores. Os séculos, não influidos 
pela ingratidão do seu paiz, nem pelo despreso dos pobres, deram a immor- 
talidade a seu nome, ao passo que sua lyra, mais perdurável que um monu- 
mento de pedra será escutada por todo o mundo babitavel.^ 

cO dr. Black em uma nota á sua vida de Tasso, depois de comparar a sorte 
de Gamões com a do poeta italiano, escreve: Ambos os poetas, todavia, se To- 
ram infelizes durante a vida, teem pelo menos alcançado aq uella gloria, pela 
qual suspiravam; e é uma reflexão agradável, que, em quanto os grandes, so- 
berbos e titulares, que despresavam o bard o lusitano, são despresados, o nome 
do poeta é pronunciado com respeito, mesmo no meio dos ultrajes da violên- 
cia, e das tempestades da guerra. A instrucção publica (diz Junot na sua pro- 
clamação aos babitantes de Portugal no i.*" de fevereiro de 1808) a instrucção 
publica, a única fonte da civilisação das nações, será diffundida pelas diffe- 
rentes províncias, e o Algarve e Beira- Alta possuirão seu Gamões. A traduc- 
ção dos Lusíadas em todas as linguas cultas da Europa dá testemunho da 
estima, em que sempre foram tidos, ao passo que numerosos tributos a sen 
génio e talento, que poetas e escriptores sem interrupção lhe teem prestado^ 
attestam sufDcientemente o sentimento de admiração, que despertavam seus 
enthusiasmos. Seria impossível referir todas as variadas opiniões formadas a 
respeito das composições de poeta, ou noticiar os graus empregados para elo- 
giar o auctor. 

«Lope de Vega era um ardente admirador das composições de Gamões, e 
varias passagens de suas obras testiflcam a estimação, em que elle tinha o 
poeta portuguez. Faria e Sousa, que era amigo intimo de Lope^ escreve te- 
remlhe dito que este illustre bespanhol appellava usualmente para as obras 
de Gamões com o fim de dissiparem a tristeza, com que sua alma estava so- 

^ Jobn Adamson — Life and Wrilings of L de Cawceiw, vol. 1.*, pag. 29Í. 
l Idem, pag. 213. 



14 AD 

brecarregada por causa de algom desgosto casual ou infortanio. No seu Lau- 
rel d'Appollo encontra-se este elegante tributo a Gamões: 

Llegando pues la Fama 

A la mayor cindad que Espana aclama 

Por justas causas despertar no quiso 

(I fue discreto aviso) 

Al gran Sá de Miranda, 

Qoe le dexe Melpomene le manda: 

Y ai divino Gamões 
En Indianos aloés 

Que riega el Ganges, y produzo Hidaspes, 
Durmiendo en bronze, poríidos y jaspes 
(Fortuna estrana que ai ingenio aplico 
La vida pobre, y el sepulcro rico), 
Porque se despertaran, 

Y a las Gortes, Pamasides llevaran; 
Docto Gorte Real, tu nombre solo, 
Aun no que dava con el suyo Apolo. 
Gomo lo muestran oy vuestras Lusíadas 
Postrando Eneydas, y venciendo Iliadas. 
Que triste sucrte, que notables penas. 
Acabada la vida bailar Mecenas; 

Mas no por esso puede 

Dexar de ser gloriosa vuestra fama, 

Si bien claro Luis la tuya excede 

Por quanta luz derrama 

El farol Didimco 

Y mas quando te veo 

Danar pluma de Fénix tinta de oro, 
Dizíendo com decoro 
I magestad sonora. 

Por la lealdad, que núca el tiempo olvida 
Que mais anos servira se non fora 
Para tan largo amor tan curta a vida. 
(Silva Tercera, pag. 26. Edic. de Madrid de 1630.) 

«A Inglaterra também nâo se deixou fícáir atraz em tributos a Camões: Mr. 
Hayley no seu Essay on Epic Poetry, assim caracterisa o poeta e suas com* 
posições: 

Tbo' fiercest tribes her galling fetters drag, 

Proud Spain must strike to Lusitania^s ílag, 

Wbose ampler folds, in conscious triumpb sprcad, 

Wave o'er her Naval Poers laureate head. 

Ye Nymphs of Tagus, firom your golden cell, 



AD 15 

That caoght th6 echo of his tonefal shell. 

Bise, and to deck yoar darling's shrine provido 

The richest treasures that the deep may hide: 

Froin every land let grateful Gommerce shower 

Her tribute to the Bard who sung her power; 

As those rich gales, from whence his Gama caoght 

A pleasing eamest of the príze he soaght, 

The balmy Cragrance of the East dispense, 

So steals his song on the delighted sense, 

Astonishíng with sweets unknown before. 

Those who ne'er tasted but of classíc lore. 

Immortai Bard I thy name with Gama viés, 

Thou, like thy Hero, with propitious skies 

The sail of boid adventore hast onforrd, 

And ín the Epic Ocean found a world. 

Twas thine to blend the Eagle and the Dove, 

At once the Bard of Glory and of iove: 

Thy thankless coontry heard thy varying lyre 

To Petrarch's softness melt, and swell to Homer's íire t 

Boast and lamenta ongratful Land, a name 

In lífe, in death, thy glory and thy shame. 

Terminam estas memorias da vida de Gamões, com uma comparação bio - 
graphíca entre o nosso poeta e Gervantes, composição d'um escriptor hespa- 
nhol, a qual occupa perto de três laudas. 

A pag. 239 começa uma noticia das Rimas de Camões. «Porque a fama de 
Camões não provém tão somente do seu poema épico: tal era a versatibilida- 
de de seu génio, que compunha em todos os metros usados n'aquella época, 
e foi bem succedido na maior parte d'elles.» 

O %'' volume principia por uma traducção para inglez da obra do Morgado 
Eatheus intitulada Ensaios sobre os Luziadas de Camões j que occupa 58 pag. 

A esta traducção segue uma noticia das versões dos Luziadas, com infor- 
mações a respeito dos traductores. 

Esta noticia é interessante, se bem que a do sr. visconde de Juromenha no 
i."" volume das suas obras de Gamões é muito mais ampla, posto que ainda 
difiiciente. O nome de Camões tem soado por toda a parte do mundo^ e em 
todos os legares da terra tem havido admiradores do nosso poeta, que escre- 
veram acerca d'elle. E este numero vae já sendo tão grande, que não admira 
que o mais diligente indagador não possa ter conhecimento de quanto se tem 
escrípto, e vae escrevendo em pontos tão diíTerentes do globo. Ainda não ha 
muito tempo que o sr. Yamhaguen nos dava noticia d'uma traducção dos 
Luztadas, em língua húngara, da qual ninguém ainda nos tinha fallado. 

As noticias doestas versões em Adamson occupam as pag. 6i até 252, ap- 
presentando o episodio da morte de D. Ignez de Castro, em varias linguas, 
para conhecimento da habilidade dos traductores. 



16 AD 

Vem em terceiro logar uma resenha das dififerentes edições das obras do 
nosso poeta. 

£ termina finalmente este volume com uma lista dos commentadores e 
apologistas de Gamões. 

O exemplar de que me servi para a composição d'este artigo, foi-me em- 
prestado pelo ex."» sr. conde de Geraz de Lima. 

Oatra obra notável devida á penna de John Adamson, é Lusitânia illus' 
trata: Notices on the History, Antiquities, Utterature, of Portugal. Litterary 
Department. Parte 1.* Selection of Sonnets, unth biographical sketches of the 
Authors by. Newcastle 1842, 8.» de XII, 100 pag. 

Lusitânia tllustrata etc. Parte 2.* Ibi., 1846, 8.» d; XVII, 54 pag. 

D'estas obras se dará mais ampla noticia na parte d'este trabalho destina- 
da para os traductores de obras portuguezas. 

A respeito d'este benemérito escríptor díz-nos o sr. Innocencio a pag. 88 
do volume 16.° do Panorama. Da sua particular predilecção pela litterAtnra 
clássica portugueza, e das riquezas, que n'este género possuia, é prova sobeja 
o volume que imprimiu e distribuiu particularmente aos seus amigos com o 
titulo: Bibliotheca Lusitana or Catalogue of Books and Tracts, relaíing to the 
History, Litterature and Poetry of Portugal; formitêf part of the Library of 
John Adamson, Newcastle on Tyne 1836, 8.° de 115 pag. Ahi se comprehende 
a mais aunpla collecção, que até áquelle tempo se havia reunido das obras e 
edições de Camões, passante de 120 volumes. 

12) ADLERHOLD (GERltANUS). 

E. — Die Nacht des Portugiesischen scepters. etc, Frankforl, 1703, 8.» 
(Poder do sceptro porluguez, ou descripção circumstanciada do reino de 
Portugal, suas riquezas naturaes, seus antigos habitantes, reis, decadência du- 
rante o domínio hespanhol, sua restauração o seu governo até o rei actual.) 

13) ADmNISTRATION (L') de Sébastien Joseph de Carvalho et Méllo^ 
vomte de OeyraSy marquis de Pombal, sécretaire d'état, etc, Prémier ministre 
du rol de Portugal, Joseph L A Amsterdam, 1786, 4 vol., 4.° 

«Quando se reflecte com alienção sobre as revoluções de Portugal, vé-se 
que teve um destino único. Desde seu nascimento experimenta vicissitudes, 
que não são vulgares. No século xv faz a conquista das índias. A Ásia inteira 
passa para debaixo de seu dorainio. Desde então a fortuna de Portugal é pro- 
digiosa! Não diz a historia que nenhuma outra nação se tenha elevado com 
um vôo mais rápido ao cnme das grandezas. A própria Roma, no auge da sua 
gloria cm tempo nenhum conquistou tantos estados, ou dominou sobre tantos 
povos, ou se apossou de tantos sceptros, ou lançou ferros a tantos reis. É um 
espectáculo o ver o mais p<»quono ostado da Europa tornar-sc a primeira po- 
tí^nria do mundo! 



AG 17 

«A descoberta do cabo da Boa Esperança pelos portuguezes transfigurou a 
sorte da republica geral. Vemos grandes impérios converterem-se em peque- 
nos estados, e estados medíocres elevarem-se á ordem das grandes potencias. 
O commercío é quem produz esta mudança. Então começa esta celebre revo- 
lação, coja influencia se estende por todas as partes do globo. 

«O mundo antigo e novo não forma senão um theatro de riquezas. 

«Até então a Ásia somente constituo um empório de ricas producçues, das 
qaaes os portuguezes são os únicos possuidores. Mas dentro em pouco a am- 
bição, ou' a avareza das outras nações, procura attrahilas para si. A Ilolian- 
da, a Inglaterra, a França, a Suécia, querem ter parte dos thesouros da índia, 
procurando eslabelecer-se n'ella. 

«Por esta época começaram guerras, das quaes se não acha nenhum exem- 
plo Tios antigos annaes militares. Os combates, que se dão n'este novo campo 
de batalha, são tanto mais sanguinolentos^ quanto o inimigo vencido não tem 
abrigo. 

«A descoberta do Brasil dá um novo esplendor a Portugal. Além da gloria 
pessoal de accrescentar um novo mundo ao antigo, suas pi;oducções bastam 
ellassós para elevar sua potencia acima de todas as potencias». 

Esta obra attribuida a um certo Desoteux ó favorável ao nosso marquez, 
e censura muitas das passagens, que se encontram nas Memoim da Marquis 
de Pombal. * 

14) ADVENTURES ÔF A TOUNG RIFLEMAN in the French and 
English armies, during the war in Spain and Portugal, from 1806 to 1816. 

(Aventuras d'um soldado atirador, nos exércitos francezes e Inglezes, du- 
rante a guerra de Hespanha e Portugal.) 

15) AQUILERA (D. VENTURA RUIZ). 

E. — I. Camino de Portugal, Drama en un acto, original y en verso por 
— , representado con gran aplauso en el teatro de la Cruz, el ano de 1849. Ma- 
drid, 3.' edicion. 1860. 

11. Ecos Nacionales y cantares con traduciones ai Português, Aleman. Ita- 
liano, Catalan, Gallego, Polaco y ProvenzaL Madrid, 8.°, 416 pag. 

Uma das mais notáveis poesias d'esta collecção é a seguinte 

BALADA DE IBÉRIA 

Dicen que va con Espaiia 
Á casarse Portugal; 
Si mucho vale la novia 
No vale poço el galan. 



* Publicnu-?e uma Iraducfào d'05le livro cm Lisboa no anno rlc 1841. 

TOMO I 2 



18 



AG 

• 

El mismo sol los alombra, 
La mjsma tierra feraz 
Hínde á sas pies, generosa, 
Ricos tesoros sin par. 

£1 mar que sus costas bana, 
Tiene en los dos nombre igual; 
£n los propios claros rios 
Los dos contemplan su faz. 

Una es su lingua armoniosa, 
Una su historia inmortal: 
En los siglos venideros 
Uno el destino %tTn 

Hello fruto de estas bodas 
ibéria ai orbe ha de dar 
Envidia por su grandeza, 

Y por sus virtudes, más 

Guando ese dia 
Guando vendrá? 
Quien no lo ânsia ? 
Quien lo verá "f 

Los dos cruzaron valienles 
Las soledades de un mar, 
Donde sonado no habia 
La voz humana jamás. 

Oro dicen que trajerou 
De su expedicíon audaz; 
No cuenta quien los acusa 
Lo que dejaron allá 

Sangre, industria, cicocia y arte, 

Y entrada en la humanidad 
Dieron á razas dormidas 
En hondo sueno fatal. 

Y entonces alli brotaron 
(Flores de su inroenso afani 
Ciudades, lalleres, tempo, 
Maravillas que admirar. 



AG 

Ojalá unidos por siempn; 
Desde entonces, ojalá, 
Hubieran los dos estado 
Con vinculo fraternal! 

Ctiando ese dia, ele. 

Todo el mundo conocidu 
Resueltos los vió pasar 
A vencer los que imposibleb 
Juzgaba la antiguedad: 

Con el leon de Castilla, 
Las quinas de Portugal; 
Las barras aragonesas 
Con el blason catalan. 

Fueries con sus liberlades 

Y su poder colosal, 

En sus empresas llegaron 
Donde nadíe Uegará. 

Ellos derrocan impérios, 
EUos los saben fundar, 

Y uncen monarcas altivos 
Á su carroza triunfal. 

Hoy con receio se miran, 
Yno se conocerán, 
Hasta que luzca la aurora 
Que tantos esperan ya. 

(juando (\se diu, Hr. 

El tiempo se acerca; un trono 
Ha barrido el huracan, 
Sobre el desplomando íien» 
Una oleada dei mar. 

Dinastias extranjcra> 
llollaron su dignidad: 
Si Espana ticnc memoria, 
Ya nunca lo occuparãn 



19 



20 A(i 

Lázaro ha roto su luinba: 
lia tiniebla huyendo va ; 
El muerto resuscitado 
Saluda á ia Libertad. 

En esta sagrada via^ 
Sin volver an paso atrá.<, 
GoQ el Paeblo Lusitano 
Espana se encontrará. 

Y olvidando sus querelias, 
Su allianza sellarán, 
Fiel, sincera, indisolublo, 
Con un ósculo de paz 

Cíumdu r,sr din. rir. 

Ibéria ! >o te estoy viendo, 
Bella, joven, celestial; 
Como en sus ensuenos pudo 
El poeta ambicionar. 

Ibéria! yo te estoy vicndo 
Vestida de majestad, 
Presentarte á las nacionci 
Con aplauso universal. 

Ibéria ! yo te estoy viendo 
En el senado brillar 
De todos los pueblos libres. 
Tan alta como el que más. 

Ibéria! yo te estoy viendo 
Serenamente marchar 
AI porvenir que adivina 
La musa de nuestra edad. 

Ibéria, yo te estoy viendo ; 
Ibéria ! tu nacerás, 
Puas han de hacerse ias boda.^ 
De Espana con Portugal. 

Kse grav dia 
So faltará: 
(Juien no lo amio ? 
Quien lo vn'á f 
Janeiro, 186í^. 



AL „ 

16) AGUIRRE (MICHAEL AB). 

E. — De successione Regni Portugalliae pro Philippo Hispaniae Rege, 
(Da SQCcessào do reino de Portugal. Obra em favor de Phílippe rei de Hes- 
panha.) 

17) A... J... 

E. — A Compleat Account ofthe Portugueze Language, Being a copious 
Dictionary of English with Portugueze, and Portugueze with Engltsh, Lon- 
don. Printed by R. Janeway, 1701, foi., 300 pag. 

(Diccionarío inglez-portuguez e portuguez-inglcz.) 

18) ATiAUX (G. D'). 

E. — Portugal (Le) en 1850 et le ConUe de Thomar, 12.°, 46 pag. Paris, im- 
prímerie de 6. Stapleaux. 

O auctor pretende provar que Portugal encerra muitos elementos de pros- 
peridade latentes, mas que o conde de Thomar é o predestinado para se apro- 
veitar d'elles, e elevar assim o seu paiz ao maior auge de grandeza, por isso 
que a bahia do Tejo ainda não seccou, e os camponezes de Portugal sâo ao 
mesmo tempo a raça mais enérgica e mais disciplinavel da peninsula. 

19) ALDENBUKGK. 

E. — Relação da tomada da Bahia pelos Hollandezes, e sua restauração , 
obra impressa em Coburgo no anno de 1627, e da qual nos falia o sr. Var- 
ahagen na sua Historia das lutas com os Hollandezes no Brazil (pag. xxi). 

20) ALEMANIO FINI. 

E. — Descrittiòne delV Isola delia Madera scritta nella lingua latina dei 
Conte Giulio Landi. Piacenza. 1574. 

(Descripçâo da ilha da Madeira.) 

Vi esta obra mencionada n'um catalogo de livros antigos, e nada mais 
posso dizer a respeito d*ella. 

21 ) ALEMAN (MATTEO)— Auctor do celebre romance Guzman d' Alfa • 
rache, 

E. — Panegyrico de Santo António de Padova, Sevilha, 1604. 

22) ALEWIN (ABRAHAM) — (Parece ser flamengo). 

E. — Vocabulário das duas Línguas Portugueza e Flam^iga, Em que se 
explicão Com a possível clareza e brevidade As palavras, termos & phrases 
mais necessárias. Para ouso destas Línguas. Amslerdam, 1718. (Tem 933 pag., 
8.* grande). 

Além d*esle titulo portugucz tem n'outra folha o seguinte em hollandez : 
Woordenschat Der Taalen Portugeesch, en Nederduitsch Waar in de beteeke- 
nissen der Portugeesch Woorden, volgens de Rykheid van de Nederduitsche 
Taalkunde, omstandig aangeweesen worden; Een werhstuk, dat *t algemeen 
Vúor alie Ui*( hehbcrs der hciâe Taalen by^ionderbfjk de leeraars en lenlimjen 



22 AM 

derzelve ten hoogsten dienstig t.s Door M' Abraham Alewyn en Joatmes Collé 
Tot Amsterdam By Pieter vanden Berge^ op de Heylige Weg, in de Groene 
Berg 1714. (sic) * 

Traz um extenso prefacio em hollandez. 

23) ALEXANDER (JAMES EDWARD). 

E.—Sketches in Portugal duríng the Civil War of 1834. London, 1835. 
(Esboços sobre Portagal âurante a guerra civil de 1834.) 
Vem mencionada esta obra no catalogo manuscripto da livraria do conde 
de Lavradio. 

24) ALLIOT — Professor de nação franceza, que residiu por algum tem- 
po na cidade do Porto, ensinando a sua lingua. 

E. — Grammaire Française à Vnsage des PortugcUs. Porto, 8.», 1859? 

25) AUffiÈS (DR. LUOIEN PAPILLAUD HENRI). ' 

E. — Dti traitement de la Fiêvre tiphoide par les reconstituaiús, 

(Tratamento da febre typhoide.) 

Appareceu publicado este trabalho na parte 2.* do tomo 4.<> das Memorias 
da Academia Real das Sciencias de Lisboa, classe de sciencias mathematicas 
ele. Nova série. 

26) ALVIELLA (E. GK)BLET D) — Docteur en sciences politiques et 
administratives. 

E,—Létablissefnent des Cobourg en Portugal. Étude sur les débuts d*une 
monarchie Constitutionelle. Écrit sous les yeux du Lt. General ConUe Goblet 
d^Alviella ancien envoyé de Belgique à Lisbonne. Bruxelles, 8.° gr., 399 pag. 

Não é para admirar que o sr. Visconde de Sá da Bandeira ^ tivesse que pe- 
gar na penna para refutar algumas passagens d'esta obra, quando seu author 
logo no principio d*ella diz que a mulher de D. João VI tinha o nome de Ma- 
ria! (pag. 22). No emtanto o livro é muito interessante relativamente às luctas 
civis, que tanto aííligiram o paiz durante o reinado de D. Maria II, e para vér 
como Leopoldo I, rei da Bélgica, se intrometlia nos negócios de Portugal. 

27) AMADE (H.) — Ancien commissaire des guerres adjoint. 

E. — Voyage en Espagne ou Lettres Philosophiques, contenant Vhistoire gé- 
nérale des demieres guerres de la Pémnsule. Paris, 1822. 

(Cartas philosophicas sobre a historia das ultimas guerras na Península.) 

< O exemplar examinado existe na Bibliotbeca Publica de Lisboa. Para mais amplos 
esclarecimentos veja-se o vol. 8.* do Diccionario Bibliographico do sr. Innocencio, a 

pag. 4. 

2 Lctlrc adrcsséc au Comlc Goblel d'Alviella par le Marquis de Sá da Bandeira sur 



'ouvrage L*élablissemenl des Cobourg en Portugal, acompagnee d'une tiotice surtes ète- 
irmrníx qui onf ^u lint danx ce jmyfi dcpuis 18íl0jM.<fí/»íVn 1837. Lisbonne^ 1870. 



/ 
nr 



AN 

Í8) AMBASCIARA (L') Dl DAVID RE DELL' ETIÓPIA ai A. S. 
Clemente VII ad Emanuel re de Portugaly et a Gioatíe re de Portugal alcune 
cose dei regno de Etiopta e dei populo et de lor costumi. Bdiogna, 1533. 

Em latim* Bononiae, 1538. 

(Embaixada de David, rei da Ethiopia ao papa Clemente, a D. Manuela a 
D. João III reis de Portugal). 

Vi esta obra citada ii'um catalogo de livros raros. 

29) AMBIVERI (D. ALBERTO MARIA). 

Nasceu d^uma familia illustre, em Bergamo, a 16 de julho do anno de 
1618. Na mesma cidade vestiu o habito dos clérigos regulares em 1634, sen- 
do d'a]li enviado para a casa, que a ordem tinha em Cremona, com o fím de 
n'e11a passar o tempo do noviciado. Mais tarde desejando sua ordem enviar 
missionários á índia, como tinha por costume, Ambiveri foi um dos que pa- 
ra tal mister se offereceram. ^ Foi por isso mandado a Lisboa, para n'esta 
cidade embarcar como missionário para o reino de Golconda, misbâo que 
não chegou a cumprir, por ter sido detido aqui pela rainha D. Luiza de 
Gusmão. 

Chegado a Lisboa em 25 de fevereiro de 1650, e não tendo a ordem dos 
clérigos regulares a esse tempo casa n'esta capital, a convite dos respectivos 
frades foi hospedar-se no convento dos eremitas de Santo Agostinho, á Graça. 
Tratou immediatamente de aprender a língua portugucza, e com tanto dísvelo 
se applicou a este estudo, que segundo nos diz o historiador, a quem vou 
seguindo, passados dois mezes n'ella pregava nas egrejas de Lisboa. Não poude 
conseguir retirar-se para a missão de Golconda, enfesta capital veiu a morrer 
com fama de santidade em 6 de agosto de 1651. 

Seu corpo, por devoção do duque de Aveiro, foi depositado na egreja da 
Luz, da ordem de Christo, e em 1653 trasladado para a de Nossa Senhora da 
Divina Providencia, em Lisboa. Foi retratado em Bergamo, com a seguinte 
ÍDScripção: — V. P. D. Albertus Maria Ambiverus fidemira operans obiit Ulys- 
sipone die 6 augusti, anno 1651, cum opinione sanctítatis. 

Ambiveri tinha escripto na lingua italiana um Compendio da vida do beato 
Caetano, impresso pela primeira vez em Pádua, no anno de 1649, e iraduziu-a 
na lingua portugueza cem accrescentamentos, mandando-a imprimir em 
Lisboa. 

30) ANCHIETA (JOSÉ DE)— Celebre missionário no Brazil. 
Nasceu no anno de 1533 na ilha de TeneriCe, ^ e morreu na aldeia de Be- 

ritigbá, no Brazil, em 1597. 

E. — Arte da grammatica da lingua mais usada na costa do Brazil. Feyta 

* D. Thomaz Caetano do Bem — Vida do venerável padre D. Alberto Maria Ambi- 
Wfi, cUrigo regular. Lisboa, 1782, vol. 1.", pag. 70. 

* Padre Simam de Vasconcelios— Vida do venerarei padre Joseph de Anr.hiela, 
pag. 2. 



24 AN 

pelo padre — da côpanhia de Jem, Coimbra, por António do Mariz, 4595, 
8.», 58 pag. 

31) ANDERSON (WILLIAM AND JAMES E. TUGMAN). 

E. — Mercantile Córrespondence containing a coUection of commerctcU lei» 
ters in Portugwse and English with their translation in opposite pages, Lon- 
(ion, 1867. 

(Correspondência Mercantil.) 

O auctor do prefacio d'esU obra diz que o estado da lingua portugaeza 
se toma indispensável para os commerciantes, qae teem relações com os por- 
tuguezes e brazileiros, sendo mui vastos os territórios em que se falia este 
idioma. 

32) ANDRÉ (CHARLES). 

Nasceu em Langres no anno de 1722, e tinha a profissão de cabelleireiro, 
em Paris. 

E. — Tremblemeíit de terre de Ldsbonne. Tragedie en cinq actes et en ver$ 
par — , perruquier privilegie, demeurant à Paris, me de Vannerie, prés la 
Greve; imprime à Amsterdam, et se vend chez Fauteur, 1756. 

A respeito d'esta obra veja-se Nouvelle Biographie Umverselle. 

.33) ANDRY(M.). 

Este medico publicou em Paris a seguinte obra do nosso Sanches: 

Observathm sur les maladies veneriennes, par feu M. ArUoine Nunes Ri* 
heiro Sanchhs. Publiées par—. A Paris, Chez Theophile Barrois le Jeune, 1785. 
S." Com o retrato de Sanches. 

(Observações sobre as doenças venéreas.) 

A respeito do nosso portuguez acham- se as seguintes passagens a pag. 255 
do voL 43." da Nouvelle Biographie Générale de Firmin DidoU 

«Sua paixão pelo estudo impclliu Sanches a procurar fora da pátria o meio 
de lhe satisfazer. Visitou successivamente Génova, Londres, Montpellier, Paris 
e Leyde, onde adoptou com uma sorte de enthusiasmo as doutrinas de B«^er» 
haave. Tendo*se a imperatriz Anna dirigido a este ultimo com o fim de obter 
trrs médicos de sua escola, a quem destinava empregos eminentes na Rússia, 
f(»i Sanches indigitado, e veiu a ser successivamente primeiro medico de Mos- 
( ou, medico de Petersbourg em 1733, medico dos exércitos em 1735, do cor- 
\\o de cadetes, da corte em 1740, e do czar Ivan. 

«Durante sua residência na Rússia prestou muitos serviços á scicncia, não 
somente com suas observações de todas as sortes, mas por suas remessas de 
productos naluraes, e por sua activa correspondência. 

«Foi com Euler um dos que contribuíram para a celebridade da acade- 
mia de Petersbourg, á qual pertencia. Sua obra Disserlalion sur Vórigine de 
la maladie Venerienne, foi impressa em Paris em 1750, e reimpressa em 1753, 
l/Go, 1772: «m Leyde no anno 1777: tradarida cm inglez em LSol, e cm ai- 



AN ,5 

lemào. O seu Exarnen historique sur Vapparition de la modadie Veneiienne, 
foi reimpresso em Leyde no anno de 1777, e suas Observations sur les mala- 
dies Veneriennes traduzidas em allemão.» 

Mas tornaudo á obra publicada por M. Andry Les observations sur les ma- 
ladies Veneriennes^ este livro é dedicado ao embaixador porluguez D. Vicente 
de Sousa Coutinho, e precedido dos juizos dos sábios a respeito do mereci- 
mento d'elle. 

O primeiro é do professor Gaubius: «Estou persuadido (diz este) de 
que vossas idéas deduzidas de vossas observações sâo justas, interessantissi- 
mas para os médicos, e para toda a humanidade, tanto para o século presente, 
como para o tempo futuro, e que por isso seria de grande utilidade que fos- 
sem publicadas.» 

É o segundo juizo critico o dos doctores regentes da faculdade de medi* 
cina de Paris, Maigret, Lepreux e Guenet. 

€ A obra — dizem estes — honrando a memoria do doutor Sanches, des- 
pertara a recordação doestes dois médicos (Andry e Sanches), que, tendo-se 
estimado toda a sua vida, encontraram, n'aquelles que os conheciam os mes- 
mos sentimentos, que tinham um para com o outro.» 

É finalmente o terceiro juizo critico extrahido dos registros da Sociedade 
Real de Medicina, apresentado por Poissonnier, Geoffroy, Desperrieres, Yicq- 
d'Azyr, Thouret e Defourcroy : 

«O doutor Sanches, cujos grandes trabalhos e zelo para com o adianta* 
mento da arte de curar são conhecidos de todos os sábios, passou a maior 
parte de seu retiro a recolher os materiaes, que uma longa pratica lhe forne- 
cera, e a delinear varias obras importantes, das quaes suas observações nume- 
rosas faziam o fundo principal. O auctor, tendo observado um grande nume- 
ro de afifecções chronicas, cujo caracter era muito dííficil de conhecer, e tendo 
visto um grande numero de autopsias e lesões, que não tinham sido descrip- 
tas por Bonnet, e outros observadores, suspeitou que tinham uma causa oc- 
eulta, e que eram devidas a um virus venéreo degenerado. Questões multi . 
plicadas, investigações escrupulosas confirmaram bem depressa esta descon- 
fiança. O doutor Sanches entregou-se por isso a seguir a marcha da doença 
venérea, a reconhecer seus efíeitos sobre as pessoas, que d'ella estavam infec- 
cionadas, havia muito tempo. Notou que deixava vestígios, que ficavam escon- 
didos, e como sepultados durante alguns annos, e que os meninos recebiam 
também a punição das faltas de seus pães, e que a velhice em seu começo 
não era apoquentada por enfermidades mais ou menos graves, senão por cau- 
sa das consequências d'este virus contrahido na mocidade. Estas observações 
levaram o auctor a adoptar um sentimento muito opposto ao dos médicos, 
que pensam que as doenças venéreas perdem sua força diariamente, e que se 
aniquilarão pouco a pouco, como a lepra dos antigos. Julga pelo contrario 
que são mais perigosas do que nunca, porque atacam o interior das visceras 
sem se manifestarem no exterior, e que infiuem sobre todas as gerações, etc. 
Reeonhece-se por toda aparte um observador exacto, um pratico esclarecido. 



ao AN 

o que deve fazer com que se deposite maior conflança no auctor são qua- 
renta annos de observações. 

«Ã vista doeste relatório lido no Louvre a 24 de dezembro de 1784, a So- 
ciedade Real de Medicina adoptou as conclusões da obra, e julgou-a digníssi- 
ma de sua approvaçâo. Yicq d'Azyr. Secretario perpetuo. Paris, 28 de dezem- 
bro de 1784.» 

34) ANECDOTES du Ministère de Sebastien Joseph de Carvalho e Mel- 
lo, comte de Oeyras» Varsovie 1783. 

(Anecdotas do ministério do marquoz de Pomba!.) 
Não ponde encontrar um exemplar d'esta obra. 

35) ANECDOTES Espagnoles et Portugaises depuis Vorigine de la na' 
tionjusqu*a nos jours, A Paris. Chez Vincent. 1773, 2 vol., 8.», 1.*» com 648 
pag., 2.'» com 700. 

É uma espécie de Selecta, por ordem chronologica, dos factos mais notá- 
veis e chistosos da historia de Hespanha e de Portugal. 

«Em 1641 começa a guerra entre os portuguezes e hespanhoes. Estes são 
os primeiros a entrar em campanha, assolam o paiz, saqueiam egrejas, fazem 
prisioneiros, e retiram-se sem ordem, tocando instrumentos. Vós cantaP/S cedo 
de mais, dizia-lhes o commandante: nunca ha certeza da victoria, em quanto 
se está nas terras dos inimigos. D*ahí apouco, avistando os portuguezes: Lar- 
gae vossas guitarras e flautas: não se trata agora de cantar, é necessário com- 
bater: mostrae-vos bravos e animosos. Não tarda em serem atacados, derro- 
tados e postos em debandada; e para occultarem sua vergonha cortando as 
orelhas aos soldados, que tinham perdido, mostram-n'as asseverando serem 
as dos portuguezes, aos quaes acabavam de punir. Um cónego de Badajoz diz- 
Ibes: Era melhor trazer as armas de vossos inimigos, do que suas orelhas: 
pois não é possível diíTerençal-as das dos castelhanos.» 



• • 



«Immediatamente depois da conclusão da paz com a França, Filippe IV ti- 
nha fixado toda a sua attenção sobre Portugal; mas as forças reunidas da Hes- 
panha não eram sufflcientes para executar o que se chamava castigo de um 
corpo de rebeldes. Uma batalha só parecia dever decidir da sorte dos portu- 
guezes: deu-se a 8 de junho. Os castelhanos perderam a victoria, depois de se 
terem batido de lado a lado com uma fúria quasi incrível. Doze mil homens 
foram mortos ou prisioneiros, e seis grandes de Hespanha levados como tro- 
pheus para Lisboa. Este desastre acabou de alterar a saúde do rei de Hespa- 
nha, a quem o receio de um triste futuro para seus povos assustava sobre mo- 
do. Mas novas derrotas causadas pelos portuguezes, que em vez de se conser- 



AN , j7 

▼arem aa defensiva, accommettiam á força de armas e de intrigas secretas, 
novos sustos e doenças agudas conduziram Filippe lY ao tumulo.» 

36) ANEDDOTI dei mirUstero di Sebastiano Giuseppe Carvalho, Conte di 
OeyrM, Marchese di Pombal, sotto il regno di Gtuseppo I Re di Portogallo, Per 
servir e di suppletnento alia Vita dei Medesimo. 1787, sem logar de impressão» 
8.<», tomo i.« 297 pag., 2.» 251 pag. 

(Anedoctas do ministério do marquez de Pombal.) 

37) ANGLO-LUSITANIAN Discourse conceming the complaints of the 
Brttish factors resident in the City of Lisbon, By a senous and impartial well- 
wisher to the prosperity ofboth Nations. Lisbon, 1771. 

(Discurso a respeito das queixas dos feitores inglezes.) 

Esta obra é a refutação de outra intitulada Memoriais of the British Côn- 
sul and Factory at Lisbon. É uma analyse das cinco memorias especificadas 
n'esta ultima obra, em que se attribue a origem d^ella a machinaçòes dos 
jesuítas. (V. Bibliotheca Histórica, Supplemento, pag. 8.) 

38) ANNALS OF THE PENINSULAR OAMPAIGNS from 1808 to 
1814. Edinburg. 3 vol. 1829. 

(Annaes das campanhas peninsulares.) 

39) ANNUAIRE DES VOYAGES et de la Geographie pour Vannée 
1847 par une réunion de geographes et de voyageurs sous la direction de M, 
Fréderic Lacroix, 

(Annuario de viagens e de geographia.) 

Vem nVste livro um extenso artigo sobre os trabalhos geographicos do 
nosso illustre visconde de Santarém, que por tantos annos honrou o nome 
português com seus escriptos, indispensáveis para qualquer bibliotheca de 
primeira ordem. 

40) ANSTETT (PH.) — Parece ser professor de allemão em Lisboa. 
E. — Grammatica da língua allemã, approvada pelo Conselho Superior de 

Instrucção Publica, offerecida á mocidade estudiosa de Portugal e Brazil. Lis- 
boa, typographia da Sociedade Typographica Franco-Portugueza, 1863, 297 
pag., 8.» 

41) ANTILLON (D. ISIDORO DE) — Professor de astronomia, giío- 
graphia e historia, no Seminário Real dos Nobres em Madrid. Nasceu em 
Santa Eulália, aldeia de Aragão no anuo de 1760, e morreu em 1820. ^ 

E. — Elementos de la Geografia Astronómica, natural y politica de Espana 
y Portugal. Tercera edicion. Madrid, en la Imprenta de D. Leon Araarila, 
1824, 8.«, 440 pag. com alguns mappas. 

* Firmin Didot — iVouccWe Biogrijihie UniversellCy vol. S», pag. 783. 



28 AP 

A primeira edição é de Bíadrid em i8i5. Foi traduzida em francez com o 
titalo seguinte : Geographie physique et politique de VE$pagne et iu Portugal. 
Paris, 1823. E em inglez por William Smitb. 

Esta obra de Antillon é digna de apreço; e seu auctor não só faz elogios 
aos portugaezes, mas até pretende refatar algumas accusações, que nos faziam 
eseriptores estrangeiros. 

42) ANTOINE, ROY DE PORTUGAL, $e$ Psaumes ou le P,echeur con- 
fesse ses fautes 4$ implore la grace de Dieu, Suivant Ia copie imprimée à Paris. 

(Psalmos de D. António, rei de Portugal.) 

A respeito d*esta obra veja-se a parte^, que trata das traducções. 

43) APERQU NOUVEAU sur les campagnes des Français en Porhigal, 
en 1807, 1808, 1809, 1810 et 1811; contenant des observations sur les écrits de 
MM. le baron ThiebatjUy lieutenarUjgénéral; Naylies, ofjkier supérieur des gardes 
du corps de Monsieur; Gingret, chef de bataillon en démiactivité, A Paris, 
Cbez Delaunay, 1808, 8.», 228 pag. 

(Sobre as campanhas dos francezes em Portugal.) 
É bostil esta obra à politica de Napoleão invadindo Portugal, e no prefa- 
cio, entre outras passagens notáveis, traz a seguinte : 

<As tentativas infructuosas dos exércitos francezes para se apoderarem de 
Portugal, formam o mais Interessante episodio da guerra peninsular. A pri« 
meira, que sem motivo arrogou a si o título de expedição, conduzida e con- 
summada pela perfídia^ e não pela força de armas, teve um começo prospero» 
que dentro em pouco se desvaneceu. As duas outras, tentadas de mão arma- 
da por dois generaes celebres, à frente das mais bellas tropas do exercito 
francez, falharam completamente. A falta de bom resultado doestas operações 
imprudentes contribuiu poderosamente para o livramento de Hespanha, se é 
que não foi ella a única causa efficaz, porém até mesmo attrahiu mais tarde 
-o exercito anglo-hispano-portuguez às províncias meridíonaes da França, 
precisamente no momento critico da invasão das províncias do este e norte 
doeste império pelas potencias allíadas; circumstancia, cujo concurso simultâ- 
neo trouxe a queda do terrível colosso do poder imperial, que, alguns mezes 
antes dava a lei à maior parte da Europa, e ameaçava a liberdade de todas 
as nações.» 

Este livro é destinado a refutar os erros, que se encontram nas obras ci- 
tadas acima, e por isso pergunta como é que se escreve que Junot se apossou 
da Capital, do exercito, e do reino de Portugal, quando não sómeote a cidade 
lhe abriu suas portas, mas até o próprio general Junot foi convidado a entrar 
n*ella? (Pag. 39.) 

44) APOLOGÉTICO contra el tirano y rebelde Verganza y conjurados, 
nrzobispo de Lisboa y sus parciales, en respuesta á los doze fundamentou dei 
padre }íascarenas. Zaragoza, 10i2, 4.<» 



AR 29 

Foi seu aactor D. Juan Adam de la Parra, inquisidor ordinário de Madrid, 
segando declara uma nota manuscripta. 
C. M. B. I. P. 
(Contra a conspiração de D. João IV, segundo parece.) 

45) APOLOGIE OU DEFFENSE de Monsieur A7ithoyne roy de Por- 
tugal contre Philippe roy d^Espagne, usurpateur du dict royaume de Portu- 
gal &c. Ensemble les tyrannies et cniautez qu'tl exerce Twuvellement sur sos 
propres subjects. Traduit d'Espagnol eu Français. (Sem logar de impressão), 
1582, folheto. 

46) AHAGO (JACQUES). 

E. — Le Duc d' Almeida. Paris, 1855, foi. 

É um romance, parte de cuja acção imagina-so representada em Portugal, 
no tempo da invasão franceza. Não merece especial menção. 

47) ARANA (DIEGO BARROS). 

E. — Vida y viajes de Hemando de Magallanes, Santiago de Chile, 1864. 

48) AROONVILLE (MARIE GENEVIEVE OHARLOTTE DAR- 
LUS THIROUX D') — Lilterata franceza. 

Nasceu no anno de 1720, e falleceu em 1805. ^ 

E. — Dona Gratia d'Ataide, ConUesse de Menezes. Histoire Portugaise, Pa- 
ris, 1770. Haye, 1770. 

49) ARDIZONE (ANTÓNIO MARTA SPÍNOLA). 

Nasceu em Nápoles no anno de 1609. Vestiu a roupeta de S. Caetano na 
casa de S. Paulo, d^aquella cidade, ^ e chegou em 1640 a Goa com o Qm de 
missionar na índia. Morreu em outubro de 1697 na mesma cidade, em que 
naftcera. 

E. — Gemidos dos Christãos, Bremanes e Canarins e de outras muilas 
Castas, e Nações do Estado da índia, por não commungarem em nenhum tem' 
po da vida, nem ainda na Páscoa, e perigo de morte, conforme Deus, e a Santa 
Madre Igreja determina. 

Além d'este publicou vários outros livros mysticos, cujo titulo se pôde ver 
na obra abaixo mencionoda. 

50) ARLINGTON (BENNET COMTE D'). 

Nasceu no anno de 1618 em Arlington^ no condado de Middlesex, e fal- 
leceu em julho de 1685. ^ 

< FirroÍQ Didot — Nouvelle Biographie Universelley vol. 3.<> 
^ D. Tboroax Caetano do Bem— Memorias Históricas dos Clérigos Regularei, tomo 
l.*,pag. «71. 

* Firmin Didot — Nowelle Biographie UniveneUe, vol. 5.*, pag. 367. 



30 AS 

E. — Lettres aux comtes de Sandwich ei de Sundeiiand et aux chevaliers 
Fanshaw, Godolphim, et Southwell deptUs Vannée íGQijusques en Van 1674. 
Ulrechl, 1706, 2 vol. 

Estas cartas são importantes para a historia do reinado de AfTonso VI. 

5i) ARNAULT (LUCIEK EMILE) — Dramaturgo francez. 
Nasceu em Yersaílles no anno de 1787. < 
E. — Pierre de Portugal. Tragedie, 

52 ARS GRAJOiATICiE PRO LINGVA LUSITANA addiscenda La- 
tino Idiomate proponitur, in hoc libello, velut in quadam academiola diuisa in 
quinque classes, insiructas subselliis, recto ordine dispertilis, vt ab otnnibus 
tum domesticis, tum exteris frequentari possint. Ad finem pmiitur Ortogra- 
phia, ars rectè scribendi, vt sictU prior docet rectè loqui, ita posterior doceat 
rectê scribere linguam Lusitanam. In gratiam Italorum conjugationibus Ltm- 
tanis ItalíB corresprndent. Authore P. Doct. Benedicto Pereira, Societ, lesv, 
Portugallensi Borbano, In Supremo Lusitanice S, Inquisitionis Tribunali Cen- 
sore Qualificatore, & modo Romw pro assistentia Lusitana Revisore. Lvgdvni. 
Sumptibus Lavrentii Ânisson, 1672, 8.<>, 323 pag. 

Nâo obstante ser esta grammatica composição d'um portnguez, faz-se men- 
ção d'ella, não só por ser impressa n'um paiz estrangeiro, e pela sua rarida- 
de, mas principalmente para que se saiba qual a arte por onde os italianos e 
muitos estrangeiros aprendiam o nosso idioma, fora de Portugal. 

Bento Pereira diz no prefacio, que o motivo que o ímpelliu a compor esta 
grammatica, foi ver que commerciando os portuguezes com todas as nações 
do mundo, não tinham no entanto os estrangeiros um compendio, pelo qual 
podessem aprender a nossa lingua. 

53) ARTECHE (D. JOSÉ GOMES DE). 

E. — Geographia historico-militar de Espana y Portugal. Madrid, 1859. 

54) ASOHBACH (DR. JOSEPH) — Historiador allemão. 

Nasceu * em Hoechst (ducado de Nassau) no anno de 1801. Teve em Franc- 
fort uma cadeira de historia, e foi depois chamado para a universidade de 
Bonn. 

E. — Geschichte Spaniens und PortugaVs zur Zeit der Herrschaft der Al- 
moraviden und Almahaden Francfort. 1833-1837, 2 vol., 8.° 

(Historia de Hespanha e de Portugal no tempo dos almoravides e almo- 
hades.) 

55) ASENSIO (G. CALVO) — Jornalista hespanhol, 3 por algum tem- 

* Firmin líláoi — Nouvelle geographie Universelte, vol. 3.", pag. 295. 
- Vapereau— Dictionnaire des contemporains, pag. 63, edição de 1870. 
3 Modesto Fernandes y Gonsalcz— Retraias y Scmblamas, pag. 181. 



AS 31 

po secretario da Legação Hespanhola em Portugal, e fundador do diário li- 
beral La Ibéria, 

E. — Lisboa en 1870. Costumbres, litteratura y artes dei vecino reino, 
por — . Madrid, imprenta de los senores Rojas, 1870, 8.°, 147 pag. 

Poucas vezes se tem escriplo uma obra tão insullanle e calumniadora dos 
portuguezes, como esta, e isto devido a um escriptor que entre nós residiu, e 
entre nós viveu. 

A traducção dos seguintes trechos farão ver as amabilidades e finezas, que 
devemos ao sr. Asensio : 

«Lisboa não é uma cidade, qae brilhe pela belleza, correcção de linhas, 
pureza de contornos, proporção nas partes, e harmonia em seu conjuncto: não 
t^n numerosas ruas tiradas a cordel, planas, bem calçadas, com passeios lim- 
pos, e com espaço bastante para conter a par grande numero de carroagens. 
Não possuo passeios frondosos e bem symetricamente distribuídos, povoados 
de arvores, aformoseado3 com jardins, bem debuxados, com ruas largas, nas 
quaes, ao lado da natuzeza, se descubra e surprehenda agradavelmente a arte. 
Não conta praças, nem com profusão monumentos notáveis, magníficos, e edi- 
ficios públicos, que despertem a admiração geral. Não ha n'ella arredores 
pittorescosj ^ onde a mão da cultura apresente obras primorosas e recreati- 
?as em extremo, que predisponham em favor da capital o animo do viajante. 
Não se levantam dentro da cidade grandes e sumptuosos theatros, verdadeiros 
templos da arte, onde se lhe possa render um verdadeiro culto. Nada d'isto : 
não vás pois crer, amigo leitor, que é de todo certo o axioma portuguez: Que 
quem não viu Lisboa, não viu coisa boa, 

«Apenas ha um passeio, que mereça tal nome, e quasi nada d'aquíIlo, a 
que temos alludido. Que rio tão formoso, e que porto tão mesquinho t Que 
bellissima perspectiva, e que porto tão pouco esmerado ) Que riqueza poética 
no conjuncto, e que pobreza nos diversos pormenores t Imagine o leitor um 
porto ainda não terminado, sem mais que alguns quarteirões de casas, nem 
todas bellas, nem explendidas, com um caminho em meio, e em declive, falto 
de embarcações, o que lhe dá uma apparencia de deserto, ^ e ter-se-ha for- 
mado uma idéa approximada, do que é o Atterro. Grandes são as reformas, 
que a municipalidade deve emprebender se quer que o porto seja inteira- 

* A respeito dos arrabaldes de Lisboa, Dao tinha a mesma opinião o bespanhol Ur- 
cullu. V. o S.* tomo do Tratado da sua geographia. 

^ Sendo infelixmente certo que o porto de Lisboa nSo é frequentado poraquello nume- 
ro de embarcações, que empara desejar, em ? ísta da sua excellencia e posição geograpbi- 
ca, tem todavia ainda um movimento de perto de 8:000 navios, entre entrados e saldos» 
não faltando n'um extraordinário numero de barcos de pesca, e n'uma immensidade d'em- 
barcações de navegação fluvial. Que numero de navios seria necessário para que pare. 
cesse bem cheio d'enes um rio, que em partes parece um mar? No anno pretérito de 1871 
entraram pela foz do Tejo 2:266 navios de vellae 1:286 a yapor, não fallando dos barcos 
de pesca. Em 1860 navegavam continuamente entre Lisboa e yarios pontos banhados pelo 
Tejo 1:143 barcos de diversos tamanhos e feitios. (V. Archivo Pi(<ore<co,yol. 3.« pag. 381.) 



32 AS 

mente digno de orna cidade de primeira ordem, como deve ser a hoje desat- 
tendida e pobre capital do reino lositano. 

«A estataa eqnestre de D. José I é péssima por soas disformes proporções 
e por saa nenhnma belleza de formas. 

tTodas as roas, a Aorea, da Prata, Aagnsta e da Rainha, não se distinguem 
pela limpeza, porqae este ramo de policia é bem descarado. 

<0 parseio da Estrella, além de ser irregalar, e não de mai grandes di- 
mensões, causa lastima e nojo pela falta de aceio, em que se encontra. ^ 

«Um tanque com agua corrupta, uma montanha russa cheia de abrolhos, 
e de diíOcil accesso, as ruas immundas. E este é o espectáculo que offerece o 
passeio da Estrella, tendo condições para ser excellente. 

«O theatro de S. Carlos é velho, de mau gosto, e pesado. 

«Em quanto a templos nenhum ha, que por sua belleza architectonica me- 
reça fixar nossa attenção. 

«É lastima que a subida para o real palácio da Ajuda seja asquerosamen- 
te immunda. 

«A estatua de Luiz de Camões não tem bellas proporções, e com tão má 
ventura se ideou a allegoría, que o poeta apparece com a espada na mão, e 
com os livros de sua epopeia aos pés, como se o guerreiro poderá eclipsar 
nem n'um ponto ao divino filho de Apollo. 

«Não ha nenhuma estatua erigida em honra de Viriato, o verdadeiro fun- 
dador da nacionalidade. 

«Em quanto a edifícios públicos (exceptuando os da Praça do Commercio), 
não ha em Lisboa nenhum outro. O Governo Civil é um casebre velho e sujo, 
a Imprensa Nacional está albergada n*nm mesquinho convento. Só é heUo e de 
gosto severo o destinado para Escola Polytechnica. 

«Contraste grande é o que apresentam os dois povos peninsulares em sua 
vida e costumes! Qaão diversos e variados matizes accentuam suas dlffèren- 
ças, e como nas miudezas se marcam os vestígios de parentesco, que os por- 
tuguezes eontrahiram desde o tempo de D. Manuel, e em seguida dos desco- 
brimentos de seus grandes navegantes com a molle e apoltronada raça 6ra- 
zileira. 

«Como o hespanhol o portuguez é imaginativo, poeta, poltrão, muito amigo 
de passar tempo, pouco industrial e commerciante, nada emprehendedor, 
amantíssimo de insignificâncias, abundantíssimo de palavreado, fanfarrão, e 
excessivamente cuidadoso de exagerar as glorias nacionaes; mas, alem de 
tudo isto, o sangue romano e árabe, que por suas veias corre, modificado e 
misturado com o brazileiro, de tal modo ha debilitado a energia do caracter 
meridional, que mais parece pertencer àquella fleugmatica raça de flamen- 
gos, que tao admiravelmente retratados estão pelo pincel de Van Dick, em 
cujos largos e avolumado? rostos, coloridos por não sei que tinta alcoólica se 
reflecte completamente uma mansidão natural. 

«Não ha mais que duas coisas, que façam sair de suas casas á um bom 

* Poucas falsidades í^e proferiram jamais: d'uin tal calibre. 



AS 33 

portaguez: sua autonomia e uma andaluza. Apenas se falia de seu Portugal, 
levanta a voz, arranca-a do fundo do peito, põe-se nos bicos dos pés, e com 
dicção campanuda e estylo grandiloco Montes Claros, Aljubarrota e 1640 
saem de seus lábios como bombas, que atroam, derribam, e intontecem. Mas 
se por este motivo o socego proverbial do lusitano se altera, é para ver como 
brilham seus olhos, sorriem seus lábios, quando com cicio encantador al- 
guma andaluza lhe dirige palavras adocicadas. Exceptuando estes casos o 
portuguez é impassível, severo, grave até à exaggeração : na sua vida intima, 
no pouco amor a passeios e theatros, e a espectáculos que o affastem de sua 
casa, na pouca disposição, com que se acha sempre para receber os adventí- 
cios, 1 e na hesitação em conceder sua amizade, mais parece um filho da so- 
berba Albion, do que um latino; mais um habitante do norte, do que um mo- 
rador nas regiões do sul. 

tNao quer isto dizer que no povo portuguez se tenham perdido completa- 
mente as tradições latinas, tanto mais que todos seus defeitos vieram a ser 
augmentados e correctos com os peculiares á samnolenta e ridkula raça 
braztieira, 

tO Chiado é o centro de murmuração, passatempo dos ociosos, martyrio 
cruel de todas as reputações, templo consagrado a desejos levianos, escola de 
mentira e de vicio, livro aberto a todos os epigrammas mais repulsivos, e re- 
fugio hospitaleiro de intrigantes e caloteiros.^ No Chiado os que geralmente 
pullulam, mentem e diíTamam; sao os rapazes mal educados e aristocráticos : 
06 velhos lascivos e repugnantes, que apenas se occupam em deshonrar mu- 
IhereSy e discutir acaloradamente sobre o jogo e modas. Seus constantes fre- 
quoitadores sâo os janotas, enxerto de reptil e de homem, nascidos para o 
vicio, e educados na maledicência, para quem a vida é um festim, e cujo úni- 
co pensamento é o prazer. 

«Yivem formando uma sociedade de seguros sobre a deshonra, não sabem 
oecopar-se de outra coisa senão de cavallos, jogo, mulheres ; não sabem ler, 
nem escrever, mas em compensação cantam o fado com acompanhamento de 
viola. Não possuem outra instrucção mais que a adquirida em alguns lupana- 
res iomiundos, onde aprendem mal o hespanhol, mas perfeitamente as torpes 
artes da crápula e do cynismo, e, se não respeitam, nem comprehendem nada, 
que seja serio, como indemnisação contendem com quantos se applicam ao 
estudo, e se esforçam por serem úteis à pátria. Esta é sem exaggeração a raça 
empestada, que frequenta o Chiado, sem contar as nullidades invejosas em 
poltiica, e ridículas em litteratura, que com ella se agrupam, e com ella for- 
mam coro desaccorde, e nada agradável. 

tNas reuniões, ou bailes aristocráticos ha uma seriedade, uma compostura 
tão epicamente ridículas e incommodas, que para qualquer homem, que o, que 
leve sobre os hombros, seja uma cabeça, são horrorosos tormentos, mais tre- 
mendos que os imaginados por Dante em seu famoso Infeino. 

> Bem faz; para que lhe não aconteça dar en Irada em sua casa a outro Calvo AseD^io 
' Ma^ como é rcfugioV Que e^criplOI• tão inlcrcssanle I 

TOMO I '^ 



34 AS 

«N'elles a conversação é um continuado chorrilho de tolices, quando nao 
sejam injurias: a dama de alto cothurno entretem-se innocentemente em des- 
acreditar quantas senhoras e meninas, impellidas pelo redemoinho da walsa 
passam arquejantes ao seu lado: o dandy occupa-se por sua vez em murmu- 
rar, e dizer sandices ás meninas, por mais que na linguagem official dos sa- 
lões recebam o nome de galanterias, os tesos e magestosos diplomáticos, cujas 
reuniões se confundem com as de nobreza de sangue, por serem idênticas fal- 
iam pouco e dançam menos : por toda a parte ouvem-se agudezas offensivas, 
que, se não possuem muito de sensatez, em troca teem bastante de insultante, 
sandices offensivas, das quaes só riem os que as dizem; porém nada de finos 
epigrammas, ditos engenhosos; tudo isto é moeda falsa, que não tem curso 
nos salões aristocráticos, e que está reservado para esses desditosos políticos, 
escriptores, jornalistas e homens de sciencia, que os não costumam frequen- 
tar, e aos quaes separa do seus olympícos habitadores um cordão sanitário. 

«Fora d'isto e da grande profusão de luzes, vestidos de gaze^ gravatas, 
luvas brancas, fraques pretos ou azues, gelados, walsas, contradanças e lan- 
ceiros, nada existe n'esses tão decantados bailes, que attraia e que fascine. 
Não se encontra n'elles essa conversação picante, incisiva, epigrammatica, que 
os escriptores francezes em tanta abundância empregam em seus romances, 
quando descrevem saraus sumptuosos, não existe desgraçadamente (ainda que 
as excepções, que não são poucas, merecem na verdade admirar-se) figuras 
elegantes e formosas, nas quaes a par do luxo ^ brilhe a belleza fascinadora; 
a raça brazileira tem contaminado com seus perfis as antigas feições escul- 
pturaes, as quaes tão celebradas fizeram as damas portuguezas. 

«Não ha mais do que essa discorde e desharmonica confusão produzida 
pela reunião de muitas pessoas, que correm, bailam, suam, agitam-se, faliam, 
riem, fazem cortezias e murmuram, quando se não entreteem docemente com 
um gelado, ou temperam a acritude de suas palavras com alguma delicada 
golozeima. 

«Emquanto á nobreza do oiro, essa que se adquire por outra grande in- 
justiça social, similhante á recebida pela herança legendaria, é particularíssi- 
ma, e tem um sainete tão especial, que com nenhuma outra se pôde confon* 
dir. Não a compõem esses ricos commerciantes, esses riquíssimos proprietá- 
rios^ esses celebres banqueiros, que em todas as sociedades deslumbram por 
seu fausto, e enchem os salões com seu numero: na sociedade lisbonense não 
se podem contar esses Júpiteres olympicos da banca e do credito, esses mo- 
dernos Mercurios, porque não ha commercio, não ha fortes casas bancarias, a 
raça dos contos e dos patacos pertence de facto e direito aos brazileiros, que 
são nossos antigos indianos, cujo typo é salientissímo. 

«O brazileiro geralmente adquire suas riquezas por meio do iniquo trafico 
da escravatura, e feita uma vez sua fortuna, vem para Lisboa, edifica umpa* 
lado, 2 relaciona-se com a nobreza, cuja benevolência, visto despresal-o por 

« Pag. 57. 

' Quantos palácios ba cm Lisboa mandados levantar por brazileiros? Que escriptor 
(âo consciencioso! 



AS 35 

cansa de saa origem, trata de captar com seu capital, e quando tem adquirido 
certa posição, com o fim de alcançar um titulo, dá explendidos bailes, para os 
quaes convida todo o munde oíflcial, até lograr seu desejo. N'estes bailes, de 
um sainete um tanto grutesco, nos quaes tudo é luxo sem gosto, e abundân- 
cia sem arte, confundem-se todas as classes da sociedade, o jornalista com o 
ministro, o diplomático com os fidalgos, os indivíduos da classe media com a 
alta not)reza, e no meio da confusão de tão diversos typos, ostenta-se accen- 
tuada com enérgicos caracteres cómicos a figura do protogonista, que veste o 
fraque estudadamente, que falia o francez com a mesma difQeil imperfeição» 
que o portuguez, que se empenha em ser delicadamente fino com a affecta- 
ção de um Juan Peraizules, que dança como que ostentando as elegantes ma- 
neiras de um dandy exaggerado, provocando por esse motivo aqui o riso, alli 
o desprezo, e em todas as partes a satyra e o epigramma. ^ 

•N*estes bailes, para diflferença dos aristocráticos, riem-se com estrondo, 
faliam ruidosamente, tragam com anciã os doces, gelados e bebidas em abun- 
dância, e, oh segredo poderoso e magico de bom tom I ceiam com um appe- 
tite voraz, e que não é permittido ter nos palácios dos descendentes dos se- 
nhores de faca e cutello, nos quaes, sem duvida para não causarem indiges- 
tões, acautelam-se muito de apresentarem outra coisa mais que chá e bolos, e 
quando muito, alguns queijinhos mal feitos, com os quaes despertam a sede 
d'aquelles que os comeram, deixando-os retirar para suas casas já de madru- 
gada, C4)m bellas recordaçíies da distincção e amabilidade dos novos pares, e, 
com uma fome espantosa, e nada edificante. Felizes brazileizos, tomados ricos 
á custa da carne dos negros, dos quaes todos mofam, e a cujos saraus todos 
acodem promptamente procurando a ceial 

«Nao fallarei mais de bailes: os do palácio real são, como todos os da cor- 
te, amaneirados pela adulação, e monótonos pela ridícula seriedade mal fingi- 
da, e nada apresentam de nacional ou local, que mereça estudar-se. 

«As pateadas são sempre certas tratando-se de hespanholas feias: é regra 
iofallivel. Não ha em geral grandes bellezas no theatro portuguez: não se ad- 
miram rostos deslumbrantes de formosura na scena lisbonense: entre suas ce- 
lebridades artísticas não está o publico certamente acostumado a contemplar 
continuamente a graça, o encanto, a correcção de linhas e a pureza de con- 
tornos, e este é o motivo por que se não com prebendem á primeira vista as 
rasões para exigências estheticas de tanto rigor por parte dos portuguezes, 
quando se trata de actrizes estrangeiras. 

«Aqui não ha progressistas, nem moderados, whigs nem torys, radicaes 
nem reaccionários ; aqui não ha partido conservador, nem partido reformista; 
aqui as situações politicas, que se seguem umas ás outras, nem apresentam 
programma distincto dos que as precederam, nem se formam pela necessida- 
de de realisar uma idéa, ou de reformar uma instituição para o que se ache 
habilitada uma fracção ou uma eschola; aqui não ha mais que individualida- 
des, que aspiram ao poder sem princípios, sem idéas, sem systema definido e 

« Pag. :j9. 



.•16 AV 

accentnado/e que o obteem ou perdem por intrigas pessoaes, ou indífTereB* 
ças e animosidades, qne muitas vezes nada teem qne ver com a administração 
dos negócios públicos, todas liberaes, segundo dizem de si mesmas, confundi- 
das, amalgamadas e separadas ou reunidas, inimigas ou' amigas segundo a 
subida e descida das antípathias ou sympathias, antes particulares, que politi- 
cas, que decidem n'este paiz da opposiçao ou da conformidade com os actos 
de um ministério. Esta ó a triste situação politica de um paiz acostumado ao 
regimen representativo, e hoje indifferente aos negócios públicos.» 

Muito mais poderíamos traduzir, mas isto basta para conhecer o escriptor. 
Pelo dedo se conhece o gigante. 

Consta que actualmente o sr. Ascencio está escrevendo uma biographia de 
(^amops, mas sejam quaes forem as causas, o auctor não possuc o condão da 
neípssaria imparcialidade para tratar de nossas cousas. 

56) ASHE. 

E. — History of the Azoirs. London, 1813. 

(Historia dos Açores.) 

Nunca vi esta obra. 

57} ASSARINI (LUCAS). 

E.— Vita e miracolt di S. António di Padova, Gcnova, 164G. 

• 

58) ATKINS (JOHN). 

E.--A voyage to Guimay Brazil, aud the West Indies, Madeira, Cape de 
Verds, etc. London, 1737. 
(Viagem a — .) 

59) AUGOYAT. 

E. — Précis de Vexpcdition de D. Pedro en Portugal, Paris, 1839. 
(Resumo da expedição de D. Pedro.) 

60) AUS DEM LEBEN Portugiesischen Israeliten Dr. Caprodose. Tra- 
duit du Français par G. St. Slrasbourg, 1839, folheto. 

(Tratado da vida do doutor Caprodoso (? talvez Cardoso) israelita porlu- 
guez.) C. M. B. I. P. 

61) AUTHENTIO MEMOmS ofthe Portuguese Inquisition. 
(Sobre a inquisição.) 

Nada mais posso dizer acerca d*esta obra, que vi citada, mas da qual não 
pude encontrar nenhum exemplar. 

62) AVANTURES ADMIRABLES ou discours des succès du roi de 
Portvgal D. Sebastien deptiis son voyaged^Afriqfw en iiilSjHsquen 1601 avec 
la suite. 1603. 

íSi)l)ro D. Sebastião.) 



AV 37 

Vi citado d'6sla maneira o mencionado livro, sem d'elle poder dar mais 
esclarecimentos. 

63) AVEZAC (M. DE) — Garde des Archives de la Marine et des Golo- 
níes, des Societés Geographíqaes de Paris, Londres, Francfort etfiombay; des 
Societés Asiatíques, Syro-Egyptíenne et Afrícaíne de Londres; des Societés 
Ethnologiques de Paris, et de New York, des Societés Archéologiqnes d'An- 
gleterre et d^Espagne, de la Societé Orientale, ctc. etc. 

E. — L Notice des découvertes faites au moyen-age dans VOcéan Atlantu 
que antérieumient aux grandes explorations Portugaises du quinziéme siêcle, 
lue à VAcademie Royale des Inscriptians et Belles Lettres de 1'InstUut dans 
ses séances du 14 Novembre et 5 Décembre 1845 et du 6 Mars 1846 par — . 
Paris, imprimerie de Faín et Thonot, 1845, S."» gr. X, 86 pag. 

(Sobre nossas descobertas.) 

n. Note sur la premère expedition de Béthencourt aux Canaries, et sur 
le degré d^habilité nautique des Portugais à cette epoque. Paris, 1846> 8."* 

(Sobre a expedição de Bethencoort ás Canárias.) 

Na primeira d'estas obras, diz o autbor o seguinte : 

«Estas paginas não são inspiradas por um espirito de ciúme e de destrui- 
ção a respeito d'um povo, do qual temos gosto em proclamar a gloria immor- 
redoura, e cujas susceptibilidades nacionaes sabemos r(%peitar presentemente 
da mesma maneira, que admiramos suas proesas no passado. 

«Declaramol-o em voz alta antecipadamente, não vimos contestar ne- 
nhum dos títulos reaes da nação portugueza a uma celebridade justamente 
adquirida na carreira das descobertas gcograph^as. 

«Ah! Quem quereria pois fechar os olhos ao espectáculo dos maravilhosos 
desenvolvimentos doesta potencia nos séculos xv e xvi? 

«Quem fechará os ouvidos aos cantos do grande poeta, que d'ella escreveu 
a magnifica epopea? Longe de nós o pensamento de attenuar esse património 
de gloria, do qual os filhos dos Luziadas teem tão justamente o direito de se- 
rem orgulhosos, e que elles conservam com um piedoso fervor, digno de res- 
peito em seus principies, de indulgência em seus desvarios, e que nunca dei- 
xoa de ter todas as nossas sympathias. 

«As grandes explorações portuguezas do século xv, no oceano Atlântico, 
tiveram o immenso resultado de abrirem o caminho das índias pelo cabo da 
Boa Esperança, de elevarem repentinamente á primeira ordem das potencias 
enropeas uma nação até então sem importância, de assegurarem uma immor- 
tal celebridade aos príncipes, que tinham sabido conceber e executar qsta no- 
bre empreza. Nada pode a este respeito causar detrimento ao seu direito á 
admiração da posteridade. 

«Mas esta grande obra^ que tiveram a gloria de levarem ao cabo, foram 
elles os únicos, foram os primeiros a concebel-a e tental-a? A prevenção na- 
cional pôde pretendel-o, e inspirar obras sabias para o sustentar: os testemu- 
nhos históricos o desmentem.» 



38 AY 

Avczac sustenlava polemica principalmente cem o visconde de Santarém, 
que pretendia serem os portugaezes os primeiroe povos, que fizeram des- 
cobertas na Africa. 

Na obra Univers PUtoresque, vol. 4.» de pag. 36 a 82 vem uma disaossào 
sobre a descoberta dos Açores pelos portugaezes. 

64) AVISI DIVERSI partkulari dairindie di Portugallo ricevuiti dal- 
Vanno 1551 fino ai 1558 dalli Rev. P. delia Camp. de Giesu. Vinegia, 15o8. 

(Sobre a índia portugueza.) 

Na Bibliotheca Africana e Asiática de Temaux Campans, encontram>se 
ainda citadas as seguintes obras do mesmo género: 

Damiano de Góes. Avisi delle cose fatte da Portuguesi nel índia di ^[ita 
dei Gange» Vcnegia, 1539. 

Avisi delle cose fatte da Poriuguesi nel índia di qua dei Gange nelTanno 
1538 scritti in língua Latina da Damiano de Góes et tradí^ti en Toscano, Ye- 
nezia, 1539. 

Avisi particolari delle Indie di Portogallo ricevuti in quaestt anni de 1551 
et 1552 de li reverendi padri dei Compagnia de Jesu* Roma, 1552. 

Ntiovi avisi dei Indie di Portugália tradotti delia lingua Spagnuola neWIta» 
liana. 1559. 

Diversi avisi particolari ricevuti deWIndie di Portogallo. Venezia, 1562- 
1565, 4 vol. 

Diversi avisi, etc, Yenezia, 1568, 2 vol. 

Nuovi avisi, etc, Roma, 1570. 

Nuovi avisi, etc. Brescia, 1571. 

65) AYALA (D. JOSÉ DE ALDANA) — Ingeniero gefe de 2.* classe 
dei Cuerpo de Minas, etc etc. 

E. — I. Noticias Geologico-núneras dei Reyno de Portugal, No 1.° vol. da 
Revista Peninsular, 

II. Compendio Geografico-estadistico de Portugal y sus posesiones tUtrama* 
rinas por —, Madrid, imprenta de la Viuda de D. António Yenes, 1855, 8.<> gr. 
639 pag. 

O auctor veiu a Portugal formando parte d'uma commissão de engenhei- 
ros bespanhoes e portugaezes, nomeada para marcarem na fronteira de ambos 
os estados peninsulares o ponto de juncção da via férrea de Lisboa a Madrid. 

«Conhecem-se melhor em Hespanha e Portugal os povos, que occapam os 
abrazados areaes da Africa e da Arábia, as costas do mar Glacial, as regiões 
Asiáticas, e ir.esmo a China, do que os dois povos peninsulares. 

«Em Lisboa encontram -se e conhecem se as obras scientiôcas e litterarías 
mais importantes, que saem dos prelos da culta Europa, e os portugaezes 
acbam-se familiarísados com a litteratura franceza, ingleza e allemã, e até com 
a antiga hespanhola, porém ignoram completamente a contemporânea. 

«É nossa intenção dar a conhecer o estado presente da monarchia portu- 



AZ 39 

guesa, os grandes elementos de engrandecimento e de riqneza, qne em si 
própria contém, os progressos, que tem feito no caminho da civilisaçào, col- 
locando-se, senão ao nivel, ao menos mui próximo d'outras nações, que pas- 
sam por mais adiantadas, e desvanecendo por conseguinte os preconceitos, que 
a generalidade das pessoas do nosso paiz conservam a respeito d'essa bella 
porção do occidente da peninsula.» 

66) AYALA (PEDRO LOPES DE) — Ghronista hespanhol. 
Nasceu no reino de Murcia, no anno de 1332, e falleceu em Calaborra em 

i407. 1 

E. — Crónicas de los Reyes de Castilla Don Pedro, Don Enrique 11, Don 
Juan I, y I>. Enrique Hl, por —, Chanciller Mayor de Castilla: Con las en- 
miendas dei Secretario Geronimo Zurita: Y las correcciones y notas anadidas 
por Don Eugénio de Llaguno Amirola, Caballero de la Orden de Santiago, de 
la Real Academia de la Historia. Madrid, 1780, 3 voL 

Como todos sabem, lia varias edições d'esta celebre Chronica, parecendo 
qoe a primeira foi impressa em Sevilha, no anno de 1493. ^ 

Ayala, um dos mais famosos escriptores europeus, assistiu á celebre bata- 
lha de Aljubarrota, na qual tendo sido prisioneiro, ficou depois por muito 
tempo preso no castello de Óbidos. Gomo tal foi obrigado a residir por algum 
tempo n'este paiz, e o que observou com seus próprios olhos na lucta heróica 
travada por causa da independência de Portugal, deixou-o escripto na sua 
estimadíssima Chronica, da qual não pôde prescindir o escriptor, que desejar 
escrever minuciosamente as occurrencias d^aquelles tempos varonis. N'aquella 
época o nosso Fernão Lopes, o castelhano Ayala, e o francez Froissart, eram 
talvez os primeiros historiadores, que a Europa com orgulho podia appre- 
sentar. 

67) AZPILCUETA (MARTIN DE). 

Natural de Yarazoin, perto de Pamplona, fallecido em Roma no anno de 
1586. Foi lente na Universidade de Coimbra, na época que n'ella ensinavam 
litteratos estrangeiros de primeira ordem, entre os quaes se distinguiu o cele- 
bre Fabrício. ' 

E. — Manual de Confessores e penitentes, que clara e breve contem a uni' 
versai decisam de quasi todas as duvidas que em as confissões soem occorrer 
dos peccados, absolvições, restituyções e irregularidades. Composto pelo ho 
nmyto resoluto e celebre Doutor . . . Pela ordem de hum pequeno que fez hum 
Padre Portuguez, da Provinda da Piedade, Acrecentado agora por ho mesmo 
Doutor . . . Com seu repertório copiosissimo. Coimbra, por João de Barreira 
1560. 



* Firroin Diáoi — Nouvelle Biographie UniverselU, vol. :).*», pag. 894. 
% C. Ximenes do Sandoval — Batalha de Aljubanota, pag. 331. 

* Pedro de Mariz — IHahgos de Vana Historia. 



B 



68) BACCIA (DoTOR LUÍS DE) — Capellan dei rey nuoslro senor on su 
real Capilla de Granada. 

E. — Historia de la union dei reino de Portugal á la corona de Castilla: 
de Jerónimo de Franchi Conestagio, caballero genovez. Traduzida da lingua 
italiana en nuestra vulgar, por el — . Barcelona, 1610, 124 pag. 

69) BADCOOK (LIENT. COL-LOVELL). 

E. — Rough leaves from a Journal kept tn Spain and Portugal during the 
years 1832, 1833 e 1834. London, Ricbard Bentley, 1835, 4.» XI, 407 pag. 

O auctor fora mandado a Portugal na companhia de lord Willíam Russell 
e do coronel Hare para procurar renovar com o governo portuguez aquellas 
antigas relações, que tinham sido interrompidas. Conta minuciosamente o cer- 
co do Porto, e as luclas d'aquellc tempo. 

70) BAHLDUR (ROJAH KALOE-KRIEHNA). 

E. — Vidwun-Moda-Taranginee, Or Fountain of pleasare to the leamed. 
Translated inglié by — Second edition. The text of the original in Deva-nagara 
letters; and the versiou with improvements. Galcutta, printed at the Scohlia- 
Bazar Press, 1834, 8.° 

Obra sanskrita e ingleza. O original é extrahido d'uma obra composta por 
Chirunjecri, pandit de Gwõra. 

(Todas estas palavras são copiadas do catalogo manuscripto dos livros 
portuguezes e relativos a Portugal, existentes na Biblíotheca Imperial de Pa- 
ris, manuscripto que se guarda na Bibliotheca Publica de Lisboa, não poden- 
do eu comtudo asseverar que esta obra seja eíTectivamente relativa ao nosso 
paiz.) 

71) BAILLET (ADRIEN) — Erudito francez. 

Nasceu no anno de 1649 na aldeia de Neuville, e falleceu era 1706. ^ 

í Firmin Didot — NouvclU Biogrnphic Unirenelle, tomo I ^, pag. 183 



BA 4i 

E. — Jugements des savarUs sur les principaitx ouvrages des auteurs^ 1685 
a 1689. 9 vol. 

Esta obra foi reimpressa (de cuja edição me sirvo) e accrescentada com o 
seguinte titulo: 

Jugemens des Savans sur les principaux ouvrages des auteurs par — , r«- 
rtis, currigés et augmentés par M, de la Monnoye, de VAcademie Française. Pa- 
ris, 1732, ^.^ gr., 7 vol.; aos qaaes se accrescenta mais um com o titulo de 
Aníi-Baillet ou Critique du livre de Mr, Baillet, 

No tomo 4.'', em a lista dos poetas latinos modernos encontram*se as bío- 
graphias de: 

Pag. 304, Henrique Caiado. Por esta pequena biographia vé-se que Eras- 
mo lhe tecia elogios, o que tinha reputação entre os estrangeiros. 

Pag. 331, Árias Barbosa, a quem chama um dos principaes restauradores 
das letras na Hespanha, com António de Lebrixa e André de Resende. «André 
Schott diz que era feliz na construcção dos versos, e que para isso tinha uma 
vantagem particular, o ter nascido musico, pois os portuguezes (assim diz) so* 
bresaem em geral n'esta profissão: para a qual parecia ter uma harmonia e 
cadencia particular. EfTectivamente D. Nicolau António assevera que era su- 
perior a Nebrissa na poesia.» 

Pag. 410, Jorge de Montemaior. 

Pag. 434, André de Resende. «Glenard achava em seus versos muita ma- 
gestade, força e invenção, de maneira que se tivesse querido continuar e aper- 
feiçoar-se, teria emparelhado com Lucano.» 

Pag. 440, Luiz de Camões. «O Camões passa no mundo, pelo Marcial, pelo 
Ovidio, pelo Horácio^ c pelo Virgílio dos portuguezes. Poderiam tel*o tomado 
também pelo Planto do paiz, se para isso bastasse apenas ter composto co- 
medias. 

•Mas não o consideraremos aqui senão como um poeta heróico, e como o 
verdadeiro Virgílio, por causa de seu celebre poema Os Luziadas. 

•Apesar de me desviar algum tanto do meu desígnio, direi algumas pala- 
vras sobre a fortuna do poema, e biographia do poeta, para não ser insensí- 
vel ao gosto d'aquelles de meus leitores, que desejariam praticasse eu o mes- 
mo a respeito de todos. 

«Camões ao sair do collegio foi fazer a guerra na Africa, onde perdeu um 
olho luctando contra os moiros, deixou a guarnição de Ceuta, no estreito da 
Gibraltar, para ir para a índia. N'aquelles longínquos paizes corapoz a maior 
parte de suas poesias, que \\xe valeram a benevolência de seu capitão e de al- 
guns portuguezes, que tinham alguma tintura das bellas letras. 

«Mas tendo ofTendido com versos satyricos e licenciosos algumas auctorí- 
dades, que não reconhecem o privilegio dos poetas, foi obrigado a salvar-se 
na China, até seus amigos terem pacificado a desintelligencia. Quando regres- 
sava para Goa naufragou snrprehendido por uma tempestade, que lhe fez 
perder quanto p^ssuia. Não perdeu com tudo o tino, e teve presença de espi- 
rito sufflciente para salvar seu poema Os Luziadas» 

«Nosso Camões querendo se aproveitar de sua boa fortuna, obteve licença 



42 BA 

para voltar a Portagal, com o desigaio de offerecer sen poema ao joven rei 
D. Sebastião. Mas o mérito, que tinha adquirido trabalhando assim para a 
gloria de seu príncipe e de sua nação, não foi capaz de o pôr ao abrígo dos 
insultos e dos maus tratos da madrasta commum dos poetas, quero dizer da 
desdita, que sempre o acompanhou até á sepultura, e que não contente com 
reduzil-o a pedir esmola, não lhe deixou o goso e a posse pacifica de soa re- 
putação, senão depois de sua morte. 

«Se esta madrasta não gostava d'elle, não era tanto porque este fosse rai- 
vo e zarolho, por ter um nariz comprido, arredondado em forma de globo na 
extremidade^ quanto porque ella não pôde tolerar aquelles poetas, que se 
querem distinguir, e sair da vulgaridade dos outros. 

«Com effeito Gamões tinha um génio bem extraordinário: nascera poeta: 
tinha • espirito vivo, sublime, claro, abundante, fácil, e prompto para quanto 
queria. D. Nicolau António, que nos informa de todas estas particularídades, diz 
que elle saia-se perfeitamente nos assumptos heróicos e galantes, do que não 
somente os conhecedores do paiz, mas ainda todas as pessoas de bom gosto 
espalhadas pelo mundo lhe prestaram testemunho. Accrescenta que este poeta 
tinha um talento particular para fazer descripções de legares e pinturas das 
pessoas, e que é tão exacto e tão perfeito, que sua arte quasi que iguala a na- 
tureza. Suas comparações são ricas, ^ seus episódios muito agradáveis e varia- 
dos, apesar de não desviarem o leitor do assumpto principal de seu poema. 
Por toda a parte dá mostras de muita erudição, mas não affectada, e acha-se 
que tem o sabor dos antigos, que é todo o fructo que um poeta pôde preten- 
der tirar do conhecimento da antiguidade. 

•Eis-aqui os defeitos, que e padre Rapin notou nos Lusíadas. Diz na 1.* 
parte de suas Reflexões, que por mais divino que o Gamões seja no pensar 
dos portuguezes, não deixa de ser censurável por serem seus versos tão obscu- 
ros, que poderiam passar por mysterios. E na 2.* parte pretende que o dese- 
nho d'este poema é vasto de mais, sem proporção, sem rigor de expressão, e 
que é um muito mau modelo para o poema épico. Accrescenta n'outros lega- 
res que este poeta é soberbo, fastoso na sua composição, que não tem juizo, 
e que falia sem discrição de Yenus, de Baccho, e das outras divindades pro- 
fanas n'um poema christão: e que mesmo tem pouco discernimento, e boa di- 
recção em tudo mais. 

«Apesar d'estes defeitos, é bom que se saiba que o publico se obstinou em 
conservar-se na estima e amor, que testemunhou ao poema dos Lusíadas. É 
o que o tem feito passar muitas vezes pelo prelo dos impressores. Tradozi- 
ram-n'o em francez, ha coisa de cem annos. Appareceram duas versões italia- 
nas, a primeira por um anonymo, a segunda por Garlos António Paggi, de Gé- 
nova, a qual appareceu em 1659, dedicada ao papa Alexandre VIL Publica- 
ram-se quatro traducções bespanholas^ isto é, do portuguez para o castelhano. 
A primeira de Benito Galdera; a segunda de Luiz Gomes Tapia, que lhe ajun- 
tou notas e observações: a terceira de Henrique Garcez: porém D. Nicolau An- 
tónio não nos refere o nome do quarto traductor. Finalmente foi passado para 
latim por um carmelita, chamado Thomé de Paria, bispo de Targa, na Africa. 



BA 43 

«Entre os que fizeram commentarios a este poema, além do tal Gomes de 
Tapia, conta-se Manuel Correia, Pedro de Maris, Luiz da Silva Brito. Porém o 
mais considerável é incontestaveliyente Manuel de Faria e Sousa.» 

Tomo 5.^ pag. 28, Manuel Pimenta. 

Idem, pag. 29, Luiz da Cruz. «Além do Psalterio de David, que este padre 
poz em verso, e que foi impresso em Ingolstadt, Nápoles, Milão, Leon, e n'ou- 
tras partes, ha d'elle ainda diversas comedias e tragedias, que Cardou impri- 
miu em Leon no anno de 1605, etc.» 

Idem, pag. 74, Pedro Lopez ou Lobo. Este auctor publicou Poesia FhUõ' 
saphica á imitação de Lucrécio, cujos versos são muito elegantes no pensar 
de D. Nicolau António. Borricbeo diz que seu estylo não é muito culto, mas 
que não deixa de ter cadencia e numero, que o sustenta, e lhe dá graça, n'um 
assumpto que a não tem por sua natureza. 

Idem^ pag. 141, André Bayão. 

Idem, pag. S14 Manuel de Faria e Sousa. 

Tomo 7.^ pag. 253, Caramuel. «O famoso Caramuel era um dos mais ze- 
losos partidários da coroa de Castella; e não causará isto admiração ao con* 
siderarmos qual era seu temperamento, quaes os seus compromissos por nas- 
cimento e obrigação. Desde o começo dos movimentos, que se Qzeram em 
Portugal para sacudir o jugo do dominio hespanhol, pegou na penna para fa- 
zer valer os direitos, ou as pretenções do rei Pbilippe II a favor de seu neto* 
E mandou imprimir em Anvers um volumoso livro escripto em latim com o 
titulo de PhilippíAS Prudens, ^ 

«Esta obra appareceu em 1638, era no próprio anno da morte de D. Ma- 
nuel, que fallecera a 22 de junho. 

«Este D. Manuel era filho de D. António de Portugal, que tendo tomado o 
titulo de rei em 1580, depois da morte de seu tio o cardeal Henrique, suc- 
cessor de D. Sebastião á coroa, fora derrotado na batalha de Alcântara pelo 
exercito de Pbilippe II debaixo do commando do duque de Alba, e tinha mor- 
rido em Paris no anno 1595. 

«D. António era filho legitimo (no que concorda toda a gente) ^ de Luiz, du- 
que de Beja, tio de D. Sebastião, e irmão ^o cardeal D. Henrique. 

«D. Luiz, duque de Beja, era filho de D. Manuel, rei de Portugal. De ma- 
neira que, se D. Manuel de Portugal era filho do rei D. António, refugiado na 
França, podia com justiça gritar contra a dominação hespanhola, e protestar 
de novo contra a usurpação de Pbilippe U. 

«Com tudo é d'este D. Manuel, que Caramuel pretendeu publicaras me- 
naorías que escreveu contra a casa de Portugal a favor de Pbilippe II e de 
seus successores. Parece até que D. Manuel tomou grande parte na com- 
posição do livro Philippus Prudens. Se dermos credito a Caramuel, e a D. Ni- 
colau António depois d'elie, D. Manuel recebera de seu pae D. António de 
Portugal este grande numero de papeis e de memorias manuscriptas, que ser- 

* V. LobkowiU. 

* Jia5 nao os historiadores portaguezes, que bem sabem que era illegitimo. 



44 BA 

viam para destrair saas preteoções, e estabelecer os direitos da casa d*AuS' 
tria. Mas, como D. Manuel tinha deixado, quando morreu, todos estes papeis 
em legado a Garamuel, como um penhor áfi sua amizade, a auctoridade e 
valor de todos elles nâo se poude basear mais, que sobre a boa ou má fé de 
Caramuel, isto é, um dos grandes habladores y burladores d'entre os sábios de 
seu tempo. 

cNao fizeram grande caso de seu livro na França, e foi bem notório que em 
Portugal também lhe não prestavam grande attenção, quando se publicou 
um manifesto em nome de todo o reino, para fazer valer o direito da casa reah 
e restituir a coroa a D. João IV. 

«Caramuel não deixou de responder ao manifesto. Mas como esta composi- 
ção era em lingua vulgar, não julgou conveniente responder em latim. 

•Esta segunda obra foi impressa no anuo de 1642^ em i.*", na mesma cidade 
de Anvers, debaixo do titulo de Respuesta ai Manifesto dei Reino de Portugal; 
e reimpresso vinte annos depois em Saint- Angelo, onde Caramuel sustentava 
uma imprensa à sua custa, qualificada de Imprensa Episcopal, para a impres- 
são de suas próprias obras. Mas como o livro não podia servir ao^ que ignora* 
vam o hespanhol, um dos discípulos ou amigos de Caramuel, chamado Lean- 
dro Bandtius o verteu em latim, e publicou sua traducção em Lovain no anno 
de 1643 debaixo do titulo Joannes Brigantinus Lusitanice, AlgarbicB, índice et 
BrasilcB illegitimus Rex demonstratus» 

•Contra esta resposta appareceu o Anti-Caramuel para defeza do manifesto 
do reino de Portugal, o qual teve por auctor um portuguez, por nome Manuel 
Fernandes de Villa Real. Este auctor era cônsul da nação portugueza em 
Rouen, na Normandia, quando compoz a obra, mas só a publicou em Paris no 
anno 1643 com o titulo de Anti Caramuel, ò Defença dei Manifesto de Portu- 
gal à la Respuesta que escrive Don Juan Caramuel Lohkowitz, Abbad de Me- 
brosa. 

«Teve o tino de prever que o titulo de Anti Caramuel poderia surprehen- 
der seus leitores, e julgo- o mais desculpável que a maior parte dos outros 
auctores de Anti, que nem se dignaram fazer-nos ver que tinham razão para 
empregar o titulo. 

«Ha também uma outra obra com o titulo de Anti Caramuel, composição 
de Humanus Erdemannus, a qual vem analysada no primeiro mez da obra 
Nouvelles de la Republique des Lettres,* 

72) BAILLIE (MAHIANNE). 

E. — lÂsbon in the years 1821, 1822 and 1823. London, 1824, 2 vol., 8.«, 
o 1.* de 219 pag. e o 2.<» de 2oO. Offerecida ao conde de Chichoster. 

(Lisboa nos annos de... ete.) 

A primeira carta é datada d'um hotel em Buenos-Ayres (Lisboa) de 27 de 
junho de 1821, e realmente não é muito lisongeira para os portuguezes, pois 
n'ella se queixa de pouco aceio, de falta de arvoredo, immensidade de cães. 
Gosta da vista do Tejo, mas temos gosado de vistas de estylo similliante muito 
superiores em differentes partes do continente. Acha o the^tro de S. Carlos 



BA 4» 

indigno da attenção dos estrangeiros. A quinta parte dos habitantes de Lisboa 
são pretos ou mulatos. 

Assevera que não existe uroa nnica boa edição portugueza dos Luziadas. 

SufiToca-se a gente n^esta cidade com os maus cheiros e outros horrores. 
Os mosquitos são numerosos de modo que por maior numero que se conceba 
na idéa, ainda este é limitado. Não poude encontrar boas frutas, pois as ce- 
rejas geralmente eram azedas, e os morangos muito raros. A propensão dos 
portugaezes é para as construcções marítimas, alguns modelos de naval arcbi- 
tectnra estavam então fluctuando no Tejo, mas são tão ignorantes na arte de os 
dirigir, que o melhor d'elles seria facilmente posto em silencio por uma fragata 
ingleza no espaço de meia hora. Seu fílho mal se podia conhecer por causa das 
incessantes ferroadas dos mosquitos. As velhas portuguezas parecem-lhe ser in- 
variavelmente horrendas. Não se atreveu a lançar a vista para os costumes de 
uma eosinha portugueza, porque as noticias que lhe deram a tal respeito são 
aterradoras. A carne vendida em Lisboa é repugnantemente preparada, por* 
que os carniceiros portuguezes ignoram o methodo de matar os bois. Um epi- 
curista suicidar-se-hia, se fosse obrigado a passar um mez em Lisboa no caso 
de não ser amigo de peixe. Os médicos portuguezes parecem ter feilo muito 
poucos progressos desde o tempo do dr. Sangrado. Os portuguezes não fazem 
a mais leve idéa de uma illuminação, a não ser por meio de lanternas. Sua 
lavadeira em Cintra era moira e a primeira vez que fadou a esta tão verda* 
deira escriptora, beijou-lhe a mão, e disse-lhe em bom inglez, que tinha muito 
prazer em a servir. ^ 

N'uma palavra a nossa escriptora piegas, tudo, sem excepção, acha detestá- 
vel; mas vae para Cintra e tudo sem excepção acha bom, óptimo, e até algu- 
mas coisas superiores ás inglezas. 

As cartas d*esta delambida são realmente uma obra sem merecimento, na 
qual as mentiras formigam a cada passo, como entre outras: Que o aqueducto 
das aguas livres foi mandado construir pelo marquez de Pombal: Que os fi- 
dalgos comem diariamente uma grande porção de açorda com alhos, e que por 
isso o mais ligeiro segredar do mais bem educado fidalgo não differe no chei- 
ro, do mais grosseiro camponez: a gente de Lisboa tem falta de forças por 
causa do constante e excessivo emprego do azeite, junto aos relaxantes effei- 
tos da indolência e do clima: não havia um único cabelleireiro n*esta cidade 
que soubesse cortar o cabello convenientemente: o palácio do Ramalbão tinha 
exteriormente a apparencia d'uma prisão sórdida, melancólica e arruinada: 
as caras das damas de Lisboa eram desengraçadas e grosseiras a ponto de lho 
parecer impossível como podiam passar por bonitas: civilidade ou hospitali- 
dade para com os estrangeiros pareciam virtudes desconhecidas dos portu- 
guezes: que o Campo Grande estava duas léguas distante de Lisboa: os mer- 
cadores em Lisboa eram uns grosseirões, pensando que faziam um grande fa* 
vor em mostrarem o que tinham para vender, costume que provinha do tem- 
po dos Moiros: os padres rapinantes d'este paiz supersticioso nada faziam, sem 

» Yol. \.\ pag. 67. 



46 BA 

que se lhes pagasse: o theatro de S. Carlos achava-se excessivamente imman- 
do, e os oavintes completamente não entendedores de musica, pois applaa- 
diam exactamente o que nao o devia ser: a immundicie em Lisboa não era uma 
porcaria vulgar: a execução do pianista portuguez Bomtempo era milagrosa, 
porém não a sensibilisava no mais pequeno grau, pois seus defeitos pareciam 
proceder de falta de sensibilidade, e nunca existe um verdadeiro génio sem 
ella, motivo porque não podia concordar em considerar Bomtempo como um 
verdadeiro mestre na sua arte: se lhe dessem ouvidos a ella escriptora nenhum 
doente do peito iria para Lisboa, pela total carência de confortos n'esta cida- 
de «As ceremonias da Semana Santa chegaram n*este paiz a um tal extremo 
de farça ímpia e absurda, que sem se ver, toma-se impossível de acreditar, 
pois até nas ruas enforcavam Judas, e faziam procissões em que um homem 
representava de Abraham!» 

Jà por isto se faz uma perfeita idéa do resto. O livro do Maríanne ó digno 
de estar ao lado do de Ascensio Calvo. 

73) BAKER (M. A.) 

E. — A complete History of the Inquisition in Portugal, Spam, Italy, the 
East and West Indies in ali its branches, from the origin of it in the year 
1163 to its present State. Tllmtrated with many Genuine and curious cases of 
unhappy Persons imprison*d in that Holy (aliaz diabolical) Office. Particu» 
larly of Isaac Martin, an Englishman. Collected from the most authentick and 
impartial Writers, Popish, and Protestant and from original papers of Gm- 
tlemen that have resided many years in those countries, by the Reverend Mr- 
— . The whole imbellished with several plates representing their manner of 
punishment, etc. etc- etc. Westminster, 1736, 4.*», VIII, 532 pag. 

(Historia completa da inquisição de Portugal ... e da prisão do inglez Isaac 
Martin.) 

A estampa do rosto representa o tribunal da Inquisição de Granada, e v 
auctor trata também da prisão de Dellon, na Inquisição de Goa. 

D*esta obra ha um exemplar na Bibliotheca Publica do Lisboa. 

74) BALBI (ADRIEN) — Ancien professeur de géographie, de physi- 
que et de mathematiques, membro correspondant de TAthénée de Trevíse, 
etc. etc. Geographo celebre. 

Nasceu em Veneza no anno de 1782, e falleceu em março de 1848. 

E. — I. Essai Statistique sur le royaume de Portugal et d' Algarve, compa- 
re aux avires États de VEurope, et suivi d*un coup d'(BÍl sur Vétat actuei des 
Sciences, des lettres et des beaux arts parmi les Portugais des deux Hémis- 
pheres. Dedié a Sa Majesté Trcs-Fidéle par — . Paris, Chez Rey et Gravier, 
1822, 2 vol. 8.*» gr., o 1.» de 480 e o 2.» de 272 pag. alem de cccxlviii de in- 
troducção. 

(Ensaio estatístico sobre o reino de Portugal.) 

II. Varietés politíco-statistiques sur la Monarchie Portugaise, didiées a M. 
le Bm'fyu Alexandre de Ihmboldt, Associe étranger de rinstihit Rogai de Fran- 



BA 47 

ce^ Membre de VAcadémie Boyale des Sciences de Berlm, de la Societé Boyale 
de Londres, etc. etc. Paris, 1822, Chez Rey et Gravier, 8.<» gr. 232 pag. 
(Este Tolame trata do commercio, industria e estatística de Portugal.) 
O Ensaio Statistico de Baibi, apezar do decurso de taotos annos, ainda 
hoje é o melhor, que n*este género existe a nosso respeito, quer escripto por 
estrangeiros, quer por nacionaes. É obra que, apezar de algumas inexactidões 
censuradas pelo cónego Yillela, creou fama bem merecida para seu auctor, o 
qual teve a fortuna de conseguir do nosso governo, que lhe mandasse paten- 
tear os documentos, que estavam guardados em nossos archivos e secretarias. 
Balbi mostron-se agradecido, e na sua obra pretendeu mostrar que Portugal 
não estava em tão grande atrazo na civilisaçâo, como pretendiam alguns es- 
eriptores estrange;jros, pouco amantes das coisas portuguezas, ás quaes o es- 
eriptor genovez em muitas partes tece os maiores elogios. 

«Os portuguezes distinguem-se entre todos os outros povos por seus dis- 
veUos para com os estrangeiros, e fazem reviver aquelia hospitalidade, que os 
povos antigos punham em o numero dos deveres e virtudes mais subli- 
mes.» 

É curioso comparar esta passagem com o que a nosso respeito, pouco 
mais ou menos pelo mesmo tempo, dizia a ingleza Marianne Bailiie. 

«Póde-se dizer sem sermos accusados de exaggeraçào, que não ha talvez 
om só paiz na Europa, que conte mn maior numero de más descripçoes feitas 
por estrangeiros, e sobre o qual a ignorância ou a maledicência tenham es- 
palhado mais inexactidões e falsidades. Qual nâo foi o nosso espanto ao achar- 
mos n'am paiz, que nos tinham pintado como mais atrazado do que a Tur- 
quia, nm balanço geral do commercio feito annualmente desde 1755 até á 
actualidade por Maurício Teixeira Moraes, por um plano e com uma exactidão 
que dlfficilmente se encontra nos paizes mais civilisados da Europa? Quesur- 
preza nâo foi a nossa ao acharmos espalhados em differentes secretarias uma 
grande parte dos materiaes necessários para a redacção d'uma statistica» e 
alguns ensaios muitos felizes feitos já sobre a provinda do Minho, sobre a de 
Traz-os-Montes, sobre o Algarve^ e a respeito de algumas comarcas da Extre- 
madura e Alemtejo? Não ficámos menos pasmados, quando soubemos que al- 
guns portuguezes, dirigidos pelo seu compatriota, o hábil astrónomo Ciera, 
tinham desde 1793 até 1802 medido duas grandes bases na Extremadura com 
todo o rigor da geodesia moderna, para determinarem com exactidão o com- 
primento d*um grau do meridiano, e tinham feito a triangulação da maior 
parte de Portugal; que alguns sábios portuguezes tinham viajado por toda a 
Europa á custa de seu governo com o fim de examinarem os estabelecimen- 
tos litteraríos mais importantes, e de se aperfeiçoarem no estudo das scíencias 
natnraes; que alguns tinham percorrido em differentes direcções seus vastos 
estabelecimentos na America e na Africa meridionaes, e tinham feito recuar 
as balizas da mineralogia, da botânica e da zoologia por causa das novas es- 



48 B*"^ 

pecies que alli tinham descoberto: que algons governadores instruídos haviam 
redigido memorias mais ou menos sabias a respeito das capitanias geraes de 
Gabo Verde, Angola, Moçambique, e possessões portuguezas na índia, China, 
Oceania? Que o valor só dos productos das fabricas e manufacturas portu- 
guezas, exportados para além mar, se tinha elevado annualmente de 1795 a 
1807 até oito e dez milhões de cruzados? Que esta nação possuía jomaes com 
artigos tao interessantes, e escriptos com tanta eloquência^ que daria honra 
aos Malte-Brun, Gentz, Etienne, Benjamin Gonstant, e aos mais celebres pu- 
blicistas da Europa. 

•Todos quantos fallaram relativamente a Portugal até este dia, escreve- 
ram muito, e citaram poucos factos. É verdade que escrevendo n*uma época 
em que a nação é bem differente do que era outr'ora, por causa das circum- 
stancias politicas em que se tem achado, ha annos para cá, o quadro que 
apresentamos deve só por este motivo dífferir muito d'aquelles traçados por 
Dumouriez, Châtelet, Bourgoing, Garrère, Robert Southey, Murphy, Link, 
Gostigan, Ruders e Ebeling. As três invasões dos francezes em Portugal, a 
longa residência das tropas inglezas e o grande numero de offlciaes d'esta 
nação amalgamados no seu exercito, as ligações intimas e multiplicadas does- 
tas duas nações entre si, o grande numero de jomaes políticos e litteraríos, 
publicados desde 1807 em Hespanha e Portugal, e principalmente alguns jor- 
naes políticos e litterarios, dados á luz em portuguez fora do paiz, bem como 
os sábios trabalhos da Academia Real das Sciencias, os dos professores da 
Universidade de Coimbra, e de algumas escolas espcciaes, instituídas ultima^ 
mente em Lisboa e Porto, contribuíram muito para dar aos portuguezes o 
desenvolvimento manifestado nos últimos acontecimentos. Qualquer naçãa 
pôde ter grandes falladores, porque .basta só a natureza para os formar, mas 
é mister uma longa instrucção para ter oradores. Os que brilham actualmente 
nas Cortes por sua eloquência e profundo saber nas mais altas theorías da 
economia politica, e nos mais complicados ramos da administração, demons- 
tram victoriosamente aos detractores da nação portugueza que esta possuía 
muitas pessoas, que se preparavam no silencio, e cujo mérito só aguardava 
a occasião para se patentear. 

«Concedendo aos escriptores que nos precederam que falta ainda muito 
aos portuguezes para estarem ao nível dos francezes, inglezes, allemães, dina- 
marquezes, italianos ou suecos, em tudo que diz respeito ás fabricas, manu- 
facturas, commercio, navegação, agricultura, sciencias, artes, e dififerentes ra. 
mos de administração, não hesitamos em dizer que teem sido injustamente 
calumniados, e que estão muito mais adiantados n'este ramo, do que o esta- 
vam ha 40 annos. Em appoio d*esta asserção bastaria citar os eloquentes dis- 
cursos pronunciados no Congresso, todos tendentes a fazerem renascer o cre- 
dito publico, introduzindo a mais severa economia, e a maior ordem nas fi- 
nanças; a reorganisar a marinha militar, a animar a marinha mercante, a 
multiplicar os institutos litterarios e de instrucção publica, a dar melhor me- 
thodo ao ensino, e a dirigir a educação moral da mocidade, a animar a agri- 
cultura, o commercio, as pescarias, a navegação c a induslria. 



BA 49 

• • 

•Nós não hesitamos em dizer, ^ sem receio âe sermos accusados de par- 
cíalidâde, que as sciencias mathematicas, em toda sna extensão, e em todo 
sea aperfeiçoamento actuaes são perfeitamente conhecidas dos portngnezes, e 
moíto mais do que seriamos inclinados a acreditar á vista do pequeno nu- 
mero de obras publicadas sobre este assumpto ha 38 annos. 

«Todavia, se alguma coisa mais positiva fosse necessária para convencer 
os incrédulos, pedir-lhe-iamos tão somente que quizessem considerar que to- 
dos os mathematicos, que fazem o orgulho e a gloria dos portuguezes, se for- 
maram no paiz: que os 6 volumes das Memorias de Mathematica e Physica da 
Academia Real das Sciencias de Lisboa conteem algumas memorias, que pro- 
vam, até á evidencia, os profundos conhecimentos dos mathematicos portu- 
gueses; e que as Ephemerides Astronómicas para uso do observatório da Uni- 
versidade de Coimbra, e para o da navegação portugueza d*isso dão outra 
prova. Estas ephemerides, que se publicam todos os annos desde 1804, bem 
longe de serem (como diz certo viajante) uma reducção, ou uma copia do Al- 
manack do Observatório de Greenwich, são pelo contrario calculadas imme- 
diatamente sobre as taboas astronómicas. A distribuição engenhosa de seus 
numerosos artigos, os novos methodos, que apresentam para o calculo das 
longitudes sobre o mar, c para o dos eclipses, bem como vários outros me- 
fhodos particulares para a formação e verificação de alguns assumptos astro- 
nómicos, deram a esta obra uma justa superioridade sobre a maior parte das 
do mesmo género, e mereceram para seus sábios auctores a estima dos ma- 
thematicos mais distinctos da Europa, que tiveram occasião de a verem e 
examinarem.» 

«Se bem que os portuguezes foram ^ uma das ultimas nações, que se en* 
tregaram ao estudo das sciencias naturaes, não se deve por isso acreditar que 
ellas tenham sido, ou sejam ainda inteiramente desprezadas por elles. Ao con- 
siderarmos quão pouco o governo as tem animado, e a carência total de mo- 
tivos individuaes próprios a attrahir os homens de génio a entregarem-se a 
pesquizas longas e penosas, que não deviam conduzil*os quer às honras, quer 
aos empregos lucrativos, ha logar para nos admirarmos do numero conside- 
rável de portuguezes, que, sem mais estímulo que o amor da sciencía, se ele- 
varam a uma classe distincta entre os naturalistas da Europa. É verdade que 
à excepção de Manuel Ferreira da Gamara Bettencourt, de João António Mon- 
teiro, de José Bonifácio de Andrade, de Félix Avellar Brotero, de José Corrêa 
da Serra, póde-se dizer quo Portugal não conta quasi nenhum outro natura- 
lista, a quem se possa dar o nome d'um grande pratico, apezar de possuir 



' Adripn Balbi — E^sai SlatUtiqur^ vol. 2/, pag. xxxi\. 
2 Idem, pag. xLvii. 

TOMO 1 



so BA 

alguns, qao conhecem perfeitamente a parte theorica, na qual podem sustoa- 
tar comparação com os grandes homens das outras nações. 

«Não fiquei pouco surprehendido ao saber que o sábio Brotero, o illustre 
Corrêa da Serra, Magalhães (physico distincto, fallecido em Inglaterra na se- 
gunda metade do ultimo século), o celebre medico Sanches, o padre Loureiro 
(auctor da Flora Cochinchinensis) só deveram a seus próprios esforços os co- 
nhecimentos profundos, que adquiriram ou em sua pátria, ou no estrangeiro. 

• • 

«Ainda que Portugal ^ produziu alguns médicos, que adquiriram uma 
reputação distincta, taes como Amato Lusitano, Zacuto, Rodrigo de Castro, 
Ribeiro Sanches, e vários outros, é preciso comtudo confessar que antes dat 
grande reforma da Universidade de Coimbra, o plano de estudos em medicina 
era muito irregular e defeituoso para formar bons médicos. Desde essa ópoca, 
celebre na litteratura d'este paiz, a arte de curar, graças ao plano do curso 
de estudo^, que devem seguir todos, que para clles se destinam, tem sido 
exercido, e ainda o ó por alguns individues, que podem figurar ao lado dos 
maiores médicos da Europa. 

• • 

«A imparcialidade severa, á qual nos temos restringido, obriga-nos a con- 
fessar que os portugueses estão longe de terem feito nas sciencias geogra- 
phícas os progressos notáveis, pelos quaes se abalisaram os outros povos civi- 
iisados; facto tanto mais assombroso, quanto nos séculos xv e xvi esta nação 
possuía um grande numero de navegadores celebres, cujas descobertas im< 
portantes lhes mereceram um logar distincto na lista dos grandes navegantes 
no Annuaire des Longitudes. Mas, se não so applícaram os conhecimentos 
physicos e mathematicos á geographía d'este paiz e de suas vastas colónias na 
Chorographia poi tugueza da Europa e na do Brazil, estas duas obras não são 
comtudo inferiores em coisa alguma às obras estrangeiras contemporâneas do 
mesmo género, principalmente o Roteiro ou arte de navegar, do çosmographo 
Pimentel, e outra mais moderna de Melitão, onde os hydrographos inglezes e 
francezes beberam tantas noções exactas sobre todos os paizes percorridos e 
explorados pelos portuguezes. As geographias de Busching, Pinkerton, Gu- 
thrie, e Lacroix não conteriam tantos erros, a respeito de Portugal e suas pos- 
sessões, se seus auctores tivessem estudado as obras portuguezas, como o fi- 
zeram Ebeiing e Malte-Brun. 



«Nunca povo algum, apertado por limites tão estreitos, estendeu n'um mais 
curto espaço de tempo seu dominio por paizes tão vastos e tão distantes. Desde 
a gloriosa conquista de Ceuta (1415) até á atrevida expedição de Barreto c 

* Àdrieii Balhi — Essai Slalhliqvc^ vol. 2.", pa^. lxii. 



BA 51 

Homem (1573) ás minas de oiro de Manica e de Botaa no Monomotapa, este 
povo, animado d'ama actividade sem exemplo, descobre Madeira, Açores, Ca- 
nárias, ilhas de Gabo Verde, e as do golfo de Guiné, e n'aquellas paragens se 
estabeleceu. Explora e assenta numerosas feitorias ao longo da costa Occiden- 
tal d' Africa. Dobra o terr.vel cabo das Tormentas, e submette a seu domínio, 
OU faz tributários os príncipes mouros da costa oriental d*Africa. Arranca das 
mãos dos árabes a navegação e o commercio da índia e do mar Vermelho, 
em poder d'elle3 havia séculos. E assombrando os povos orientaes com pro- 
dígios de audácia e de valor, conseguiu estabelecer-se em Ormaz, Die, Damão, 
Goa, Bombaim, Gochim, Ceilão^ Meliapor, Malaca; e d'aqui rompe um cami- 
nho atravez do vasto archipelago das índias para Java, Borneo, Timor, Molu- 
eas, China, Japão, ao passo que outros navegantes tão intrépidos como babeis 
descobrem a Nova Hollanda, Nova Guiné, ilha Mindaiiao e outras terras, que 
formam o que se chama actualmente Oceania. 

75) BANDINI (ANG. M.) 

E. — Vespucci, Vita e lettere racolte e illustrate da — . Firenza, 1745. 
(Vida de Americco Vespucci.) 

76) BANDT (LEANDRO VANDER). 

E. — Joannes Bragantinus LusitanUs illegitimus Rex demonstratm a D, 
Joanne Caramuel Lobkowitz Dunensi Religioso,, Melrosensi Abbate et Cister- 
tientis Ordinis pei* Angliarrij Scotiam, Hiberniamque Progenerali translatus in 
idioma LcUinum a D. — . Lovanii, typis Everardi de Wilte, anno de 1642, 4.", 
220 pag. além de 16 folhas não numeradas, ás quaes se segue a versão em 
latim do manifesto do reino de Portugal. 

Este livro é ornado com o retrato de D. Francisco de Mello, marquez de 
Tor de Laguna, governador da Bélgica. 

Como é fácil de ver, esta obra não só é contraria á independência de Por- 
tugal, mas até insultante para os portuguezes. 

77) BARCA (PEDRO CALDERON DE LA) — Famoso poeta hes- 
panhol. 

Nasceu em Madríd no anno do 1601, e falleceu em maio de 1687. i 
Na coUecção de suas obras vem uma notável comedia íntitQlada El Prín- 
cipe Constante, da qual o nosso infante santo D. Fernando, filho de D. João I 
é o protogonista. Entram em scena D. Fernando, D. Henrique, c D. João, além 
d^outros personagens. 

Eis o que a respeito d*esta notável peça, uma das mais famosas de Calde- 
ron, nos diz Bouterweck : 2 

«É n*esta comedia de D. Fernando que o auctor ostenta todo o seu génio. 

' Firniin Didol — Nouvellc liiographie Généralc, vol. H^, p«ig 170. 
2 liistoire de la LiUnalurr Espagnole, vol. 2/', pa?. lUi. (Paris 181^). 



32 BA 

<Se n'ella a anidade de tompo e de logar é poaco respeitada, esqaecemo* 
nos d'isso em favor da anidade de acção, d'uma acção heróica» em qae Cal- 
deron soube empregar o pathetico mais verdadeiro, sem todavia se desviar 
do estylo da comedia nacional. D. Fernando, príncipe de Portugal é o heroe 
d'esta peça, á qual também se poderia dar o título de Regulo Partuçuez. Des* 
embarca na costa d'Africa á frente. d'um exercito acompanhado por seu ir- 
mão D. Henrique. Ataca os estados do rei de Marrocos, e fica vencedor na pri- 
meira batalha, na qual faz prisioneiro um heroe africano, chamada Muley. 

tEsto Muley, que está enamorado da filha do rei de Marrocos, conta sua 
historia ao príncipe, e este, cuja generosidade se commove por esta narração, 
dá liberdade ao seu captivo. Muley mal teve tempo de exprimir sua surpresa 
o reconhecimento, quando reforços chegados ao exercito inimigo o põem em 
estado de dar nova batalha, na qual D. Fernando é derrotado e levado capti- 
vo por sua vez. Começam aqui as scenas trágicas, que são preparadas poir 
lances enternecedorea d'uma outra espécie. O rei de Marrocos offerece*se a 
dar a liberdade ao seu prisioneiro em troca da fortaleza de Ceuta, que os por- 
tuguezes possuem na costa d*aquelle paíz. O príncipe declara que prefere mor- 
rer no mais cruel captíveiro ae ver uma cidade christã entregue aos infiéis 
por causa d'elle. O rei envia uma embaixada a Portugal para apresentar esta 
proposta, e calcula de tal modo que será acceíte, que trata seu captivo com a 
maior distincção até ao regresso de seus embaixadores. A resposta dos por- 
tuguczes é como elle a deseja, mas D. Fernando recusa ser resgatado por este 
preço. Tentam inutilmente vencer sua resistência á força de tormentos. Sup- 
porta os sem murmurar e com uma religiosa constância, mas seu corpo sue- 
cumbe finalmente, e morre inabalável. Os sofTrimentos e o heroísmo do prínci- 
pe, a lucta da religião e do reconhecimento no coração de Muley, que faz inúteis 
esforços para libertar seu bemfeitor, o amor doeste mesmo Muley áprínceza 
de Marrocos, que está promettida a um príncipe mouro, e o amor mais interes- 
sante ua sua exaltação melancólica d'esta princeza a Muley, tudo isto forma 
um todo tão commevedor, tão verdadeiramente poético, que os defeitos que se 
encontram n'esta peça, e para os quaes não pode haver dissimulação, são mui- 
to pouco notáveis para serem mencionados n*uma obra tão resumida como 
esta nossa. A acção parece terminada com a morte do príncipe, mas um novo 
exercito chega de Portugal, e o espirito de D. Fernando com um archote na 
mão, se poe á sua frente, e o conduz á víctoria. A impressão causada por es- 
ta apparição leva a seu auge o efTeito pathetico das scenas precedentes.» 

78) BARCLAY (WILLIAM). 

E. — Ije Portugal piltoresque et architectural dessiné (Taprès naiure. Pa- 
ris, 1846. 

(Porlupal Piltorrsco, ctc.) 
Nunca vi <'sta obra. 

7U) BARET (E.) — Ancien élcve de TÉcole Xormalc, professeur agregé 
au Lvcôe «io Poitirr?. 



BA 33 

E. — Éttuies sur la Rédaction Espagnole de UÁmadis de Gaule de Garcia 
Ordohez de Montalvo. Paris, Augaste Darand, 1853, 8.» gr., 203 pag. 

Obra consagrada à memoria de Mr. Ch. M. de Feletz, de rAcademie 
Française. 

(Estudos 3obre a redacção hespanhola do Amadis de Gaula.) 

Esta obra é destíDada para provar que o celebre romance de cavallaria 
Amadis de Gaula é de origem hespanhola, e não portogaeza: 

•Tasso não parece suspeitar nem da versão de Lobeira, ^ nem das preten- 



< «Foi na iQzida corte do mestre d'Aviz, onde achou a cavallaria de toda a Euro- 
pa o seu flomero, em Vasco de Lobeira. Como antes d'aquelle houve poetas, assim an- 
tes d'este houve romancistas; como llomcro cclypsou a memoria dos cantos de seus an- 
tecessores, assim Lobeira fez esquecer as mal tecidas invenções dos mais antigos novel- 
leiros, e o AmadU de Gaula é a primeira e principal novella no extensíssimo catalogo 
dos coDtus de cavallaria. 

•Poucas memorias nos restam acerca de Vasco de Lobeira. Sabe-se que foi natural 
do Porto, e armado cavalleiro por D. João I, antes de começar a batalha de Aljubai- 
rota. Viveu a maior parte da sua vida em Elvas, c morreu cm 1403. 

• Escrípto muito antes da invençAo da imprensa, o Amadis correu manuscripte até 
o tempo de D. João Y, porque os nossos antepassados nunca tiveram a curiosidade de 
o imprimir. Foram assim escasseando as copias d'eilc, e nos últimos tempos se havia 
tomado tão raro, que apenas se lhes conhecia um ou dois exemplares. 

«O conde da Ericeira, testemunha acima de toda a excepção, o viu, e o abbade Bar- 
bosa diz que o próprio original estava na livraria dos duques de Aveiro. O fatal terra- 
moto de 1755 fez desapparecer este monumento precioso da nossa liltcratura, e tudo 
nos incita boje a crer que se perdeu para sempre. 

*0 theatro, em que se passam as aventuras de Amadis de Gaula, é um theatro quasi 
tamanho como o mundo conhecido no tempo de D. João I. O heroe e os roais cavallei- 
ros seus contemporâneos cruzavam mares extensos, peregrinavam centenares de léguas 
ecMD a mesma rapidez e facilidade, com que nós fazemos visitas dentro de Lisboa; esta 
cemmodidade aproveitaram-na todos os novelieiros, que vieram depois de Lobeira; e 
l^ra as distancias, qu^ seria incrível fazer correr em curtíssimo praso a um cavalleiro, 
lá estavam as magas ou encantadoras, espécie de espada de Alexandre, que o escriptor 
sempre tinha á mão para cortar todos os nós gordios, que embaraçavam as suas narra- 
ções. 

•A época escolhida pelos romancistas de cavallarias para n*ella collocarem os seus 
heroes fabulosos é indeterminada em todas as novellas. A do Amadis, ainda que bastante 
ineerta, é menos vaga. O beroe viveu muito antes do celebre Artbur ou Arthus, rei do 
Inglaterra; mas já quando este paiz e o de Fiança eram chrisláos. Segundo isto, que se 
lé no 1 * capítulo do Amadis, este guerreiro floresceu no vi ou vii século; e, como a 
maior parte dos romances de cavallaria, que ainda existem, versam sobre a vida dos 
sens imaginários descendentes, podemos também para elles estabelecer, ainda que im- 
perfeitamente, nma espécie de chronologia.» (Panorama de 1838, pag. 124. Artigo at- 
tribaido ao sr. Alexandre Herculano). 

•Todas as três nações portugueza, hespanhola e franceza, pretendem para si esta 
novella; e na contenda os portuguezes parecem estar peíor que os seus adversários, visto 



54 BA 

ções dos portQgaezcs; é à Hcspanha que deve pertencer a honra de ter erea- 
do sobre um thema antigo uma composição original. 

«É certo ter existido uma versão portngueza do Amadis de Gaula. A pro- 
va resulta d'um conjuncto de testemunhos formaes. !.<" Gomes Eannes de 
Azurara na Chronka do conde D. Pedro. 2.<> Diogo Barbosa Machado na Bi- 

bliotheca Lusitana. 3.° Uma poesia de António Ferreira. 4.° Garcia d<B Resen- 
de, no Cancioneiro. 

•Eis os únicos testemunhos authcntícos allegados em favor da origem 
portngueza do Amadis de Gaula. D'esta fonte dimanam todas as opiniões dos 
críticos modernos favoráveis a esta origem. 

«Não é sem espanto que se vô em 1550 mesmo a corte de Portugal bem 
pouco firme a respeito da origem d'este romance, para attribiiir a composi- 
ção d'elle, não já a Lobeira, mas a um príncipe de sangue real. 

•Ouçamos a narração de D. Luiz Zapata, embaixador de Hespanha em 



já n&o existir o original. Mas ao cabo s2o ellcs que teem razão, segundo nosio entender; 
e por isso ndo duvidámos ds aUribuir o Amadh a Vasco de Lobeira. 

•O rei Perion reinava na Gaula (França); o rei Garínter na pequena Bretanha, boje 
a província de França d*esle nome. Levado pelo desejo de conhecer Garinler intenta Po- 
rion uma longa viagem; c com effeito o encontra n'uma caçada; dSo-se a conhecer um ao 
outio, e Perion é conduzido á corte do seu novo amigo. Tinha esle uma filha chamada 
Elisena, que se namora de Perion, o qual dahi a pouco parto para a Gaula, deixando-a 
gravida. EUa para esquivar-se á infâmia entrega o fruclo dos seus amores á mcrcé das 
ondas, encerrado em uma caixa. Foi esto Amadii. Encontrado por uma barca, em que ia 
Gandales, cavalleiro escocez, este o salva, e cria com seu filho Gandalim, depois escu- 
deiro de Amudis. Os dois moços sào levados á côrle de Languines, rei de Escócia. Aqoi 
viu a Amadis cl-rei Lisuartc, que de Dinamarca vinha reinar em Inglaterra, o qual dei- 
xou na corte de Languines a sua filha Oriana. Foi cnUlo que começaram os amores 
d'c8ta princeza com Amadis, que são o principal objecto da novclla. Amadis ó reconbo- 
eido por seu pae Perion^ já casado com a filha de Garinter; o cro.^ce em poder o renome. 
Mil difficuldades se levantam para ellc chegar a possuir Oriana, as quaes vcnco com re- 
petidos actos de generosidade e valentia. Emfim o romance ac«iba de um modo incom- 
pleto coro os trabalhos, que nos últimos annos cercaram a cl-rei Lisuaile. 

•É esta, em summa, a matéria que enche o volumoso romance de Amadis, novella 
cheia de muitas paginas fastidiosas, mas tambcni de muitas, que grandemente excitam 
a curiosidade. O cstylo era que está oscripto, é o do uma velha chronica do xv socolo, o 
notámos n'elle uma grande similhança cora os escriptos do pae da nossa historia, o síd- 
gello chronista de D. João I, Fernáo Lopes, que tantas vozes se mostra mais poeta, que 
muitos, que se arrogam esle ti4ulo. 

•Traçando um levo esboço da novella de Amadis de Gaula, scguc-se o tratar a ques- 
tão de saber se a devemos attribuir a um escriptor portuguez. 

«Primeiro que tudo ó de notar que a tradição constante em Portugal foi sempre que 
o Amadis fora composto por Lobeira. 

«Pretendem os francezes (não todos os que na matéria teem escripto) que esta no- 
vella fora traduzida em bespanhol do idioma Picardo, e Herberay diz a vira n^esta lín- 
gua; mas isto nada prova. Quem impedia que os francezes traduzissem o original de Lo- 
beira? A outra objecção contra nós é ter feito o aurlor os seus heroos francezes e ingie- 



BA S5 

Lisboa, por aquella época: (Miscellanea onginal, na Bibliotheca Real, códice 
citado por D. Juan Pellicier). Entre outros grandes personagens, qae se teem 
distingaido como escriptores, mencionarei, diz elle, D. Fernando, segando 
dnque de Bragança, auctor do Amadis de Gaula. É a opinião assente na fa- 
mília real portugneza, e eu mesmo a ouvi da bocca da sr.* D. Gatharina. E 
bem me parecia que uma obra tão alta e tão nobre devia ter saido d'ama 
raça illustre, e não podia pertencer a um homem vulgar. 

iO licenciado Jorge Cardoso afflrma que Pedro de Lobeira traduziu do 
francez a historia de Amadis, por ordem do infante D. Pedro, filho do rei 
D. João I. 

«É verdade que Barbosa não cita a opinião d'este auctor, senão para a 
taxar de errónea. Este facto não testemunha menos a incerteza dos portu- 
guezes, e prova que no tempo de Cardoso (i650) existia uma opinião, que at- 
tribuía à França a composição do Amadis. 



tes: mas isto lambem nada prova; porque prova de mais. Os inglezes teriam aíoda mais 
razão para pedirem a gloria d'esta obra, visto que, apesar de ser franceza a persona- 
gem principal, a maier parte dos acontecimentos põe-os o auctor na Inglaterra, e quasi 
todos os ravalleíros notáveis são d'este paiz, á excepção de Amadis e seu irmão Galaor. 

•O certo é que Lobeira tendo vivido no tempo d'el-rei D. Fernando I e de D.João I 
tinha visto as proezas, que em Portugal obraram os cavalleiros inglezes. Devia elle fazer 
portanto alta idéa da cavallaria d'aquella nação. Nada havia mais natural do que fazer 
dâ Inglaterra o theatro das façanhas dos seus imaginários heroes. Como porém o agente 
principal de todos os successos devia ser o amor, naturalissimo era que o auctor buscasse 
am principe estrangeiro, que viesse tornar brilhante a corte ingleza, com seus amores 
pela dama principal, a filha de Lisuarte, que não poderia aliás corresponder á alfeição 
d'Qm sobdito de seu pae. Eis a razão obvia, porque Amadis é francez. 

•Além d'e8tas observações ha uma principal, o examinar em si a novella para vér 
se das soas próprias entranhas se podia arrancar a certeza da sua origem. 

• GarcíordoDei diz — emendara os três livros de Amadis^ que andavam mui vicia- 
dos, e trasladara o quarto; —aqui o verbo trasladar ^ é claro, que não pôde significar 
senão traduzir, o que mostra a olhos desapaixonados que a obra não era originalmente 
bespanbola. 

«Seria franceza? Dizemos sem duvida alguma que não. Perion encontrando Garínler 
diz-lhe que viera de mui remotas terras para o vér. Era possível acaso que um escriptor 
francez fizesse o rei da Pequena Bretanha desconhecido do da França, e pozesse na bocca 
d'este mn tão descompassado erro geographico? Além d'isto Perion e Lisuarte reúnem 
cortes, nos casos difficeis e circumstancias importantes: n'estas cortes apparecem não os 
barões das antigas assembléas feudaes da Inglaterra e França, mas os ricos homense ho- 
mens bifns nas cortes portuguezas. Emfim o anctor descreve a passagem do canal de In- 
glaterra como nma viagem de nove dias com vento favorável. As frequentes relaeOes de 
gaerra « de paz entre a Grã Bretanha e a França permittiam por ventura que ignorasse 
um escriptor francez a distancia de um a outro paiz?» (PanorarM de 1838, pag. 110.) 

A pag. 6 do roe:»mo jornal de 1840, confirma o sr. Alexandre Herculano quanto lia- 
via dito acerca do Amadis de Gaula, e accresceota um trecho da Chronica do Conde D. Pe' 
dro composta por Gomes Eannes d'Azurara. (Gap. 63 ) 



«Do todos 03163 factos reanidos qual a conclusão legitima, que se pôde 
tirar? A existência pelos fins do século xiv diurna versão portugueza do Ama- 
dis de Gaula, acerca de cuja origem e auctor os próprios portugueses não 
estão concordes, mas que se pôde todavia altribuir com mais probabilidade a 
Tasco de Lobeira. Hoje esta versão, que parece nunca ter sido impressa, des- 
appareceu. Resta pois a importante questão de saber até que ponto ella servia 
ou não, de modelo á versão de Montalvo, a mais antiga, que subsiste hoje. 
Esta questão será implicitamente resolvida, se nós provarmos que anterior- 
mente a Vasco de Lobeira circulava já na Uespanha um romance de Âmadis. 

«A antiga Litteratura Castilhana contém duas allusões importantes áhis^ 
toria de Amadis. Acha-so a primeira n'um poema de Pedro Lopez de Ayala, 
auctor estimado da Chronica de quatro reiímdos. Feito prisioneiro em 1^7, 
na celebre batalha de Najera, na qual empunhava o estandarte da ordem da 
Banda, e levado para Inglaterra, Ayala compoz durante seu captiveiro uma 
espécie de poema moral intitulado: El rimado palacto, O poeta lamentando 
os erros de sua mocidade, exprime-se assim na estancia 162. 

Plegomi otrost oir muchas vogadas 
Libros de devaneos o mentiras probadas, 
Amadis o Lanzarote^ o burlas a sacadas, 
En que perdi mi tiempo a mui malas jornadas. 

«Depois de se ter involvido muito activamente nos acontecimentos d'este 
século tão fcrtil em agitações, o chanceller Ayala morreu em Calahorra em 
i407^ na edade de 75 annos, o que faz descer até i342 o anno do seu nas- 
cimento. Ayala tinha pois 25 annos na época da batalha de Najera. Tomando 
paite no partido de Henrique de Transtamara, o qual desde 1359 estava em 
lucta com seu irmão Pedro, o Cruel, quasi que nos não podemos enganar, 
suppondo que este chanceller, que escreveu com tão grande exactidão a narra- 
tiva d'esta lucta fraticida, esteve bem occupado desde o princípio para não de- 
signar o espaço de 1359 a 1367 como um tempo de ociosidade, occupado uni- 
camente de leituras frívolas. 

«A época em que elle se entretinha a ler Lancelot e Amadis, foi sem du- 
vida a da sua adolescência, quando, simples pagem ou escudeiro, bebia n'es- 
tes romances, ^ como todos os nobres d'aquelle tempo, as idéas dos deveres 



^ Amadis de Gaula, Este romance, cujas quatro primeiras partes principalmeate 
teem grande merecimento, tiveram no século xvi uma aceitação prodigiosa, e que não 
excede talvez aqnella, que em nossois dias coroou as producções justamente celebres do 
fecundo e admirável auctor do Waverley. Publicados primeiramente em Uespanha, e por 
diversos escriptores, que se não nomearam, os Amadis não transpozeram facilmente os 
limites da península, e foi até necessária a residência, que fez n'este paiz o illustre pri- 
sioneiro de Pavia, para nos fazer conhecer este romance, cheio de attractivos. Mas desde 
que a pedido do monarcha francez tornado livre, o senhor des Essarts transportou para 
a nos^a língua a engenhosa ficção Ibérica, a obra passou bem depressa para ItalUi, Al- 



BA ifí 

d'iun gentil cavaileiro. É pois permittido concluir que uma versão do Amadis 
que desde 1360, pelo menos circulava na Uespanha conjunctamente com o 
Lancdot, devia necessariamente ser redigida n'este paiz muito tempo antes, 
provavelmente desde o começo do século xiv, talvez mesmo desde o xiii. 

«Dar*se-ba o caso, vista a extrema analogia dos idiomas portuguez e hes- 
paphol n'aquella época, que Ayala designe, sem a nomear, a versão de Lo- 
beira? De nenhum modo: eis aqui as razões. 

«Machado, concordando n'isto com as cbronícas portuguezas refere que 
Vasco de Lobeira foi armado cavalleiro na occasiào da batalha de Aljubarrota 
pela própria mão do rei João I. No tempo, em que as leis da.cavallaria esta- 



lemaoba, Inglaterra, e até mesmo para a Hollanda, e apparecea successivamentn no 
idioma próprio de cada um doestes paizes, mas com dilTerença^ e continuações. 

O primeiro auctor d'este celebre romance, aquelle, a quem somos devedores dos qua- 
tro primeiros livros, não é bem conhecido. Segundo António, que adopta a este respeito 
as tradicções conservadas em Portugal, seria um portuguez chamado Ya«co de Lobeira. 
É esta a opinião seguida mais geralmente, não obstante o testemunho contrario de Ni- 
colau de Herberay, senhor des Essarts, que no começo do prologo collocado por elle em 
frente da sua traducção do primeiro livro de Amadis^ exprime-se d'esta sorte: «È bem 
certo que elle esteve primeiro em nossa lingua franceza, sendo Amadis francez, e não 
hespanhol. £ de que assim fora, encontrei ainda alguns restos d'um velho livro escripto 
á mão em linguagem Picarda, pelo qual julgo que os hespanhoes fizeram uma traducção.* 
Esta asserção do senhor des Essarts pareceu concludente a Mr. de Tressan; mas não é 
admittida pelos bons crilicos, que em nenhuma parte encontraram o menor vestígio d'esse 
original em lingua Picarda, citado pelo traductor. A opinião favorável a Lobeira foi sus- 
tentada acaloradamente no Journal de Paris, no anno de 1779 e no Esprit des Journaux 
em setembro de 1779, por Cocbu, litterato fallecido no principio do corrente século. 

EDIÇOE» EM HE8PAMHOI« 

Salamanca, 1519. Desconfia-se porém haver uma edição anterior, de 1510, impressa 
oa mesma cidade. 
Saragoça, 1521. 
Sevilha, 15i6 
Sevilha, 1531. 
Veneta, 1533. 
Sevilha, 1535. 
Sevilha, 1539. 
Medina dei Campo, 1515. 
Sevilha, 1517. 
Lovaín, 1551. 
Sevilha, 1552. 
Burgos, 1563. 
Burgos, 1587. 
Salamanca, 1575. 
Sevilha, 1575. 
Alcala de Benares, 1580. 
Sevilha, 1580. 
Madrid, 1888. 
Barcellona, 1847. 



»8 BA 

vam cm pleno vigor, ningaem podia ser armado cavalleiro antes da edade de 
21 annos completos. Mas na decadência da instituição foi-se pouco severo para 
com este principio. Na véspera d'um cerco, d*uma batalha, quer para augmen- 
tar o numero dos combatentes, quer para estimular o ardor dos escudeiros, 
ou em algumas occasiões solemnes, taes como as de coroações, casamentos, 
viu-se conferir o titulo de cavalleiro a mancebos, que não tinham passado por 
todas as provas da ordem. Esta circumstancia da occasião mesma da batalha 
— ao estar para dar-se batalha faz nascer uma forte presumpção de que em 
1385 Vasco de Lobeira, que se distinguiu cedo como cavalleiro, tinha talvez 
menos de 20 annos. Gomo admittir então que possa ser o auctor d'um livro, 

La Scrgas dei virtuoso cavallero Esplandiano^ hijo d'Amadis de Gaula. Toledo, 1521. 

O mesmo liyro. Salamanca, 1525. 

O mesmo livro. Burgos, 1526. 

O mesmo livro. Sevilha, 1526. 

O mesmo livro. Caragoça, 1587. 

O mesmo livro. Burgos, 1587- 

O mesmo livro. Alcalá, 1588. 

Sexto libro de Amadis de Gaula, en que se cuenlan los grandes fechos de Florisando, 
Salamanca, 1510. 

O mesmo livro. Salamanca, 1526. 

El septimo libro de ÂmadiSj en el qual se trata de los grandes fechos cn arma de Li- 
suarte de Greda fijo de Esplandian y de ferion de Gaula. Sevilha, 1525. 

O mesmo livro. Toledo, 1539. 

O mesmo livro. Sevilha, 1548. 

O mesmo livro. Lisboa, 1587. 

O mesmo livro. Tarragona, 1587. 

El oitavo de Amadis^ que trata de las estranas aventuras y grandes proezas de su 
nieto Lisuarte, y dela muerte dei Rey Amadis. Sevilha, 1526. 

El noveno libro... que es la chronica dei muy valiente y efforçado príncipe y caval- 
lero de la Ardiente espada Amadis de Grécia. Burgos, 15o5. 

O mesmo livro. Sevilha, 15i2. 

O mesmo livro. Medina dei Campo, 1564. 

O mesmo livro. Valência, 1582. 

O mesmo livro. Lisboa, 1596. 

Don Florisel de Niquea. La Crênica de los muy valienles y esforçados y invencibles 
cavaUeros dõ Florisel de Niquea y el fuerie Anaxarles: hijos dei muy excelente príncipe 
Amadis de Greda. Valladolid, 1532. 

O mesmo livro. Sevilha, 1546. 

O mesmo livro. Taragona, 1584. 

O mesmo livro. Caragoça, 1584. 

Parte tercera de la coronica dei muy cxcMenle príncipe don Florisel de Niquea, tlc, 
Sevilha, 1546. 

O mesmo livro. Évora. 

Don Florisel de Niquea, La primera parte de la quarta de la chronica dei cxcelen* 
ti ssimo príncipe don Florisel de Niquea. Salamanca. 1551. 

O mesmo livro. Çáragoça, 1568 

Libro segundo de la quarta parte. Salamanca, 1551. 



BA B9 

qno Ayala, o qaal também assLstiu a esta batalha do Aljubarrota, e D'ella feito 
prisioneiro pela segunda vez^ declara ter lido antes de 1360 ? 

«Púde-se chegar á mesma conclusão por uma outra maneira. Tomando 
sempre como data certa a existência d'um Amadis no anno de 1360, suppo- 
nho qne Vasco de Lobeira fosse auctor d'este romance, o que o tivesse aca- 
bado na edade de 25 annos. Tinha então pelo menos âo annos desde 1300, 
o que levaria a 1335 a data do seu nascimento, que é desconhecida. Ora, por 
conGssão dos portuguezes, só em 1385 é que foi armado cavalleiro. !Nào teria 
â vista d'isto recebido este titulo, scnuo em a edade de 50 annos, o que vero- 
similmente nao poderíamos admitlir. 

<É pois permittido asseverar que existia na Hespanha uma traducçao do 



O mesmo livro. Çaragoça, 15G8 

Tercera parte de la quarla. Salamanca, 157)1. 

Dozena parte dei invincible cavallero Amadis de Gaula, Sevilha, 1516. 

O mesmo livro. Sevilha, 1549. 

EDIÇÔEH EM FRANCEZ 

Us livres I à XII dWmadis de Gaule, Paris, 1510-1556. Reimpressos de l'>i3 .i 
t559 

Os mesmos livros. Paris, 1518 a 1500. 

O XIII livro. Paiis, 1571. 

O XIV livro. Paris, 1574. 

Livros I a XII. Paris, 1557, 12 vol. 

Ltoro XII. Avignon, 1557. 

Ltrroí J a XII. Anvers, 1501. 

Os mesmos livros. Anvers, 1572. 

Litro XIII, Anvers, 1572. 

Livro XIV. Anvers, 1574. 

Livro XV. Anvers, 1577. 

Livros I a XII. Lyon, 1575, 12 vol. 

Os mesmos livros. Lyon, 1577. 

Livro XV. Lyon, 1577. 

Livros XVJ, XVII, XVIII, XIX, XX, XXI. Lyon, 1577-1582 C vol. varias vezes 
reimpressos. 

Livros XXII, IXIII, XXIV. Paris, 1615, 3 vol. 

Tresor de tous les livres d^Amadis. Lyon, 1582, 3 vol., 1605, e 1606. E varias outras 
cdicde». 

Os mesmos livros. Anvers, 1574.- 

EDlÇAo EM IT%UAlliO 

Yinelia, 1546 a 1591. 

BDIÇAO EM ALLBMÂO 

Francfort am May o, 1583. 

EDlçAo EM HOLUtliDEZ 

Utrecht e Dordrecht, 1619 a 16H, 6 vol. 

EDIÇÕES EH I.VttLES 

London, 1619. 

Traducçao de Robert Southey. London, 1803, iiQl.-- Extradado do Manuel du 
Libraire, par Brunet. Edição de 1866. 



60 BA 

Amadis de Gatda, anterior á versão portagneza. Uma curiosa passagem do 
texto hespanbol acabará de dar o caracter da certeza. 

«O personagem de Amadis distingue-se entre tantos heroes cavalheirescos 
por nma lealdade a toda a prova, e pela mais escrupulosa fidelidade. 

«As aventuras de sua vida errante levam-no a restabelecer sobre othrono 
de seus pães uma joven princeza por nomeBríolania, a qual muito encantada 
da belleza e valentia de Amadis, namora-se do cavalleíro com uma viva pai- 
xão, e não aspira a mais do que pol-o de posse de seu reino e de sua pessoa. 
Mas todas as coroas do mundo não poderiam distrahir Amadis do pensa- 
mento da sua querida Oriana. Os votos de Briolania não Toram escutados. 

«Tal era, segundo parece, a respeito d'6ste ponto delicado a lição cons* 
tante da velha historia. 

«No emtanto o infante D. Affonso de Portugal, filho natural de D. João I, 
príncipe instruído, de génio cortez e galanteador, fez-se o campeão da triste 
Briolania. Indignado com a insensibilidade de Amadis, exigiu que liobeira, 
de quem era protector, modificasse esta passagem do velho romance, e resti- 
tuísse a felicidade á bella princeza, á custa da infidelidade de Amadis. 

«Esta interpolação da versão portugueza é notada por Montalvo, e censu- 
rada com tanta gravidade, como se se tratasse da historia mais importante, e 
authentica — Amadis dió enteramente á conocer que las angustias e dolores 
eon las muchas lágrimas derramadas por su senora Oriana, no sin gran leal- 
tad las passava; aunque el senor infante Alfonso de Portugal, aviendo pietad 
d*esta hermosa donzella, de otra guisa lo mandasse poner, en esto hizó lo 
que su merced fué, mas no aquello que en efecto de sus amores se escrivia. 
De outra guisa se cuentam estes amores, que con razon a ellos dar fé se deve. 

«Mais longe o escrupuloso auctor depois de ter acabado a narração d'esta 
aventura, cré dever ainda accrescentar: —Todo lo que mas desto en este li- 
bro primero se dize de los amores de Amadis e doesta hermosa reyna fué 
acrecentado, como ya se os dixo, etc. 

«Esta passagem decisiva não carece de commentarios. Attraiu e devia at* 
trair a attenção dos melhores críticos. O mais judicioso e authorisado de todos 
sir Walter Scott d'ahi concluiu a existência certa d'um oríginal hespanhol, 
muito anteríor á versão de Lobeira — Parece nos evidente por esta passagem 
notável, que a obra, de que se occupava Lobeira, debaixo dos auspícios do 
infante D. AíTonso, seu protector, deveu ser necessariamente uma traducção 
mais ou menos livre de alguma obra antiga. Se o Amadis tivesse sido parto 
próprio da imaginação de Lobeira, teria este auctor certamente experimentado 
repu^ancia em prejudicar a imagem da perfeição ideal, que traçara no seu 
horotí, em coRsideração da compaixão exquisila de seu protector para com a 
bella Briolania; mas não fazia nenhum sentido dizer que fizera uma interpo- 
lação no texto verdadeiro (allusão ao dito Montalvo aqtiello que en efecto se 
escrevia) se não houvesse tirado sua historia de algumas narrações indepen- 
dentes dos recursos de sua própria imaginação. 

«Encontram-se também no Cancionero fie Baena algumas allusões a uma 
antiga versão do Amadis. A mais importante é contida n'uma peça de Perro 



BA 6i 

Fen^z dirigida a Lopes de Âyala exhortando-o a proseguir na gloria das 
armas, sem receíar nem fadigas nem perigos.» 

Eis o qne diz Baret. Parece porém qne o assnmpto é de origem franceza, 
e mnito antigo, mas que o romance formado sobre este assumpto é de origem 
portugneza, embora se tivesse perdido o original. Quem ignora que ainda te- 
mos hoje em Portugal e nas bibliotheças estrangeiras um grande numero de 
manuscriptos ímportantissimos, que nunca foram impressos, e também em ris- 
co de se perderem para sempre? Quem não sabe que o Cancioneiro d'el-rei 
D. Diniz ainda existe quasi todo inédito na Bibliotheca do Vaticano, e que na 
de Évora existe o Esmeraldo de Duarte Pacheco Pereira, para não fallar de 
muitos e muitos outros inéditos importantíssimos? 

80) BARETTI (JOSEPH) — Secrelary for foreign Correspondence to 
the royal Academy of PaintiDg, Sculpture and Architecture. 

E. — A Joumey from London to Génova through England; Portugal, Spain 
and France, by — . la four volumes. London, 1780, 8.» 

(Viagem de Londres a Génova, atravez da Inglaterra, Portugal, etc.) 

O auctor esteve em Portugal no anno de i760. Diz que os portuguezes 
sâo muito ricos de dinheiro e jóias (L pag. 97): que as manufacturas são in- 
signiflcantes, e as únicas coisas, que o paiz produz em abundância, são limões, 
laranjas e vinho. Dá noticias muito circumstanciadas das ruinas do terramoto 
em Lisboa. 

Baretti encontrou uma vez o patriarcha na rua, e eis como elle nos des- 
creve o seu séquito: 

tAbriam a marcha dois coches cheios de padres; seguiam-se cincoenta 
creados de libré, caminhando a dois e dois (pag. i53). Ui& padre a cavallo 
levava a cruz. Seguiam-se sete coches. Os dois primeiros conduziam offi- 
ciaes ecclesiasticos, e no terceiro ia o patriarcha com seu mestre de cerimo- 
nias. De cada lado marchava um padre a pé, levando uma espécie de umbel- 
la. Seguia-se o coche doestado vasio, tão rico, que a rainha Semiramis não o 
julgaria indigno de ir n'elle. Atraz iam aiuda três coches cheios de oíficiaes. 

<E que sentia o patriarcha? Conforme as palavras de Petrarcha — Stavasi 
tiUto umile in tanta gloria.* 

81) 6AHLAEI (GASPARIS) — Poeta, theologo e medico. 
Seu nome sem estar alatiuado é Gaspar vau Baerle. 

Nasceu em Anvers no anno de 1584, e falleceu em Amsterdam no mez de 
janeiro de 1648. i 

E. — Rerum per octennium in Brasilia et alibi nuper gestarum sub Prae- 
fectura Ulustrissimi Comitis L. Mauritii, Nassoviae d&c. Comitis, nunc Vesa- 
liae Gubematoris et Equitatus Fcsderatorum Belgii Ordd. sub Auriaco Dueto- 
ris Historia, Amslaelodami. Ex Typographeio Joannis Blaev. 1647. foi. max. 

» Firmin Didol — Nontelle Biograpliie Uniteneilej vol 4.", p'ag. Uíí. 



62 BA 

340 pag. com grande numero de estampas. 2.* edição, 8.° Clóvis ex Offieina 
Tobiae Silberling, 664. 

(Historia dos saccessos occorridos pelo espaço de oito annos no Brazil, de- 
baixo do governo do conde S. Maurício de Nassau, etc. 

De cada uma d'estas edições existe um exemplar na Bibliotheca Publtea de 
Lisboa, onde servem de pasto à traça, tão numerosa n*aquelle estabelecimento 
que julgo já impossível exterminal-a. 

cComo escríptor de mentos superiores se nos apresenta ^ nos dois annos 
de 1637 e i638, e nos seis seguintes até 1644 o bollandez Gaspar van Baerle, 
mais conbecido com o nome de Barlaeus, na bistoría qne escreveu da admi- 
nistração e feitos de Nassau em Pernambuco. Preclaríssimo poeta, assim na 
lingua bollandeza como latina, cujos primorosos versos, comparados aos me- 
Ibores da antiguidade, lhe grangearam muita nomeada, agudo theologo pro- 
testante, penetrante philosopho, e distincto doutor em medicina, consagrou 
Barleus os seus últimos annos a essa historia, que publicou em Âmsterdam 
em 1647. 

«Â Latiníssima Historia dos oito annos do governo de Nassau, por mais que 
corram os séculos, será sempre um livro importante e digno de consultar-se. 
Só depois que tivemos occasião de folhear detidamente a correspondência of- 
ficial do mesmo Nassau^ é que nos convencemos que Barleus a tivera egual* 
mente presente, e se aproveitara d*ella com o devido critério; sendo que, co- 
mo panegyrista d*esses oito annos pouco se lhe poderá acrescentar. Para ser 
porém considerado como historiador imparcial d*esse período, faltou-lhe obe- 
decer ao preceito — audietur altera pars. 

«E o mais é que o haver o auctor deixado de consultar alguns documentos 
ou auctoridades do lado dos nossos foi causa das muitas incorrecnocs, que a 
obra contém nos nomes próprios e geographicos portuguezes c do Brazil.» 

82) BARNARD (LIEUT). 

E. — Three years Cruise in the Mozambiquc Channcl. 
(Três annos no cruzeiro do canal de Moçambique.) 
Não tive occasião do ver este livro. 

83) BARROW (JOHN) — Compilador. 

Nasceu cm Inglaterra, e falleceu no fim do xviii século. 2 

Escreveu uma obra em inglez, que foi vertida para francez com o titulo 

seguinte: 

Ahregé Chronologique ou Histoirc des découvertcs faites par les Européem 

dans les diferentes parties du Monde, extrait des rélations Ics plus exactes et 

des voyageurs les plus veiidiques. Traduit de VAnglais par Targe. Paris, 1766, 

12 vol, 8/^ 

' Sr. Varnbagen — Historia das lulas com oshollandc:es no íirazV, pop xii. 
- Firmin Didol — ^ouvdlc fíint/raphif VniterscUc, vnl. I.", pap. :íÍ»í). 



BA 63 

(Resumo cbronologico das descobertas feitas pelos europeus, nas diversas 
partes do mundo. 

Se bem que esta obra não trata exclusivamente das viagens feitas pelos por- 
tugnezes, todavia merece ser mencionada, pois n'esta collecção apparecem com 
minuciosidade as gloriosas descobertas, viagens e peregrinações dos nossos. 

O volume i.° começa pela viagem de Colombo, e de suas relações com os 
portuguezes, viagem que se estende de pag. i até 242, onde começa a de Vas- 
co da Gama, baseada no que escreve Jeronymo Osório, terminando esta a pag. 
294, onde principia a de Pedro Alvares Cabral, para findar a pag. 329. 

Tomo 3," Viagem de Fernão de Magalhães, de pag. 318 a 373. 

O tomo 4.<' não contém nenhuma viagem feita por algum portogucz: traz 
as dos estrangeiros Drake, Raleigh, Cavendish^ Van Noort, Spilbergen, Schou- 
ten, Lemaire, Rowe, mas em compensação rara é a passagem, em quo se não 
faj; menção dos portuguezes. Por toda a parte estes appareciam para porem 
estorvos áquelles que nos queriam roubar o sceptro do mar! 

No emtanto as forças portuguezas não podiam chegar para tudo, e o odío 
que 08 indígenas nos tinham era grande, e a passagem seguinte bem o com- 
prova: 

< A 24 de novembro os inglezes commandados por Drake chegaram ás 
Molucas, com o fim de irem a Tidore: mas foram desviados d'este seu desí- 
gnio pelo vice-rei de Temate, que veiu ousadamente a bordo para lhes dizer, 
que o rei d*esta ilha queria commerciar livre e cordealmente com elles, e 
tornar-se seu amigo, comtanto que não fossem a Tidore, porque residiam alii 
os portuguezes: que os odiava de morte, e não se podia resolver a ter com 
elles algum commercio, ou com áquelles que se ligassem com elles.» ^ 

Tomo S."» Historia da descoberta e das guerras do Brazíl por Mr. Jean Ni- 
Inhoff, de pag. 222 até 434. É a historia da derrota dos hollandezes n*este 
paiz, e de como os portuguezes os expulsaram de vez. 

Se no tomo 4."* quasi que se não encontrava uma folha, em que se não tra- 
tasse de portuguezes, no G.*" quasi que se não encontra uma linha^ em que os 
nossos não entrem em scena. Contém este tomo os segumtes assumptos. 

I. Descripção das índias orientaes, por Mr. NienhoíT de pag. i a 210. 

II. Viagem do capitão Abel Tasman, em descoberta dos paizes banhados 
pelo mar do Sul, de pag. 211 a 238. 

III. Descripção das costas de Malabar e de Coromandel por mr. Baldaeus. ^ 
N'e8ta viagem de, pag. 239 a 333, vem uma descripção da cidade de Goa, 

a respeito da qual, entre outras, coisas se diz o seguinte: 

«Goa foi conquistada por Afi^onso d' Albuquerque, cujo nome é bem conhe- 

< Barrow — Histoire des découvertes, vol. 4.^ pag. 2. 

^ Pbilippo Baideud, missionário hoUandez, vivia na segunda rocladc do scculo xvii. 
Hrmin Didot— Noucclh Hiographie Universelle^ vol. 4.*, pag 254. 



64 BA 

eido n'esta parte do mundo. A policia é muito boa e bem desempenhada. Ua 
um hospital, que aquelles, que o viram e comparavam, consideram o mais 
bello existente no mundo. As egrejas de Goa são soberbamente ornadas : * o 
porto é muito bello, e póde-se comparar com Constantinopla e Toulon, julga- 
dos os melhores do mundo. 

«A vice-realeza de Goa ó uma das mais consideráveis, que existem no 
universo. E aquelle, que exerce este cargo, tem à sua disposição os governo; 
de Moçambique na Africa, o de Moscate na Arábia, o de Ormuz na Pérsia, o 
de Ceilão perto do Cabo de Comorin, o das Molucas á entrada do golpho da 
índia, cada um dos quaes é tão lucrativo, como o melhor que houver na Eu- 
ropa. É certo apezar de Goa já não render tanto depois que os inglezes ehol- 
landezes fundaram estabelecimentos sólidos na índia, produzir comtudo sempre 
grandes riquezas para a coroa de Portugal. Os Portuguezes em gerai são in- 
dolentes: entregam-se á sensualidade e aos prazeres, e deixam o cuidado de 
seus negócios nas mãos de seus escravos. A devassidão é n'esta cidade mais 
vulgar, que em nenhum outro paiz do mundo; e os prazeres camaes e o adul- 
tério passam por galanterias. Os homens um pouco acima do vulgar, são 
precedidos de dois pagens um para lhes levar a espada e o outro o guarda 
sol, etc. etc.» 

IV. Descripção da ilha de Ceilão, e resumo das disputas que alli se sus- 
citaram entre os portuguezes e hoUandezes, por Philippe Baldaeus, de pag . 
334 a 427, e vae acabar na pag. 57 do o tomo seguinte. 

84) BAUMÈS (J.). 

E. — De la limite des Possessions Poríugaises au sud de rEquatew. Ex- 
trait de la Revue Coloniale (Mars 185%). Paris, 1858. 

(Limites das possessões portuguezas ao sul do Equador, etc.) 

85) BAVOUX (EVARISTE). 

E. — A, B, da Costa Cabral, Comte de Thomar. Notes historiques sur sa 
carrière politique et son ministère, Extrait de Vouvrage publié a Lisbomie sous 
te titre — Apontamentos Histoiicos, Paris, Amyot-Libraire, 1846, 8.«, 275 pag. 

(Notas históricas sobre a carreira politica e ministério de A. B. da (Mtii 
Cabral.) 

António Bernardo da Costa Cabral por causa dos feitos notáveis, que se 
passaram em Portugal durante o seu ministério, foi um dos ministros portu- 
guezes mais fallados n estes últimos tempos. Não c por isso para admirar que 
ainda tenha de mencionar vários outros escriptos estrangeiros relativos ao seu 
ministério. Evaristo Bavoux mostra-se muito aíTeiçoado à sua administração. 

«É um assumpto interessante para a observação a lucta encarniçada e 
confusa ainda do principio constitucional ás bulhas com a exaltação meridio- 

' Barrow — Hislnirr. ilcs dcrouvcrlcs, vol. 4.", pap. 2tíi 



BA 65 

nal, e com a infância das paixões politicas. Estas paixões envenenam a dis- 
cussão» ccigam o joizo. O exame d'esta situação ganha muito em imparcia- 
lidáfTô sendo transportado para um terreno neutro. Tal é a mira d*esta pu-* 
blicaçâo. 

«Úma coisa nos maravilhou e seduziu, alli, como em qualquer outra parte 
qne a encontramos: a elevação d'um homem por meio de suas próprias forças 
aes mais altos empregos do Estado. Filho d'um honrado proprietário da Bei- 
ra, Costa Cabral elevou-se por seu próprio mérito d'uma posição modesta ao 
ministério, e ao senado, esforço do verdadeiro talento, que tem jus a nossas 
homenagens. Em certos respeitos, e talvez com mais energia ainda, faz-nos 
lembrar Casimir Perier, lactando contra os motins em nome da ordem, pro- 
nunciando a dissolução do corpo de artilharia da guarda nacional, a destitui- 
ção de seus oíBciaes, o desarmamento das companhias, exposto em sua pró- 
pria carroagem ao tumulto das ruas insurgidas, arrostando corajosamente o 
perigo, as ameaças, a morte, luctando corpo a corpo, e combatendo essa co- 
ragem, que revela uma convicção, e até jusliflea o erro, porque então parece 
emanar d*uma alma nobre, d'um principio elevado. 

«O homem eminente, de quem esta noticia tem por íim dar a conhecer a 
administração, prestou ao seu paiz immensos serviços. A realisação de seus 
grandes e honrosos trabalhos, a construcção das estradas, a circulação dos 
capitães e das idéas, a reorganisação social, de que é auctor, testemunham 
bem altamente a força e grandeza de suas concepções; mas não é menor no 
ponto de vista politico um certo aspecto, que me commove, e a respeito do 
qual não posso fechar os olhos, rendendo ao mesmo tempo com imparcialida- 
de homenagem a seu génio notável, à potente energia do moderno marquez 
de Pombal. 

«Costa Cabral é um homem d'estado, para quem está reservado um logar 
distincto na histeria contemporânea do seu paiz. As raraB qualidades que o 
teem mantido no poder ha seis annos, provocaram a admiração de quantos 
DÃO são dominados pelas paixões e espirito partidário, e que julgam o minis- 
tro conforme os resultados de bua política, conforme a unidade de seu pensa- 
mento administrativo, conforme a resolução enérgica, e prudência de seu pro- 
cedimento nas mais difficeis circumstancias. Se mais alguma coisa é necessá- 
ria para provar isto, bastará lembrar que o ódio implacável de seus inimigos, 
incessantemente alimentado pela inveja, e excitado pelo despeito, é um teste- 
munho mais que sufficiente de seu mérito e de suas qualidades. 

«Assignalados por intrigas e difficuldades sem numero, por insurreições 
de mão armada, por combates encarniçados quer nat tribuna, quer nas pra- 
ças publicas de Lisboa, os seis annos do ministério de Costa Cabral provaram 
toda sua coragem e sua energia. Outro qualquer que não fosse elle, mesmo 
dos mais fortes, que fosse, teria já infallivelmente succumbído. Esta situação 
não foi obra de Costa Cabral; achou-a toda feita, viu-se obrigado a dommal-a 
com vontade de ferro, e de a mudar com sua audácia pouco commum. Quan- 
tas vezes achando-se na véspera cheios de esperanças de obterem sobre elle 
nmsL victoria completa, náo adormeceram seus inimigos para receberem, 

TOMO l O 



60 BA 

quando acordassem, o golpe decisivo qae os devia humilhar. É assim que 
pela rapidez e certeza de seus olhares o ministro snrprehende seus adversá- 
rios, e anima seus amigos. N'um instante aprecia, e sabe vencer os perigos 
e difiQculdades, e depois por uma resolução, que parece filha do acaso para 
aquelles, que o não conhecem, decide em favor de si problemas, cuja solução 
parecia impossível. Tudo se pôde esperar dos recursos de seu génio : e nos 
momentos arriscados deve-se vér como seus amigos se agrupam em volto 
d'elle, rodeiam-no de todas as partes, ao passo que tranqnillo no meio das 
tempestades mais terríveis, sustentando o leme com mão firme, dirige a nau 
do estado, e a leva a porto de salvação. Entre o resolver e o obrar, entre o 
pensamento, que concebe, e a vontade, que executa, não conhece hesitação 
alguma: apenas tomou sua resolução, põe-a em obra, sempre com aquella 
energia, que lhe é peculiar. Póde-se altamente asseverar que todos os esfor- 
ços dos inimigos do ministro, todos os meios extremos, que teem empregado 
para o derrubar, não tem produzido outro resultado, senão o de elevar o pe- 
destal de seu monumento; pois Gosta Cabral deve quasi outro tanto a este 
respeito a seus inimigos, que pôde dever a si mesmo. 

«Em sua vida privada, ás virtudes domesticas Gosta Gabral reúne ma- 
neiras fáceis e agradáveis, que fazem sobresair a franqueza natural de seu ca- 
racter. Pertence ao numero de estadistas do seu paíz, que adoptam as ídéas 
sans do século, que comprehendem as necessidades da época, que teem a 
firme vontade de satisfazer a ellas, e a capacidade de achar os meios para isso.t 

Em poucas palavras: n'cste livro Gosta Cabral é o grande homem, o ho« 
niem sem defeitos, um verdadeiro heroe: todos os outros são pigmeus. 

Mousinho d'Albuquerque em vinte annos não passaria d*um soffrivel bo^ 
ticario. Rodrigo da Fonseca Magalliães principalmente é um homem dotado 
dos maiores defeitos. Almeida Garrett era poeta na política, e em suas utti* 
mas obras mau politico em prosa e verso. O visconde de Sá da Bandeira um 
visionário incoherente. Porém José Bernardo da Silva Gabral, irmão do conde 
de Thomar, era homem de talento superior, o solido, d' uma grande capaci- 
dade na administração, fértil em expedientes e de infatigável auctoridade. 

Nós porém, os portuguezes, juizes talvez mais competentes que Evaristo 
Bavoux, seremos todos da sua opinião? 

86) BAXTER (WILLIAM EDWARD). 

E.— The Taçus and the Tiber, or notes of travei in Portugal, SpainoMd 
Italy ín 1850-1851, by —.In two volumes. London, Richard Bentley, 1852, 
8.°, o 1.» de 302 pag. e o 2.» de 299. 

(O Tejo e o Tibre, ou notas de viagem era Portugal, ele.) 
A viagem a Portugal vem no 1.*» volume, e termina a pag. 68. Nada apre- 
senta digno de especial menção. 

87) BAZONCOURT (Uauon de). 

E.— Le mariaye ou lUnruir de Portugal. Parií^, Í8tí2. 



BE 67 

(O casamento ou o futuro de Portugal.) 

Não encontrei esta obra; e por isso nada mais posso dizer. Mas é da sup- 
por qofi veirse 8obre o casamento do nosso rei D. Luiz, 

88) BEARN (Le Gomte Stéphen de). 

E. — La Dyíiastii de Bragance et Vavemr du Portugal par — -. Paris, 1865, 
4.*9 59 pag. 

(A dynastia de Bragança e o futuro de Portugal.) 

tFelizes, disse Fenelon, os povos, cuja historia n^o é interessante. Se a 
máxima formulada pelo illustre arcebispo de Cambrai fosse uma sentença sem 
appeliação, seria mister tirar d'e]la por consequência que a nação portugueza 
foi desgraçada entre todas, por apresentarem seus annaes o espectáculo não 
interrompido de scenas dramáticas, e de peripécias enternecedoras. 

«Lançar um olhar para traz pela historia de Portuga], vér no decurso dos 
séculos sair victorioso este estado de todas as luctas, avançar inabalável è 
forte pela scena do mundo, e apresentar o especlaculo de varias gerações de 
heroes, todos animados por um mesmo ardor para a independência, gloria e 
prosperidade de seu paiz, não é isto um exemplo e uma lição digna de fixar 
a attenção da historia?» 



cE que possante vitalidade! Que exuberante energia em um povo moder- 
BO. Para este não basta repellir os mussulmanos, ter abatido a altiva Gastella, 
haver conquistado a liberdade; dirige suas vistas ambiciosas além dos limites, 
que a natureza lhe traçou; e situado em frente do oceano, pensa já em sub- 
mettd-o ao seu dominio. Christão, deita suas vistas rancorosas para Africa, e 
suspira por levar às suas praias a invasão, que a si própria por tanto tempo 
assolou. Ávida do bem estar e de riquezas, segue com olhos invejosos a rá- 
pida fortuna de Veneza, e sonha nos meios de abrir para si um caminho até 
ás opulentas regiões da índia. 

«Que novos prodígios vão apparecer aos olhos do mundo estupefacto! E 
que não devemos nós esperar (1'este valente povo? 

«Favorecidos, animados por um príncipe esclarecido, D. Henrique, arro- 
jados mareantes se lançam á procura do incógnito; para elles nada de obstá- 
culos invenciveis, nada de fadigas, que não sejam supportadas com perseve- 
rança, nada de perigos, que não sejam arrostados corajosamente. 

«Dentro em pouco as costas africanas são exploradas desde o Gabo Boja- 
dor até o Cabo da Boa Esperança, desde o Gabo da Boa Esperança até ao de 
Guardafui: a índia é patenteada, a America descoberta, poderosos reinos des- 
truídos por um punhado de homens; por mar e por terra um combate contra 
cem, e a victoria é sempre fiel aos portuguezes; colónias florescentes se esta- 
l)elecem. Lisboa toma se o empório do commercio do mundo. 

«Os grandes conquistadores da antiguidade e da edade média apenas dei- 
xaram vcstigios infecundos de sua paisagem: seus feitos tornaram-se niais 



68 BE 

nocivos, qae úteis à bamanidade; porém os immortaes trabalhos de Bartholo- 
meu Dias, qae reconheceu o liltoral africano, de Vasco da Gama, que dobrou 
o Gabo das Tormentas, e achou o caminho para as índias, por tanto tempo 
procurado, de Alvares Gabral, de Almeida, de Albuquerque, que fundaram na 
Africa e na Ásia o império portuguez: aqitelles immortaes trabalhos, díga- 
mol-o, foram para o mundo inteiro uma fonte inesgotável de prosperidade e 
de gloria. 

«Ao lado d'esses nomes illustres a posteridade reconhecida eollocon o de 
Pêro da Covilhã e de Affonso de Paiva: este ultimo pagou com sua vida seu 
amor à sciencia e sua dedicação à pátria. As empresas doestes ousados expio- 
radores, fizeram conhecer o mappa das costas africanas, e contribuiram ocmi 
as de Bartholomeu Dias para abrirem à Europa um novo caminho, que os 
devia conduzir às índias, sonho de todas as ambições. 

«O génio de seus filhos, as descobertas marítimas, a immensa extensão do 
commercio, que d'ellas foi a consequência, tudo concorreu para dar a Por- 
tugal a maior somma de grandeza, à qual um povo pôde aspirar. 

«As consequências politicas emanadas das felizes explorações dos porta- 
guczes, são de uma ordem de tal sorte elevada, que à primeira vista a intel- 
ligencia não conhece, senão mui fracamente todo o alcance; não as podemos 
comparar senão à invenção de Guttemberg no xv século, ou á mais recente, 
do vapor. 

«Não o esqueçamos; é somente a partir doesta época, que se começou a 
coroprehender o papel importante da marinha no futuro das nações, e que 
fonte de prosperidades o império do mar pôde conceder aos povos. 

»Foi Portugal que primeiro teve a gloria de revelar às nações civílisadas, 
que não é somente em 3eu território, que devem procurar sua fortuna; mas 
que também a podem tirar com seus navios dos pontos mais remotos do globo. 

«Porém Portugal não devia gozar por muito tempo de seus triumphos, e 
seu explendor devia ser de curta duração. Arrastado por uma corrente irre- 
sistível, tinha-se arrojado a uma empreza superior às suas forças: não dando 
ouvidos mais que à sua coragem, sonhava ao mesmo tempo no domínio das 
Índias, do Brazil, da Africa Occidental, sonho d*um povo de gigantes, ao qual 
devia fatalmente succumbir, mas ao qual, façamos-lhe ao menos esta justiça, 
succumbiu gloriosamente. 

«Faltaram os recursos a Portugal para sustentar seu dominio nas nume- 
rosas c longiquas colónias, qae semeara no iittoral da Africa e da Ásia, e 
quando a Europa, invejosa de seu poderio, se ligou contra elle, trahido por 
suas próprias forças, esgotado em exforços generosos, mas impotentes, ficou 
incapaz de resistir, c succumbiu, no apogeu de sua gloria, abandonando aos 
outros povos os caminhos do extremo do Occidente, depois de por muito tem- 
po ter sido o senhor temido d'elle. 

«Tinha morrido Albuquerque ! Heroe illuslre, cuja gloriosa ambição e gé- 
nio aventureiro foram uma das glorias do seu paiz, ao mesmo tempo que fo- 
ram uma das causas da sua ruina ! Seus successores, incapazes, ávidos ou 
i-orruplos, não lizeram senão precipitar esta queda, c a decadência do Portu- 



BE ^ 09 

pi d*alii por diante tornoa-sc completa. Bem depressa o déspota Phílíppe II, 
esse terrível destruidor dos thronos, veia pôr o cumulo aos males da nação 
portagueza, e n'um mez lhe arranca com seu rei a independência o liber- 
dade.» 

O resto d'este livro è uma série nâo interrompida de elogios feitos a Por- 
tugal por causa dos seus melhoramentos de todos os géneros, operados n*es- 
tes últimos annos. 

89) BEAUOHAMP (M. ALFONSE DE) — Lilterato e auctor de L7íi5. 
Udre de la guerre de la Vendée, etc. 

Nasceu em Mónaco no anno de 1767, o falleceu era 1832. i 

E. — I. Vindependence de Vempire du Brésil presentée aux momirches Eu- 
ropéetis. Paris, 1824. 

(Independência do Brazil.) 

n. Estoire du Brésil, depuis sa découverte m 1500 jusqu^en 1810, cante- 
nant ^origine de la monarchie portugaise; le tableau du rêgne de ses róis, et 
des conquêtes des Portugais dans l* Afrique et dans Vinde; la découverte et 
la description du Brésil; le dénombrement, la position et les nueurs des peu" 
plades Bresiliennes; Vorigine et les progrès des établissements portugais; le ta- 
bleau des guerres successives, soU entre les naturels et les Portugais, soit en» 
ire ces demiers, et les di/férentes nations de VEurope qui ont clierché à s^eta- 
bltír au Brésil; enfin Vhistoire civile, politique et commerciaie, les révolutions 
H Vétat actuei de cette vaste contrée par — . Omé d^une nouvelle Carte de VAmé- 
rique Portugaise et de deux belles gravures. Paris, 1815, 8.<* 

(Historia do Brazil.) 

Gompoe-se esta obra de 3 volumes, dos quaes o l.<> consta de 388 pag., a 
%,• de 800> e o S.*" de 516. A estampa do l.** representa a chegada de D. Tho- 
mó de Sousa, primeiro governador geral do Brazil; a do 2."* o acto de se ar- 
rojar ao mar o almirante hollandez Patry por vér o seu navio perdido; e íl- 
naimente a do 3.» é um mappa do Brazil. 

HL Histoire de la guerre d^Espa^gne et de Portugal, pmdant les années 
1807 à 1813, plus la Campagne de 1814 dans le nUdi de la France, par le co- 
limei nr John Jones, avec des notes et des commentaires, par — . Ornée de la 
Carte du théaire de la guerre d*Espagne et de Portugal. Paris, 1812, 2 vol., 8.<> 
o i.» de 380 pag. e o 2.o de 384. 

(Historia da guerra de Hespanha e de Portugal.) 

Esta obra é contraria á politica de Napoleão. Beauchamp assevera n'ella 
que na guerra da Península morreram um milhão de homens. 

•Ezempto de qualquer sentimento de parcialidade o auctor esforçou-se, 
secando suas próprias observações ^ e a correspondência de officiaes sensatos. 

^ Firmín Didot — iVoutwUe Biographie UniveneUef fol. I.", pag. 90€. 
* No prefacio, pag. xiz. 



70 BE 

o intelUgentes, a traçar uma narração militar, liei e imparcial da ultima guer- 
ra, que se travou cm Hespanha, Portugal e meio dia da França. 

«O tratado do Fontainebleau apresentava uma tal infracção das leis da 
honra e da boa fé, que punha todos os contractantes no mesmo nivel, e ob* 
tendo vantagens incalculáveis para aquclle, que o tinha concebido para cum- 
primento de seus pérfidos projectos, obstava a qualquer appello à piedade da 
Europa em favor do velho monarcha, victima de sua credulidade e fraqueza. 
(I pag. 5.) 

«Junot, vendo que os portuguczes não podiam ser enganados por mais 
tempo com promessas, e que alguns motins parciaes despertavam outros mais 
perigosos, decretou que qualquer cidade ou villa, que se oppozesse aos flran- 
cezes^ havia de ser entregue ao saque: que os habitantes haviam de ser pas- 
sados ao fio da espada, o as casas arrasadas. Além d'isto qualquer individuo 
encontrado com armas na mão, fosse debaixo de qualquer pretexto que fosse, 
seria fuzilado acto continuo. Adquiriram estas medidas nova força pela seve- 
ridade terrível, que empregou em Leiria o general Margaron. Mas o nome 
para sempre famoso do agente mais activo d'estas atrocidades é o de Loíson: 
os cidadãos de Évora e da Guarda hão de conservar uma eterna lembrança 
d'cllas. 

cNa primeira d'estas povoações os meios de defeza foram organfsados 
pelo general Leite com um corpo de tropas bespanholas, e por conseguinte a 
resistência foi antes uma defeza regular, do que um motim popular. Todavia 
Loíson na occasião da tomada da cidade, a 29 de julho, a entregou ao saque, 
e em vez de reprimir as atrocidades da soldadesca, animou-as. Os que foram 
poupados, estremecem ainda com a lembrança dos actos d'uma crueldade re- 
flectida e insultante, ás quaes se entregaram durante um dia inteiro. Uma im- 
mensidade de mulheres e de creanças, mas principalmente de padres, foram 
tirados de seu refugio e maltratados ou mortos. Testemunhas dignas de fé as- 
severam que alguns milhares de pessoas foram assassinadas durante o saque 
da Guarda: doze mil mortos foram contados no terreno. Ignoram-se as mi- 
nuciosidades dos excessos eommettidos por Loison na Atalaia, outra scena di- 
gna de suas façanhas. Gomo os habitantes eram cm pequeno numero é bem 
de perceber que não perdoou a ninguém, com o fim de melhor causar terror. 
Similhantes crueldades foram praticadas n'outros legares. Contribuições ex- 
cessivas eram exigidas rigorosamente, e a impossibilidade de as pagar servia 
de pretexto para a pilhagem illimitada. 

«Estas vexações e horrores deram consistência aos movimentos; e ao passo 
que o general Freire se esforçava para organisar a insurreição ao norte, nu- 
merosas guerrilhas sem disciplina às ordens do conde Castro Marim se espa- 
lhavam no Alemtejo. 

«Assim o fogo da revolta envolvia o paiz occupado pelos francezes. Toda- 
via eram senhores das fortalezas de Almeida, Elvas, Peniche e diíTerentes ou- 
tras posições como Setúbal, Palmella, S. Julião, Bugio, etc. Tal era a situação 
de Portugal, quando os inglezes vieram em seu soccorro. (I pag. 36.) 

«Os porluguezes são um povo eminentemente apto para os combates: os 



BE 71 

soldados tirados das classes inferiores, são em geral robustos, pacientes e do- 
ceiSy ao passo que os militares, que receberam educação, conservam a lem- 
brança das proezas de seus maiores, e amam as emoções violentas, que faz 
experimentar o orgulbo das armas. Todavia muito tempo se tinha passado 
sem estas qualidades se terem desenvolvido. O governo, cônscio da fraqueza 
de seus recursos e contando com a amizade e poder de Inglaterra, tinha sem- 
pre recorrido a ella na hora do perigo. N*esta crise, sempre movido pelos 
mesmos sentimentos, entregou-lhe com confíança e sem restricçoes o cuidado 
de guiar os seus exércitos. O general Beresford, escolhido pelo ministério in- 
glez foi, em fevereiro, nomeado marechal e commandante em chefe do exer- 
cita portuguez; e ao mesmo tempo oíliciaes inglezes foram nomeados para os 
postos superiores de cada batalhão. Estas medidas introduziram prompta- 
mente um systema geral de disciplina e de subordinação, mudança tão neces- 
sária para tomar o exercito formidável. (I pag. 92.) 

«Ás tropas portuguezas, que tomaram parte na batalha do Bussaco, por- 
taram-se com valor, e desde então poude-se contar com o appoio de suas 
armas, as quaes cada combate havia de tornar mais formidáveis. (I pag. 
184.) 

«Na guerra Peninsular depois da tomada de Tarragona e Valência a Hes- 
panha sem exercito regular foi reduzida por algum tempo a potencia auxiliar, 
e o cuidado da guerra foi inteiramente confiado aos portuguezes e inglezes. 
(I pag. 313.) 

«É com sentimento d'uma grande satisfação que se pôde asseverar que na 
época em que Ciudad Rodrigo e Badajoz foram tornadas a tomar, Bonaparte 
acbava-se no auge da gloria e do poder. Estendia-se seu império desde o Elba 
até aos Pyreneos, e desde as costas do mar do Norte até às aguas do mar 
Adriático, ao passo que em toda a Europa continental reconhecia-se e temia- 
96 sua superioridade militar. Para prova da ultima asserção não temos outra 
necessidade senão de recordar os differentes decretos arbitrários que, na ar- 
rogância d'uma auctoridade sem freio, fazia apparecer para estorvar e res- 
tringir a industria do mundo. Obedecia-se-lhe sem nenhum movimento hos- 
til: o poderoso e o fraco conformavam-se com isso plenamente, ainda que 
contra vontade, a Rússia duplamente ao abrigo de sua intervenção por causa 
de sua immensa extensão, e por sua posição afastada, julgou prudente sub- 
metter-se-lhe, até que finalmente sendo ameaçada a propriedade de seu im- 
pério com uma adhesão mais longa, esforçou-se por meio de representaçdf;S 
amigáveis a obter uma exempção. Não tendo podido conseguir coisa algupia, 
a discussão tomou por este tempo a forma de reprehcnsão áspera, precursora 
ordinária da guerra. Mas como uma longa série de acções tyranicas e de re- 
plicas insultantes não a tinham feito abraçar uma resistência aberta, não se 
podia duvidar que estava nas mãos de Bonaparte conservar seu alliado por 
meio de attenções conciliadoras e amigáveis. Nada tinha pois que receiar do 
exterior, que pudesse desviar sua attcnção dos negócios de Hespanha, e o his- 
toriador imparcial, seja de que paiz fôr. é obrigado a recordar que esses 
iriumphos brilhantes, que os portuguezes e inglezes obtiveram sobre os exèr- 



72 BE 

eitos franceses, foram ganhos no momento, em que Bonaparte estava em ami- 
zade com todo o resto do mmido, e que seu império militar estava no zenilh 
de sua força e gloria. (II pag. 41.) 

«As forças francezas além dos Pyrencos, em maio de 1812, excediam a 
cento e setenta mil homens, quasi todos soldados velhos, e commandados por 
officiaes distinctos. Soult tinha ás suas ordens cincoenta e oito mil homens na 
Andaluzia; Marmont cincoenta e cineo em Leon; Sonham dez mil (o exercito 
do Norte) na Gastella Velha; Suchet quarenta mil em Aragão e nas provín- 
cias do Este; e Jourdan podia dispor de quinze mil homens, chamados o 
exercito do centro para segurança de Joseph e tranquillidade de Madrid. E 
a capitulação de Valência tinha privado a Hespanha de quasi todas suas tro- 
pas, que tinham adquirido alguma experiência em seus numerosos e desgra- 
çados esforços. O governo não tinha dinheiro para apromptar outras forças, 
quando mesmo es hespanhoes se resolvessem a secundal-o, os quaes fatiga- 
dos d'uma guerra que parecia interminável, abalados pelos revezes continuos, 
tinha caido n'um estado de turpor e de desalento. Até o próprio systema de 
guerrilhas perdia todos os dias sua influencia geral. (II pag. 43.) 

«Os exércitos, porém, inglez e portuguez tinham chegado a uma grande 
perfeição, e seu general não querendo permittir que o repouso dos hespanhoes 
degenerasse em apathia, decidiu-se a tomar a offensiva, livrando as províncias 
do Sul. (II pag. 46.) 

«E pouco depois os portuguezes tomaram setecentos prisioneiros perto de 
Salamanca, e poucos dias mais tarde Marmont foi completamente derrotado 
Jamais arme ne fut en déroute plus complete. (II pag. 65.) • 

90) BEAUVAIS (Pere). 

E. — Lavie du Vénérable Pere Jean de Britto de la Compagnte de Jesus, 
mis à mort aux Indes dans le Madure. Paris, 1746. 

(Vida do padre João de Brito.) 

Vem annunciada a apparição d'esta obra a pag. 318 do Journal des Sça* 
vantSy do referido anno. 

91) BEAUVOISIN (Cuevalier OALMET). 

E. — Notice sur les nouvelles Cartes d^Espagne et de Portugal. Paris. 

92) BEAVER (Capitain PHILIP). 

E. — African memoranda relative to an attempt to establish a settlement 
on the Island of Bolama, on the Western coast of Afnca in the year i7dt. 
London, 1805. 

(Sobre a posse da ilha de Bolama, que os inglezes diziam pertencer-lhes.) 

93) BEAVES (The late WYNDHAM). 

E. — Civil, cmnmercial, politicai and htterary Hisfory of Spain and Por- 
tugal. London, 1793, 2 vol. 

(Historia de Hespanha .o de Portugal.) 



BE 73 

Vé-se esta obra citada no catalogo manuscripto da livraria do conde de 
Lavradio. 

94) BEBRINSAEZ (ANASTASIO FRANCO Y). 

(Anagramma de Sebastian Sancbez Sobrino.) 

E. — Viage topographica desde Granada até Lisboa. Granada, 1774. 

iFoi elle que nos deixou informações acerca da primeira collecçao de ins- 
eripções feita em Lisboa por Cenáculo, e que jantamente com Salgado come- 
çou o catalogo do monetário então ainda pequeno do dito bispo.» > 

95)^ BEGKFORD (WILLIAM). 

E. — L Recollections of an excursion to the monasteries of Alcobaça and 
Batalha by the author of Vathec. London, Richard Bentley, 1835, S,'' gr. com 
o retrato do auctor, 228 pag. 

D'esta obra, que pinta admiravelmente os costumes e a phisionomia da 
sociedade portuguesa no ultimo quartel do século xvnr, serviu-se Rebello da 
Silva para a formação da parte histórica do seu romance Lagrimas e The» 

SOUTOS, 

II. — Italy with sketches of Spain and Portugal. 

Além d'estas duas obras escreveu uma collecçao de cartas relativas a Por- 
tugal, das quaes ainda não pude encontrar um único exemplar, mas de que 
apparecem extractos na obra abaixo mencionada com o titulo de Memoirs. 
De algumas das referidas cartas appareceu uma traducçáo poblicada no vo- 
lume xn do Panorama^ e por ella se vé descreverem os costumes e corte de 
Portugal interessantissimamente, no reinado de D. Maria I, motivo pelo qual 
passo a transcrever algumas passagens. 

«Beckford era filho d^aquelle espirituoso William Beckford, que sendo lord 
maire em Londres, ^ com resolução rara dirigiu a Jorge III em 1770 as seve- 
ras queixas do povo contra o seu governo. Este acto de valor levou os cida- 
dãos da capital a perpetuarem a boa memoria do magistrado, erguendo*]he 
na casa da camará a audaciosa estatua, que sustenta no braço erguido a fa- 
mosa falia, origem da sua popularidade. ^ 

«Grandes riquezas, e a importância que ellas quasi sempre dão, unidas a 
um caracter vigoroso e respeitável, tinham determinado a eleição de William; 
e parece que o conceito publico, nunca desmentido, o acompanhou até á se- 
pultura, à qual desceu em edade pouco adiantada, deixando por universal 
h^deiro de seus immensos bens, reputados em cem mil libras estrelinas de 



^ flQbner — Noticias Archeologicas de Portugal, pag. G. 

' Loíi Aagusto Rebello da Silva — Panorama, voi. 1S.<>, pag. S66. 

^ Â biograpbia c bistoria de suas viagens vem na obra intitulada Memoirs of Wil- 
liam Beckford of Fontkilly author of Vatkek. In two volumes, London, Gbarles J. Skeet, 
Poblisber 1859, o 1." vol. de 3Sâ pag. e o i.» de 40^ A descripçSo das viagens do Beck- 
ford em Portugal, começa a pag. ^11 do 1."* vol. 



74 BE 

rendimento annoal, a sea filho onico, ainda menor^ qae é o mesmo qne veia 
a Portugal em 1787, e veremos estimado dos fidalgos, e bemquisto até dos 
plebeus^ graças ao condão, que possuía de saber insinuar-se. 

tConcluidos os seus estudos, o mancebo^ notável pela magnificência do 
seu trato, e pelos grandes talentos, com que a realçava, foi olhado como um 
dos cavalheiros mais distinctos da Grà-Bretanha, e a sua alliança invejada 
pelos orgulhosos fidalgos da antiga e poderosa aristocracia. 

cA sua escolha não se demorou. Em 5 de maio de i783 Beckford ligava 
a sua sorte, e offerecia os seus thesouros á formosa e seductora Margarida 
Gordon, filha do conde Aboyne, par de Escócia, e n'este doce enlace abençoa- 
do por todas as venturas cifrava o jubilo e a esperança da sua mocidade. 

«Bfas os mais felizes e opulentos estão expostos, como os pobres e humil- 
des, aos mesmos rigores da fortuna. 

cPassados três annos, quando os laços do amor conjugal, se é possível, 
estavam mais apertados, a esposa de Beckford foi arrancada de repente aos 
extremos de seu marido, e sepultou comsigo no tumulo todas as alegrias, que 
o ditoso consorcio havia feito nascer. 

«Dando á luz o segundo fructo da sua união, Suzana Eufemia, depois du- 
queza de Hamilton na Escócia, de Brandon em Inglaterra, e de Chatellerant 
em França, lady Margarida não poude resistir aos effeitos de um parto desas- 
troso, e expirou nos braços de seu marido. A magua d*este foi sincera e lon- 
ga; e a vista dos legares, que lhe recordavam os serenos dias, tão curtos 1 do 
seu amor tranquillo tomou-se-lhe insupportavel. Para não ceder à mtima e 
desesperada tristeza, que o consumia, separou-se pois de suas filhas, e deixou 
a Inglaterra, procurando o allivio d'ella nas variadas sensações d'uma viagem 
extensa. Executou o projecto em i787, e começando pelo reino de Portugal, 
aportou a Lisboa, seguindo directamente de Falmouth. 

«Apezar do tempo e da inquietação, com que de propósito queria sobre- 
saltar-se, a sombra querida da esposa não se lhe apagava da alma, e até no 
meio dos prazeres e regozijos o vemos de repente desviar-se para enchugar as 
lagrimas, que lhe arranca a suave imagem, sempre viva no fundo do seu peito. 

«A carta xxm é uma prova do que dizemos. 

« Admittído a beijar a mão da rainha, e a assistir com a corte a um festejo, 
o observador interrompe-se de súbito para nos descobrir a nódoa indelével, 
que lhe pizava o coração. 

«A similhança casual, que se lhe figurou achar entre o rosto da condessa 
de Lumiares e o da esposa, que chorava, foi quanto bastou para logo se com- 
mover e arrebatar ! Por mais que tente conter-se, foge-lhe dos lábios a ver- 
dade; e por fim nem elle mesmo lucta já para a esconder. 

«Ouçamol o : O conde de Sampaio, camarista de semana, ajoelhou e oíTe- 
receu assim o chá á raiuha. Depois d'esta cerimonia, porque tudo é cerimo- 
nioso n'esta corto cheia de ostentação, annunciouse o fogo de artifício, e as 
reaes victimas acompanhadas das suas victiraas entraram em outra sala. A 
marqueza de Marialva, suas filhas e a condessa moça de Lumiares, vieram 
para o aposento, aonde eu me achava, e apossaram-se das janellas. Sete ou 



BE 75 

oito rodas de fogo, e outros tantos valverdes collossaes começaram a arder, 
lançando admiráveis foguetes por todos os lados, com grande alegria da con- 
dessa de Lnmiares, que não conta ainda mais que dezeseis annos, e já é ca - 
sada ha quatro. A sua jovialidade quasi infantil, e as loiras madeixas que se 
atmelavaro, emmoldurando as faces risonhas e vivas de côr, flzeram-me lem- 
brar tanto da pobre Margarida, que a sua vista me infundia a mais tema me- 
lanc6lia. O estado interessante em que se achava^ ainda augmentou a illusào; 
e cmquanto ella sentada, me apparecia por vezes envolta no clarão azulado 
dos foguetes, que subiam silvando, e estalavam no ar, eu estremecia como se 
um espectro surgisse de repente, e dava por mim com os olhos banhados em 
lagrimas. 

«Nos fins de 1787 Beckford passou a Hespanha^ e escreveu acerca dVsta 
segunda viagem outra collecção de curiosas cartas. 

«Depois reeolhcu-se à pátria, e lá residiu, ora em Londres, ora na sump- 
tuosa abbadia de Fontill, morada de príncipes, que a sua inclinação ás novi- 
dades e ao explendor o decidiram a enriquecer de magnificas obras no es- 
tylo gothico da renascença. 

«Em 1794 uma accusação grave, que se julga provada, obrigon-o a sair 
precipitadamente da Grã-Bretanha, refugiando-se em Portugal, para onde o 
attraiam os laços da convivência anterior e as sympathias pessoaes. 

«Então é que edificou em Cintra, n'um dos pontos mais pittorescos, a casa 
de recreio de Monserrate, sumptuoso capricho d'uroa imaginação, que sabia 
crear e desejar. 

«O marquez de Marialva estimava o opulento inglez, e em casa d'este fi- 
dalgo, tao distincto pelo sangue e pela cortezia, é que elle avaliara o conche- 
gé amável e a benevolência intima da hospitalidade portugneza. 

«Sabedor da causa que forçara o amigo a expatriar-se, e do processo que 
o ameaçava na sua terra, o marquez não poupou diligencias com o príncipe 
D. João para o resolver a interpor a sua protecção, recommendando a Jorge III 
o negocio de Beckford, e aleançando, como a final obteve do governo britan- 
níeo, a promessa do mais completo esquecimento. 

«Em testemunho da sua gratidão o estrangeiro pediu licença para oíTerecer 
à rainha quatro soberbos lustres de filagranna de oiro destinados a ornarem 
a capella real : mas a soberana recusou, entendendo que não ficava airosa a 
sua coroa, acceitando de um particular presente de tanta valia. Beckford, ten- 
do vivido alguns annos em Portugal, requereu o titulo de visconde^ e pediu 
a mão de uma filha natural da casa de Marialva, segundo se cré; porém a sua 
qualidade de estrangeiro, e a religião protestante, que professava^ não lhe 
permittiam obter nem uma, nem outra coisa. 

«O fausto oriental do seu trato pessoal eclipsava jà a grandeza do throno, 
e conselheiros menos prudentes insinuaram a necessidade de o constranger 
a abreviar a sua residência. 

«Seguiuse esta perniciosa opinião, e o opulento proprietário, contra von- 
tade, e muito a sen pezar, teve de deixar o paiz, que desejara adoptar para 
patría, transportando para elle as suas immensas riquezas. 



76 BE 

«Voltando para França e Itália, e assignalando por toda a parte a soa pas- 
sagem, Beckford recolhea-se a Inglaterra; e em Fontill, onde morava quasi 
todo o anno, ostentoa as posses da magniflcencia, e o gosto delicado, com 
que sabia utilisar os seus thesouros. 

«Bekford, antes de cerrar os olhos, ainda teve a satisfação de receber em 
sua casa a neta de D. João YI, a rainha D. Maria II, quando veiu a Londres 
aguardar que a espada dos portuguezes fieis à sua causa, lhe restituíssem a 
coroa dos seus reinos usurpados 

«A abbadia de Fontill, depois da morte do proprietário, veodeu-se em haa* 
ta publica; e um capitalista, M. Farquhar, foi quem a arrematou por trezen- 
tas e quarenta mil libras esterlinas. 

«No meio dos primores d'arte, que ennobreciam o seu palácio, os objectos 
que recordavam a sua longa residência em Portugal occupavam o primeiro 
logar; e na sua instructiva conversação eram frequentes as saudades, com que 
o faustuoso inglez confessava ter sido constrangido a separar-se do nosso 
brando cUma, e dos lindos olhos, que o levariam a esquecer a pátria, se mes- 
quinhas invejas lhe não cortassem os desejos, e não o afastassem para sem- 
pre.» * 

GARTA I 

PaSSBIO a PAI.BAYA 

30 de maio de 1787. 

«Home induziu*me, bem contra minha vontade, a acompanhal-o na sui 
sege portugueza à residência dos filhos bastardos de D. João V, em Palbavi, 
em vez de proseguir as minhas costumadas excurções pela beiramar. É de- 
testável a estrada até aquelle magnifico jardim, nem conheço outra mais in- 
festada de mendigos, cães, moscas e mosquitos. A quinta pertencente ao mar- 
quez de Louriçal fica n*uma cova, e o basto arvoredo, que a cerca nem pas- 
sagem deixa á viração do ar; por isso eu abafava á sua sombra. 

«Um grande espaço plano da banda da frontaria da casa de campo está 
eccupado com tristonhos labyrintos de murta tosquiada; de que surgem altas 
pyramides, no desprezível estyio hollandez do, que foi plantado pelo rei Gui- 
lherme em Kensington, e arrancado ha annos pelo rei Jorge III. Para lá does- 
ta brenha intrincada ha extensos carreiros de perenne verdura sombria, litte- 
ralmente, e com grande propriedade denominados ruas, mais apertadas, com 
maior formalidade, e não menos pulverulentas do que High-Holbom. Tomei 
d'ahi para uns canteiros de hortaliças e plantas aromáticas de regadio, fedia- 
das por uns caniçados muito limpos, que engrinaldavam mui perfeitas e vi- 
rentes rosas, do todo livres de insectos epolilha, dignas de se espargirem nos 
leitos, ou metter no seio de Lais, Aspasia ou lady... Bem sei eu o enthusiasmo» 
com que toda a pessoa de bom gosto se deleita n'estas amáveis flores: e qnan- 

* VfúWam Beckford foi viajante instroido, observador penetrante, e escriptor nata- 
ralissimo edesaifectado. Luii Augasto Rebello da Silva, Lagrimas e Thesouros, p&g. i?. 
Nanca pude vér o Vathec, tudo porém, até mesmo algumas palavras de lord Byron m» 
inclioam a acreditar ser nm romance. 



BE 77 

to a miado e em versos harmoniosos foram pelo Ariosto celebradas. E não 
tem lady... um camarim pintado todo de rosas? Por ventara não as esfolha 
no sen banho, e de nenhuma^ outras flores enfeita os seus ídolos ? 

«Quem lhe contestará esse direito? 

«Em quanto eu estava poeticamente embevecido nas rosas, Home travou 
conversação com um tal mestre de picaria anglo-portuguez, da casa de suas 
altecas bastardas, o qual trazia sua cabelleira mui composta e bem polvilhas 
da, lustroso espadim de punho de prata, toda a andaina do fato de côr car- 
mezim, e era dotado de uma guapa e bojuda pança. 

«Com a mão direita na abertura do colete, e a outra em acção de tomar a 
pitada, encarecia a piedade, temperança e pureza de vida de seus augustos 
amos, que viviam retirados do mundo, em perfeito estado de socego, aborre- 
cendo companhias profanas, nem sequer olhando para as mulheres. 

«Curioso de vér a vivenda d'estes sisudos régios enxertos, entrei no palá- 
cio: nem um insecto se bolia, nem se ouvia o mais leve susurro. Os aposentos 
príncipaes consistiam n'uma série de salas de tectos altos, magestosas, e for- 
radas uniformemente de damasco carmezim escuro: o topo de cada uma era 
coberto por um pezado docel de velado lavrado: da direita e esquerda esta- 
vam enfileiradas immensas poltronas dos mesmos materiaes: nada de espe- 
lhos, de pintaras, doirados, ou decoração, nada mais do que monótona tape- 
çaria: até as mezas tapavam pannos de veludo franjados, no gosto d'aquelles 
qoe as nossas viuvas ricas usavam antigamente para arreiarem seu tocador. 
Basta a vista das mezas assim tapadas para fazer suar a gente; e não posso 
atinar como o diabo tentou os portuguezes a buscar moda tão sediça. 

«Este gosto de vestir saias ás commodas e bancas é geralmente havido 
aqui por bonito, ao menos nos aposentos reaes. Em Queluz nenhuma mesa 
de jogo ou de jantar escapou; e suspeito que não poucos vestidos velhos da 
corte foram desmanchados para fornecerem aquelles atavios; ha de todas as 
cores, lisos ou floreados, com ramagens campezinas, ou esplendidamente re- 
camados. Não assim em Palhavã, onde só predomina o carmezim, tingindo 
sem rival todos os objectos com a sua regia côr opaca. Arrumadas à parede 
entre duas das sobreditas mezas, estão duas poltronas para suas altezas, e de- 
Ihinte uma ordem de cadeiras para os reverendos em Cbristo, que de tempo 
a tempo tem a honra da admissão. 

«Quanto pôde a força da educação ! Que exforços não demandaria da parte 
das aias, escudeiros e camaristas abafar todas as vividas e generosas sensa- 
ções no animo dos príncipes, que educavam, violentar a natureza humana, 
SQjeitando-a aos hábitos d'uma realeza sem poder! A magestade sem dominio 
é de todas a carga mais pezada. Um soberano achará em que se occupe; tem 
a escolha do bem ou do mal; porém, priucipes como os Palhavã, sem mando, 
nem influencia, que nada mais tem a manter do que uma imaginaria gran- 
deza, bocejarão com o espirito hebetado, e no andar do tempo se mostrarão 
tio cerimoniosos e inanimados como as pyramides de buxo enfezado em seus 
jardins. Quanto mais felizes foram os rapazes, que o rei João entendeu, que 
não devia reconhecer, e que não são pouco numerosos, porque o piedoso mo* 



78 BE 

narcha «largo como os seus domínios, espalhava a imagem e simiihanca do 
seu creador peia terra.* Talvez que esses^ emquauto seus irmãos bocejam 
inertes debaixo de enferrujados dóceis, passem a vida zangarreando em suas 
violas nos ranchos vadios e descuidadosos passeios ao luar, ou saracoleando- 
se no alegre fandango, ou gozando do profundo somno, das iguarias cam- 
pestres, e das galhofas, revestidos do caracter de curas d'alguma festiva po- 
voação rural. 

«Folguei de vér-me fora do palácio: o silencio, a luz fraca desalentavam- 
me, e n'uma atmosphera restricta, impregnada do cheiro de alfazema quei- 
mada, quasi desfallecia. Estou sequioso de ar. Nem é coisa que mova espanto; 
pôde uma pessoa achar-se tão bem na cama com um esquentador, como den- 
tro d'uma sego portugueza com o corpulento Home, que ostenta a volumosa 
barriga, ataviada n'esta estação com um colete de brilhantes lantejoulas. For- 
çoso me é partir para Cintra, ou morrer abafado.» 

CARTA II 

SAmmUÊ. BOTAMICO — AÇArATAS BO PAÇO 

31 de maio de 1787. 

«Debalde chamo pelas nuvens, que me cubram, e por nevoeiros, que me 
envolvam. Não podeis formar adequada idéa do continuo deslumbramento» 
que nos offusca a vista, n'este afamado clima. Lisboa é de todo o mundo o 
sitio mais apto para- se exclamar: — Abriga-me da pomposa claridade do dial 
Mas achar o abrigo não é coisa fácil. Nem aqui ha mattinhas de pinheiros» 
como nas clássicas quintas italianas, nem os trémulos choupos efolhudos cas- 
tanheiros^ que cobrem as planícies da Lombardia. O arvoredo nos arredores 
mais próximos d'esta capital, consta, com bem poucas excepç(5es, de larangeí- 
ras :inãs e cinzentas oliveiras. 

«Estava eu determinado a não bolir pé fora da sombra do meu toldo; mas 
de tarde, tendo afrouxado algum tanto o extremo ardor do sol, o velho Home 
(que parece que ainda Jhe não nasceu o dente do siso) conseguiu mover-me 
a passeiar no Jardim Botânico, onde não é raro encontrar certos animaes de 
pouca edade, e do género feminino, chamados em portuguez açafatas, especM 
entre a camareira e a dama de honor. A rainha fizera o favor de levar com- 
sigo para as Caldas, as mais feias; e as que ficaram tem rasgados olhos pre- 
tos, em que scintíUam amorosas tendências, uma exuberante trança de ca- 
bello azevichado, e beicinhos da côr das rosas. Tudo isto não constituo uma 
belleza perfeita, nem eu quero dizer isso, só quero que fiqueis sabendo que 
as nymphas de que fallo, são as flores do rancho da rainha, e que ella tem na 
sua comitiva, pelo menos, quatro ou cinco dúzias mais d'essas damas dota- 
das de boccas grandes, olhinhos franzidos e tez morena. 

«Não me achando assaz habilitado para florear cumprimentos em língua 
portugueza, dirigi principalmente a conversação a uma irlaodcza de olhos 
azues, amável rapariga de quinze a dezeseis annos, recem-casada com um of- 
fícial das alfandegas de sua magcstade. O marido foi a uma romaria a Nossa 
Senhora do Cabo, o a senhorita espaneja-se no Jardim Botânico com as da- 



BE 79 

• 

mas do paço e mn rancho de sopranos, qoe Ibe ensinam a gargantear & a 
fallar italiano; bem digna é de se lhe ensinar o que cada mn sabe: o sea ca- 
belJo d'ama mimosa côr de castanha e as suas bellas feições e formas gre- 
gas, fazem notável contraste com a pelie morena e madeixas pretas das suas 
companheiras; parece um ente sobrenatural, que se evade ao longo das ala- 
medas, deixando muito atraz os bojudos sopranos, e as mal amanhadas aça- 
fatas em pasmaceira á vista da sua agilidade. 

«O jardim é bastante agradável, situado n*uma eminência, cheio de arvo- 
res frondosas carregadas de flores; acima das suas mais altas copas eleva-se 
um soberbo e espaçoso terraço com balaustradas de mármore de lustrosa al- 
vora e d'am singular molde oriental. 

«N'este paiz desenham sem escolha, mas o lavor da obra é mui puro e per- 
feito. Nunca vi balaustres melhor cinzelados do que os da escadaria que con- 
duz ao terraço grande. 

«Esta ampla superOcie é dividida em repartimentos oblongos de mármore 
contendo variedades, em pouca abundância, de heliotropios, aloés, gerânios, 
rosas da China, e de plantas mais communs das nossas estufas: tão pezadas 
divisões produzem desagradável elTeíto ; fazem lembrar um cemitério, e cau- 
saram-me uma impressão como se os habitantes defuntos do palácio adjacente 
brotassem do chão na forma de espinheiros, figueiras da índia, iouçâos aze- 
vinhos e pimenteiras. 

•O terraço terá mil e quinhentos passos de comprido; três copiosas fontes 
lhe dão um ar de frescura bastante augmentado pela ondulação de grandes 
acácias, expostas em virtude da sua situação elevada a toda a brisa, que so- 
(ura da foz do Tejo, cujas bellas aguas azuladas se descobrem com um bom 
efièito atravez da movediça ramagem. 

«A senhorita ingleza e o vosso íiel correspondente correram como creanças 
ao longo do terraço, e, quando fatigados, repousaram á sombra d'um grupo de 
gigantes aloés brazilicos, junto d'uma das fontes. A porção fusca da compa- 
nhia de passeantes separou-se do seu principal guarda, um guapo clérigo 
moço, para observarem todas as excursões e descanços de nós outros gente 
branca. 

•Era já tarde, e havia alguns minutos que se tinha posto o sol, quando me 
despedi. Os olhos pretos e os olhos azues parecem-me horrivelmente ciosos 
uns dos outros. Receio que a minha juvenil e espirituosa companheira tenha 
sefliido alguma coisa por ter sido mais esperta que as açafatas, e que a belis- 
cassem com alguns remoques, quando a companhia se recolhesse pelos escu- 
ros e intrincados passadiços, que dão serventia do paço d' Ajuda para os jar- 
dins. Ruim lembrança deixar assim uma bella e jovem creatura em mãos de 
altivas 6 despóticas mulheres, que tão inferiores lhe são na polidez e em for- 
mosura Aposto que teriam o especial cuidado de encher os ouvidos do ma- 
rido com suspeitas menos caridosas, do que as inspirações da Senhora do 
Gabo.* 



80 



BE 



CARTA IIÍ 
Knpo BO JktJíiAm\m — Abcos wilb A«uiks IjIvbiuí — Mabqui<* ■*■£ Mabialva 

3 de junfid de 1787. 

t Fomos por especial convite ao real convento das Necessidades, perten- 
cente aos congregados, vér a cerimonia da sagraçao do bispo do Algarve, pa- 
dre d'esta casa; estivemos collocados defronte do altar n'ama tribona ata- 
lhada de figaròes de lustrosos trajos, pessoas relacionadas com o novo pre- 
lado. O pavimento estava alcatifado com ricos tapetes e cochins de velado, 
onde se podia ajoelhar muito bem; mas, nao obstante esta commodidade pen- 
sei que a cerimonia nunca acabava. Havia um excessivo explendor de crozes, 
thuribulo?, mitras e báculos em continuo movimento, porque vários bispos 
assistiam com toda a sua pompa. 

«A musica, que era extremamente simples e pathetica, parecia conunover 
profundamente os Gdalgos, que ficaram ao pé de mim., pois que mostravam 
seoiblantes compungidos e batiam nos peitos, como quem se considerava que 
a maior parte d'e]les são miseráveis peccadores. Sentindo-me opprimido pelo 
calor e pelo sermão, effectuei a minha retirada da explendida tribuna sorra- 
teira e caladamente, e passei para o jardim por alguns corredores estreitos, 
tão quentes como tubos de chaminé. Mas isto era somente mudar de uma 
scena de formalidades para me encerrar em outra. Eu almejava por ar, e á 
fim de gozar d'este benefício evadi*me por uma portinha para o silvestre e 
despejado valle de Alcântara. Tudo ahi estava solitário, ouvindo-se o zumbido 
das abelhas, e as frescas virações sopravam da entrada do Tejo por cima das 
copadas larangeiras dos pomares. O susurro refrigerante da agua nas azenhas 
parecia dar^me vida nova. 

t Arrostei com o ardor, e encaminhei-me para aquella parte do valle, que 
atravessa o enorme aqueducto, qae tantas vezes tendes ouvido mencionar co- 
mo o edifício mais colossal do seu género na Europa. Tem uma só ordem de 
arcos ponteagudos, e o principal, galgando um rápido ribeiro, mede quasi 
250 pés do altura. 

tMas n*este aqueducto é a vastidão, e n'uma fieira de arcos, que infdnde 
assombro. Sentei-me no fragmento d'um penedo debaixo do arco grande, e 
olhei para aquella abobada là tanto acima de mim com certa impressão de 
respeito não de todo desacompanhada de temor, como se o edifício, que ea 
contemplava fosse obra d*um ente incommensuravel dotado de força gigante, 
a quem desse a teneta de andar saracoteando n'essa manhã por cima da sua 
construcção, e por capricho bruto me reduzisse a impalpáveis átomos. ^ 

«Perto do sitio, onde me sentei, havia alguns cerrados cheios de cannas 
da altura de onze ou doze pés, cujas folhas viçosas, agitadas pela viração, fa- 
ziam perenne susurro; gostei d'este murmúrio, que me acalentava n'um es- 

^ Na Historia da Academia das Sciencias de Paris ^ anno de 177â, S.*^ parte, vem o 
plaoo do Aqueducto ddS Aguas Livres. Exisle um oulro plano levantado pelo engenheiro 
hydraulico Josoph Thcrcse Michelolli. 



BE 81 

Udo de repouso bem necessário depois das fadigas de trepar por alcantis e 
precipicios. 

«Logo que recolhi do passeio, Home levon-me a jantar com elle, e depois 
ao palácio de Marialva afim de pagar uma visita ao grão-prior. O pateo cheio 
de mesquinhas seges, recordou-me a entrada d'uma casa de posta em Fran- 
ça; lembrança que não foi desvanecida pelo aspecto de volumosos montes de 
estrume, por entre os quaes não andamos pequeno espaço até à escadaria 
prmcipal, tendo empeçado n'uma porca que alli retouçava com uma numero- 
sa progénie fugindo por entre as nossas pernas, com queixosos grunhidos. 

«Esta bulha annunciou a nossa chegada, vindo receber-nos o grao-prior, 
e seu sobrinho, o abbade velho, e um tropel de criados; todas as principaes 
famílias portuguezas são infestadas de bandos d'estes, em geral, desfavoreci- 
dos dependentes, e ninguém mais que os Marialvas, que distribuem diaria- 
mente trezentas rações, pelo menos, de arroz e outros comestíveis a tão ávi- 
dos devoradores. 

«O grão-prior desataviado de seus hábitos prelaticios fez as honras da casa, 
e nos conduziu promptamente a todos os aposentos, e ao picadeiro, onde o 
marqnez velho, seu irmão, posto que de edade bastante avançada, ostenta os 
primores da mais consummada picaria. Parece ter decidido gosto pelos reló- 
gios de parede, bússolas e pêndulas; contei nada menos de dez no seu quarto 
de cama, quatro ou cinco em plena oscillação dando estrondosos assobios; 
tocavam e davam horas, porque eram as seis em ponto, quando eu seguia o 
meu conductor subindo e descendo meia dúzia de lanços de escada até uma 
sala forrada de damasco desbotado. 

«No centro d'este antiquado aposento havia uma mesa atulhada de rari- 
dades postas alli por ostentação; curiosas obras de conchas, crucifixos de 
marfim, modelos de navios, xairéis bordados de pennas, e Deus sabe quantas 
coisas mais, tudo recendendo a camphora d'um modo capaz de tombar um 
homem. 

«Quando nós olhávamos com grande applicação tapando o nariz com os 
lenços, appareceu o conde V... vice-rei do Algarve, de grande uniforme verde 
e agaloado, e de pernas largas fazendo tregeítos, como a quem tinha aconte- 
cido algum accidente desagradável. 

«Comtudo estava na melhor disposição, e era o novo bispo, que com muita 
complacência recebeu, assim que se fez conhecer, os nossos cumprimentos. 

«A conversação sustentou-se coxeando intercalada de variedade de idio- 
mas, hespanhol, italiano, portuguez, francez e ingiez, todos por seu turno em 
rápida suecessão. Os assumptos doesta salgaihada polyglota foram as magni- 
ficências e piedade do rei D. João V, o pezar peU extincção dos jesuítas, e o 
inverso pela morte do marquez de Pombal, á memoria do qual o bispo con- 
sagra pouco menos que a execração. Este fluxo de eloquência era acompa<- 
nhado pelas mais extravagantes e ridículas visagens, que eu tenho observado, 
com uma chuva de perdigotos, porque o vice-rei tendo continua humidade de 
bocca baba-se a cada syllaba. Comtudo não se deve decidir de salto pelas ap- 
parencias exteriores. Este personagem babão e manhoso é um distincto esta- 

TOMO I 6 



Si BE 

dista e hábil empregado, preeminente entro os poucos, que toem prestado 
serviços e dado provas de vigor e capacidade. 

«Para evadir-me ás enfadonhas narrações, que me escandeciam os ouvi- 
dos, refugiei-mo ao pó â'um cravo, ao qual cantava, fazendo ao mesmo tempo 
acompanhamento o Polycarpo, um dos primeiros tenores da real capella. Meio 
corridas as cortinas da porta d'um escuro quarto contiguo, deixaram-me en- 
trever um transitório vislumbre da pessoa de D. Henriqueta de L..., Irma de 
D. Pedro, adiantando*se n'um momento, e retirando-se logo no outro, dese- 
josa de approximar-se e examinar as nossas figuras estranhas, porém não se 
aventurando a entrar na sala na ausência de sua mãe; pareceu-me uma inte- 
ressante menina com olhos d'uma languidez feiticeira; do que oiço dizer a seu 
respeito só divisei uma figura pallida, evaporavel como as que a phantasia 
nos finge ás vezes em sonhos. Um grupo de amáveis creanças, suas irmãs, 
creio eu, sentavam-so no chão a seus pós, similhando génios occultos parcial- 
mento nas dobras dos cortinados n^alguns bellos quadros allegoricos de Ru- 
bens ou do Paulo Veronense. 

«Aproximada a noite brilharam as luzes nas torrinhas, terrados, e por toda 
a parto da singular mistura, de que ó composto este palácio com parecenças 
de mourisco; metade da familia occnpava-se a rezar a ladainha, outra metade 
com venetas e brincos, talvez de natureza pouco edificante; as monótonas vi- 
brações da guitarra acompanhadas do ameno e brando susurro das vozes fe- 
mininas entoando modinhas, também formavam uma extraordinária, posto 
que uão desagradável combinação do sons. Escutava eu com avidez, quando 
o darão de archotes o a bulha d'agua batida dos remos nos attrairam ás va* 
randas a tempo do prcsencear uma procissão, que de maravilha se terá visto 
desde o tempo do Noé; duvido que a sua arca abrangesse uma coUecção de 
animacs mais hotcrogenca do quo saiu d'um escaler do cincoenta remos, 
d'onde desembarcaram o velho marquez de M... o seu filho D. Josó, acompa- 
nhados d'um enxame de músicos, pootas, toireiros, lacaios, frades, anões e ra- 
pazes de ambos os sexos, phantasiosamcnte vestidos. 

«Parece que todo o rancho voltava d'uma romaria a certo Santo da outra 
banda do Tejo. 

«Primeiro saltou um anão corcovado, assoprando uma pequena e chíadora 
trombeta, logo em seguida um par de capitães de guias apparentemente com- 
mandados por um personagem fanfarrão, velho e burlesco, de uniforme ap- 
paratoso, e que mo disseram ter representado a parto d*uma espécie de bri- 
gadeiro geral n'uDia casta de ilha: se fosse a Barataria, Sancho o teria cedo 
despojado de cargo, porque, a acreditar a chronica escandalosa de Lisboa, de 
raro apparece um truão mais impudente, parasita e ratoneíro. 

«Logo nos calcanhares d'eslcs vinham com aíToclada gravidade um frado 
de aspecto selvagem, alto como Sansão, e mais dois capuchinhos pezadamento 
carregados, ignoro com quo previsões; apoz dos frades um boticário muito 
magro e descorado, lodo vestido de preto, completamento correspondendo em 
gestos e trajo á íigura, que cada um imagina do sr. Apunlador no Gil Braz; 
seguia-o um oralc improvisador, que nos disparava um esguicho de versos ao 



BE 83 

passar debaixo das sacadas, a que estávamos encostados. Difflcultosamente 
se podia onvir no confoso tumulto de aguadeiros e criados de servir com 
gaiolas de pássaros, lanternas, cabazes de flores, caminhando aos saltos, com 
grande deleite d'um bando de rapazes, que para melhor arremedarem os ha- 
bitantes dos céus traziam azas resplandecentes e ondeantes pegadas aos hom- 
bros rozados. Alguns d'estes anginhos de comedia, eram extremamente lindos 
e tinham o cabello encaracolado com muita elegância. 

«O marquez velho é loucamente amigo d'elles: com elle estão noite e dia, 
e assim participa de todas as vantagens, que uma constituição physíca deca- 
dente pôde tirar do fôlego juvenil e ínnoxio; o patriarcha dos Marialvas tem 
segoido este regimen ha muitos annos, e também alguns outros, que serão 
custosos de acreditar. Tendo uma facilidade mais que romana para eugulír 
immensa profusão de golodices, e dando sempre campo a novo provimento, é 
enorme a comida, que eu vi estendida na mesa para elle. Niuguem me acre- 
ditaria em Inglaterra, se pelo miúdo a referisse; dé-se largas á imaginação 
sobretudo o que pôde conceber-se em matéria de gula, e nenhuma hypothese 
excederá a realidade. 

«Logo que todo o conteúdo, quer do reino animal, quer do vegetal, exis- 
tente no escaler principal, e em mais três ou quatro lanchas da comitiva, foi 
depositado nas respectivas tocas, cantos e poleiros, recebi convite do velho 
marqaez para participar d'uma merenda no seu aposento. Estou bem certo 
que nada menos de emcoenta criados faziam o serviço da meza; e além de 
meia dúzia de tochas, que eram levadas por estado adiante de nós, para mais 
de cem vellas de cera estavam accesas ao longo das camarás, de mistura com 
perfomadores e caçoilas, que diffundiam mui agradável aroma. 

«Achei o dono de toda esta magnificência mui cortez, lhano e affavel. Ha 
uma arbanidade e génio alegre expresso no seu olhar^ voz e gestos, que im- 
mediatamente predispõe a seu favor, o justifica a geral popularidade de que 
goza, e o affectuoso nome de pae, com que a rainha e real família frequente- 
mente o tratam. Todas as graças da coroa se tem accumulado na sua pessoa, 
tanto pelo actual, como pelos precedentes soberanos, fluxo de prosperidade 
nao interrompido nem mesmo durante o grande visiriaio do marquez de Pom- 
bal. «Procedei, como julgardes mais acertado com toda a outra nobreza (cos- 
«tomava dizer o rei D. José ao seu formidável ministro) mas livrae-vos de in- 
«trometter-vos com o marquez de Marialva.» 

«Èm consequência doesta decidida predilecção o palácio de Marialva veíu 
a ser em muitos casos uma espécie de ponto de reunião, um asylo para os 
opprimidos, e seu dono em mais d'uma occasião um escudo contra os raios 
de tão poderoso ministro. As recordações doesse tempo parece estarem ainda 
vivas, porquanto o cordeal respeito e filial affecto, que eu vi tributar ao velho 
marquez, são na verdade notáveis: os seus mais leves movimentos de olhos 
eram obedecidos, aquelles, a quem se dirigiam, mostravam* se gratos c anima- 
doá; seus filhos, o marquez de Tancos e D. José do Menezes, nunca se chega- 
ram a ofTcrecer-lhe alguma coisa sem ajoclliarem; o condo do Vilia Verde, 
herdeiro da grande casa de Angeja, c o vice- rei do Algarve, ambos de pé no 



84 BE 

circujo, qae se formara à roda d'elle, recebiam uma palavra saa benigna oa 
afTavel com o mesmo fervoroso agradecimento dos cortezaos, que dependem 
dos sorrisos e favor de seas soberanos. Por muito tempo me lembrarão as 
gratas sensações, de que me penetrou esta scena de reciproca benevolência; 
aOgurouse-me um escambo de amigáveis sentimentos, benevolência dispen- 
sada sem artificio nem affectação, e protecção recebida sem maligna ou ab- 
jecta vileza. 

«Quão preferível é um governo patriarcbal doesta natureza às deslavadas 
theorías, que sophistas pedantes desejariam estabelecer, e que, se fossem avan- 
te os seus interesseiros e atheistas delírios, solapariam os melhores e mais se- 
guros esteios da sociedade ! Quando os pães deaarem de ser venerados por 
seus filhos, e se não conhecerem os sentimentos de agradecida subordinação 
n'aquelles de edade ou condição, que carecem de amparo e auxilio, em breve 
os reis cessarão de reinar, e as republicas de ser governadas pelos conselhos 
da experiência; a anarchia, a rapina, a camagem percorrerão a superficie da 
terra, e a morada dos demónios será transferida do inferno para o nosso des- 
venturado planeta. 1 

CARTA IV 
PbocissIo bo Corpo db Dbijs ba PAimiABCHAi. 

7 de junho de Í7S1. 

«Atroadores repiques de sinos, bellicoso arruido de tambores, e agudos 
toques de trombeta me puzeram fora da cama ao alvorecer o dia. Segundo o 
grau de devoção, que possuis, acho que não ignoreis que é hoje o dia da festa 
do Corpo de Deus. Estava meio disposto a ficar em casa folheando uma cu- 
riosa collecção de Chromcas Portfiguezas, que o grão-prior d'Aviz me man- 
dara; porém tinha ouvido maravilhas taes da esperada procissão, que não 
pude resistir a tomar algum incommodo afim de presenceal-a. 

«Todos se haviam posto em movimento, antes que eu saisse, e as ruas do 
subúrbio, onde habito, bem como as da cidade, que segui encaminhando-me 
á Só patriarchal, estão inteiramente desertas; parece que passou um ramo de 
peslo pela grande Praça do Commercio e os estabelecimentos mercantis e fis- 
cacs da Bolsa e Casa da índia, porque até os vadios, os varredores das ruas, 
c mesmo os mendigos na ultima phase da decrepitude abalaram manquejando 
para o logar da scena. Só ficaram nas ruas desamparadas uns poucos de mi- 
seráveis cães vagabundos e estropiados, e não vi nas janellas individoos hu- 
manos, á excepção de meia dúzia de creanças tinhosas choramingando, por- 
que as deixaram cm casa. 

«O borborinho da multidão apinhoada á roda da patriarchal, ouvia-se 
muito antes do lá chegar, avançando difflcultosamente entre as fileiras dos 
soldados formados em ordem de batalha. Ao voltar um angulo escurecido pe- 
la sombra dos altos edificios do Seminário contíguo á Patriarchal descobrimos 
as casas, lojas e palácios, convertido tudo em pavilhões, forrados d'alto abaixo 
de damasco encarnado, tapeçarias, cobertores de seda, e colxas de franjas re- 
luzindo em oiro. Julguei acliar-me no meio do acampamento do grão-mogol, 
tão poin[)osameute dcscripto por Bernier. £m especial a frontaria do templo 



BE 8S 

psUva armada com toda a sumptuosidade; esta fachada levanta-se d'um es- 
paçoso adro de lanços de escadaria, que estava coberta de archeiros da guar- 
da real com suas ricas fardas multicôresi e d' uma infinidade de padres tra- 
zendo luzidas e diversas bandeiras de seda pintada; rebanhos de frades ma- 
cilentos, de hábitos brancos, pardos e pretos, vinham saindo de envolta e sue- 
cessivamente, como bandos de penis levados ao mercado. 

^ tDemorando-se fastidiosamente esta parte do espectáculo religioso, abor- 
reci-me, e deixando o balcão, onde estávamos mais à vontade, entrei na egreja. 
Gelebrou-se missa pontifical com pompa magestosa; subiam ao ar nuvens (le 
incenso, numerosos cirios faziam rutilar mais os diamantes da custodia ele- 
vada pelas tremulas e devotas mãos do patriarcha. 

«Antes de acabada a ceremonia ganhei a minha janella para gozar da ple- 
na vista da procissão do Sacramento. Tudo era espectação e silencio no povo. 

«A guarda real se enfileirou de ambos os lados do adro em frente da poria 
da egreja; e por fim um choveiro de ftôres annunciou que se aproximava o 
patriarcha trazendo a custodia debaixo d'um rico palio cercado dos grandes 
da corte, e precedido por uma longa serie de personagens mitrados, de mãos 
postas em acto de adoração, com suas vestes purpúreas roçando pela terra, 
trazendo os seus assistentes os báculos, e outras insígnias da dignidade prela- 
ticia. 

«A procissão desceu vagarosamente os degraus do adro ao som dos cânti- 
cos e do rebombo distante das salvas d'artilheria, sumíu-se n'uma larga rua, to- 
da decorada de luzidas armações, e deixou-me os sentidos enleíados, e os olhos 
offnscados, como se acabasse de despertar de uma visão de esplendor celes- 
tial. N'este momento tenho a cabeça azoinada, e os ouvidos a zunir com a bulha 
confusa dos sons, sinos, vozes, echos dos tiros de canhão prolongados pelos 
montes e diffundidos pela superfície do Tejo.» 

CARTA V 

•asa »B campo B BAXQCKTK DK affn. S # # # — .% D0XXBL1.A TRACilCA 

11 de junho de 1787. 

«Hoje fomos convidados a jantar no campo, na quinta d'um cavalheiro, que 
tem uma carga de nomes, os quaes pronunciados com o mau accento portu- 
guês soam como uma expectoração. 

«O nosso agazalhador hospedeiro é irlandez de origem; gaba-se de uma es- 
tatura de 72 poUegadas, proporcioaal largura de costado, rosto vermelho, per- 
nas hercúleas, e todos os attributes exteriores, pelo menos, d'aquella raça em- 
prehendedora, que não poucas vezes alcança a fortuna de cazar com a rique- 
za. Haverá um anno ou dois que se arranjou com uma opulenta herdeira bra- 
ziliense, e acha-se agora senhor de vastas propriedades, e de uma nedla e aca- 
çapada mulher com uma cabeça, que arremeda a de Holophemes das tapeça- 
rias antigas, e uns hombros que representam muito bem a figura de grandes 
pratos. Pobre creatura! Para maior certeza de que não é nenhuma Yenus nem 
Hebe, tem beiços grossos e voz de machacaz, e notei-lhe algumas disposições 
para bydropica; com tudo os seus risos são frequentes e esperdiçados; ainda 
agrada ao marido com a maior perseverança. 



86 BE 

<Mr. *«# é um caracter singular, não acceita emprego civil ou militar, c 
blazona de certa franqueza mordaz, que segundo eu penso hade desagradar 
muito n*este paiz, onde a independência, quer de bens da fortuna, quer de opi- 
nião, ó raras vezes ou nunca tolerada. Este cavalheiro gosta de ostenta^ na 
mesa; sessenta pratos se me afigurou que seriam pelo menos, oito d'elles de 
fumegantes assados, alem de toda a casta de guizados á franceza, á ingleza, e 
à portugueza. A sobremeza apresentava-se como um modelo de fortificação; a 
principal eropada-torro afoito-me a dizer que tinha três pés d'altura perpendi- 
cular. A companhia não correspondia nem no numero, nem na consideração 
ao esplendor do banquete. Senão tivesse ficado ao pè de mim, por felicidade, 
miss Still e Bezerra, eu teria morrido de enfadamento. 

«Uma sisuda donzelia com portentosas sobrancelhas e olhar, que exprobava 
à porção masculina da assembléa a sua desattenção, era a única dama do paço, 
que Mr. S *## havia convidado. 

«Eu esperava achar-me com todo o rancho do meu conhecimento tomado 
no Jardim Botânico, e acompanhal-o pelas vinhas e pomares d'esta casa de 
campo; mas ai de mim, que não estava fadado para tão recreativa excursão! 
A trágica donzelia, que me constou ter sido infeliz nas suas temas inclinações, 
aproveitou-so do meu braço, o nunca o desamparou em um longo passeio pe- 
las extensas fazendas de Mr. S *## Conversámos em italiano, e dissemos aos 
pássaros que cantavam, aos regatos que susurravam, lindíssimas coisas n'uma 
prosa estonteada, rapsódia de trechos de operas e cantatas, do AmhUas de 
Tasso, e do Adónis de Maríni. 

«O sol acabava de dourar com seus últimos raios os distantes rochedos de 
Cintra; o ar tomava^se balsâmico; nas veredas por entre as vinhas medrava 
a herva viçosa, e miiliares de flores reanimavam-se com o rocio da tarde. Dei- 
xando á senhora o trilho estreito, que dá serventia pelo meio d'estes domínios 
ruraes, caminhei a seu lado por uma regueira bem guarnecida de ortigas, 
acanlhos, e pileíras anãs, arranhando-me o esfolando-me a cada passo. Esta 
penitencia, e a lograçào, que eu sentia mais vivamente, tiraram-me um tanto 
do meu génio jovial; pezava-me ter passado uma tardo deliciosa em tão mes- 
quinha sociedade, o ter lacerado as minhas pernas para tão pouco resultado. 
Quanto eu teria gozado passeando com a joven irlandeza por estes odoríferos 
atalhos entre festões de folhagem veccjante, e de vides pampinosas, não pre- 
zas a ramos esgalhados, ou a tanchões como em França e na Suissa, mas tre- 
pando por leves cannas a oito e a dez pés de altura.» 

CARTA VI 

CO^ÍVKXTO DK BlSl^KII — NOITE DA VBSPBR.% DK lífA^TO AXTO^O 

i2 de junho 1787. 
«Passámos o dia em Bclem inteiramente como em reunião de família com 
toda a legião dos Marialvas. Alguns reverendos padres^ não sei de que com- 
munidade, lhes tinham mandado uma immensa quantidade de sopa muito es- 
pessa, glutinoza e azeitada, porção da qual, segundo parece, costumam os de- 
votos engulir na véspera de Santo António. 



BE 87 

«Depois do uma refeição, qac foi servida debaixo de am toldo estendido so- 
bre nm dos terraços, logo qae o pude fazer airosamente, escapuli -me da roda 
dos fidalgos e senhoras, dos anões, frades, bobos, toureiros, o capellàes, para 
visitar o próximo mosteiro. Subi os grandes lanços construídos a expensas da 
infanta D. Catharína, rainha viuva de Carlos II, e tendo percorrido os claus* 
tros de D. Manuel examinei a livraria, que está longe de achar-se na melhor 
ordem e aceío. ^ 

«Os espaçosos e altos claustros apresentam uma notável extensão de arca- 
das, que, postq não sejam do mais puro estylo, attrahem a vista pelos seus or- 
natos d'arabescos delicadamente lavrados, e pela phantastica côr arruivada da 

9 

pedra. O dormitório, para o qual tem serventia uma linha quasi interminável 
de eellas, mede em comprimento 500 pés folgados. Cada janella tem seu com- 
modo descanso, onde os monges se encostam á vontade, e desfructam a vista 
do rio. 

«N'uma piequena e escura casa dethesouro, que por uma escada de caracol 
communica com aparte do edifício, que a tradição designa como habitação do 
rei D. Manuel, quando em certas épocas religiosas do anno se retirava a es- 
te recinto, mostraram-me à luz de velas algumas alfaias extremamente curio^- 
sas, e em especial uma custodia feita em 1506 do mais puro ouro de Quiloa; 
nio ha coisa mais bella como specimen do bem trabalhado lavor gothíco do 
que esta complicada peça esmaltada, e com mui leves esteios e pináculos cin- 
zelados, tendo os doze apóstolos em seus nichos debaixo de pavilhões, forma- 
dos por milhares de voltas e ramificações. 

«Doeste sombrio recanto fui conduzido á egreja, uma das maiores de Por- 
tugal, vasta, magestosa e phantastica como o interior do templo de Jerusalém, 
segundo o tenho visto representado n'algumas antigas Biblias allemâs. Com- 
tudo pouco havia nos altares, ou monumentos digno de minha investigação. 
«Já era escuro, quando sai da grande portada, e achei o terreiro em frente 
alumiado com a luz coruscante de um renque de fogueiras á beira do Tejo. 
A custo alcancei a minha carruagem sem ser chamuscado por buscapés o 
bombas, e desejei ver-me fora no momento, em que entrara, por quanto estou- 
rou nm foguete mesmo debaixo dos focinhos dos meus machos, que os espan- 
tou terrivelmente. 

« Se por milagre me não acalentasse Santo António, esperava não pregar olho 
em toda a noite, tamanho era o estrondo do fogo artificial, das lavaredas es- 
tridentes das fogueiras, das gaitadas das bozinas em louvor da festa d^áma- 
nhã, SSS.^" anniversario do memorável dia, em que o santo querido de Lisboa 
passou em plácido transito aos gosos do paraizo; vi a sua imagem á porta de 
quasi todas as casas, e até das barracas d'csta populosa capital, collocada em 
:dtar, 6 adereçada com profusão de velas de cera e de flores.» 



* Se os frades no«^ salvaram muitos livras o manuscriplos, lambem nos deram cabo 
de mailos. E isto, cjue diz Guiníruenô na sua Historia lia Liltrrntura Ifnliana, 6. a pura 
verdade. 



86 Blj 

CAUTA VII 



EfiMRJA »■ 0ANTO Airr«MM — •■»■*• »■ Fm . J«A* jACIlVTtt — 

i3 de junho de 1787. 
«Dormi melhor do que esperava, o santo foi propicio; alta noite entibíoa o 
ardor de sens devotos» e as chammas de suas fogueiras um chuvisco vemal, 
que rumorejava agradavelmente esta manhã por entre as parreiras do meu 
quintal As nuv^is dispersaram-se pelas oito horas, e ás nove, quando eu sa- 
bia as escadas da adro da nova egreja, ediâcada no próprio local da casa, em 
que Santo António nascera, resplandecia o sol com todo o seu brilho. 

<Naò posso dizer bem se este ediAcio me recordou o magniâeo santuá- 
rio de Pádua, que ha cinco asnos n'este mesmo dia fez na minha imagina- 
ção uma impressão tão viva.» Aqui não ha constellações de alampadas áureas 
suspensas do ferro lavrado da mysieriosa abobada em lustrosas correntes, 
nem arcarias de alabastro, nem mármores esculpidos. A egreja estriba-se em 
duas fieiras de pilastras, de cantaria^ bem lavrada, mas de mesquinhas propor- 
ções. Sobre o altar mór, onde estava a venerada imagem no meio de brilhan- 
tes luzes, avultava um docel de veludo bordado. Esta armação com ricas Araa- 
jas 6 borlas marca o logar onde foi o quarto do santo; e recebe uma suave 
claridade de uma serie de janellas altas com ricas, guarnições de douradura 
húmida. 

«Muitas caras largas sobresaiam petulantes d'entre a turba do vulgo pro- 
fano no portal do templo; e todos dirigiam os olhos para o seu enthusiastieo 
patrício; mas não era para ser mirado assim o seu sisudo semblante. 

«A ceremonia foi extremamente pomposa. Um prelado da prhneira jerar- 
chia oflQciava com um troço considerável de padres da real capella ao som de 
buliçosas contradanças e minuetes, mais proprías para excitar uma dança de 
patuscos na copa dos banhos thermaes, do que para dirigir os movimentos de 
um pontifico e seus assistentes. 

«Depois de muita musica medíocre, vocal e instrumental, executada a ga- 
lope no mais rápido alegro, subiu ao púlpito Fr. João Jacinto, famoso prega- 
dor, elevou as mãos e os olhos, e despediu uma torrente de phrases sonoras 
em louvor de Santo António. O que não daria eu por uma tal voz! Alcança- 
ria de uns aos outros confins da terra de Israel. 

«O padre indubitavelmente era dotado de grande vigor de elocução, anão 
tinha aquellc accento nasal, lamentoso e hypocríta, tão commum na recita dos 
sermões dos frades. Tratou os reis, tetrarchas e conquistadores com indizível 
desprezo, reduziu a pó os seus palácios e fortalezas, os seus exércitos a for- 
migas, as suas vestes imperiaes a teias d^aranha, e incutiu em todo o auditó- 
rio, excepto os maliciosos herejes da porta, perfeita convicção da superíorída- 
do Santo António sobre todos «aquellrs objectos de uma errónea e impia ad- 
miração. 

•Felizes (exclamou o pregador) eram esses tempos gothicos, falsamente 
denominados tompos de barbárie e ignorância, em que os corações dos ho- 
mens, não corrompidos pola alluciíiadora bobiila da phiio^opfua; se abriam ás 



BE .89 

palavras de verdade, qae manavam, como o mel, das bocas dos santos e con- 
fessores, taes como as que dístillavam os lábios de António. 

«Acabado o sermão, começaram a chiar novamente as rebecas com redobra- 
do vigor, e eu aborrecido de tão intempestiva leveza, retirei-me agastado para 
casa. Esta ténue nuvem de enfadamento dissipou-se em breve pela amável 
presença do bom prior de Aviz, como o qual não existe talvez no mundo um 
caracter mais benigno e evangélico, que gloriâque Deus com menos osten- 
ta^, e tenha uma benevolência mais sincera para com o próximo. Este ex- 
cellente prelado tinha 5?asto a manhã, não em assistir a ceremonias pomposas, 
mas em consolar os enfermos, e remediar os indigentes, subindo aos seus mi- 
seráveis aposentos a ministrar soccorros em louvor do santo, cuja festa se ce- 
lebrava, e cnja reputação da pratica de toda a casta de actos de caridade se 
tem transmittido de pães a filhos entre os habitantes da cidade por uma longa 
serie de gerações. 

«A nossa conversação não foi de natureza tal que me inclinasse a aban- 
donar pompas e vaidades. Hesitei se veria a procissão, que se esperava que 
passasse pelas prineipaes ruas da cidade, e acompanhado do meu reverendís- 
simo amigo fui gosar da serenidade da tarde na praia de Belém. Fiz alto ao 
passar pelo palácio de Marialva, e levámos comnosco D. Pedro e seu aio, o 
velho abbade, que propoz uma visita ao Convento da Cartuxa de Laveiras. 

«Em meia hora quasi estávamos sentados á vista da egreja, que faz fren- 
te para os jardins e quinta real de Caxias: fomos introduzidos n'um vasto e 
silencioso quadrangulo: alguns espectros d'aquella ordem monacal se escoam 
pelos claustros, que se ramificam d'este pateo. No meio ha uma lonte de már- 
more, sombreada por pyramides de buxo tosqueado, e em redor sete ou oito 
pequenas capellas, uma das quaes contem a imagem incarnada do Salvador 
Dl mais tremenda agonia de sua Paixão, a qual se figura coberta de contu- 
sões e sangue coalhado. 

«Quando nos occnpavamos a examinar esta imagem tão própria, alguns 
monges por ordem do seu superior se juntaram ao pé de nós; um d'elles in- 
teressante e bem apessoado, altrahiu a minha attenção pela profunda melan- 
colia retratada nas suas feições. Tendo-me informado soube que apenas con- 
tava vinte e dois annos d'idade, que era de illustre ascendência, e doudo de 
viveza e talento; mas a causa immediata de ter procurado esta morada de quie- 
tação e de austeridades repugnava ao grão prior o communical-a. 

«NIo pude deixar de observar, tendo diante de mim a victima novel, e 
contemplando a luz vespertina, que coava pelas arcadas do quadrangulo, quan- 
tos oecasos do sol verosimilmente elle teria de ver desperdiçar seus luzeiros 
sobre estas paredes, e quão enfadosa serie d*annos essa, a que se sacrificou, 
eonfomida com toda a probabilidade dentro d'este recinto. Os olhos do bondoso 
prior hamedeoeram-se de lagrimas, Verdeil estremeceu de horror, e o abba- 
de, olvidando o supersticioso papel, que geralmente representa nos legares 
saatíficados, prorompen em vehementes exclamações contra a tolerância dos 
sacrificios humanos, e de permittir que renunciem o mundo mancebos ainda 
incapazes de fazerem devida apreciação de suas magoas ou vantagens. Quanto 



90 BE 

a D. Pedro a sua compleição meiancolica recebeu nm supplemento do triste- 
za á vista dos objectos, que o rodeavam. O vento frio, que soprava de nma 
casa de abobada, onde os padres os enterram, e cujo pavimento dá um sóm 
cavo, quando se anda, lhe incutiu terror. Era a primeira vez que entrava n'nm 
convento Cartuxo, e, com admiração minha, mostrava ignorar as austerida- 
des da ordem. 

«Tinha-se posto o sol antes de voltarmos à nossa carruagem, e na conver- 
sação em todo o caminho até casa ressumbravam as impressOes, que nos ins- 
pirara a scena, que presenciámos.» 

CARTA vm 

ClTKMMiAfl TMITAS — PADBB TRIODOBO D'Al.imDA — MBX^AeiCli »■ FBBmAfl 
— TBBATA« »A KCA dou OOMBBS — AMCBBI0PO DB THBBSAIiOinCA — ■•»!• 

NHAB Bmabilbimab — Phautabiab. 

i4 de junho de 1787. 

tCoube-me hoje a sorte de receber uma curiosa serie de visitas. O primei- 
ro foi Pombal, que parecia gasto por excesso de prazeres e pelas noitadas, mas 
que se apresenta com um agrado e modos elegantes, não muito communs n'es- 
te paiz. 1 Posto que seja um dos mais ricos proprietários de fazendas no rei- 
no, de rendimento de cento e vinte mil cruzados por anno, quiz metter-mo 
na cabeça que seu defunto pae, o açoito e terror das casas mais nobres de Por- 
tugal, o único administrador do real erário por muitos annos, não obstante 
isso fallecera em circumstancias apuradas, carregado de dividas, que contrairá 
para manter a dignidade de seu cargo. 

«O immediato que, me honrou com a sua visita foi o juiz da conservatória 
ingleza, João Telles, ramo, não sei bom se legitimo, se espúrio, da casa dos Pe- 
nalvas; este sujeito, que ascendeu a um dos mais eminentes legares da magis- 
tratura só pela força de sua capacidade, ó dotado de um estylo de expressão 
original e nervoso, que me trouxe à ídéa Lord Tburlow; mas a todo o seu vi- 
gor de caracter e de dicção reúne a flexibilidade e ardileza de serpente; e 
aquelles, que não pôde levar d'assalto, está certo de vencel-os cora algumas 
astuciosas descargas de lisonjas e blandícias. 

«Logo que elle se retirou, veiu um par de frades com um cestinho de do- 
ces mettidos em papel de lavores, dadiva de uma abbadessa fidalga, snppli- 
cando-me o dote para duas lindas donzellas, que iam ser esposas de Christo 
n'um convento dos subúrbios. 

«Apenas os tinha despedido, entrou o padre Theodoro d'Almeida com ou- 
tro de seus confrades: qnasi que só se lhe viam as alvas dos olhos; nem o ori- 
ginal doutor vesgo do Foote era capaz de os revirar com maior sciencia. 

«Prestei a máxima attenção ao seraphico discurso do padre Theodoro, não 
sendo para desprezar tao excellente opportunidade de ouvir um specimen, de 
primeiro lote, de geringonça hy^ocríta. Inda bem os frades não tinham sido 
conduzidos ao patamar da escada com a devida cerimonia, annuncíou-se a che- 

1 Panorama de 1855, pag. 317. 



^ BE 9i 

gada de monsenhor Aguílar, um dos prelados da Sé Patriarchal; o qual me 
GonOrmoQ na opinião, qae eu tinha formado do padre Theodoro. Ninguém po- 
derá accusar de hypocrisia o monsenhor Aguilar: ao contrario é de rasgada 
franqueza, e trata a egreja, d'onde lho provém pingue mantença, não como pa- 
troa^ mas como humilde companheira, assumpto e alvo constante dos seus sar- 
casmos. Em Portugal, ainda no corrente anno de i787, tal proceder é doudi- 
ce, e receio-lhe qualquer dia severa perseguição. 

•Ao tomar pacificamente uma chávena de cháfez-nos erguer uma estron- 
dosa bulha na rua, e correndo á sacada achámos apinhada a sórdida relê de 
velhas fúrias, rapazes e maltrapilhos, tendo á frente meia dúzia de tambores, 
e uns poucos de pretos de vestias escarlates assoprondo trombetas com ex- 
traordinária vehemencia, e apontando-as directamente para a casa. Maravi- 
Ibou-me este modo de assediar uma porta como as muralhas de Jerichó; e re- 
cuando um pouco para não ser chamuscado por um foguete, que zuniu obra 
de uma pollegada adiante do meu nariz, vi entrar um criado trazendo em sal- 
va de prata um crucifixo, e uma delicadíssima mensagem das freiras do mos- 
teiro do Sacramento, que mandavam a sua musica com pandeiros e fogo do 
ar convidar-nos para rasgada funcção no seu convento em honra á festividade 
do Coração de Jesus. Na verdade que estas funcçòes de egreja começavam a 
perder para mim o attractivo, que lhes dera a novidade: estava já um tanto 
farto de motetes e de kyrie eleisons, de incenso, bandejas de doces e de ser- 
mões. 

«Aquelle herético Verdeil, para quem valeria quasi tanto estar no inferno, 
como n'este ceu empachado, não descançou, emquanto não deu commigo no 
theatro da Rua dos Condes afim de dissipar com um pouco de ar profano os 
vapores de tamanha santidade. O drama causou-me mais enfado, que diverti- 
mento. O theatro é baixo e acanhado, e os actores, porque não ha actrizes, 
sao inferiores a todo o critério. 

•Tendo as ordens absolutas da rainha afastado do palco scenico as mu- 
lheres, os papeis attinentes a estas são representados por mancebos. Julgae 
que agradável eíTeito esta metamorphose produzirá, especialmente nos baila- 
rinos. Alli se vé uma robusta pastora trajando as cândidas vestes virginaes, 
de macia barba azulada e proeminente clavícula, colher flores com um punho 
capaz de derrubar o gigante Goliath, e um rancho de leiteiras, seguindo as 
suas enormes pegadas, aos pontapés ás saias a cada passo. Taes meneios e 
saltos desconcertados, taes tregeitos de olhos nunca eu tinha visto, nem espe- 
ro tomar a vér na minha vida. 

«Estávamos cordealmente enfastiados do espectáculo, inda bem não che- 
gava ao meio da peça; e como a noite era serena e agradável tentou-nos a 
dar um passeio até à grande praça do palácio, que recebia a frouxa claridade 
das luzes nos aposentos reaes, abertas todas as janellas para entrar a viração. 
O arcebispo confessor de sua magestade ostentava n'uma das sacadas o seu 
volumoso vulto: da classe de homens rústicos este personagem, agora muito 
importante, veiu a ser soldado raso^ d'ahi passou a cabo d'esquadra, de cabo 
d'esquadra a frade, e n*esta ultima profissão deu tantas provas de tolerância 



92 BE 

e bom génio, qae o marquez do Pombal, topando com elle por ama das ca- 
sualidades, que se esquivam a todos os cálculos, julgou-o sufficientemente as- 
tuto, jovial, e Ignorante para fazel-o innoxio e acommodado confessor de sua 
magestade, então princeza do Brazil : pela accessao d'esta senbora ao throno 
foi despachado arcebispo in partibuSy e inquisidor-mór; é a primeira mola do 
actual governo portuguez. Nunca vi um sujeito mais obstinado e obtuso: pa- 
rece ungir-se com o óleo do contentamento (banbar-se em agua de rosas), 
folgar e engordar a despeito da critica situação dos negócios n'este reino. 

tlTuma janella, immediatamente por cima da luzida testa de sua revoren- 
dissima, divisámos as duas formosas irmãs Lacerdas, damas de honor da rai- 
nha, acenando-nos com as mãos a convidar-nos: era incentivo bastante para 
galgarmos vastos lanços de escadas até o seu aposento, que se achava atu- 
lhado de sobrinhos, sobrinhas, e primos, apinhando-se em tomo de duas jo- 
vens mui elegantes, as quaes acompanhadas de seu mestre de canto, um frade 
baixo e quadrado e de olhos verdes, garganteavam modinhas brazileiras. 

«Quem nunca ouviu este original género de musica, ignorará para sem- 
pre as mais feiticeiras melodias, que tem existido desde o tempo dos sybari- 
tas. Consistem em languidos e interrompidos compassos, como se faltasse o 
fôlego por excesso de enlevo, e a alma anhelasse unir-se a outra alma iden* 
tica de algum objecto querido. Com infantil desleixo insinuam-se no coração 
antes de haver tempo de o fortificar contra a sua voluptuosa influencia; ima- 
ginaes saborear leite, e o veneno da sensualidade vae calando no mais intiuK) 
da existência: pelo menos assim succede áquelles, que sentem o poder dos 
sons harmoniosos: porém não respondo n*este caso pelos animaes do norte 
fleugmaticos e duros de ouvido. 

«Uma ou duas horas correram quasi imperceptivelmente no deleitoso de- 
lírio, que aquellas notas de sereia inspiravam, e não foi sem magua, que eu 
vi a companhia dispersa, e o encanto desfeito. As donas do aposento tendo 
recebido aviso para assistirem á ceia de sua magestade, ílzeram-me uma me- 
sura com o maior donaire e desappareceram. 

«De caminho para nossa casa encontramos o Yiatico, acompanhado de vi- 
vidas luzes, levado em procissão a fazer a algum enfermo a visita de despe- 
dida; o esperançoso fidalgo, moço conde de Villa Nova (depois marquez de 
Abrantes) precedia a umbella, de capa encarnada, e tangendo upaa campai- 
nha de prata. Nunca falha a estes acompanhamentos, e passa a flor da moci- 
dade n'este singular beaterio; ainda não houve amante mais cioso da sua na» 
morada, do que este ingénuo mancebo o é da sua campainha; não lhe sofDre 
o animo que as vibrações doesta sejam obra d'outra pessoa; os mezarios paro- 
chiaes do extenso e populoso bairro onde está situado o seu palácio, consen- 
tem n'este capricho, por attenção ao seu nascimento e opulência; e de certo 
não podiam escolher mais assiduo porta-campainha. A toda a hora^ e faça o 
tempo, que fizer, está prompto a desempenhar este bento ministério; e nas tre- 
vas de alta noite, no mais intenso calor do dia, ou subindo ou descendo, quer 
a uma espelunca, quer a um sótão, lá vae onde se requer um auxilio espiri- 
tual d'esta natureza. 



BE 98 

«Por vezes se tem observado que taes coisas não se hip de ievar á conta 
de manias; cada pessoa tem a sua tineta, que segue, como pôde, e que prefere 
a tudo. As delicias do velho marquez de Marialva consistem em jantar entre 
08 seus dois aparadores de prata: as do marquez seu íilho em esperar muito 
tempo pela rainha: e as do conde de Villa Nova em annunciar com a sua 
campainha a todos os fieis crentes a aproximação da celeste magestade. A 
actual tineta do rabiscador doestas extravagâncias são as modinhas brazilei- 
ras, e sob a sua influencia acha-se muito tentado a dar á vela para o Brazil, 
terra natal d'aquellas feiticeiras composições, a viver em choças, taes como as 
descreve Parny.» 

CARTA IX 



Mmrwmm mu vbaa* — ITbspkma db 0. Pbda* — Palac»* da ca«a »b Aucibja — 

COIf VENTO DAS 0ALB«IAS — BlADAinC 0CAMEJàTl 

29 de junho de Í7S7. 

<0 sol resplandecente, com que os últimos dias nos brindaram, apezar do 
seu explendor começa a enfastiar-me. Vinte vezes no dia debalde cubico estl- 
rar-me ao comprido na fresca relva de algum frondifero valle inglez, onde as 
fadas dançam ás horas do crepúsculo estivo, e segredam a seus somnolentos 
amigos as boas ou más sinas, que os aguardam. Em Portugal o calor é de- 
masiado para esses vaporosos entes fatídicos; não ha, pois, que esperar as 
suas inspirações: prouvera ao ceu que alguma revelação, d'esta ou d'outra 
natureza, a tempo me tivesse avisado da poeira de cegar, e da excessiva calma 
de Lisboa e seus subúrbios. Que tolice de quem está bem e refrigerado em 
casa, vadiar por fora na fútil esperança de melhorar no que já de si é óptimo! 
Capacitae-vos do que vos digo, ha mais delicias de primavera, e mais goso 
em nossas verdejantes collínas e bosques do que em todos estes enfezados oli- 
vedos e crestados promontórios. 

«Temos um rifão que diz : — É peçonha para uns, o que para outros é 
manjar — não ha coisa mais certa. Estes dias e noites de temperatura arden- 
te, que me opprimem sem allivio, são o deleite e ufania dos habitantes d'esta 
capital. O calor não somente parece ter avenenado os ferrões das moscas e 
mosquitos, mas também arrojou para a rua, por noites inteiras, todos os abe- 
Ibões humanos, que pulam e bailam e arranham bandurras desde o sol posto 
até à alvorada. Junte-se-lhes os cães em abundância, latindo e uivando sem in- 
t^rrnpção; a vozearia das ladainhas, dos terços; os estalidos do fogo de arti- 
ficio, que os devotos deitam sem cessar em louvor' de algum membro da ce- 
lestial jerarchia; a bulha suja da vadiagem insolente, que percorre as ruas 
em busca de aventuras; ver-se-ha que não ha pilhar uma piscadella de somno, 
ainda quando o suão o permittisse. 

«Quanto ás mansas convivências nocturnas, onde ingénuos mancebos re- 
pousam as cabeças, não em o regaço da mãe terra, mas de suas amasias que 
pacificamente se empregam em livrar d'uma copiosa população as madeixas 
azevichadas de seus affeiçoados, nada tenho a dizer contra ellas; nem me per- 
turbam es sons das caldeiradas jorrantes das janeUas; porém os uivos caninos 



94 Í^E 

de que acin:a fallci^xcedem todo o incommodo, que n'esto género tenho sop- 
portado, o fornecem não pequena noção previa das regiões ínfernacs. 

«Gomo em a presente estação só se cuida em folias e algazarras, e a cele- 
bração da festa do S. Pedro com o maior barulho e dispêndio, que fòr possi- 
vel, não é tanto uma inclinação profana, como um pio dever, o tal bolonio 
conde de Villa Nova abriu os seus jardins a noite passada a toda a fidalguia 
e maltezia de Lisboa; fez uma insipida illuminação de balões 4e papel, e armou 
uma casa de pavilhão para dansa, achavascadamente consiruido, sob o qual 
as mais elegantes costureiras francezas e inglezas e capellistas da metrópole 
figuravam nos cotilhões com o duque de Cadaval e outros moços da principal 
nobreza, os quaes, como muitos da nossa capital, e também de boas esperan- 
ças, só estão á sua vontade em humilde companhia. Dois ou trcs dos meus 
criados acompanharam o meu alfaiate á festa, e vieram extasiados dos modos 
jocundos das capellistas estrangeiras e da nobreza nacional. 

«Dei-me por satisfeito de íicar em casa a coberto dos meus transparentes 
verdes, ouvindo por mera preguiça, qualquer destempero que aprouvesse a 
alguém dizer-me. Mas tínhamos ha muito sido convidado a jantar com D. Diogo 
de Noronha no palácio de Angeja. Chegando ao nosso destino, achámos o 
herdeiro da casa rodeado de padres e pedagogos, doutrinando-se em mirar à 
jancUa, precípua occupação da vida d'um fidalgo portuguez. Oh que preciosa 
coUecção de contos eu ouvi n^este banquete attico. Aconteceu acbar-se na 
companhia um estúpido padre ainda moço, não me lembra de que universi- 
dade (espero que não fosse a de Coimbra) que nos regalou durante o jantar 
com estupendas narrações, laes como de uma pérola da rainha defunta, e de 
inestimável valor, moída para se engulír em beberagcns medícinaes; outra 
acerca de umas freiras do convento do Sacramento, que tendo seus namori- 
cos com o próprio Belzcbuth cm pessoa, foram mettidas na inquisição, eaja- 
uella por onde sua magestade infernal entrara, depois d'esta proeza de galan- 
teio, foi entaipada, e toda pintada da cruzes vermelhas; accrescentou que a 
mesma decoração preventiva foi distribuída por todas as frestas da frontaria, 
para que nenhum demónio, ainda o mais ateado em desejos, podesse repetir 
o feito. Também nos quíz embutir que uma mulher mui guapa, engordando 
a olhos vistos, com os peitos sempre arrebentando de leite, que tomava crean- 
ças de mama, mais barato do que outra qualquer ama, e que de ordinário as 
sumia, lá jazia agora nos cárceres do santo officio accusada de ter feito em 
picado para cima de vinte innocentes ! 

«Deus me livre de relatar outras mais particularidades da nossa conver- 
sação á meza; se o fizesse, ficaríeis aceiadamente empazínado. 

«Depois de jantar a companhia dispersou- se, uns para os seus encostos da 
sesta, alguns para ouvirem uma tocata de saltério acompanhada na harpa he- 
brea, por um par de anões; o herdeiro presumplivo para a sua querida janella; 
e Verdeil e eu tomamos para o convento de freiras saboyanas em Bolem, o 
mais fresco e limpo retiro d*estas cercanias, e ainda por cima d'isto abençoa- 
do pelo especial patrocínio e direcção do padre Theodoro d'Aimeida. Parece 
que sua reverondissima foi o principal instrumento, abaixo da Providencia, da 



BE 95 

transplantação doestas bemdítas vergonteas de santidade do convento da Visi- 
tação em Annecy para o ardente clima de Portugal. 

«Como eu tinha acabado de receber uma assucarada epistola d'este exem- 
plar de piedade, recommendando o seu prezado estabelecimento n'algumas pa- 
ginas de fervoroso panegyrico, elle não poude deixar de sair do interior de 
seu ninho; e fez-nos bom gazalhado com um semblante rebuçado de brandos 
sorrisos, posto que ouso dizer que, pela nossa invasão, desejaria esfolar-nos. 

«Pobres creaturas! (nos disse fallando das educandas d'esta capoeira) fa- 
zemos quanto em nós cabe para aperfeiçoar seus tenros entendimentos e suas 
castas linguas nos idiomas estrangeiros. Soror Thereza tem singular pericia pa- 
ra ensinar arithmetica, a nossa venerável madre é bastante profunda em gram- 
matíca, e soror Francisca Salesia, que eu tive a dita de trazer de Lyon, não 
só é mui persuasiva moralista, como também geralmente reconhecida por uma 
das eminentes mestras de costura em toda a christandade; estamos soffrivel- 
mente quanto a bordados. Em musica não ha grandes proficiências; não per- 
mittimos modinhas, nem árias de opera; e o que n'este ramo podeis esperar 
é apenas o canto singelo; em summa não estamos bem preparados para rece- 
ber tão distinctos hospedes, e nada possuímos do que o mundo chama interes- 
sante, que nos recommende; mas, em compensação, eu, seu indigno confessor, 
devo declarar que tanta docilidade, e tão puras consciências como tenho acha- 
do n*este asylo são thesouros muito acima de quantos as índias nos possam 
fornecer. 

«Yerdeil e eu, cônscios da nossa pequeneza, ficámos de todo o ponto hu- 
milhados por esta sublime declamação, despejada de braços cruzados sobre o 
peito, e olhos postos no tecto, como algumas Imagens, que tenho visto de S. 
Francisco Xavier. Um minuto pelo menos esteve sua reverencia sem mudar 
d'esta attltude; d'ahi a pouco correu uma cortina, tendo a condescendência de 
admittir-nos n'um espaçoso locutório deliciosamente fresco, perfumado de 
jasmins, e povoado de pombinhas brazileiras, papagaios, e canários; arrulhos 
e chilros taes nunca se ouviram em maior auge de perfeição, excepto no pa- 
raizo de Mafoma; nem faltavam as huris, por quanto n'um esconderijo,, que 
se dilatava para dentro da clausura, detraz d'uma rotula soffrívelmente larga 
estava sentada uma fileira das mais amáveis donzellas, que eu tenho visto; seus 
olhos de feiticeira meiguice parecia adquirirem nova fascinação n*aquella mys- 
teriosa espécie de crepúsculo, luzindo atravez do duplicado ralo d'arame. 

«De quando em quando os pássaros, de nenhum modo intimidados pelos 
predatórios relances d'olhos do padre Theodoro, violavam o santuário, e pou- 
savam nos eólios alabastrinos, sendo recebidos com milhares de caricias pelos 
anjos doeste pequeno e retirado Éden, que tão refrigerante parecia, e que pelo 
sen religioso socego formava notável contraste com o turbulento mundo cá 
fora e sua rutilante atmosphera; de maneira que não pude reprimir-me, e ex- 
clamei: Oh quem me dera azas como a pomba, que voasse atravez d'essas gra- 
des, e lá repousasse para sempre ! 

•Desnecessário ó referir- vos que passamos meia hora deliciosa fallando de 
musica, tlores e devoçlo com as meninas; quasi nos ia esquecendo a premes- 



96 BE 

sa de ouvir canUtr Scarlati, cajo pae de origem italiana, antigo capitão do ca- 
vailaria» reside não muito longe do convento da Visitação; por isso não tive- 
mos tempo de experimentar no transito a penosa differença entre o fresco lo- 
cutório das freiras e o abafador ar externo. 

tNumeroso grupo de parentes das senhoritas achava-se à porta da casa 
com a hospitaleira cortezía, que tão notavelmente distingue os portugnezes, 
para introduzir-nos no andar superior em uma galeria adereçada de pannos 
de raz e de placas, na apparencia mais d'uma ostaria italiana, do que de pa- 
lácio de cavalleiro; para nos conflrmar nas idéas das casas de posta, aspira- 
mos ao subir, os fortes effluvios da estrebaria, e ouvimos as patadas e rinchos, 
como se um bando de monteadores viesse tomar parte no concerto. 

tMuitas caras singulares c indígenas de ambos os sexos estavam alli reu- 
nidas, collecção disparatada e extraordinária, segundo conjecturo; dispenso-me 
de individual -as. A dona da casa, senhora ainda moça, encantou-me à primei- 
ra vista pelas suas maneiras engraçadas e modestas; porém, quando cantou 
algumas árias da composição do famoso Peres, não só me deleitou, fez-me pas- 
mar; a sua voz modula-so em uma negligencia desafectada nos tons mais pa- 
theticos. Posto que tenha adoptado o estylo magistral e scientiflco de Ferra- 
ruti, um dos primeiros cantores da rainha, dá uma simplicidade de expfeasão 
aos trechos mais difflceis, similhando as cfTusões d'alma d'uma heroina de no- 
vella trinando solitária no recôndito das florestas. 

«Sentei-me n'um canto obscuro, sem dar fé nem do que se passava no apo- 
sento, nem das extravagantes physionomias dos que entravam ou saiam; as 
vistas attentas, o cochichar, os movimentos e mexericos da assembléa eram pa- 
ra mim cousas perdidas; não fui senhor do proferir uma syllaba, e bastante 
me ailligiu que uma despótica tia velha insistisse em que não se cantasse mais, 
e propozesse uma partida e dança.» 

CARTA X 

ALTIM K BAIXOM DB I.1SBOA— ^VIIVTA do DU^K DB IíAvSbB — • JBBVITA •tlABTB 
B VM MBDIGO BIDICULO — 0« PBNALVAB — COXCBBTB IWPBBTURB 

30 de junho de i787. 

«Depois de jantar puzemo-nos na rua para pagar visitas. ^ Nunca vi cm 
minha vida tão amaldiçoados altos e baixos, tão abruptas ladeiras, tão Íngre- 
mes subidas, como se topam a cada passo caminhando por Lisboa; cincoenta 
vezes me julguei a ponto de despenhar-me no Tejo, ou de tombar em valias 
areientas entre chinellos velhos, gatos mortos, ciganas fuscas; que se acoutam 
n'essas espeluncas e esconderijos para ler a buena dicha, ou vender amuletos 
contra febres e quebrantos. 

•A inquisição muito a miúdo pilha estas miseráveis sibyllas, e as vexa 
abominavelmente; ao passar pelas minas d'um palácio, que o ten*amoto de- 
molira, vi uma d'essas mulheres, que arrastavam à claridade; se a filava nas 
garras algum familiar do santo oílicio, ou se lhe tomava contas algum rufião 

> Panorama de 18íiU, vol. xii, pag. :{51. 



BE 97 

burlado, é o que não pretendo, nem posso afiSrmar. Gomo quer que fosse, tíve 
a fortmia de se arredar da vista áqaelle hediondo vulto, cujas contorsões e 
uivos eram na verdade horríveis. 

«Quanto mais conhecemos Lisboa, menos corresponde à expectativa suscí<^ 
tada por sua magnifica apparencia do lado do rio. Se um viajante pudesse ser 
transportado subitamente, sem prevenção nem apparato a differentes partes, 
rasoavelmente podia conjecturar que tinha atravessado uma seríe de povoa- 
ções ligadas desconcertadamente, e ficando-lhes sobranceiros massiços con- 
ventos. Os templos em geral são d*um pezado gosto de architectura, o es- 
tylo de Barromini, com empenas arrugadas, cornijas e torrinhas com folhoSy 
algumas à maneira das caixas de relógio da antiga moda franceza, como Bou- 
cher as desenha, com muitos arrebiques e floreados, para adornarem as salas 
de madame de Pompadour. 

«Esta tarde atravessámos a cidade em todo o seu comprímento, dirígindo- 
nos ao palácio de campo do duque de Alafões, e fornecemos a um copioso nu- 
mero dos mais fieis súbditos da rainha a opportunidade de admirarem na al- 
tura da caixa da carruagem o gibão curto do cocheiro, e outros inglezismos 
da equipagem. O duque tinha sido chamado a um conselho d'estado; só acha- 
mos o marquez de Marialva, que nos andou mostrando todos os aposentos da 
casa de campo, que nada tem notável, excepto uma ou duas vastas salas de 
bellas e assombrosas proporções. 

•Propoz-nos em seguida acompanhar-nos obra de meia milha mais adiante 
á quinta de Marvilla, propriedade de seu pae. Esto sitio tem grandes bellezas 
pittorescas. As arvores são antigas e de forma caprichosas, curvando* se por ci- 
ma de fontes destruídas e estatuas de guerreiros mutiladas, que o lapso dos 
annos serapintou de innumeraveis tintas de vermelho, verde e amarello. No 
centro de quasi impenetráveis balsas de louro e buxo alteiam-se extravagantes 
pyramides de pedra lavrada, que rodeiam leões de mármore, de catadura ma- 
gica e symbolica. O marquez tem o sentimento delicado de respeitar estes ru- 
des monumentos de uma época, em que seus ascendentes praticaram muitos 
feitos heróicos; e francamente me prometten nunca as sacrificar, nem as ve- 
nerandas sombras, que abarcam as ruas, ao gosto ligeiro e loução da moder- 
na jardinagem portugueza. 

•Voltamos de passeio para casa por um luar sereno da lua cheia, que des- 
pontava detraz dos montes, na opposta margem do Tejo, o qual n'esta extre- 
midade da metrópole tem quasi nove milhas de largo. Lisboa, que poucas ho- 
ras havia me parecera tao desinteressante, assumiu mui diverso aspecto sob 
aquelle suave clarão. Os átrios, eirados, capellas e portadas de vários conven- 
tos e palácios à borda do rio luziam como edificios de^armore branco, ao 
passo que as escabrosas ribanceiras e os mesquinhos telhados sobre ellas er- 
guidos quasi jaziam submersos em sombras espessas. O terreiro do paço, por 
onde seguimos caminho, estava cheio de ociosos de todas as classes e sexos, 
pasmados para as vidraças illamínadas do palácio, na esperança de ver n'nm 
relance a sombra momentânea de sua magestade, do príncipe, do confessor, ou 
das damas, escoando* se d'um para outro aposento, e sendo alvo espaçoso de 

TOMO I 7 



98 BE 

vãs conjecturas. Disseram- me que o confessor, ainda que um tanto adiantado 
na carreira dos annos, está longe de ser insensivel aos engodos da beileza, e 
segue de janella em janella as nymphas moças do paço com juvenil alacri- 
dade. 

tDavam as nove, quando entramos em casa, e ainda bem não tinha re{Kia- 
sado do passeio, e posto em ordem algumas plantas colhidas nas montas de 
Marvilla, três distinctas badaladas da campainha na minha porta annunciaram 
a chegada de algum personagem distincto; não me achei burlado, porque era 
o velho marqnez de Penalva, e seu filho, que apenas haverá um anuo, antes 
de lhe conceder a rainha o mesmo titulo do pae, chamava-se Conde de Tarouca. 
cTereis ouvido fallar muito n'aquelle nome, que o avô do marquez velho 
assaz illustrou em diversas e bem succedidas embaixadas; as suas brilhantes 
conferencias no congresso de Utrecht vem largamente descriptas na obra de 
madame de Noyers, e em vários livros de memorias. 

cOs Penalvas traziam em sua companhia n'esta tarde um celebre jesuíta, 
padre Duarte, que o marquez de Pombal julgou tão importante, que por de- 
zoito annos esteve encarcerado; e vinha também um medico alto, de joelhos 
desengonçados e faceira rubicunda, vestido de uma andaina magnifica de se- 
tim lustroso, um dos mais desastrados e presumidos professores da arte de 
matar, que eu tenho topado. Entre o jesuita e o doutor não fiz pequeno esfor- 
ço para manter-me commedido e serio; pairaram incessantemente, com preten- 
ções de mui implícita admiração por tudo quanto vinha d'Inglaterra» quer em 
matéria de moveis, quer de bellas-artes, e confundindo nomes, datas e indiví- 
duos n'uma indigesta mixordia, perguntaram se não era sir Peter Lely o actual 
presidente da nossa academia real, e espraiaram-se em vivos encómios ao meu 
compatrício Hans Hobbeim. Pedi licença para certificar a estes complacentes 
sábios, que o ultimo dos mencionados artistas nascera em Basilea; e que sir 
Peter Lely tinha morrido ha um século. Assombraram-se algum tanto com 
esta informação; apesar d'isso continuaram na cantilena á solta, disparando 
uma bateria de cumprimentos empolados acerca do nosso progresso nacional 
cm pintura, relojoaria, fabrico de meias etc. a tempo que entrou o general 
Forbes, e operou uma diversão a meu favor. Conversámos um pouco sobre o 
estado presente de Portugal, e os riscos que corre de ser absorvido pelas ne- 
gociações, não pelas armas dUespanha, no lapso de poucos annos. 

cO nosso discurso foi interrompido pela vinda de um rabequista, um pa- 
dre e um musico italiano, humildes criados e commensaes aduladores de mi- 
nhas illustres visitas; deram rijas taponas no meu pobre piano forte, e toca- 
ram symphonías quer eu quízesse, quer não. Bem sabeis quão pouco sou apai- 
xonado de sonatas, ^ que certos meios tons e guinchos de rebeca, quando o 
musico revira as alvas dos olhos, torce o besuntado queixo, e aífecta extasis, 
fazem-me embotar os dentes na bocca; a crispatura do doutor já era de so- 
bejo para produzir o effeito sem o reforço de seus companheiros parasitas, o 
padre e o musico. O jesuita, ao que parecia, via-os com tão bons olhos como 
eu; o general Forbes fez uma prudente retirada; e o marquez velho, inspirado 
por um palheiico adagio, percorreu do súbito a sala u*um passo, que eu lo- 



BE 99 

mei peU abertnra de am bailado heróico, e que porém desandou n*Qm mi- 
nuete á moda portuguesa com todos os pinotes e requebros, ao qual foi con- 
vidada parceira Miss' S. #•• que viera ao cbá, e que accedeu muito contra seu 
gosto. Inda bem não tinham concluido, o doutor alardeou a sua lúgubre e es- 
guia pessoa n'um arreatado minuete anguloso, que não tenho expressdes para 
descrevd-o; de forma que entre as artes irmãs, a musica e a dança fize- 
rani-me passar uma deleitavel noite ! > 

GARTA XI 

0. SrnrnÚ »■ RiBAMAB — HlMPlTAJLIBADB P^ATVOVBSA -» • AlJt^Ç» — 

•imiA Vim • BiMPO Ml AMMAmwm 

2 de julho de 1787. 

«Accordon-me de noite o hórrido alarido dos cães; nem aquella infemisdí 
matilha, que Dryden nos descreve em seu divino conto de Theodoro e Hono- 
ria acompanhando em todas as sextas feiras um phantasma uivava mais es- 
pantosamente; Lisboa é infestada, como nenhuma das capitães, que tenho ha- 
bftado, por bandos d'aquelles animaes semí-famelicos, que com tudo são d*al- 
gnma Iniportancia e utilidade, limpando as ruas d*alguma parte, ao menos, de 
seus fétidos entulhos. 

«Yerdeil, que dormiu tanto como eu, por causa d'uma furiosa batalha, lon- 
gamente protrahida entre dois troços dos taes cerberos, persuadiu-me a erguer- 
me com o sol, e passeiar a cavallo pelas praias de Belém, que appareciam em 
todo o seu esplendor matutino; era bello ver a côr variegada do firmamento 
coin as nuvens radiantes de purpura orladas d'oiro, e o mar coalhado de in- 
numeiaveis embarcações de diíTerentes portes, fazendo espadanar a espuma 
emtodas as dhrecções, ao passo que as vagas à foz do porto se agitavam vio- 
teolas. 

cPara variar um tanto a nossa excursão nos afastámos do transito com- 
mum, e visitamos o convento de S. José de Ribamar. O edificio é irregular e 
plttoresco, levantado n'uma eminência Íngreme, tendo nas costas a sua ma- 
tinha d'olmo8, louros e olaias. Fomos recebidos pelos frades risonhos e sim- 
ples, n^mi pequeno pateo dos claustros sustentados em pezadas columnas tos- 
eanas. No meio d'um repuxo^ borrifando a profusão das flores, dava um as- 
pecto oriental a esta pequena claustra, que excessivamente me agradou; os 
frades pareciam cônscios de seu merecimento, porque a conservavam soffri- 
vdmente limpa, que é o mais que posso dizer do seu jardim. 

«Trepadeiras e aloés anões quasi impediam a passagem para a mata, deli- 
cioso retiro, refugio e conforto de metade dos pássaros d*aqnelles contornos 
graças â preguiça fradesca, os arbustos estão por tosquiar, e invadem á von- 
tade as ruas, que ficam sobranceiras ao mar de um modo assaz romântico. 

«Os frades quizeram mostrar-nos o seu jardim, que é um bonito terra- 
ço, bem calçado de tijolo, entremeado de lavores n'um estylo, que eu conje- 
cturo tão antigo como o domínio dos mouros em Portugal; limoeiros e laran- 
geiras em latadas forram os muros, e tcem quasi tomada a melhor parte de 
um lustroso embrexado, em que os incrastára um reverendo padre ha dez ou 



102 BE 

«Achei o jardim em excellente ordem, e florescentes em quantidade as 
plantas, vegetando entre os renqaes de larangeiras e limoeiros. Tal ó inflaen- 
cia do clima que as gardenias e plantas do Gabo, que eu trouxe de Inglaterra 
ainda com troncos despidos, estão cobertos de lindas flores. Os malvaisoos e 
algumas variedades de milho, semeiadas pelo meu jardineiro inglez, cresce- 
ram a extraordinária altura, e começam já a formar avenidas sombrias e sel- 
vas, onde os rapazes podem á sua vontade jogar às escondidas. 

«Tendo consumido meia hora na observação doestas coisas, metti*me na 
carruagem com o marquez, e partimos para a sua quinta, creação nova, que 
lhe tem custado muitas mil libras sterluias: ainda ha cinco annos era um ca- 
beço maninho, alastrado de sdbes e fragmentos de penedos. Ao presente 
achaes um elegante pavilhão desenhado por Pillement, e adereçado com ele- 
gância, um jardim com estatuas e fontes, ruas densamente guarnecidas de 
loiro, buxo e cedro, cascatas, arvoredo, o buxo tosqueado de diflerentes feitios, 
e todos os ornamentos, que se podem apetecer no gosto da jardinagem portu- 
guesa, 

«Jantámos n'uma aceiada e commoda hospedaria, situada ao meio da po- 
voação de Cintra. A rauiha tinha ultimamente doado ao marquez aqoeUa casa 
e a grande porção de terreno adjacente. Das suas janeUas contemplaes {pro- 
fundos algares e empinadas encostas de matos e florestas, variegados com 
pedras musgosas e caducos castanheiros. 

«Assim que o sol declinou, fomos para Gollares, e passeiamos no eirado 
pertencente a Mr. la Boche, negociante francez, que mostrou alguns visos de 
gosto no arranjo da sua quinta. 

«As matas de pinhaes e castanheiros elevando-se das fendas da penedia, 
crescendo umas em sucalcos acima das outras até considerável altura, dão a 
Gollares o aspecto d'uma aldeia dos Alpes. Innumeraveis arroios, sobre os 
quaes se debruçam sobreiros e esgalhados limoeiros, rompem pelos arruina- 
dos muros da banda da estrada, e espadanam em tanques de mármore. Um 
valido do defunto rei, que tem n'estes subúrbios uma vasta fazenda, nos con- 
vidou com muita attenção e urbanidade para o seu jardim; imaginei que en- 
trava nos vergéis de Alcinoo; os ramos curvavam-se ao peso dos pomos, o 
mais leve aba!o alastrava o chão de ameixas, damascos e laranjas. 

«Esta quinta ufana-se d'uma grande cascata artificial com tritões e gol- 
phínhos vomitando torrentes d'agua, mas não lhe prestei metade da attenção, 
que o proprietário esperava, e acolhendo-me á sombra das arvores fruotiferas 
regalei«me de doiradas maçãs e purpúreas ameixas, que em tanta proftisâo 
caiam ao redor de mim: o marquez, que participa com a maior parte dos por- 
tuguezes da extremada predilecção pelas flores, atulhou de cravos e jasmins 
a carruagem. Nunca vi plantas tão assignaladas em crescimento e vigor como 
as que tiveram a boa sorte de ser semeadas n'este afortunado torrão, c^ja ex- 
posição é notavehnente propicia, abrigada por oiteiros declives, e defendida 
com o espaço de algumas milhas de matas e pomares. Não sentia a menor 
vontade de largar um sítio tão favorecido da natureza, e M. ### se jacta de 
que eu me tentasse a comprar esta fazenda. 



BE 103 

tO tento tornoQ-se incommodo, qaando sabíamos a eminência coroada 
pelaqninta de Marialva; a atmosphera estava crístallina, e o sol declinava ra- 
diante. O convento de Mafra ao longe scintilkmdo com vivo fulgor, similbava 
o palácio ^cantado d'um gigante, e o terreno circumvisinho desbotado e es- 
téril, era como se o monstro o tivesse devastado. 

tPara descançarmos um pouco do nosso veloz passeio entrámos no paví- 
Ihio, que eu jà disse ter sido delineado por Pillement: representa uma rua de 
pliantaslieas arvores Indicas, que entrelaçando os ramos superiores conver- 
gentes formam arcos abaulados, descobrindo-se pelas roturas dos intervallos 
o eea d'Qm tempo estivo; da bocca d*um dragão volante pende um magnifico 
lostre para cincoenta lumes, ornado de festões de cristal, que rutilam como 
eoUares de diamantes. Detivemo-nos n'esta sala do mirante até o cair das 
sombras. 

«Os pagens cavalgavam adiante levando archotes, e o vento nos atirava à 
eara com o fumo e fagulhas; de modo que eu vinha atordoado, embruxado, 
experimentando taes sensações, como as d'um noviço em feitiçaria montado 
p^ primeira vez á garupa d'uma bruxa a correr por matagaes. Em menos 
d'ama hora tínhamos galgado ruidosamente doze milhas de áspera e des* 
egnal calçada, trepando e descendo Íngremes cabeços n'um galope convulsivo, 
ma que eu esperava por momentos estirar-me de nariz no chão: mas feliz- 
mente as muares eram escolhidas d'entre um cento, e nunca tropeçaram. 

«Nos altos d' Ajuda s^ti o ar muito fino e penetrante.» 

OARTAXm 

WãMJkom mmêMs •■ CwtrrmAj m gapbixa bbal — • cMUfrai. moããJkmmmm 

CSmnLvMnsTsm 

24 de julho de 1787. 

«Yadllei por alguns momentos se encaminhasse os passos do meu cavallo 
para o Penedo dos Ovos, i ou para o outro lado da montanha até á Peninha, 
Conventinho dos Jeronymos, e dependência da sua principal acolheita. Penha 
Longa; porém Marialva, que encontrei com toda a sua comitiva de cavalhari- 
Qoe e picadores saindo da quinta, resolveu-me a deixar caminhos de cabras, 
e a acompanhal*o ao paço, que eu ainda não tinha visitado interiormente. 

«O próprio Alhambra de raro será mais serraceno em^matería de archl- 
leetiira do que esta confusa molle, que parece brotar do cimo da rocha, em 
que assenta, desabrochando n'uma variedade de recantos e projecções. De 
mfflares de misérias foram testemunhas estas venerandas paredes, fechadas 
por «na ordem de seguras arcadas, e que repartem uma extremidade da ca- 
ia srande em dois ou três aposentos medianos, como guarda-roupas d'um 
Qieatro. As frestas, n'um phantastico estylo oriental, em recortes deseguaes e 
laiçirias sustentadas em (pilares espiraes e de mármore liso, sao maravilhosas 
• campeiam sobre vistas românticas dos fraguedos e da povoação de Cintra. 
Algons pateos irregulares e lojas, formados pelos ângulos quadrados dostor- 

* Panorama de 1856 (im), pag. G. 



104 BE 

reões, aviventam-se com fontes de mármore e de bronze doirado, que despe- 
jam de eentiBQo copiosos jorros d'agua mui pura. 

«Uma espécie de deposito de comprimento tal, que se pôde qoasi denomi* 
nar canal, continuado em toda a extensão da casa grande, é como um paraizo 
de cardumes dos maiores e mais brilhantes peixes doirados e prateados, em 
que tenho posto a vista. O susurro dos repuxos, que resaltam d'este c%nal, os 
borbotões deslisando por degraus, e em bacias de mármore polido, o brilho e 
o giro veloz dos peixinhos, o admirável contraste da luz e da sombra proda- 
zido pelo intrincado labyrinto de arcarias e columnas combinam-se para for- 
mar uma scena magica, como as que ás vezes senos figuram em sonhos, mas 
que mal presumimos realisaveis. Reina uma sobriedade de matiz nos manna« 
res, um mysterio nos aposentos opacos e recônditos vistos em perspectiva; é 
tao solemne a côr das aguas quasi próxima da negrídão na parte, a que fa- 
zem sombra os altos do edifício, que eu não posso deixar de achar-lhes supe- 
rioridade a todo o esplendor e labyrinto das mais afamadas construcç5es mou- 
riscas de Granada e de Sevilha. 

«A sumidade rasa d'um dos mais altos eirados, nada menos de cento e 
cineoenta pés acima do nivel do chão, está preparada como um elegante jar- 
dim, que se estende á similhança d'uma alcatifa bordada diante do portai de 
um inmienso torreão quadrado, que é quasi todo occupado por uma sala, cujo 
remate é uma cúpula das mais singulares; entre as volutas dos arabescos, 
que a enfeitam, apparecem os brazões das principaes casas nobres portugue- 
zas: a divisa da desventurada familia Távora foi apagada, e o vão, que occu- 
pava, está em branco. Subimos ao terrado e ao torreão por uma d'essas esca- 
darias empinadas, e em volta de caracol, que abundam no palácio, e prendem 
com passagens de abobada por um modo secreto e suspeitoso. 

«O marquez indicou-me o pavimento ladrilhado d'um pequeno quarto, 
poido e[gasto pelos passos de D. Affonso VI, que em tão estreito espago esteve 
recluso muitos annos. 

«Descendo d'alli vimos o interior da capella, não menos singular na forma 
c construcção do que o restante do edificio. O tecto baixo e chato, bem como 
as intersecções dos arcos, aproximam-se muito do estylo das mesquitas: mas 
a barbarica profusão de oiro« e ainda mais barbaras pinturas, de que estão 
cheios todos os apainelados, quasi pôde suppôr-se obra de artistas chingalezes 
ou indostanicos, e trazem -me á idéa os subterrâneos pagodes, onde sua ma- 
gestade diabólica recebe homenagens sob a forma de Shiva ou de Budha. 

«O brilho original de toda esta extravagante capella acha* se grandemente 
amortecido pelo fumo dos lampadários, que ardem ha séculos em frente do 
altar, mysterioso composto de obra de talha e de estatuária em perfeita con- 
sonância, no que toca a estylo carregado e inculto, com todos os objectos alli 
existentes. Diz- se que estando ajoelhado ante este mesmo altar o joven, impe- 
tuoso e cavalleiro D. Sebastião, recebera aviso sobrenatural para desistir da 
fatal expedição d'Africa, que lhe custou a coroa c a vida, e que um espirito 
heróico tem em mais elevada estimação, do que a fama ip mortal, que segue 
as emprezas bem succedídas. 



BE m 

tUma coisa, qae dífficii me seria descrever, certa melancolia oppressiva 
parece impendente sobre esta capella, qne, segando imagino, jaz ainda pelo 
mesmo gosto, em que a deixou o malfadado D. Sebastião. A falta da livre cir- 
enlaçao do ar, a nuvem pezada de incenso, atacam-me os músculos da cabeça 
tio desagradavelmente, que muito me apraz abalar e seguir o marquez aos 
quartos preparados para a rainha e infantas. Estes sao agradáveis e bem ven* 
tilados; em vez de os guarnecer de ricos pannos de raz^ representando aven- 
turas de cavalleiros e heroes, os armadores da casa real andavam azafamados 
a forrar as fortes paredes com esplendidas sedas e setins das mais brandas e 
mimosas cores. Não vi moveis dignos de menção, nem uma pintura, nem um 
traste rico de gabinete; e não havendo que vér, pequena foi a nossa demora. 

«Assim que o marquez deu algumas ordens, que lhe encarregara a sua 
real ama, voltámos ao Ramalhão, onde nos esperavam Home e o cônsul bol- 
landez, altercando acerca de seguros, percentagens, commissões e outras es- 
peculações commerciaes. Eu tinha persuadido o marquez a acompanhar-me 
amanhã a casa do cônsul, M. Guildemeester; é o dia dos annos d*este velhote, 
e elle inaugura a sua casa nova com baile e ceia. Teremos uma bonita amos- 
tra de senhoras de negociantes, escreventes e caixeiros, alguns agentes do 
corpo diplomático, e sabe Deus quantas mil libras de pezo de gordos merca- 
dores hollandezes.» 

CARTA XIV 

WftA •■ QAMJk. — PlTHCÇÃe DB AlVIvea •• chifrai. CSCILDniBMITBB — 



25 de junho de 1787. 

«Grande gala, a que o marquez vae assistir; este abençoado dia não só 
deu nascimento a Guildemeester, mas também à princeza da Beira. Vamos 
jantar com a marqueza. Uma banda de musica regimental de caminho para 
casa de Guildemeester, começou a tocar no pateo, e fez sair um d'esses curio- 
sos enxames de gente de todos os sexos, edades e cores, que esta bemfazeja 
família tai^ gosta de agasalhar. D. Henriqueta está sentada nos degraus, que 
sobem para o grande mirante, cochichando com algumas das suas criadas 
validas, que à maneira do coro na antiga tragedia grega, de contínuo davam 
a ana opinião sobre o que vmha apparecendo. 

«No momento, que D. Pedro e eu nos dispúnhamos a partir para o baile 
dado pelo velho cônsul, agradavelmente nos tomou de súbito a chegada do 
marquez, que se tinha safado do paço muito mais cedo do que esperava. Con* 
duzm-o na minha carruagem á residência de Home, onde tomámos chá no 
terraço, do qual se descortina a vista mais romântica de Cintra, a vastidão 
éascnnas dt arvoredo com variada folhagem, marachões seguros pelas raízes 
enleiadas, troncos de enormes castanheiros de mistura com os salgueiros, cho- 
rOes da mais viçosa verdura, e limoeiros vergando com o fructo. Muito acima 
d'esta scena silvestre alteam-se três fendidos pináculos de rocha, distinguin- 
do-ae o do meio pelas torrinhas e recinto de Nossa S^ihora da Penha, con- 
vento de Jeronymos^ ííreqoentemente escondido nas nuvens. Encosto-me a um 
sobreiro, que dilata os ramos cobrindo quasi toda a varanda, afim .de gozar 



106 BE) 

d^aqaelli vista, e de observar no mea remanso as exqtiisitas flgnras hoUao- 
desas, inf^eKas e portagaezas, que passavam para casa de Goildemeester. Este 
carreiro de pessoas era bastante variado para me entreter por algom tempo. 

«M. ••• não se impacientava, nem se incommodava por coisa aígmôa. 
Tendo dado entrada sen canhado S. •»* Y. •»* a quem elle professa mor- 
tal aversio» as forças da loz e da sombra, se fossem personificadas, não eihi- 
biriam mais saliente contraste do que estes dois personagens; M. **# todo 
elle incolcando benignidade, e S. ••# Y. ••# todo malevolencia. E de cerlo 
se metade das atrocidades, que a vo2 publica attríbue a este fidalgo são ver- 
dadeiras, não maravilhará o negrume de vingança e tyrannia tão profunda- 
mente assignalado em cada linha da sna physionomia. 

tAproveitando a primeira opportonidade atravessámos becces eseoros e 
medonhos, admiravelmente adequados a proezas como aquellas, a que adma 
aUudimos, e corremos o risco de saltar a pés Juntos uma regueira, quando 
estávamos quasi batendo á porta do velho cônsul: o terreiro defr(mte d'e6ta 
casa nova está na peior desordem, o edificio pouco mais tem do que as pare- 
des nuas, e achava-se muito mal alumiado. 

tPelo que toca á companhia, achei-a exactamente como a esperava. Mada- 
me 6 •• • que é soihora de penetração e discernimento, fez as honras de 
casa com desembaraçada affabilídade, e prestou a suas príncipaes visitas as 
mais distinctas attenções: ha uma certa agudeza original em todas as suas ob- 
servações, que me agradou muito: não pertencendo á laia dos indulgentes, 
reforçou Yerdeil em cortar pela pelle da gente mercantil. M • • # deu-lhe o 
braço, quando fomos á ceia; e esta parte da funcção foi magnifica; havia uma 
brilhsoite illummação, immensa profusão de iguarias n'uma mesa tão vasta, 
as mais delicadas, que se podiam obter, e um apparato de dessér de (K) ou tt> 
pés de comprimento, todo lustroso de figuras bumidas e vasos argentinos de 
flores.» 

GARTA XV 

A HUnGA WA CAFBIXA WUÊMMs — • AKCBBIWP* MIUM i m e — PmO PM T A 

pm JOBKADA A MArWLA 

26 de agaste de 1787. 

<A musica de capella da rainha de Portugal é por certo a primeira da 
Europa quanto a excellencias vocaes e íostrumentaes: nenhum outro corpo 
similhante, nem a capella pontificia, apresenta uma tal reunião de admiráveis 
músicos. Para onde quer que sua magestade vae estar, elles acompanham-a, 
ou á caça d'altaneria em Salvaterra, ou à busca de saúde nos banhos das Cal- 
das; até para o meio d'estas agrestes fragas e montanhas vem cercada d'um 
coro de mimosos cantores, que engordam como codomizes, e gorgeiam com 
tanta melodia como rouxinoes. Os rebecas o rebecões de sua magestade dei- 
xam a perder de vista todos os de primeira ordem, e o seu viveiro de tocado- 
res de oboés e flautas não tem rival. 

tO marquez de M.*«* na qualidade de primeiro camarista e estribeiro- 
mór, e também como primeiro valido entre os nobres, goza decisiva influencia 
sobre todo aquelle império de vozes harmoniosas; e teve para comigo tanta 



BE 107 

iKNidade, qne me faeilitoa participar d'essas bemavebturaDças miísicacs, sondo 
permiltído desfiractar, onde me aprouvesse, uma banda escolhida de tão estu- 
pendos executantes. Exactamente na manha de hoje, e para minha vergonha 
o eaosigno, passei qnasi horas e horas no meu pavilhão de novo composto, 
sem ler uma palavra, escrever uma linha, ou entrar em conversação, absor- 
vidas todas as minhas potmcias d'alma na harmonia dos instrumentos de 
vento, postados os instrumentistas a distancia n'um macisso de larangeiras e 
loureiros, não por falta de propósito ás vezes de me esquivar á magia dos tons; 
mas tantas vezes voltava, quantas forcejei por evadir-me. Se eu consultasse 
sãmente o meu entendimento, despediria os músicos; os seus insinuantes tons 
maviosos despertaram-me longa série de melancólicas lembranças, e pela força 
das idéas associadas prostraram-me em estado de abatimento e tristeza. 

«O meu excellente amigo o prior d'Aviz praticou um verdadeiro acto de 
amizade tirando-me quasí á força do meu retiro, e stibtrahindo-me aos meus 
devaneios: insiste que o acompanhe a casa do arcebispo, onde vae fazer-se o 
ensaio d'um conselho, que devia celebrarse perante a rainha, e para isso es- 
tão reunidos os ministros d'estado com os seus sub-secretarios. Taes congre- 
gações são novas para o bom do velho confessor, que acaba de ser investido 
da suprema direcção do gabinete muito contra sua vontade: bem conhece 
quanto valem a commodldade e o socego para deixar de lamentar tão violento 
desvio dos seus ordinários hábitos de viver. Achamol-o, por tanto, como era 
de e^rar, inquieto e irritado, rubro até á raiz do cabello, côr qne muito e 
muito contrastava com seus largos vestidos de flanella branca, que elle a miú- 
do sacudia e amarrotava, batendo mais de uma vez com vehemencia na volu- 
mosa barriga, que, não obstante declarar elle ter esperado uma hora fora do 
costume para sua completa repleção, de nenhum modo soava como tonel va- 
zio. Gomtudo t rifão velho — pança gorda, cabeça ouça — não lhe pôde ser 
applicavel: foi tão benigno e confidencial, que me expoz ao summario o que 
lhe haviam representado as differentes repartições publicas, e fel-o com muita 
clareza e tino. Não obstante o interesse, que devia excitar esta singular com- 
municação, não lhe prestei metade da attenção que merecia; ainda me domi- 
navam as impressões, que de manhã me ficaram da musica de Haydn e Jo- 
rneUi. O grao-prior conhecendo que a politica não as dissiparia, foi consultar 
o seu sobrinho^ que aconteceu achar-se ratão no aposento da rainha, e vol- 
tou com a proposta de que tendo eu ha muito expressado o desejo de vér 
Mafra, se pozesse em execução amanhã este intento; assim o ajustámos.» 

GARTA XVI 

BXCI7R«Âe A MAWWUk 

27 de agosto de 1787. 
«Mettemo-nos na carruagem ás 9 horas, apezar do vento, que nos açoitava 
a cara. ^ A distancia da quinta, onde eu habito, a este convento, é de qnasi 
gnatorze milhas inglezas, e a estrada, que por fortuna nossa tinha sido con- 

« Panorama de 1856, pag. 286. 



m BE 

certada, atravessa am território descoberto e tostado, por onde se vdem espa- 
lhados escassamente algans moinhos e logarejos. O retrospecto para os silvei- 
três declives e ponteagndas rochas de Cintra é bastante agradável; mas, qaan- 
do olhávamos para diante nao pôde conceber-se coisa mais árida e descolo- 
rida. Graças ás mudas de cavalgaduras progredimos rapidamente, e em me- 
nos de cinco quartos de hora nos achámos junto à grossa parede, que abraça 
os oiteiros, o fecha a tapada de Mafra. 

«Então descobrimos num relance de olhos as torres marmóreas e o zim- 
bório do convento, realçado pelo espaço azul celeste do oceano, assoberbando 
as sommidades das eminências matagosas, e variando a scena aqoi e acolá as 
copas fechadas dos pinheiros, e as verticaes pyramides dos cyprestes. Ainda 
se nâo viam os tectos do edifício, e continuámos por algum tempo a costear 
as ondulosas ladeiras da tapada primeiro que as descobrissemos. Um piquete 
de leigos esperavam para abrir as portas da real cerca, tristemente ennegrecida 
pelo fogo, que haverá um mez consumio grande parte da mata e verdura. A 
nossa chegada deu terrível rebate aos bandos de corças^ que pacificamente 
pasciam' n'uma encosta mais viçosa, que as circumvisinhas: fugiam a toda a 
pressa, e refugiaram-se n*uma brenha de pinheiros meio queimados. 

«Tendo rodeadç a muralha do jardim grande, torneámos de subílo o an« 
guio, e se nos descobriu uma das vastas fachadas do convento, similhando 
nma rua de palácios. Nao pretendo que o estylo do edifício seja digno da in- 
teira approvaçao do conhecedor da genuína architectura grega: as portas e 
janellas são na maior parte do formas caprichosas, mas pelo menos bem pro- 
porcionadas. Admirava eu a ampla fíleira d*ellas á proporção que ia passando 
rapidamente, quando ao virar do soberbo pavilhão quadrado, que flanqueia o 
edifício, a principal frente se patenteou á minha vista na extensão de oitocen- 
tos pés. O centro é formado pelos pórticos da egrcja, ricamente adornados de 
columnas, nichos e baixos relevos de mármore. De cada lado duas torres, al- 
gum tanto similhantcs às de S. Paulo em Londres, elevam-se á altura de quasi 
duzentos pés, e juntando-se a este enorme corpo, o terminam á direita e á 
esquerda, com seus magestosos pavilhões. As torres são esbeltas, graciosas, 
carregadas de pilastras notavelmente bellas; mas a sua fígura em geral atira 
muito para o estylo de pagode, carece de solemnídade : contem muitos sinos 
das maiores dimensões éo famoso carrilhão, que custou alguns centos de mil 
cruzados, e tocava na occasião, em que se participou a nossa chegada. 

«O adro e o lanço de escada em frente dos pórticos do templo são admi- 
ravelmente espaçosos; e o zimbório, que arrogante campeia acima do remate 
do frontispício, merece gabos pelo que tem de ligeiro e elegante. 

«Alonguei a vista pela extensão ampla do palácio para ambos os lados 
até fatigar-se, folgando depois de retiral-a do esplendor deslumbrante do már- 
more e da confusão dos ornatos de esculptura, pondo os olhos na azulada vas- 
tidão do oceano distante. Defronte d'esta colossal fabrica estende-se um grau- 
de terreiro nivelado, na extrema do qual se v()ein dispersas algumas casas 
caiadas. Posto que estas de nenhum modo sejam mesquinhas, parecem, em 
contraste com a immensa mole, que lhe fíca próxima, como as barracas das 



BE 109 

trabalhadores» pelas qnaes as tomei à primeira vista, e nao poueo me admirei 
quando ao chegar mais ao perto conheci as soas verdadeiras dimensões. 

«Poucos objectos fazem interessante a vista do terreiro de Mafra: vedes os 
talhados de uma vilia de pouca monta, e as encostas areientas, além das quaes 
se divisa o mar sem limites: á esquerda fecham o horisonte as alcantiladas 
serranias de Cintra, e somente á direita um pinhal na dilatada fazenda do vis- 
conde de Ponte de Lima, dá algum pequeno refresco aos olhos. 

«Para nos abrigarmos do sol, que dardejava com forga sobre nossas cabe- 
ças» entramos na egreja, passando por debaixo d'aqaelle sumptuoso pórtico, 
o qual nao poucas lembranças me dá da basílica de S. Pedro, sendo povoado 
de estatuas de santos, cinzeladas com extremo primor e delicadeza. 

^A primeira vista da egreja é magestosa. Dá logo nos olhos o altar-mór 
com duas magnificas columnas de mármore vermelho e variegado, ambas in- 
teiriças, e de trinta pés d'altura. Trevisani pintou magistralmente o retábulo, 
que representa Santo António no extasi de tomar nos braços o Menino Jesus, 
baixando á sua eella cercado da refulgencia da gloria. 

«Por ser amanha festa de Santo Agostinho, cuja ordem religiosa está 
actualmente de posse d*este mosteiro, appareceram todos os candelabros áu- 
reos e cirios accesos. Tendo-nos demorado poucos minutos no meio d'esta es- 
plendida illaminaçao, visitámos as capellas collateraes, emiquecidas de per- 
feitíssimos baixos relevos, e com soberbos arcos de mármore preto e amarello, 
de ricos veios, e tao perfeitamente polido, que reflecte os objectos como espe- 
lho. Nunca observei um conjuncto de formosos mármores como o que res- 
plandecia por cima, abaixo e em redor de nós; o pavimento, a abobada, a cú- 
pula e até o lantemim do remate são forrados dos mesmos preciosos e durá- 
veis materiaes, rosas e grinaldas de palmas de marmorei mui primorosamente 
lavradas enriquecem todas as partes do edifício. Nunca vi capiteis corinthíos 
melhor modelados, nem esculpidos com a maior precisão e engenho, do que 
os das columnas, que sustentam a nave. 

«Satisfeita a nossa curiosidade pelo exame de vários ornamentos dos alta- 
res, seguimos o nosso conductor por um extenso corredor coberto á sacristia, 
casa magnifica de abobada, apainelada com almofadas de algumas varieda- 
des mui bellas de alabastro e porfido, e alcatifada como a capella adjacente 
com grande fausto. Passámos por mais alguns repartimentos e capellas, ador- 
nado tudo com egual pompa, até que nos achámos cansados e desgarrados co- 
mo eavalleiros andantes no labyrintho d'um palácio encantado. 

«Começava a persuadir-me que não tinham fim aquellas espaçosas casas. 
O frade, que nos precedia, homem de bom génio e velho baboso, tendo para 
si que nós não percebíamos palavra da sua língua, tentava expliear-nos os ob- 
jectos por signaes, e quasi que nao dava credito aos próprios ouvidos pergun- 
tando-lhe eu em bom portuguez, quando acabaríamos de ver capellas e sacris- 
tias. O velho parecia muito agradado dos meninos, como elle nos chamava a 
mim e a D. Pedro, e para nes dar occasião de estendermos as pernas, cami- 
nhava com tal desembaraço, que o marquez e Verdeil lhe desejavam por pre- 
mio o purgatório: é cerlo que avançámos em tão veloz escala, que n'um ou 



iio BE 

dois minatos galgáramos de cabo a cabo am donnitorío de seiscentos pés de 
comprímento. Estes vastos corredores e as eellas, que com eUes commimicam 
em nimiero de trezentas são todas como arcadas, e de constmc^ samptnosa 
e solida; cada cella, ou antes camará, pois que sendo bastante espaçosas, da 
bom pé direito e com moita claridade merecem tal denominação, é goameci- 
da de mesas e contadores de madeira do Brazíl. 

«Exactamente ao entrarmos na livraria, o abbade revestido das vestes de 
soa dignidade veia dar-nos as boas vindas, e convidar-nos a jantar com elle 
no refeitório amanba, dia de Santo Agostinho, o que parece ser am rasgado 
obseqaio. Gomtado julgámos conveniente recusar esta honra, receiosos de qae 
para gosal-a perdêssemos pelo menos duas horas, e flcassemos meio cosidos 
pelo vapor de enormes vitellas, perus e leitões, de antemão engordados para 
esta solemne occasião. 

«A livraria é de prodigiosa extensão, nada menos de trez«itos pés, o tecto 
de abobada d*nma forma agradável, bellamente estucado, e o pavhnenlo de 
mármore branco e vermelho: não pôde dizer-se o mesmo a respeito das es- 
tantes dos livros; são d*um desenho vulgar, toscamente executadas, e escure- 
cidas por uma galeria, que corre toda a sala d'um modo desengraçado. A eol- 
lecção, que consta de perto de sessenta mil volumes, aeha-se ao presente afer- 
rolhada n'uma serie de quartos, que tem serventia para a bibliotheca. Alga* 
mas das primeiras edições dos clássicos gregos e romanos, muito bem conser- 
vadas, e ricamente illuminadas me apresentou o padre bibliotheeario; maso 
nosso lesto conductor não me deu tempo d*examínal-as. 

«O nosso conductor partiu de carreira, e subindo uma escada de caracol 
nos conduziu ao terraço, largo e plano, fechado por uma balaustrada magnifica, 
desembaraçado de chaminés, d*onde se vêem d'a]to a baixo os pateos, o jar- 
dim, a horta K 

«D'osta elevação toda a planta do edifício se comprehende n'um relance de 
vista. No centro avulta o zimbório, como um formoso templo d'entre os espa- 
çosos muros d'uma quinta real. É infínitamente superior, no que toca ao de- 
senho, ao resto do edifício, e pôde de certo ser reputado como o mais esbelto, 
mais proporcionado dos que ha na Europa. D. Pedro e mr. Verdeil propoze- 
ram subir uma escada, que vae ao lantemim ou clarabóia; mas eu pedi des- 
culpa de os não acompanhar, e diverti-me durante a sua ausência andando de 
uma banda para a outra, profundando de vez em quando avista nos objectos, 
que estavam lá tão em baixo, e frequentemente contemplando as torres, que 
resplandeciam com o brilho do sol, e o azul ferrete do mar ao longe. Uma vi- 
ração fresca e balsâmica, emanada dos pomares de laranja o limão me re- 
creava ao parar nos degraus do zimbório, e modificava o ardor da calma es* 
tiva. 

«Breve me tirou d'esta pacifica e desassombrada situaçiio a confusa mati- 
nada de todos os sinos, seguindo-se-lhe uma complicada sonata, tangida com 
grande proficiência. O marquez, que também subira coronosco, do propósito 

1 Panorama de 185G, pu^>. 315. 



BE iii 

para no próprio mananeial gozar d*esta catadupa de sons^ que algomas pes- 
soas ehamam melodiosos, quiz que eu me aproximasse para ATAmínar o me- 
ebanismo; fiquei meio atordoado: sou na verdade pouco entendedor de car- 
rilb9es e sinos, e não tenho pena da perda d'mn divertimento de campanário; 
porém o meu amigo, que herdou uma natural inclinação mechanica de seu 
pae, fámigo^do patrono dos sinos e relógios, investigou cada roda com muita 
atlaiçio. Acabada a sua revista, descemos innumeraveis escadas, e recolhe- 
mos a casa do capitão-mór, cuja jnrisdícçao se estende á tapada e ao districto 
de Mafra; tmn sete ou oito mil cruzados por anno, e a sua habitação manifesta 
todas as apparencias de commodidade e abastança; o soalho é coberto de es- 
teiras fluas, e as portas e janellas armadas com cortinas de damasco verme- 
lho. As nossas camas, novas à estreia, estavam alastradas de cobertores de seda 
com ricas bordaduras e franjas: serviram-nos uma comida opipara, e muito 
melhor sobremesa, do que os próprios frades nos poderiam ministrar, toman- 
do o capitão-mór os pratos das mãos da longa serie de seus criados, e pon- 
do-os eUe diante dos convidados, inteiramente ao modo feudal. 

«Tomado o café apressamo-nos a ouvir as vésperas na egreja do convento; 
caminhando entre as ordens de capellas illuminadas fomos occupar assentos 
na real tríbuoa; e logo entraram os frades processionalmente, precedendo o 
abbaâe, que subiu à cadeira prelaticia, com uma fileira de sacristãs a seus pés, 
e de cónegos á mão direita; as vestes e paramentos eram de brocado d'oiro. 
Ganioa-se o officio com summa solemnidade ao fcurmidavel som dos órgãos, 
pois que ha na egreja nada menos de seis, e todos de tamanho desmesurado. 
Acabado este, e novamente guiados pelo activo leigo, fomos conduzidos por 
uma escadaria magnifica ao palácio. Os aposentos occupam o espaço de sete 
centos on oito centos pés; e a quasi interminável successão de portas magestosas> 
vista em perspectiva, causa assombro; em pouco tempo cansados de meramen- 
te admirar concordámos em que eram as casas mais enfadonhas e menos com- 
modas, que temos visto; não ha variedade na forma, e pouca nas dimensões. 
Estando agora guardadas em Lisboa todas as colgaduras predominava geral 
nudez; nem um nicho, nem uma moldura interrompe a tediosa uniformidade 
das despidas paredes brancas. 

«Folguei da volta ao convento, e de refrigerar os olhos com a vista das pi- 
lastras de mármore, e os pés pisando alcatifas da Pérsia. Por onde quer que 
andávamos, em cada cella, passagem, capella, sacristia ou sala, seguia*nos 
uma extraordinária mistura de frades curiosos, sacristães, leigos, indivíduos 
da justiça e de clerezia, e casquilhos da terra com seus espadins e rabichos. 
Se acontecia fazermos alguma pergunta, meia dúzia d'elles todos a um tempo 
afinavam o gasnete para dar resposta. O marquez completamente molestado 
de andar de batida e com tanto tumulto, tentou por varias vezes esquivar-se 
à torba, dando voltas rápidas ora para uma, ora para outra parte: mas elles 
atrelados aos nossos calcanhares baldavam-lhe as diligencias, e engrossava o 
tropel a tal ponto, que parecia estar varrido de seus moradores todo o con- 
vento e a povoação, para andarem atraz de nós por uma das sobrenaturaes 
attracçoes, que lemos nos contos e romances. 



ii2 ÔE 

«Por fim peroebeodo ama larga porta aberta para o jardim, saímos por allí 
de sabito; embrenbando-nos em mn labyrintho de mortas e loureiros, assim 
nos desembaraçámos dos nossos perseguidores. A cerca, que terá obra de mi- 
lha e meia de circumferencía, cgpiprehende além de matas de pinheiro bra* 
vo e de loíreiros. alguns pomares de limão e laranja, e dois ou três taboleiros 
de jardim mais cheios de hervas, que de flores: muito me desagradou achar 
esto formoso recinto despresado tão miseravelmente, e suas viçosas plantas 
mirrando-se à falta de serem convenientemente regadas. 

«Podereis suppor que ajuntando um passeio nas príncipaes ruas do jardim 
ás outras nossas peregrinações começamos a sentir-nos algum tanto fatigados, 
e não desgostámos de descançar no aposento do abbade, até que de novo fo- 
mos convidados para a tribuna a ouvir cantar matinas. Gerrava-se a noite; e 
os innumeraveis brandões accesos nos altares, e por toda a egreja diffundiam 
já uma luz mysteriosa. Outra vez os órgãos tocavam em cheio, e as longas fi- 
leiras de frades e noviços vinham entrando a passos lentos e graves, o abba- 
de reassumiu o seu throno com egual pompa á das vésperas: o marquez res- 
montava as suas orações, o grão prior rezava pelo breviário, e eu embebi-me 
em vagos pensamentos por tanto tempo, quanto durou o ofQcio, isto é, qoasi 
duas horas. Verdeii semi -morto de enfadamento, não poude aturar o calor da 
tribuna, nem a nuvem de incenso, que toldava o coro baixo, e foi respirar 
ninis livre ar no corpo da egreja e capellas adjacentes. 

«Era perto das nove quando os frades, tendo cantado um solemnissimo e 
roui sonoro hymno em louvor do seu venerando patriarcha Santo Agostinho, 
largaram o curo: acompanhámos a sua procissão pelas altas capellas e area- 
das dos claustros, os quaes com luz fraca parecia não terem tecto nem fim, até 
entrarmos n'nm octogono de quarenta pés do diâmetro, com fontes nos quatro 
principacs ângulos, dispersando -se a lavar as mãos n'estas, os monges orde- 
naramse outra vez em préstito, e passaram a dois e dois por um portal do 
trinta pés de altura para uma espaçosa casa, que communica com o seu re- 
feitório por outra portada das mesmas elevadas diuiensõos; ahi foz uma pausa 
a procissão, por ser logar dedicado á recordação dos finados, e por isso se 
chama á casa De profundis. Antes de cada comida usam os monges estarem 
de pé cm sisudas fileiras em volta do refeitório, silenciosos passando pela idca 
quão precária é a nossa frágil existência, e deprecando pela salvação das al- 
mas dos seus predecessores. 

«Não pude deixar do ponetrar-me do reverencia vendo á lu^ scintillante 
dos lampadários tantos vultos veneráveis, com seus hábitos pretos e brancos, 
de olhos inclinados para o chão absortos na meditação mais espiritual e me- 
lancólica. 

«Findo o momento destinado a esta solemne rogativa cada um tomou seu 
logar nas compridas mesas do refeitório, feitas de madeira do BrazíL e cober- 
tas com alvíssimas toalhas. Cada religioso tinha sua garrafa de agua e vinho, 
seu prato de maçãs, e salada postas diante de si; não havia manjar do peixe 
ou do carne, porque a vl{;ilia do Santo Agostinho guardava-so com o mais ri- 
goroso jojuiii. 



BE 413 

«Para gosarmos n'um lanço geral d'olhos este singular e magestoso espe- 
ctacolo, retirámos para o vestíbulo anterior ao octagono, e alongámos a vista 
por todas as portadas e os renques de candelabros até dentro do refeitório, 
que em razão de seu grande comprimento, nada menos de duzentos pés, si- 
mulava rematar em ponta. Demorando-nos alguns minutos a desfructar esta 
perspectiva, vieram depois quatro frades com tochas alumiar-nos até fora do 
convento, dando-nos as boas noites com muitas reverencias e genuflexões. 

«A nossa ceia em casa do capitão-mór foi assaz divertida, boa parte da 
noite, nao obstante o nosso cansaço, estendemos a conversa acerca da varie- 
dade de objectos, que nos passaram pelos olhos em tão curto espaço de horas, 
o reboliço das brutescas figuras quasi ins^araveis dos nossos calcanhares por 
tanto tempo, e tão de perto, e a vivacidade achavascada do frade leigo.» 

CARTA xvu 
Bbcbbsso a Ci^rriftA — Dhlbitb do dbacanho depoiii da jobkada 

28 de agosto de 1787. 

«Meio dormente, meio acordado, retiniu-me nos ouvidos o sonoroso carri- 
lhão do convento; as vozes do marquez e D. Pedro em porfiosa conversação 
com o capitão-mór no quarto contíguo, completamente me despertaram. ^ En- 
golimos o café á pressa; o grão-prior largou com reluctancia o travesseiro, e 
acompanhou-nos á missa conventual. Os frades redobraram os esforços para 
nos reduzirem a jantar com elles; continuámos, porém, inflexíveis, a fim de 
evitar novas importunações e partimos açodados, finda a missa, para a quinta 
do visconde de Ponte de Lima, onde a fechada sombra dos loireiros e azevi- 
nhos nos abrigava do excessivo ardor do sol. 

«O marquez, sentando-se a meu lado ao pé d'ama das límpidas e copiosas 
fontes, que refrescam e aviventam o magnifico jardim á italiana, encetou um 
discurso mui serio e semi-official sobre a minha estada em Portugal, e os meios, 
que se projectavam em mui alia região, para que fosse não só agradável para 
mim, mas também de alguma valia para outros muitos. Alliviou-me a presen- 
ça de D. Pedro e de seu tio, que tendo passeado até o fim d*uma avenida de 
pinheiros longamente extensa, vieram mudar a conversação, que já se me tor- 
nava pesada; voltámos todos á poisada do capitão-mór, e achámos o jantar 
prompto. 

«D. Pedro e eu tínhamos pena de deixar Mafra; nem poríamos objecção a 
outra corrida pelos claustros e dormitórios com o frade leigo. A tarde estava 
brilhante e limpa, e a côr azul do mar distante indísivelmente agradável. 
Fomos levados com tumultuaria velocidade pelas escabrosas estradas, de ma- 
neira que mal podíamos o marquez e eu dar palavra um ao outro. D. Pedro 
ia montado no seu cavallo, e Verdeíl, que nos precedia no carrinho, parecia- 
nos ir desafiando o vento: o seu macho, um dos mais arrogantes e corpulen- 
tos d'esta casa, incitado pelas chicotadas e exclamações d'um esgalgado pos- 
tilhão portuguez empoleirado atraz do vehiculo, galopava desencabrestada- 



i 



Panorama do 1856, pag- 315. 



o 



TOMO 1 O 



ii4 BE 

mente, e a obra d'ama légua das rochas de Cintra, assentou de arrojar seus 
conductores para o meio d'umas moitas no fondo d^am fojo qoasi perpendi- 
cular, onde ainda esperneava, quando nós passávamos. 

«Yerdeil vein para nós manquejando, e apontando para o carrinho caido 
no barranco; excepto a leve contusão n'um joelho, nao teve outro detrimento; 
exclamou immediatamente que escapara por milagre, e que sem duvida Santo 
António tivera mâo n'elle. O meu amigo, que traz sempre os horrores da he- 
resia diante dos olhos, cochichou-me ao ouvido que doesta vez o diabo o ti- 
nha salvado, mas que talvez d*outra não estivesse tão bem disposto. 

cAinda não eram cinco e meia, quando chegámos a Cintra; a marqueza» 
o abbade e os meninos nos esperavam. Andando-me a cabeça á roda, e as idéas 
tão abaladas e confusas^ como tinha o corpo, recolhi-me a casa logo ao cair 
das sombras, a íim de gosar umas poucas de horas de não interrompido des- 
canço; o apparalo da minha ampla sala, a sua solidão e silencio infundiam mo- 
mentânea tranquilidade no animo agitado. A macia e bem lisa esteira, fabri- 
cada do melhor e mais lustroso junco, assumia à luz das bugias uma cor de- 
liciosa, suave e acorde; vi- a tão fresca e brilhante, que me estendi n*ella, e 
alii me deixei estar de papo para o ar, contemplando o cristalino e sereno céo 
de verão, e a lua, que vinha nascendo vagarosa detraz da coroa de um outei- 
ro matagoso; uma frouxa viração afastando as cortinas descobria os topes das 
arvores silvestres do jardim, e ao longe extenso tracto de paisagem, terminada 
pela superGcie do mar, e os ennevoados promontórios.» 

CARTA XVIII 
iSalÂo oniBi«TAi« — D. João W b Odivillas 

— COliVUlSÂO DB UMA MGLBKA ¥BLHA — SbD BIITBIUIO 

29 de agosto de 1787. 

«Achava-me desmedidamente encalmado; desperdicei toda a manlià no 
meu mirante, cercado de fidalgos com seus chambres mui garridos, e de mú- 
sicos vestidos de roxo, com largos chapéus de palha á similhança de bonzos, 
ou talapões, parecendo tão queimados do sol, ociosos e ne^fligentes, como os 
habitantes de Ormuz ou Bengala, de forma que a minha companhia assim co- 
mo o aposento oíTeVecia a mais decidida apparencia oriental; por exemplo, o 
divan levantando-sc poucas polegadas acima do soalho, as gelozías doiradas 
das frestas, as cristalinas regueiras manando d'um tanque logo debaixo dV 
quellas, e que constantes supprcm as fontes da rocha nativa. 

«Agradável variedade predomina na minha sala asiática; metade das cor- 
tinas ostentam as mais ricas dobras; outra metade são transparentes, e der- 
ramam jucunda claridade sobre a esteira c sophás; grandes e luzidos espelhos 
multiplicam a profusão das armações; alguns dos meus hospedes não se en- 
fastiavam de andar de canto para canto observando os diííerentes grupos de 
objeclos reflectidos por todos os lados nas direcções menos esperadas, como 
se pliantasiassem ser admitlidos por encauto a espreitar por um labyrinlho de 
camarins inagioos. 

• Um individuo da socicdado, maiioiuso velho, italiano o clérigo, que linha 



BE 115 

saído da soa terra natal aotes que o celeberrimo terremoto derrubasse pelos 
alicerces mais de metade de Lisboa, disse-me qae se recordava d'um aposen- 
to, boa amostra n'esle mesmo gosto; isto é, adornado de espelbos e cortinas, 
uma espécie de palácio de fadas, que communicava Qom o convento de freiras 
de Odivelias, tão famigerado pelo piedoso retiro d'aquelle exemplar de ma- 
gnificência e santidade, o rei D. João Y. Deleitosos dias abí passou o monar- 
cba, e os favorecidos companheiros das suas devoções. 

cDe que serve (accrescentou mui judiciosamente o padre mestre) a gaiola 
mais formosa sem pássaros, que a aviventem ? Se tivésseis ouvido a celestial 
harmonia das reclusas do rei João Y, nunca vos terieis contentado no vosso 
primoroso pavilhão com o esganiçamento dos sopranos e os roncos dos rabe- 
cões. A suavidade, refiro* mo áqueilas puras vozes, saindo do sagrado asylo 
recôndito, onde não é dado penetrar ente humane masculino, á excepção do 
monarcha, produzia um cfTeito, de que ainda me lembro extasiado, posto que 
jà lá vão bastantes annos. Quatro dos nossos mais abalisados cantores, dois 
de Yeneza e dois de Nápoles, attraidos pela liberalidade verdadeiramente ré- 
gia, accrescentaram tudo quanto o gosto consumado e a scíencia podia pres- 
tar às mais excellentes vozes de Portugal: o resultado foi a perfeição. 

«Exactamente ao levantar-nos de jantar para a mesa do desserj posta no 
terraço fronteiro á rua principal do jardim, entrava o abbade Xavier apre- 
goando a admirável historia da conversão diurna inj^Ieza phtysica, e nada 
creança, que acbando-se em vésperas de despedir-so do mundo, ao que pa- 
rece, requereu um padre para confessar-se o abjurar seus erros de toda a 
casta. 

«Acontecendo alojar-se na hospedaria de Cintra, de que era dono um dos 
mais fervorosos catholicos irlandezes, os louváveis desejos da senhora foram 
expeditamente satisfeitos, e Mascarenhas e Acciaoli, e mais dois ou três pa- 
dres e monsenhores chamados para ajudarem a esta boa obra. ^ 

«Grande tem sido (exclamou o abbade) o nosso regosijo por este motivo. 
N'esta mesma tarde o ditoso anjinho será sepultado em triumpho; Marialva, S. 
Lonrenço, Asseca e outros muitos da principal nobreza concorrem para tor- 
nar mais apparatoso o acto; creio que víreis comigo, e acompanhareis o prés- 
tito? 

«Com a melhor vontade (respondi), e ainda que não gosto de funeraes, co- 
mo esse de que fallaes, é tão festivo, posso fazer uma excepção. 

«Partimos, transportados tão velozmente, quanto o podiam as parelhas de 
excellentes machos, para que não chegássemos tarde á função; muita concorrên- 
cia de povo havia diante da porta; n*uma das janellas estava o grão-prior re- 
zando o breviário, e em ar contemplativo, como quem desejava ver-se d'allí 
cem léguas. Subi as escadas, e immediatamente me Ozeram roda o velho con- 
de de S. Lourenço e outros devotos, innundando-me de congratulações. Mas- 
carenhas, um dos mais conspícuos membros da Sè Patriarchal, chapado hy- 
poerita e doutor ascético, foi-me apresentado. Acciaoli, de quem eu era já co- 

«1 Panorama úv. 18^iG, pag o.il. 



H6 BE 

Dhecido, aos palinhos pela casa esfregava de contentamento as mãos, e com 
olhar surrateiro e risinho velhaco espraiado no semblante jovial dava trincos 
com os dedos para Satanaz, como quem dizia: 

«Figas, demónio í Ao menos tiramos-te nma das garras, já está agora li- 
vre do ten caldeirão. 

«Havia tal azáfama no quarto interior, onde o mirrado cadáver estava de- 
positado, tal cantarola e reza, porque nenhuma língua estava ociosa, que a ca- 
beça andava-mc á roda, c fui refugiar-me ao pé do grão-prior; bem se via que 
nào lhe era agradável a assembléa; mas encolhendo os hombros dizia que ^ a 
muito edificante, por certo muito, e que monsenhor Âcciaoli fora em extremo 
vigilante, em extremo activo, e merecia subido louvor, salvo o pod^-se ter 
poupado simílhante bulhaça. 

«Por algumas indicações, que escaparam, não quero dizer a quem, vim a 
descobrir que o innocente aujo, agora na estrada real da felicidade eterna, não 
quizera passar por este mundo sem provar da taça do prazer, e vivera mui- 
tos annos folgadamente^ não só com um galhardo moço solteiro da sua na^o, 
mas com outros indivíduos, casados, e não casados, do seu particular conhe- 
cimento. Gomtudo ella virou súbito de bordo achando-se levada velozmente 
pela maré de uma rápida phtysica, e foi rebocada para o porto pelos coiyun* 
tos esforços do estalajadeiro irlandez^ e dos membros acima nomeados. 

«Oh! três vezes feliz ingleza (exclamou M—a), que fortuna é a tua! No ou* 
tro mundo a immediata admissão ao paraizo, e n'este, teu corpo gozará a in- 
signe honra de ser conduzida á sepultura por pessoas da mais alta jerarchíal 
Viu se jamais tanta ventura? 

«A chegada d'uma multidão de padres e sacristães, de tochas accesas e 
cruz alçada nos chamava á scena d' acção. Mettido em ordem o acompanha^ 
mento foi conduzido o corpo, vestido de branco, n'um caixão forrado de côr 
de rosa com seis argolas prateadas, a fim de se levar á mão. M. que detesta a 
vista d'um cadáver, fazia-se vermelho até ús orelhas, e daria uma quantia pa- 
ra fazer uma retirada honrosa; mas já nenhuma retirada era compatível com 
a piedade christã, e viu -se obrigado a vencer a sua repugnância, e pegar a 
nma das argolas do caixão, outra foi encaixada na mão do notório S. Vicente, 
outra coube ao velho fanhoso conde de S. Lourenço, a quarta ao visconde 
dAsseca, exccllente cavalheiro, mancebo d^exterior sincero, e a quinta e a 
sexta tocaram ao capitão-mór de Cintra c ao juiz, sujeito de desagradável as- 
pecto. 

«Assim que o grão-prior pilhou fora da vista o lívido semblante da defunta» 
que era levada pela escada abaixo fez uma tentativa para abalar, e preceder 
em vez de seguir o acompanhamento; porém AccíaoIi,que fazia de mestre de 
cerimonias, não o deixou safar-se tão facilmente, distribuindo-lheologar mais 
honroso, logo adiante do caixão, collocando-se-Ihc á esquerda, dando a direi- 
ta a Mascarenhas. 

«Todos os sinos de Cintra repicavam, e á sua alegre toada íamos nós ca- 
minhando á pressa por meio d' uma densa nuvem de pó, com uma canalha de 
rapazes a rclouçarem por ambos os lados, e as avós manquejando atraz, re* 



BE ,„ 

zando pelas contas, e de vez cm quando arreganhando o resto da carcomida 
dentaça, e a cochicharem ao ouvido umas das outras sobre o seu triumpho 
contra o príncipe das trevas. 

•Felizmente o caminho para a egreja não era comprido, aliás a poeira nos 
sufiòcaria; o grão-prior conservando fechada a bocca, nâo recebia uma partí- 
cula d'ella; mas Acciaoli e seu collega estavam de tal modo enfatuados com 
a sua afortunada empreza, que nâo cessavam de pahrar. 

•O pobre velho S. Lourenço, gordo, acaçapado, e asthmatíco, querendo* 
tomar fôlego parava de vez em quando a descançar da jornada. Marialva, a 
quem a natural aversão a estes actos ainda mais lhe fazia pesada a carga, tam- 
bém não se lhe dava doestas pausas. 

«Achámos todos os altares da egreja scintillantes com lumes, aberta a cova 
para receber o seu purificado habitante, e uma numerosa cohone de padre- 
cas saindo-lhe ao encontro. Á entrada cantaram muitíssimas vozes juvenis de 
coristas, o que o ritual prescreve no enterro das creanças de mama, ou de 
pouca idade, o incenso elevava-se em rolos ao ar, e brilhava alegria e con- 
tentamento em toda a congregação. 

«Susurrou outra vez o borborinbo de applausos e congratulações recebi- 
dos por aquelles, a quem mais cabiam com toda a affabilídade, e até denguice. 
O ancião S. Lourenço atracando o grão-prior, erguerdo-o ao ar nos braços, e 
borrifando-o de tabaco, pregou-lhe um forte espirro. O S. Vicente, assim que 
desceu á cova a defunta com as suas vestes cândidas da innocencia, retirou se 
com malícia, porque nunca estava bem na presença de seu cunhado Marialva. 
Quanto ao outro zeloso fidalgo a exaltação e triumpho lhe faziam ultrapassar 
os limites do decoro; escarneceu dos hereges com acrimonia, pintou com vi- 
vas cores a felicidade da convertida, e quando saiamos da egreja gritou tão 
alto, que o podessemos ouvir — Ella agoira está c para nós todos, 

•Concluída sua pia tarefa, os dois monsenhores nos acompanharam aos al- 
tos de Penha Verde a respirarmos a frescura do ar á sombra dos resinosos e 
odoríferos pinheiros; e d'ahi voltando em nossa companhia ao Ramalhão par- 
ticiparam da merenda de gelados e doces, e fechou-se a tarde com discursos 
jucundos acerca da scena, que tínhamos presenciado.» 

CARTA XIX 

AVKCMrrjUI M» COlfSB 9B 0. liOITKBlfÇO — • COltSUI. HOI.LA5IDBS — CbIA MJOVBltB 

«Os princípaes personagens, que tão piamente se distinguiram hontem, jan- 
taram comigo n'esta abençoada tarde. O velho S. Lourenço tem prodigiosa me- 
moríá, e a imaginação escandecida, ainda mais exaltada por um leve toque 
de loucura. Apresenta-se perfeitamente conhecedor da política geral da Eu- 
ropa, e, posto que nunca desse um passo fora de Portugal, narra tão circums- 
tanciada e plausivelmeúte os modernos successos, e a parte, que elle próprio 
desempenhou no congresso d'Aix-la-Chapelle, que eu cai no logro, e acredi- 
tei, ^n quanto não me informaram do segredo, que elle efíectivamente presen- 
ceára, o que só tinha sonhado. Não obstante a subida graça, em que estava 
para com o infante D. Pedro, o marqnez de Pombal o havia encarcerado com 



418 BK 

outras viclimas da conspiração do duque d'Avciro, c por dezoito trístissimos 
annos achou-se a sua idéa activa reduzida a se alimentar dos seus próprios 
recursos. 

«Pela exaltação Ma rainha actual saiu solto, e encontrou participante do 
throno S. A. R. seu intimo amigo; porém vendo-se recebido friamente, e posto 
de banda com vilania, arrojou a chave de camarista, que lhe haviam man« 
dado a um logar pouco limpo e decoroso, e recolheu- se k casa religiosa das 
Necessidades. Gertifícaram-me que não houve meios que o rei não tentasse pa- 
ra o afagar e lisonjear; mas todos foram infructiferos. Desde esse período, pos-t 
to que largasse o convento, nunca appareceu na corte, e recusou todo o em- 
prego. Agora só a devoção lhe absorve a alma. Excepto quando lhe tocam na 
corda da prisão, e do marquez de Pombal, acham-no plácido e rasoavel, como 
hoje o achei extremamente, e com carradas de mui instructivas e divertidas 
anecdotas. 

«Tomado o café, a minha companhia estirou-se toda ao comprido, e do mo- 
do mais commodo, uns na esteira, outros nos sophàs, para realentar o espirito, 
supponho eu, depois das piedosas lidas e enthusiasmado préstito do dia ante- 
cedente, venci do Marialva que me acompanhasse a casa de Guildmeester, com 
quem fomos dar n'um vasto, mas desencademado salão. Serviu-nos exeellente 
chá, alambazadas fatias de pão de mistura, e manteiga, fresquinha d^aquelle 
dia, e manipulada segundo o genuino e invariável modo hollandez. 

«D. Genoveva é uma velha do feitio d'um poial, com uma cabeça de pião, 
e um par de beiços grossos, plácida, risonha, e benévola: miss Coster havia de 
ter sido bonita ha uns poucos d'annos, faz o chá com todo o decoro, fecha as 
portas, o abre as janellas com scicncia, c já tem bastante que allegar, quando 
pôde repotrear-so na sua cadeira. 

«Apenas tinharaos começado a comprimentar a dona da casa acerca do 
completo resultado da sua creaçao de vaccas, veiu o cônsul e sua velha mu- 
lher com muitas mesuras c saudações trazendo uma gamelia envernisada, onde 
brilhava com profusão um copioso thesouro de diamantes, tanto brutos, como 
lapidados, fruclo de seu famoso e mui lucrativo contracto no tempo do Pom- 
bal; alguns dos maiores fazia elle empenho, em que Marialva os recommen- 
dassc á rainha, e disse-me ao ouvido, que lambem csliraaría que eu desse al- 
gumas palavras a seu respeito. 

«Fiquei estupefacto, o o mnrqucz deslumbrado cora aquelle esplendor e ri- 
queza; voltou para o seu gabinete interior sem lhe reviverem as esperanças, e 
nós saimos. 

«Adiantava-se a tarde, e um nevoeiro com seus borrifos toldava os pínca- 
ros penhascosos da serra de Cintra; isto porém não nos impediu de ir a casa 
de rar. Horne. Pas?âmos por debaixo de arcadas de ulmos e castanheu*os, cuja 
ramagem humedecida exhalava o cheiro refrigerante das matas. Dissipados 
os vapores exactamente, quando desembocávamos da sombria avenida, appa- 
recia a torrinha do Convento da Pena, debilmente tinta com os últimos raios 
do sol, e afigurando-se-nos, como a arca no monte Ararat, n'um mar de nu- 
vens ondeantes. 



BE 419 

«Em casa de Horne, Aguilar, Bezerra e a companhia do costume acha- 
vam-se reunidos. O roarquez assim que desempenhou as suas complacentes o 
alcatrusadas cortezías para a direita e para a esquerda retirou-se á sua quinta; 
eu tomei Horne na minha carruagem até à residência da senhora Staits, pes- 
soa baixinha, de cintura delgada e esbelta, de olhar damninho, porém nada 
desagradável, nem de coração deshumano; fazia annos n'esse dia, e havia con- 
gregado a maior parte dos inglezes, que estavam em Cintra, n'um jardim hú- 
mido de setenta pós de comprido por trinta e dois de largo, illuminado com 
trinta ou quarenta lampiões. A dama Guildermeester ahi estava coberta do dia- 
mantes, reluzente como uma estrella no meio da sua obscura atmospliera. Ti< 
vemos uma fúnebre ceia fria debaixo d'uma barraca á imitação de gruta. 

•O marido de miss Staits, bem disposto e de boa feição, dcu-me logar junto 
de mrs. Guildermeester, que se divertiu sofTrivelmenteá custa do festim. A ap- 
parencia subterrânea da barraca, a luz desmaiada dos escassos lampiões, e a 
fragrância d'am prato de camarões grandes, e 7nais do que maduros, me sug- 
geriram a idéa de estar morto e enterrado. «Ait (disse para a minha amável 
visinha) foise tudo para nós! Eis o nosso primeiro banquete nas infernaes re- 
giões; todos somos eguaes, e aqui confundidos. Alli está a piedosa presbyte- 
ríana miss Tussock com a empertigada rapariga sua irmã, e logo ao pé o ca- 
sal de adúlteros pombinhos, mr... e a sua sultana; eu, miserável peccador, íleo 
defronte do vosso honesto e pacifico esposo, e pouco mais abaixo o nosso be- 
nigno hospedador, modelo de brandura e resignação conjugal. Escutael Não 
ouvis a bulha de coisas, que caem, e se amontoam? Estão despejando uma car- 
regação de mortos! 

«N'este estylo continuámos, até que o assumpto se esgotou, e chegou o tem- 
po de cada um retirar-se ás suas poisadas.» 

CARTA XX 

BlIPBBAWiB A KAI2IIIA BM ClIVTKA — OCQUB BE IíAPSbA — FBIKA BA PbNIIA 

I4OKGA — Passeio liocruitito 

40 de Setembro de 1787. 

«Adeus tranquillidade de Cintra, em breve só haverá confusão e bulha ! 
Está para chegar a rainha com todas as suas damas de honor, secretários de 
estado, anões, negrinhas e cavallos brancos, pretos e malhados. Metade das 
qnintas d'estes contornos ficarão seccas, tomando -se posse militarmente dos 
aqueductos, e derivando-se as suas aguas por novos canaes para uso do ar- 
raial. 

«Passeava eu debaixo de longas latadas de limoeiros dispostas em arco, 
quando me appareceu ao cabo da avenida M... acompanhado do duque de La« 
fões, o mesmíssimo personagem bem conhecido em toda a Europa pela deno- 
minação de duque de Bragança, posto que não tenha direito a este illustre ti- 
tulo, que anda unido á coroa. Chamasse-se eile duqucza viuva, não seria ou 
quem lhe disputasse a propriedade do titulo, conhecendo-o por uma espécie 
do camareira velha, com eguaes ninharias e melindres; põe ainda cor e si- 
gnaes, e posto que já tenha setenta invernos, ainda procura fazer rodopio so- 



120 BE 

brc os calcanhares, e mexer-se com javenil agilidade; muito me abysmoa a 
facilidade do seos movimentos, por quanto me haviam dito que era martyrde 
gota. Depois de cecear em francez com a mais requintada accentuaçao quei- 
xas contra o sol, e as estrelas, o o estado de architectura, abalou (graças a 
Deus) para ir marcar o sitio do acampamento da cavallaria que hade guardar 
a sagrada pessoa da rainha durante a sua residência n'estas montanhas. M^. 
tinha obrigação de acompanhal-o; porém deixou seu filho, e seus sobrinhos, os 
herdeiros da casa de Tancos para jantarem comigo. 

tÁ tarde Yerdeil enfastiado de andar d' uma banda para a outra nas va- 
randas, propoz uma cavalgata à próxima povoação, onde havia feira; elle e D. 
Pedro montaram nos seus cavallos, precedendo-me e aos mancebos Tancos, 
que Íamos em carrinhos puxados por valentes machos. As estradas são abo- 
mináveis, e correm ao longo da falda ladeirenta das montanhas de Cintra, que 
na primavera são, não ha duvida, soíTrivelmente vestidas de verdura; porém 
na estacão actual qualquer fevera de relva está resequida e mirrada. As 
rodas da nossa carruagem, resvalando de esguelha por aquelles escorre* 
gadios declives, faziam exhalar cheiro muitas hervas aromáticas meio pulve- 
risadas. 

«Não sabia da cabeça, quando chegámos á feira, que se faz n'um rocio, li- 
mitada d'um lado pelos pittorescos ediOcios de um convento de Jeronymos, e 
pelo outro por eminências penhascosas, quebradas em grande variedade de 
formas extravagantes; um penedo especialmente, que chamam dos Ovos, co- 
roado por uma cruz, remata tquella aggregação^ e exhibe exquisita apparen* 
cia brutesca. Detraz do convento, densa mala de oliveiras^ e os pomares oc- 
cupam um valle curto e refrigerado pelas fontes, cujas límpidas aguas são en- 
caminhadas para os diíTerentes claustros e cerca por um aqueducto de már- 
more ordinário, que sustentam arcos chanfrados ao gosto mourisco. 

«Os camponezes, que concorreram á feira, andavam espalhados pelo ter- 
reiro, conversando alguns com os frades, outros meio vínolentos cambaleando, 
e estendendo-se no chào^ outros comprando coifas de seda e arrecadas ^'oiro 
falso para presentear as namoradas. Os monges, que andavam azafamados em 
administrar toda a casta de consolações, tanto espirítuaes, como temporaes, 
conforme as suas respectivas idades e vocações, felizmente não deram por nós, 
e assim escapámos de sermos empanturrados com doces, e perseguidos de com- 
primentos. 

«Ao sol posto voltámos ao Ramalhão, e tomámos chá na sala mirante, em 
que ha nada menos de onze portas envidraçadas, e janellas de vastas dimen- 
sões. O vento estava socegado, o ar balsâmico, e o céo d'um azul tão suave, 
que não nos soíTreu o animo ficar engaiolados, e tomámos outra vez os nossos 
vehiculos, indo até á nova casa do cônsul hollandez, á luz confusa de innume- 
raveis estrellas. 

«Passava das dez, (luando recolhemos á quinta do Marialva, e antes de che- 
garmos, ouvimos as toadas sentidas de vozes e instrumentos de vento, que saiam 
do arvoredo, á borda do tanque principal sentavam -se a marqueza e D. Hen- 
riqueta, e um numeroso grupo de criadas, algumas bem engraçadas creatu- 



BE I» 

ras, escnUndo com todo o erobevecímento d'aliDa o ensaio da musica deliciosa, 
que havia de ser executada D*uma serenata a sua magestade d'ahi a dias. 

«Era orna das serenas noites encantadoras, em que a musica adquire du- 
plicado attractivo, e abre o coração a impressões maviosas, posto que meian- 
colicafiT: nem uma foJha susurrava, nem um leve sopro de vento perturbava a 
clara chamma das luzes coUocadas junto das fontes, e que exactamente ser- 
viam para tomal-as visíveis; as aguas correndo para as caldeiras cavadas em 
redor dos pés dos limoeiros formavam um murmúrio brando; e nas pausas 
do concerto nenhum som se escutava, excepto o de phrases imperceptíveis di- 
tas baixinho ao ouvido; de modo que os encantos do clima, da musica e do 
mysterio me enlevaram n'um extasi, de que saí com pena e Aluctancia.* 

CARTA XXI 

Am BCDOTA0 — JaIVTAH DO ARCEBISPO COMPRSMOK 

12 de setembro de 1787. 

«Apenas estava levantado vieram annunciar-me o grão-prior e mr. Street; 
este vituperando reis, rainhas e príncipes, com toda a sua força, e bramando 
por liberdade e independência: o primeiro queixandose dos nevoeiros e hu- 
midades. 

«Assim que saiu o advogado do republicanismo, fomos, como havíamos 
concertado, a casa do arcebispo confessor, e ahi immediatamente nos admltti- 
nm ao seu sancta janc^on4m,^agasalhado aposento, communicando por uma 
escada de caracol com o da rainha, e adereçado de lustrosa tapeçaria/de vivas 
cores. Um frade leigo, rochunchudo e chocarreiro, completamente tosco e vul- 
gar como qualquer carreiro, ou almocreve, nos entreteve com divertidasj-posto 
que nao mui decentes historias palacianas, até que seu patrão nos appareceu. 

«Quem esperar ver no inquisidor-mór de Portugal cara chupada, e tristo- 
nha com olhos de impropério e maldição, acha-se enganado; raras vezes temos 
o gosto de encontrar uma presença tão jovial e sincera como aquella, de que 
o céo o dotou; recebeu-me do modo mais franco e cordeal, e tenho razão de 
capaeitar-me que lhe cai muito em graça. ^ 

«Conversámos sobre serem casados os arcebispos em Inglaterra. «Com ef- 
íèito (dizia o prelado) os vossos arcebispos são singulares sujeitos, sagrados 
nas vendas de cerveja, e bons consócios de botelha! Contaram-me que aquelle 
estouvado Lord Tyrav^ley era arcebispo lá na sua terra.» Imaginae quanto 
ea riria d'este incomprehensível despreposito; e ainda que não possa dizer de 
80â reverendíssima que as verdades divinas saem melhoradas da sua bocca, 
8ija-me licito declarar, que o absurdo se toma mais notavelmente ridículo vin- 
do de origem tão auctorisada. 

«Quando chegámos ás janellas da sala para ouvir a banda de musica mar- 
cial, vimos João António de Castro, hábil engenheiro, que inventou o actual 
syttema da illuminação de Lisboa, dois ou três graves dominicanos, e o famoso 
tmào D. João da Falperra, mascarado com falsas condecorações das ordens, 

< Panorama de 1856, pag. 413. 



IÍ2 BE 

sabiodo todos elles os degraus, que conduzem á grande sala da audiência.— 
«Sim, simi (disse o leigo, que é uma creatura petulante e cómica). Eis ahi o 
fiel retrato dos nossos freguezes: três castas de pessoas acham mais fácil en- 
trada n'este palácio, homens de superior talento, bobos e santos; os primeiros 
cedo se desgostam da habilidade que possuem, os santos vem a ser martyres, 
e só bobos prosperam. 

«A tudo isto o arcebispo prestou o seu ingénuo assentimento por um si* 
gniflcativo meneio de cabeça; e achando-se na mais graciosa e commanica« 
tiva disposição não me permittiu que saísse, quando me levantei para despe* 
dir-me. «Não, não penseis em deixar-me tão depressa: vamos á sala dos cys* 
nes, e peço que*depois me digaes que idéa fazeis dos nossos primeiros fidal- 
gos. 

«Tomando-me pelas pontas dos dedos conduziu-me por muitos quartos 
sombrios e passagens escuras a uma porta secreta, que dá serventia da sala 
de visitas da rainha para outra muito espaçosa, atulhada então por metade das 
dignidades do reino; alli estavam bispos, prelados das ordens, secretários does- 
tado, generaes, camaristas, cortezãos do todas as denominações, bizarros e 
ílammantes com suas fardas bordadas, estrellas, veneras de hábitos, e chaves 
doiradas. 

«Era visivel o assombro d'este grupo à nossa súbita apparição; apresentá- 
mo-nos ao começar um minuete: o apessoado arcebispo com seu vestido mo- 
nacal como um peru increspado, e eu avançando a passo grave, deslumbrado 
da súbita transição das trevas para a luz, como a coruja que o sol apanhou 
fora do ninho. Ajoelhavam muitos mettendo á cara memoriaes e petições, re- 
querendo a maior parte legares e promoções, c alguns solicitando bênçãos de 
que o meu reverendo guia não era avaro. Afigurou-se-me que tratava as pres- 
surosas demonstrações de servilismo com um certo modo de pouco caso sem 
insulto. A audiência foi interrompida por uma ordem da rainha, que chama- 
va immediatamente o arcebispo; porém este, antes de retirar-se, tocou-me no 
bombro, e disse -me: apenas me demoro meia hora, e jantareis comigo. — Este 
convite excitou nos cortezãos grande inveja. Em mim o effeito era o contra- 
rio, porque tinha função ajustada para Penha Verde, o mais fresco e român- 
tico sitio d'esia poética comarca, e não me queria encaixar n*um aposento chei- 
rando a verniz. Mas, emôm, não tinha remédio, porque todos os figurões da cor- 
te, obedecem a sua reverendíssima. A meia hora assignada pelo arcebispo deitou 
quasi a uma. O marquez de... foi encarregado de me conduzir àquelle inve- 
jado jantar, e dísse-me que era a primeira vez que tinha a honra de assistir à 
meza do arcebispo. Batemos á porta reservada, e seguindo pelos quartos já 
conhecidos fomos dar a um pequeno aposento, com frente para uma horlasi- 
nha, onde o frade leigo com as mangas arregaçadas até aos hombros nos fez 
hospitaleira recepção; na casa das tapeçarias estava a mesa com três talheresi 
e n*um dos ângulos em cima d'um sophá o omnipotente prelado coberto com 
uma capa parda cheia de remendes. 

«Vem cá (disse ao leigo batendo as palmas ao modo oriental) serve a me^, 
e tpnhamos algum prazer. Que praga é aturar essas mulheres lá de escada 



BE 123 

aeímal Quem melhor deqaevó?, marquez, conheceis quantos enigmas ha que 
desembrulhar? Atrevo me a dizer que os arcebispos inglezes não se voem abar- 
bados com metade dos embaraços, em que me vejo enleado. Olá! vamos a sa- 
ber o que nos dão para coiner. 

«Entrou o leigo com três leitões assados n*uma bandeja enorme de prata, 
e com uma torta de correspondentes dimensões; estes pratos nunca variam: 
til é sempre o jantar do arcebispo, salvo nos dias de magro. Porém a simpli- 
cidade da primeira coberta foi resgatada pela profusão das sobremesas, que 
em variedades de frutas e doces nada podia egualar. Em vinhos, não fallemos; 
eram delicados e escolhidos, tributo de todos os domínios portuguezes á mesa 
de sua reverendíssima: a companhia do Porto, que então solicitava a renova- 
ção do seu privilegio, contribuía com a flor das suas colheitas; de tão boa qua- 
lidade, que o meu obsequiador hospede prometteu-me, e logo no outro dia 
mandou pôr em minha casa alguns barris d'este licor genuino. 

«Passou-se alegremente o jantar, e mais duraria a palestra inter -porula 
se o marquez aomo estribeiro, e o arcebispo na sua especial missão, não ti- 
vessem de ir ao paço. Por outro labyrintho de passagens, mais intrincado do 
que aquelle, por onde entrara, me conduziu á rua o leigo faceto e anecdotico.* 

CARTA XXII 
WmwTA AOM coifVBirroff da Sbrka — Scrmas da costa marítima 

19 de setembro de 1787. 

«Nunca tive um dia mais formoso, nem vi um céo de azul mais aprazível. 
Os marquezes já estavam comigo ás seis horas e meia, e divagámos por ou- 
teiros incultos, sobranceiros a uma grande extensão de paiz apparentemente 
deserto, porque os logarejos, onde os ha, estão escondidos nas quebradas e 
covas da serra. 

«Intentando explorar as montanhas de Cintra d'um a outro extremo da 
cordilheira, coUocámos mudas em differentes estações. O nosso primeiro ob- 
jecto foi o convento de Nossa Senhora da Pena, pequeno e romântico conjun- 
eto de edifícios branqueados, que eu tinha visto brilhar de longe a primeira 
vez que naveguei pela costa de Lisboa. Doesta pyramidal altura o horisonte é 
infinito; vedes, logo immediatamente abaixo immensa expansão de mar, o 
vasto, illimitado Atlântico. Uma longa série de nuvens soltas, de alvura des- 
lumbrante, também abaixo de nós suspensas sobre as ondas produzem eííeito 
magico, e nos tempos do paganismo pareceriam sem esforço algum da phan- 
tasia, os carros das deidades marítimas, que viessem surgindo da profundeza 
do seu elemento. 

«Não havia coisa verdadeiramente interessante nos objectos, que proxi- 
mamente nos cercavam. As relíquias mouriscas das circumvisinhanças do 
convento apenas merecem menção, e de facto mostram não pertencerem a edi- 
flcio algum considerável; foram provavelmente fabricadas com as delapida- 
ções feitas a um templo romano, cujos constructores talvez que também se 
tivessem aproveitado de algum fanum púnico ou lyrio erecto n'esle sitio ele- 
vado, e denegrido pelo fumo de sacrifícios horríveis. 



124 BE 

tPor entre as rachas dos muros esbroados e particularmente na abobada 
d'uma cisterna, que indica ter servido tanto para deposito, como para banho, 
descobri algumas plantas capillares e polypodios de estremada delicadeza, e 
n'uma pequena châ defronte do convento numerosa tribu de cravos, gencia* 
nas e outras plantas alpinas, agitadas e robustecidas pelo ar puro das mon- 
tanhas. Estas brisas refrigerantes, impregnadas do perfume de innumeras her- 
vas aromáticas e flores, parece que me infundiam nas veias nova vida, mo- 
vendo-me por um impulso quasi irresistível a prostrar-me e adorar n'este vasto 
templo da natureza a fonte e a causa da existência. 

«Como estivemos largo espaço em contemplação, não pude passar metade 
do tempo, que eu desejava n'esta aeria e solitária sumidade. Baixando por om 
caminho sofTrivelmente commodo, que serpeia entre as rochas em muitas e 
irregulares curvas, seguimos por algumas milhas em trilho estreito sobre os 
cumes de eminências marinhas e agrestes até ao convento de cortiça, que 
corresponde exactamente, no primeiro relance d'olhos, à pintura que se pôde 
imaginar da vivenda de Robinson Crusoé. Da banda de fora da entrada, que 
formam dois enormes rochedos proeminentes, que se tocam pêlos cimos, es- 
tende-se um macio terreirinho de relva tosada pelo gado, cujos tintinnabulos 
me recordam antigos dias decorridos em meio da rústica pai7agem dos Alpes. 
O eremitério e suas cellas, a capella, o refeitório, tudo é cavado no mármore 
nativo, e guarnecido de cortiça de sobreiro; em muitas partes não ó só o forro 
do tecto, mas também o soalho recamado do mesmo material, extremamente 
macio e agradável ao piso. Os arbustos e as plantas de jardinagem dispersos 
entre as rochas musgosas, que jazem na mais silvestre desordem, são coisa 
deleitosa, e muito gostei de explorar aquelles recantos e voltas seguindo o 
curso d'um regato transparente e rumorejante, que é conduzido por um ca- 
nal rústico atravez de moitas de alfazema e alecrim do verde mais mimoso. 

«O guardião d'este romântico retiro é apresentado pelos Marialvas, e n'este 
dia era a sua posse, de modo que tão instados fomos para o jantar, que não 
pudemos desculpar-nos; como era ainda muito cedo, cavalgamos com o intuita 
de vér a famosa arriba marítima, chamada Pedra de Alvidrar, que é um dos 
objectos mais notáveis d*este famigerado promontório. Levava-nos o nosso ca- 
minho pelas beiras dos arvoredos próximos da deleitosa villa de CoUares até 
outra ordem de escalvadas eminências, que se dilatam ate á costa brava do 
mar. Cheguei mesmo ao pino do rochedo, que é de grandíssima altura, e 
quasi perpendicular. Seguia-nos uma tropa de rapazes alcançando os cavai- 
los; e cinco dos mais taludos desceram com todo o desembaraço pelo temero- 
so precipício; um d'elles^ especialmente, baixava de braços abertos, e como 
individuo de ordem superior aos mais e á natureza. 

«A costa marítima é o que se pôde chamar pittoresco consistindo de boja- 
mentos muito arrojados^ que se entremeiam com penedos pyramidaes uns 
apoz outros cm perspectiva theatral, avístando-se os mais remotos coroados 
por uma torre muito alta, que serve de pharol. 

«Não ha termos que expliquem a suavidade da atmosphera c a luz pra- 
teada, que o mar reflecte. Da orla do abysmo, aonde nos demorámos alguns- 



BE 425 

minatos como por encantamento, descemos uma ladeira tortuosa, obra de 
meia milha até á praia. Acbámo-nos fechados por penedias desordenadas e 
varias gratas, amphitheatro imaginoso, que não havia nenhum mais próprio 
para suppor os brinquedos das nymphas neptuninas. Nunca vi angras como 
estas, tão fundes e interceptados esconderijos, um jogo assim da linha geral 
de perfil, e também nunca ouvi tão valente mugido das aguas, que investem 
com acosta. 

•Não admira que a escandecida e susceptivel imaginação da antiguidade 
(mthusiasmada pela paizagem da localidade, os persuadisse a que tinham visto 
as conchas dos tritões resoando ao entrar nas cavernas marítimas; e por isso 
alguns dos mais auctorisados e antigos luzitanos positivo declaram que não 
só os tinham ouvido, mas também visto, e despacharam um mensageiro ao 
imperador Tibério, annunciando-Ihe osuccesso e congratulando-o por tão evi- 
dente e auspiciosa manifestação da divindade. 

«A maré começava a vasar, e deu-nos licença para entrar, não sem algum 
risco, n'uma caverna de pasmosa altura, cujos lados estavam encrustados de 
bellos mariscos e de uma variedade de conchinhas em vários grapos. Contra 
algui» ásperos e porosos fragmentos, não distante da bocca, por onde tínha- 
mos engatinhado, as ondas empolavam-se violentas, arremettiam para o ar, 
formavam instantâneos dóceis de espuma, e depois escorriam em milhares de 
regueiros côr de prata. As vacillantes espadanadas da luz pelas irregulares 
arcadas batendo nas mais sombrias e recônditas cavernas, o crepúsculo mys- 
terioso e húmido, os murmúrios resonantes e quasi todos os tons musicaes, 
occasionados pelo embate dos ventos e das aguas, o cheiro activo da atmos- 
phera impregnada de partículas salinas produzem tal desvario dos sentidos, 
que eu não duvido que um génio poético se inclinasse alli á crença das ap- 
paríções sobrenaturaes. Nã^ me espanta, por isso, a credulidade dos antigos, 
e só me maravilha que a minha imaginação não me illudisse similhantemente. 
Se a solidão excitasse as nereidas a certifícarem-me da sua existência por uma 
apparição, não faltaria esta, porque todos os meus companheiros se haviam 
trasmalhado, deixando-me inteiramente só; por uma hora estive recluso do 
mundo animado; a única creatura viva, que pude depois descortinar foi um 
arisco corvo marinho, empoleirado n'uma rocha, insulada a cincoenta passos 
da abertura da caverna. 

«Os sons complicados e susurros, que me entraram pelos ouvidos, atordoa- 
vam-me a ponto, que estive alguns momentos sem poder distinguir as vozes 
de Verdeil e D. Pedro, os quaes voltavam d'uma colheita de algas e con- 
chas, chamando-me estrondosamente para montar a cavallo e reunir-nos ao 
marquez e sua comitiva, que todos tinham ido à missa ao conventlnho da 
Serra. 

«Felizmente as pequenas nuvens soltas, que tínhamos visto do cume altis* 
simo da Pena, em vez de se fundirem no firmamento azul haviam-se conden- 
sado, e nos protegiam contra o calor do sol. Foi, portanto, deliciosa a caval- 
gata; assim que nos apeámos, appareceu-nos o abbade velho, que chegava na 
occasião com Luiz de Miranda, coronel do regimento de Gascaes, cercado de 



126 BE 

todo o synodo de frades, piUorescos quanto podiam tornal-os as cabeças cal- 
vas e as barbas venerandas. 

«Logo que o marqnez findou as suas devoções, serviu-se o jantar no gosto 
do que se pôde esperar cm Mequinez ou Marrocos; cuscús e similhantes mas- 
sas, saborosas codornizes e pyramides, de arroz coradas de açafrão. A nossa 
sobremesa, emquanto a fructas e doces, foi mais opípara; nem a própria Po- 
niona se envergonharia de trazer no regaço pecegos e abrunhos, como os que 
rolavam com profusão por cima da mesa. 

«O abbade parecia animado depois do jantar pelo espirito de contradicção, 
o não queria conceder que o marquez ou Luiz de Miranda soubessem mais 
da corte de D. João V do que da de Pharaó, rei do Egypto. Para não ensur- 
decermos aos berros da disputa, em que dois ou três frades com vozes de 
stentor começaram a metter-se com vehemencia, galgámos D. Pedro, Verdeii 
e eu pelas empinadas moitas de medronheiros e murtas até um terreirinho, 
alapctado de mimosa relva, que á mais leve pressão recendia com perfumes 
suaves. Alli nos sentámos, acalentados pelo borborinho das ondas distantes, 
(fue rebentavam na penedia da praia, que de manhã tinhamos visitado; as nu- 
vens passavam vagarosamente por cima dos outeiros. Os meus companheiros 
partiam as pinhas e davam-me os pinhões, que teem agradável sabor de 
amêndoa. 

«A tarde ia muito adiantada, quando deixámos este pacifico retiro, e fo- 
mos ter com o marquez, que não fora capaz de accommodar o abbade; o ve- 
lho vozeador appcUou tantas vezes para o guardião do convento em defesa 
das suas opiniões, que eu pensei que nunca d'alli nos despregaríamos. Afinal 
partimos, c divagando entre névoas e trevas espaço de duas horas, chegámos 
exactamente ás dez a Cintra.» 

CARTA XXllI 

PKHHA %'BIIDK — CAnACTEREii DA VA^UTK — FESTAS 

22 de seteinbro de 4787. 

« Quando me levantei, a névoa encobria os cabeços, e o mar distante apre- 
sentava o seu azul esplendido. 

«Não obstante esperar algumas visitas de consideraçiío, procedentes de 
Lisboa, a manhã convidava tanto que não pude resistir a montar a cavallo, 
depois de almoço, correndo o risco de não estar presente á sua chegada. 

«Tomei a estrada deCollares. O ar estava deliciosamente sereno e fragran- 
te, algum chuvisco, que havia pouco cairá, refrescou toda a superfície do ter- 
reno, e coloria os alcantis para Já da Penha Verde de purpura e esmeralda; a 
numerosa tribu das urzes começava a florescer; e os pequenos plainos irre- 
gulares, sobre os quaes pendem tortuosos sobreiros, o que Ião frequentemente 
se encontram por aquelle caminho, viam-se cobertos agora de avantajados ly- 
rios brancos raiados de carmezim. 

«Penha Verde é de per si um sitio agradável. A casa de campo com seus 
lecíos baixos e chatos, e um corpo saliente n'unia extremidade, assimilha-se 
exactamente aos edilicios das paizagens de Gaspar Poussin, diante d'uma das 



BE 427 

fronteiras ha um jardim quadrado com sua fonte no meio, e nas paredes ni- 
chos occupados por bustos antigos. Acima d'essas paredes variedade do arvo- 
res sobem a grande altura, e compõem uma condensação da mais rica folba- 
gem. Os pinheiros, que pelo seu lustroso verde deram o epitheto a este roche- 
do ponteagodo sao tão pittorescos, como os que eu costumava admirar tanto 
no jardim Negroni em Roma, e de certo tão antigos ou talvez mais: a tradic- 
çào refere que foram plantados pelo afamado D. João de Castro, cujo coração 
repousa n'uma capella de mármore á sua sombra. 

«Quantas vezes aquelle coração heróico, cmquanto bateu dentro do me- 
lhor e mais magnânimo seio humano, se ailligiu depois no seu socegado re- 
tiro! Aqui pelo menos aguardou aquelle repouso, que tão cruelmente lhe ne- 
gava a cega perversidade de seus mgratos concidadãos i 

«Estas paisagens, posto que ainda encantadoras, provavelmente soíTreram 
grandes mudanças desde o tempo do heroe. 

«Temos lido que os fechados bosques desapparcceram, e com elles mui- 
tas das nascentes, que alimentavam. Fontes archítectonicas, alinhados terra- 
ços, e talhões regulares plantados de larangeiras usurparam o logar d'aquel- 
les vergéis silvestres e borbulhantes ribeirinhos, os quaes bem podemos sup- 
por que a phantasia lhe representava em sonhos, quando distante milhares de 
léguas do seu torrão pátrio. Essas coisas mudaram; mas os homens são os 
mesmos, que os do tempo d'elle, egualmente inseasiveís á voz fervorosa do 
puro patriotismo, e egualmente dispostos a vergar de rastos sob a vara da cor- 
rompida tyrannia. 

«Impressionado com todas as recordações, que este ioteressantissimo sitio 
não deixa de inspirar, custava-me separar-me d'elle. Uma e outra vez segui os 
musgosos trilhos, que vão em voltas por entre sombrios penedos até á peque- 
na assentada da capella funerária, acima da qual se agitam com stridor as 
copas dos pinheiros. 

«Não vos admirará pois que eu viesse preoccupado em todo o camiaho 
para casa, d'aquelles mysteriosos susurros, e que em tal disposição não me 
agradasse ver uma procissão de seges, e uma caravana de burros encamluban- 
do-se para o portão da minha quinta. É certo que eu estava preparado para 
esperar considerável alQuencia de visitas; mas aquillo era uma inaundação. 

«Não vos envio a lista da companhia, porque vos enfadaria tal individua- 
ção, como a mim, uma similhante invasão em massa. 

«Basta nomear-vos dois dos principaes caracteres, o piedoso ancião, conde 
de S. Lourenço, e o prior de S. Julião, um dos principaes validos do arcebis- 
po confessor, e pessoa de muito respeito. Acontecendo estar sobre a mesa a 
biblia hoUandeza de Mortier, folhearam-na de um modo muito grosseiro. Eu 
que aborreço ver os livros enxovalhados, e as estampas com as nódoas da 
pega de um pollegar besuntado, ralhei ao conde velho, e lancei um olhar se- 
vero ao prior, que debruçava todo o seu peso clerical sobre o volume, e do- 
brava os cantos das paginas.» 



128 BE 

CARTA XXIV 

•Não posso abonar a eradição do prior, mesmo em matérias ecclesiast}* 
cas, ^ pois que elle positivamente afiirmava ter sido o próprio Henrique YIII 
que flzera saltar os miolos de S. Thomaz Becket (ou de Gantuaria), e que na 
besta do Apocalypse era Luthero claramente designado. Aborreço altercações, 
e se não tivessem besuntado as minhas estampas, eu nunca contradiria sua 
reverencia, mas, como me achava um tanto fora da minha pachorra, rdsaixeio 
me um pouco em a opinião do conde acertando a verdadeira data do assassí- 
nio de S. Thomaz, e com argumentos soíTrivelmente especiosos arredando de 
Luthero os comos da besta, e pespegando-os muito tesos... em quem pensaes 
que seria?.. Em Ecolampadio. Um nome tão comprido, e que elles provavel- 
mente nunca tinham ouvido pronunciar em sua vida, dando outro exemplo 
do triumpho do som sobre a intellígencia, abafou a disputa. 

«Éramos ao todo uns trinta ao jantar, e apenas começava a sobremesa ^eiu 
Berti dizer-me que a senhora Arriaga e um rancho de doozellas do paço cor- 
riam a quinta a cavallo em galizianos burros; apressei-me.a ir encontral-as; 
eram D. Maria do Carmo e D. Maria da Penha, com seus cabellos fluctuando 
sobre os hombros e os grandes e bellos olhos tão espertos e desmquietos co- 
mo os de uma antílope. Mandei apromptar o cavallo, e galopámos pelas lame- 
das, roçando por folhas, fructos e flores; cada sopro da viração nos conduzia 
os sons dos oboés e trompas da musica da sala. As senhoras mostravam de- 
leitar-se infínito com a novidade e isenção d'esta sortida, e pesava-lbes que 
tão pouco durasse, porquanto ás sete eram obrigadas a voltar ao imprescrepti- 
vel serviço da rainha, e sendo a pena da desobediência algum extravagante 
conto de fadas, mctamorphosc em abóbora ou pepino, era forte o seu cuidado 
e anciã, quando bateu a fatal hora das sete; felizmente não tinham de ir lon- 
ge, porque sua magestadc e a real familia estava tudo reunido na quinta de 
Marialva a participarem de uma esplendida merenda, c verem o fogo d'artífl- 
cio n'um conchegado camarim, que tem vista para o grande pavilhão, cuja 
festiva c phantasiosa scena ganhava realce pelas luzes de innumeraveis velas 
de cera, que dos lustres de crystal para todos os lados reflectiam. A peque- 
nina infanta D. Carlota estava empoleirada n'um sophá conversando com a 
marqueza e D. lienriqucta, que ao modo oriental se haviam sentado no chão 
de pernas encruzilhadas; uma ranchada de damas de honor commandada pela 
condessa de Lumíarcs íicava a pouca distancia na mesma postura; a negrinha 
anã e valida, que chamam D. Rosa, vestida de escarlate mui vivo, não tão fol- 
gazã como eu tive o gosto de a ver no seu aposento de fada, estava agora mais 
sentimental encostada á porta, fazendo gaifonas a um esbelto moiro da casa do 
luarquez. 

«Então a rainha, seguida do sua irmã e nora, a princcza do firazil, levan- 
tou-se da merenda, c tomou logar em frente da gelozia, por detraz da qual eu 
oíilava collocado; as suas manoiras me fizeram impressão por serem caracte- 

í PanBrama, vol. xiv, pag. io8. 



BE i29 

riaUeas de magestade e agrado; parece nascida para mandar, mas, ao mesmo 
tempo, para fazer aqaella samma aactoridade mais querida qae temida. A 
justiça e clemência, mote ou divisa tào enormemente mal applicada na ban- 
deira da detestável inquisição, pode ser ti*ansferida com a mais restricta ver- 
dade para esta boa princeza. Durante a fatal contenda entre a Inglaterra eas 
colónias, a prudente neutralidade, em que ella perseverou, foi do mais vital 
beneficio para os seus dominios, e até agora o commercio nacional portuguez 
tem-se elevado sob os benignos auspícios da rainha a um gráo de prospera 
4ade, que nao tem precedentes. Nada excede o profundo respeito e corteza- 
nia, que a sua presença inspira. O conde de Sampaio e o visconde de Ponte 
de Lima ajoelharam perante as augustas personagens com veneração nada in- 
ferior, cuido eu, á dos mahometanos ante o tumulo do seu propheta, ou os tar- 
faros acatando o DalaíLama; só o Marialva, que tomou o seu logar do lado 
opposto a sua magestade, parecia conservar-se no seu usual desembaraço e 
modo alegre. O príncipe do Brazil e D. João figuravam estar enfastiados, por- 
que estavam encolhidos, com as mãos mettidas nas algibeiras, as boccas em 
perpetuo bocejo, e os olhos vagueando de objecto para objecto na pasmaceira 
de regia ociosidade. 

«A etiqueta mais rigorosa encerra os infantes de Portugal dentro dos seus 
palácios, e raro se oncontram, mesmo de incógnito, misturados com a socieda- 
de geral; por isso aquelles seus lisongeiros sorrisos ou os coníidenciaes boce- 
jos não se desperdiçam em observadores vulgares. Este modo de embalsamar 
príncipes na vida não é por iim de tudo má politica; reveste-os d'uma appa- 
rencia sagrada; concentra a sua real essência, mui fácil de evaporar-se pela 
franca exposição ao ar livre. 

«Deitadas as ultimas peças de fogo partiram a rainha e infantes. A mar- 
queza e as outras senhoras desceram ao pavilhão, onde tomámos uma refei- 
ção magnifica e verdadeiramente real. D. Maria e sua irmã pequena, anima- 
das pela illuminação deslumbrante tropeçavam nos leves vertidos de caça com 
toda a folgança e brinquedo d'umas fadas, taes como cu as supponho desci- 
das das nuvens iluctuantes, que Piiiement representou tão excellentemente 
nas suas pinturas a fresco.» 

CARTA XXIV 

A HÉ — O €0?í«l£JfTO DOM CaETA^OS — O POKTA BOCAQK 

8 de novembro de 1787. 

«Verdcil e eu ralhávamos das calçada;» desconjuntadas indo esta manhã 
no meu coche tosco de viagem com o objecto de fazer exercício; o pretexto 
da nossa digressão era vermes uma notável capella embutida de jaspe e lápis 
lazuli na egreja de S. Roque; mas, quando chegámos, celebravam-se três ou 
quatro missas, e não havia uma creatura assaz desoccupada para correr a cor- 
tina, que cobre o altar, de maneira que voltámos com cara de parvos. 

«Não tendo ainda visto a Sé nos encaminhámos para aquellebairro. É um 
edificio de dimensões nada maravilhosas, estreito e sombrio, sem comtudo ser 
respeitável. O terremoto reduziu a pó as suas magoiiiceucias, se é que as teve 
Toaio i 9 



130 BE 

e Ião e^MwiUiifamfme despedaçoQ as capdlas, de que está iacnisUdo, que 
mui lenoes Testigíos se podem perceber de terem Idlo parle d'ama mes- 
quiU. 

«Posto qoe não foase movido de esperança alguma de grandes coisas» ape- 
sar das descrípções das Tíafcos e obras topo|;r4ilika6, qoe, cmbo os lí^^ 
pariatOy e de linhagem, tem affèctoosa índínaçio para figomem ser aigoma 
coisa, o que na realidade está próximo do nada, indaguei, segondo fu o via- 
jante diligente, pintaras e ornatos de aMares,e os tamaio5,eiiâo posso biaa»- 
nar de descoberta aigoma. Certo nâo dispenderiamos moito tempo eom o 
que por aUi harâ; mas os padres e sacristães pegaram de nós «^itàMift qas 
de noTO examinasseosos o recanto do vão d'ama escada, onde estio para ao 
beijarem e yenerarem os signaes dos dedos de Santo Antónia. Parece qae o 
santo veodo-se apertado pdo pae da moitira e origem do mal, gravou o aí- 
gnal da croz n^oma parede do mais duro mármore, e assim poc pomo ã Uê^ 
tacão. 

«Tkido isto era assombroso; porém nada em comparação com algumas bíi- 
lorias relativas a certos corvos sagrados. «Existem os mesmos pasBaros» Abo 
om sacristão. «O qoe! (retroqaei-lbe) os próprios, qae acompanharam S. Yí« 
cente? «Exactamente não, (foi a resposta segredada ao oavidoX mas os aeos 
mimediatos descendentes* «Muito bem (lhe disse), ainda n'esta tarde, quom- 
do Deos, virei fazer-Ibe os meus comprimentos, e em boa companhia; por 
agora adeos.» 

«O ponto, onde em segoida nos dirigimos, foi ao convento dos llieatiaos. 
Demos orna vista d*olbos á livraria, qoe ainda jaz na mesou confono, em 
qae a deixoa o terreoMto, metade dos livros tonibados aos sobre os ootros 
montões pulverulentos. Um frade esperto e activo, qae me disseram ter 
pto uma historia da Casa de Bragança, ainda não impressa, goioo os nossos 
passos n*estc cabos de liUenUura, c depois de procorar meia hora algmnas 
viagens curiosas, que desejava mostrar-nos, levon-nos á soa cella, e chamoo 
a nossa attenção para um gabinete de medalhas, que com soa diligfB&da, e 
alguma despeza havia coUigido. 

«Não sentindo em mim vocação para iovesligaçòes numismáticas, deixei 
Vcrdeil com o frade abarbados com algumas legendas duvidosas, e foi reero* 
tar de improviso quem me acompanhasse a vér os corvos sagrados. Encon- 
trei primeiro o abbade Xavier, depois o Cimoso missionário pregador da Boa 
Morte, logo o grâo-prior e por ultimo o marquez de Marialva. D. Pedro pedia 
que não o deixassem ficar de fora, de maneira que fomos com o coche todo 
cheio, e eu conduzi toda a carrada a jantar em minha casa. 

< Vordeil já estava de volta acompanhado do reverendo antiquário das me- 
dalhas, e lambem tinha arrebanhado o governador de Goa, D. Frederico ds 
Sousa Calbariz, e o seu constante companheiro, um fanfarrão saboyano, oa 
piemontez, por nome Lucatelli, o tambom um mancebo pallido, de compké^ 
fraca, de olhar e modos excontricos, o sr. Manuel Maria, a mais fora dk> com- 
mum, mas talvez a mais original da^ creaturas poéticas formadas por Deus. 
Succedeu achar-sp n'uma d'aqii»41a5 dis|>osiçõe:' do e>pirilo, de enlhasiasmo e 



BE 131 

de ^exaltação, que á similhança do sol no pino do inverno, brilham quando 
menos se espera; milhares de ditos agados, de expansões de alegria zombe- 
teiray de repetes satyricos, disparava-os de chofre, de modo qae todos andá- 
vamos a tombos com riso; mas, quando começou a recitar algumas das suas 
composições, nas quaes a profundeza de pensamento se mistura com os ras- 
gos mais patheticos, senti-me abalado, commovido. Em verdade, pôde dizer-se 
que este caracter extravagante e versátil possue a verdadeira varinha de con- 
dão, com que, a seu bel prazer, anima ou petrifica. 

«Percebendo o quanto me altrahia, disse-me: 

«Não esperava que um cavalheiro inglez se dignasse prestar alguma atten- 
(^ a um versejador, moço, obscuro e moderno. Vós outros julgaes que nao 
temos outro poeta senão o Camões, e que o Camões não escreveu coisa digna 
de memoria senão os Lusíadas. E tem um soneto que vale metade dos Lusía- 
das. Nenhuma imagem de belleza campestre escapou ao nosso divino poeta; 
e qoão sensivehnente se transportam da paizagem para o coração! Que en- 
cantadora melancolia, como os derradeiros raios do sol no occaso, se diffun- 
de em toda aquella composição! Se eu valho alguma coisa, fez-me este so- 
neto o que sou; mas que sou eu comparativamente com Monteiro? Julgae, 
continuou elle entregando-me alguns versos manuscriptos d'este auctor, de 
que os portuguezes são vehementes partidários; posto que façam impressão 
e sejam sonoros, devo confessar que o soneto de Camões, e muitos dos pró- 
prios versos do sr. Manuel Maria me agradaram infinitamente mais; todavia 
é certo que eu não estou bastante iniciado na força e formas da linguagem 
* portngneza para ser juiz competente. 

«O nosso jantar foi alegre e do bons convivas; á sobremesa o abbade apre- 
sentou uma immensa bandeja de fructas seccas e doces, que um dos seus 
esmo e clncoenta protegidos lhe mandou, não me lembra de que exótica re- 
filo. Todas estas iguarias elle reservava para nos mandar, querendo quasi 
empurral-as por nossa goela abaixo, como se fossemos perus, e elle gallinheiro 
eojo modo de vida dependesse de nos cevar bem.— t Já vistes (disse eUe) em 
parte alguma tão admiráveis producções? A nossa rainha tem milhares de lé- 
guas de pomares, e rochas de oiro e diamantes^ as riquezas o fertilidade de 
seus domínios não tem limites, e também o mar, o próprio mar deve perten- 
eer-Dos, se vos apraz, pois que temos immensos meios para construcçào naval, 
mastros de duzentos pés d'a]tura, madeiras incorruptivcis, corajosos marinhei- 
ros. D. Frederico vos pôde contar as proezas d'alguns do nossos hcroes ainda 
nio ha muito tempo, contra os gentios em Gou; os vossos John Bulis não são 
metiide tão activos, nem metade tão valorosos. 

«E assim por diante blazonando e ensurdeccudu-uos. Em patrióticas ja- 
ctâncias e gabos nenhuma nação leva a melhor aos portuguezes, e nenhum 
portagaez ao abbade. 

«Afinal evaporados estes louvores e gozos, partimos equilibrados nas azas 
da santidade a satisfazer nossa obrigação para com os corvos bentos. Desde 
tempo immemorial está consignada certa quantia para mantença de dois pás- 
saros d'aqueila oppccie, c os achámos commodaraontc aquartelados n'um es- 



132 BE 

conderijo da claostra adjacente á cathedral, bem nutridos, e de certo mui de- 
votamente venerados. 

t Jà era tarde, quando nós chegámos, e os plumosos santiOcados se tinham 
empoleirado tranquíllamente; mas os sacristães à espreita de que chegássemos, 
assim que nos viram, offlciosamente os âzeram levantar. Gomo estavam na* 
tridos, nédios e lustrosos! A minha admiração por seu tamanho, plumagem e 
retumbantes grasnidos receio eu que me fez passar os limites do sagrado de- 
coro; quando estendia a mão para afagar-lhes as pennas, o missionário re- 
primiu-me com um solemne olhar prohibitivo. Os mais da companhia, sabe- 
dores do cerimonial próprio, guardavam respeitosa distancia, em quanto o sa- 
cristão e um padre desdentado, curvo pelos annos, enflavam um rosário de 
milagrosas anédoctas concernentes aos actuaes corvos bentos, os seus imme- 
diatos antecessores, e outros que em tempos remotos os precederam. 

CÁ todas estas sobrenaturaes narrações parecia o missionário estar attento 
com implicita fé, e nunca abriu os beiços, emquanto nos demorámos na claos- 
tra senão para fortalecer a nossa veneração^ e exclamar com pia compostura 
—honrado corvo! Creio que estaríamos até á meia noite, se não viesse um pa- 
gem de sua magestade chamar o marquez de **# e o seu capellão. 

c Satisfeita a minha curiosidade peio que tocava aos corvos bentos, facil- 
mente me persuadiu o grãoprior a retirar-me e passear as ruas princípaes 
para vôr as luminárias, por festejo do parto da infanta consorte de D. Gabriel 
de Hespanha, que deu á luz um príncipe. Era grande a multidão de ociosos, 
que vagueavam pelos mesmos sitios, ^ por isso andávamos com difflculdade, 
e por pouco esteve que não saltassem fora as rodas da nossa carruagem, quan- 
do tentou abrir caminho um anaehronico e arrevezado coche, pertencente a 
uma dignidade da sé patriarchai. Nào tenho de que espraiarme em louvores 
a respeito das iliuminaçõos, mas alguns foguetes deitados do Terreiro do Paço 
causaram-me admirarlio pela altura a que subiram, e o extraordinário numero 
de transparentes estreilas azues, que espargiam. Os porluguezes primam nos 
fogos de artificio, tendo gasto muito e muito dinheiro em levar à perfeição 
esta arte o fallecido, baboso e beato monarcha. 

t Do Terreiro do Paço fomos agrando praça, onde está o palácio da inqui- 
sição; ahi achámos immensa multidão, á qual três ou quatro pregadores ca- 
puchos apregoavam as glorias e illuminaçòes do outro c melhor mundo. Teria 
prestado alguma attcnção aos seus discursos, que pelas amostras, que conheço 
seriam repassados de fogo e phrcnesi, se o grào-prior com seu perpetuo medo 
de rheumatismo se nào queixasse do ar da noite; e por isso recolhemos a ca- 
sa. Todos os aposentos estavam mornos com a evaporação das luzes de cera, 
que em boa fé se poderiam chamar lavarcdas; enfadado sacudi a fumaça, e 
abri as jancllas. Saindo o grào-prior, veiu Polycarpo, o famoso tenor, que no* 
entreteve com algumas árias de vigor c pasmosa volubilidade antes da ceia, a 
durante cila em estylo egualmenle profcssional com muitas anecdotas particu- 
lares da alta nobreza, c dos principacs empregados, que decerto não lhe crao3 
avoravcis.» 



BE 



133 



CARTA XXV 

DiTAQAÇÃO no YALLB BB COU.ARR0 — CAMINHADA AO ALTO DA SBBKA 

19 de novembi'0 de 1787. 

<Â minha saade melhora ^ de dia para dia; o tempo sereno e jucando, 
qne vamos disfractando esperta a sensação da existência; ando a cavallo, pas- 
seio, subo ladeiras, quando e por onde me apraz, sem me fatigar; o valle de 
Gollares ministra-me objectos de perenne recreio; tenho descoberto variedade 
de trilhos, que por entre castanheiros decotados e pomares conduzem a pe- 
quenos rocios de formas irregulares c relvosos, e ahi loireiros nascediços e 
balsas de limoeiros bracejam livremente acima da beira pedregosa d'um re- 
gato, lai^ando flor e fructo na corrente d'agua. Podeis andar milhas pelas 
margens doeste arroio deleitoso, aproveitando intermináveis perspectivas de 
moitas floridas nos espaços, que deixam os choupos e castanheiros. A paisa- 
gem é de certo a dos Campos Elysios, e tal qual os poetas designam para re- 
pouso das almas bemaventuradas. 

«Os musgosos fragmentos de penedia, os brutescos toros de arvores e pon- 
tes rústicas, que encontraes a cada passo, traçam na imaginação a Saboya e 
a Soissa; porém a apparencia exótica da vegetação, o verde lustroso dos li- 
moeiros, os doirados pomos da laranjeira, os palmitos da murta, a rica fra- 
gaoda dos torrões guarnecidos de cores as mais brilhantes e das mais aromá- 
ticas flores, levavam-me a acreditar sem violento esforço da phantasia, que 
me achava nos jardins das Hespérides, e esperava ver surdir um dragão de- 
baixo de cada arvore. Não me passava pelo pensamento abandonar estes riso- 
nhos sitios, e vinte vezes n'este dia estive para revogar as ordens, que dera 
para a minha jornada. 

«Quaesquer que fossem as objecções, que eu pozesse à demora em Portu- 
gal, desvaneciam-se, quando resolvia deixal-o; porque é tal a depravação da 
natureza humana, que as coisas nos parecem mais estimáveis precisamente 
na oceasião em que vamos perdel-as. 

«Havia esta manhã um brando luzeiro dos raios do sol, e uma balsâmica 
saudade do ar, que idfundiam o voluptuoso desleixo, o desejo de ficar en- 
deusado n*um logar deleitavel, como em as ficções clássicas se presume tor- 
narem-se deslembrados da pátria, dos amigos o de todas as obrigações, os 
que provaram o lótus. O que eu sentia, não era dissimilhante, repugnava-me 
a idéa de retirar-me d'alli. 

«Não obstante haver-mc embrenliado n'estes formosos pomares pouco de- 
pois de nascer o sol, os campanários de algumas egrejas distantes bateram 
horas apoz horas, primeiro que eu me vencesse, e decidisse largar os odori- 
ficos 6 ramosos loireiros, debaixo dos quacs me recostava. 

«Se as sombras frescas e fragrantes assim convidam a repousar, devo tam- 
bém dizer que não ha veredas mais azadas para tentar a passeio os individues 
ainda os mais mandriões, do que os caminhos, que d^aqui abrem para todos 

> Panorama de 18o7 (xiv), png. 338. 



134 BE 

os lados, e são compostos (i'ttma areia macia e onxuta, tão ligada e compacta, 
que forma ama soperOcíe dura como cascalho. 

«Estes trilhos plalnos vão em voltas por entre um labyrintho de^Bsbeltis e 
viçosas arvores fructiferas, amcRdoeiras, abrunheiros e gingeiras, lembrando 
as lamedas de Tonga-taboo, como as vemos descriptas nas viagens de Gook; e 
para angmento de símilhança, tapumes bem compostos de canavial e telheiros 
baixos colmados de caniços, que se descortinam por intervallos, quebrando 
as linhas horisontaes das perspectivas. 

iDilatei-me e vadiei muito a meu sabor quasi toda a manhã; mas, posto 
que a minha illusão me afigurasse como um habitante dos Elysios, quanto o 
podia auctorisar a paisagem, e o clima inspirar, não podia consíderar-me in- 
dividuo tão ethereo, que existisse sem alimento; para fallar claro a^chei-me es- 
fomeado; e as peras, marmelos e laranjas baloiçadas sobre a nunha, eabega 
não eram tão succosas e gratas ao paladar, como se esperaria da sua promel- 
tedora apparencia. 

«Estando embrenhado mais d'nma milha na floresta sem guia, nem lem- 
brança do caminho, por onde me safasse, demorei-me meia hora pelo menos 
a cogitar, por onde voltaria. Os telheiros e cercados, que mencionei, estavam 
feitos com diligencia e até primor; porém mostravam não ter outros moradOf 
res senão uns bandos de gallinhas de Java, pavoneando-se, e destruindo os 
ovos e as esperanças de muitas familias de insectos. Estas aves lustrosas go« 
mo as suas eguaes, descriptas nas viagens de Anson, que animam as proAia- 
das solidões da ilha de Tinian, parece não terem dono. 

«Porfim, quando eu começava a desejar-me com todas as veras n'ama re- 
gião menos romântica, ouvi os sons grossos, porém não desentoados d'ama 
forte voz feminina, retumbando pelas ruas cobertas de vecejantes arcadas; a 
esse tempo vinha saindo um mancebo camponez, robusto e corado, mui pitto- 
rescamente vestido de pardo e escarlate, tangendo uma besta muar, carregada 
com dois enormes cestos d'uvas. Pedir um quinhão da sua preciosa carga e 
cumprimentar o garrido conductor, foi acto instantâneo da minha parte, mas 
baldado. Respondeu-me piscando os olhos de matreiro :— Pertencemos ao sr. 
José Dias, que tem a quinta d'aqui meia legua; se o senhor quizer vir por este 
caminho, indo sempre seguido sem desgarrar-se, nem para a direita nem para 
a esquerda, lá chegará breve; e afoito-me a dizer-lhe que o feitor terá gosto 
em lhe dar quantos cachos appeteça, Deus lhe dé bons dias; que vou tratar 
da minha vida. 

«E assentando-se entre os cubiçosos cestos partiu n'um instante. Eu tíve 
a boa fortuna de ir parar direito ao portal d'um muro de pedra secca, que 
torneava de alto a baixo irregular e rusticamente alguns oiteiros matagosos; 
porém, se o exterior do cercado era desabrido, e não promettia coisa boa; da 
banda de dentro apresentava-se o mais aprazivel painel de opulência rural, 
vendo-se ordenhar as vaccas e as cabras em quantidade, os fomos d*onde s6 
estavam tirando grandes e gostosos pães e bolos, fileiras de colmeias e uns 
como alpendres sobre pilares, todos forrados de cachos purpurinos e do loiro 
moscatel, meio passados, dispostos em pendura para seccar. 



BE 135 

<Um jovial 6 clássico magistei- pecm^um, maioral, seguido por tluis càes 
bem eosinados, inda que de olhar bravio, e que um teve aceno de seu dooo 
nao deixava ladrar, saudou-me cordealmente, e com sincera hospitalidade nâo 
só me franqueou a sua fazenda, mas até aodou mostrando o melhor d'ella. Á 
porfia dois ou três rapazes bochechudos, de cabelloemmaranhado, contendiam 
a qual primeiro havia de trazer-me nozes recem-descascadas, taças de leite, e 
queijos frescos, fabricados pelo melhor modo, isto é, ao uso do Alemtejo. 

tSenti-me tão abstracto do mundo, n'este retiro, tão perfeitamente trans- 
portado aos primitivos tempos patriarchaes, que não me recordo de ter jamais 
gosado umas poucas de horas de placidez mais deleitosa.-— Aqui (disse para 
edmmigo) estou livre do reboliço das cortes, dos cerimoniaes, dos ciunpri- 
meotos e visitas da tabeliã, e das palraçòes de golhilheiros. Mas ah t quanto o 
qoe pensamos e dizemos para comnosco, falha noventa e nove vezes em cada 
eentot 

Qaando bemdizia a minha estrella por esta trégua no molesto tumulto da 
vida, qne tenho levado, desde que sua magestade chegou a Cintra, súbito me 
sâtteoa do socegado recanto, em que entrara, e dissipou todas as mmhas iiln- 
sões ama estrondosa vozeria acompanhada de esteiros dos látegos e do estre* 
pito dos cavallos. Luiz de Miranda, coronel do regimento de Gascaes, confi- 
dente e mui valido do príncipe do Brazil, investiu-me com um sem numero 
da corteses queixas por eu ter desamparado o Ramalhão na própria manbã 
era que elle vinha com tenção de jantar commigo, e propor para depois da 
comida um passeio a cavallo até um especial ponto da serra, sobranceiro, pelo 
qoe me assegurou, a uma vista como eu ainda não tivera a fortuna de desco- 
brir em Portugal. 

•Ainda não é muito tarde; (disse), trouxe os nossos cavallos, que achei im- 
padentes e pateando debaixo da sombra d'uma grande arvore, á entrada 
doestas mesquinhas azinhagas. Venha: e por Deus faça-me favor de pôr pé no 
estribe, que eu fico que se dará por bem compensado com a paizagem, que 
voa patentear-lhe. 

«Como era destino meu ser perturbado e empurrado para fora do elysio, 
em qae me embrenhara nas ultimas sete ou oito horas^ não importava, em 
qae postara, se a pé, se a cavallo, annui por isso, e logo mettemos a trote. Os 
cavallos eram seguros e firmes de cascos, senão, bem creio que rolaríamos 
pelos precipícios abaixo; o nosso caminho, se pôde dar-se o nome de cami- 
nho, onde nenhum ha, levou-nos por zigs-zags e atalhos em subidas Íngremes 
cosia acima por espaço de três ou quatro léguas, até chegarmos a um ermo, 
em qae só crescem orzes, onde ama cruz solitária, sobresaindo d'entre os 
matos açoitados pelos temporaes marca o mais elevado ponto d'ésta agreste 
emineiicia; am dos mais dilatados conspectos de mar, campos e montanhas 
distantes desenrolou-se repentinamente aos nossos olhos admirados, toman- 
do-se ainda mais vasto, aéreo, incommensuravel em razão do illusivo e ma- 
gico vapor, qae cercava o sol no occaso. 

«Tendo gosado por alguns momentos o effeito geral, comecei a distinguir 
08 principaes objectos, quanto podiam desenhar-se atravez da névoa deslum- 



136 BE 

brante, encadeada com os raios derradeiros do asiro laminoso. Segui o curso 
do Tejo desde a sua foz até ondo se derrama em esteiros apaulados para além 
de Lisboa; por outro lado avistei Cascaes com os seus lanços de muralha e 
quartéis á prova de bomba, similhando uma cidade mourisca, e com auxilio 
d'um bom óculo divisei uma crescida palmeira campeando sobre uma pi- 
nhota de casas caiadas. 

cMuito bem (disse ao meu guia) este painel tem de certo bellezas dignas 
de serem contempladas; porém não tanto que me faça esquecer de que é 
roais que tempo de voltar a casa e refrescarmos. 

«Nem tanta pressa (foi a resposta); ainda temos muito para vér. 

«Tendo adquirido, nem posso dizer porque, nem como, um habito á moda 
dos carneiros de ir por onde vào os outros, dei de esporas atraz d'elle por 
uma áspera ladeira abaixo, juncada de bastos seixos e calhaus soltos: ao cabo 
d'esta descida se estende para todas as bandas um chão raso, medonho, quei- 
mado do sol. Desmontando o fazendo alto por alguns minutos para dar respiro 
aos cavallos, não pude eximir-me de observar que tudo, que estávamos ven- 
do, muito mal pagava o risco de partirmos a cabeça, baixando a cavallo por 
tão rápidos declives. Elle sorriu-se, e perguntou-mc se não divisava coisa In* 
teressante. 

«Agora sim (lhe tomei) percebo a distancia quasi d'um quarto de milha 
uma espécie de caravana, objecto que não deixa de ser curioso; aquelles ran- 
chos de gente vestida de côr encarnada, com suas armas lustrosas, e azemolas 
carregadas, e aquelles toldos listrados, esticados e seguros nos muros velhos, 
oíTerecem exactamente uma pintura do que se poderia vér nos arredores do 
Cairo. 

«Venha cá (me disse) é tempo de lhe aclarar o mysterio, e explicar-lho 
porque nos demos ao trabalho de tão longa e fadigosa cavalgada. A carava- 
na, que se lhe afigura tão pittoresca, compõe* se dos creados da comitiva do 
príncipe do Brazil, que foi passar todo o dia n*uma caçada, e é agora o mo- 
mento de descançar alguma coisa à sombra dos toldos, que acolá estão. Foi 
por desejo do príncipe, que vos conduzi aqui, tendo-me incumbido de vos ma- 
nifestar o gosto que teria de meia hora de conversação vossa, sem ser obser- 
vado, inantendo-se rigorosamente incógnito. Paòseae, como se andásseis co- 
lhendo plantas, ou tirando esboços do paisagem; assim se fará saber a sua 
alteza real, c encontral-o-heis como por acaso e sem formalidade alguma; 
ninguém se chegará tão perto, que oiça uma só palavra do que ambos disser- 
des, porque eu me postarei a distancia pelo menos do cem passos, c afastarei 
todos os espreitadores o intromeitidos.» 

Terminam aqui as viagens do Bcckford traduzidas no Panorama^ nem 
posso dar ulterior informarão a rospoito do rosto, pelo motivo, que disse no 
principio dVslc artigo— o nunca ter deparado com um exemplar inglez. 

Emquaulo poróni â outra obra do mesmo auctor Jornadas a Alcobaça e 
Batalha, d'ella existe um o.xemplar na Bibliothoca Publica de Lisboa. É livro 
muito inleressanto,ed'ello (como lambem disso) se serviu o nosso romancis- 



BE 137 

U Rebello da Silva para composição do seu lindo romance Lagrimas e The- 
90uro$, cnjo taeroe é Beckford. 

Bedíford, depois de vér todas as preciosidades guardadas em Alcobaça, 
desejava dar nm passeio para ver os campos próximos, embora o calor esti- 
vesse na saa maior força. «Quereis vós então vér nossas colheitas, lhe per- 
gunta o frade, que lhe servia de guia, enfadado: olhae porém que os coelhos 
agora estão todos a dormir, e que é crueldade ir acordal-os. (Pag. 5i). Beck- 
ford insistiu, e depois de o frade o ter acompanhado por algum tempo, dei- 
xou-o sosinho, e foi-se deitar debaixo d'uma arvore. 

O viajante inglez diz que um dos portaes da Batalha lhe trouxe á memoria 
WíUiam of Wydeham, e a nave lhe fez recordar Winchester e Amiens. 

Como já se disse, esta viagem é muito mteressante, e bem digna de ser tra- 
dozida em portuguez. 

Rebello da Silva serviu-se também d'esta ultima obra para a composição 
do seu já mencionado romance. ' 

96) BEGIN (EMILE). 

E. — Voyage Pittoresque en Espagne et en Portugal par — . Auteur du 
Voyage Pittoresque en Suisse, Illustrations de Mrs, Rouargue Frères. Paris, 
Belin-Leprieur et Morizot, editours, 4.<', 556 pag. com um grande numero de 
estampas sobre assumptos hespanhoes. 

(Viagem pittoresca em Hespanha e Portugal.) 

A viagem a Portugal é descripta desde pag. 537 d'este volume até 549, 
acompanhada d'uma estampa, que diz representar Lisboa. Nada porém nos 
apresenta este livro, que seja digno de especial menção. 

Paliando de Lisboa diz-nos: «Que nenhum local podia ser melhor es- 
colhido, que o d*esta cidade para o desenvolvimento magestoso d'uma capi- 
tal: abraça sete coliinas, tendo cada uma seu valle intermediário. O Tejo oíTe- 
reee alli duas milhas inglezas de largura na sua parte mais estreita, e até nove 
na mais espraiada. Uma bahia tão bem situada poderia tomar Lisboa a metró- 
pole commercial de meio dia da Europa, se alli se encontrasse um milhão de 
liabitantes em logar de tresentos mil.» 

«Que homem de génio n'este paiz se resolverá a entrar n'uma carreira de 
abnegação, para ser calumníado, perseguido, como o infante D. Henrique pa- 
ra acabar miserável como o almirante Pacheco, como Gamões: ou para vege- 
tar esquecido como o pintor Glama, reduzido a fazer taboletas de tavernas; 
como o esculptor Machado de Castro, e como o fundidor Costa, auctores d'uma 
estatua equestre de Joseph I, digna de rivalisar com as mais bellas obras do 
ultimo século?* (Pag. 539.) 

97) BEKE (CHARLES TILSTONE) - Viajante inglez. 
Nasceu no anuo de 1810. ^ 

E. -- Mémoire justificaiif eii faveur des pères Paéz e Lobo. Paris, 1848. 

^ Vapereatt — Dietionnaire des contemporainSf paf^. ISO- 



138 BE 

(£ uma (lefeza da opinião (l'estes padres a respeito das nascentes do Nilo.) 
«Em tempo de Felippe 11 de Portugal ^ se descoMa o occollo e nota?^ 
nascimeoto do rio Nilo em 12 gráos da linha Equinocial, da parte do norte na 
AlMtssia por diligencia e observação dos padres da Companhia de Jíesos, 
coisa de qoe não havia até os nossos tempos noticia certa, e qae orrava toda 
a oosmographia, que tratava do nascimento d*este grande rio; porém depois 
que o patriarcha de Ethiopa, D. Âflònso Mendes, e outros padres doutos^ que 
n'aquellas partes assistiram, fizeram observação, se soube a certexa, de que fi- 
zeram a este reino relações fidedignas, dando noticias do nascimento do rio 
Nilo, de suas catadupas, e da grande lagoa Dambea, e de outras coisas notá- 
veis, do que já tem saido livros em mais dilatado estylo.» 



98) 

E.— Viriath nnd die iMitanier. Âitona, 1826. 

(Viriato e os Luzitanos.) 

99) BELCHER (SIR EDWARD). 

E. ^ Directian for the river Douro, London, 1835. 
(Direcção para o rio Douro.) 

100) BELL (JOÃO) — Negociante inglez, residente em Lisboa. 

£. — Taboa mostrando o vcUor da moeda de oiro e prata do remo de 
Portugal^ desde o remado do Senhor Rei D. Dnarie até o anno de 1806. 

São uns cinco mappas, que vêem na 2.* parte do vol. 3.» das Memorias da 
Academia Real das Sctendas de lishoa. (Âono de 1812.) 

A respeito doeste trabalho diz Manuel Bernardo Lopes Fernandes: «O nego- 
ciante inglez João Bell publicou umas taboas com os nomes, pezos, e valorei 
exactos das moedas portuguezas, somente do reino, desde tempo do senhor 
D. Duarte até o anno de 1806, e parece que o não fez dos reinados anteriorea 
talvez faltando-lhe os necessários esclarecimentos; mas apczar d^algumas opi- 
niões pouco exaclas dos auctores, que elle seguiu, e a falta de conheeúnento 
de bastantes leis, que deveria notar, é sem duvida a obra mais regular, que 
n'este género possuímos. ^ 

101) BELLERMAN (CHRÊTIEN FRÈDERIC) - LiUerato allemão. 
Nasceu em Erfurth em julho do anno de 1793. 

De 1818 a 1825 foi pastor da egreja evangélica allemã, em Lisboa. 3 - 
E. — L Die alten Liederbucher der Portngiesen, Berlín, 1840. 
(Velhas canções portuguezas.) ^ 

1 P. de Mariz — Diálogos^ pag. 1.32. (Supplemenlo) . 

' Memoria das moedas correntes cm Portugal desde o tempo dos umanos até o anno 
de 1856, pag. 22 

* Yapereau — Dictionaire des Contemporains^ pag. 155. 

* «Interesiianle e conscienciosa memoria.» GarreU ^Romanceiro, vol. 1.*, pag. xxi- 



BE ^^^ 

II. Erinnerungen aus Súdeuropa. Berlin, 185i. 
(Recordações do sul da Earopa.) 
IH. Die Rómische allerthumei' in Portugal, Beriín, 1851. 
. (Aotiguidades romanas em Portugal.) 

102) BELLEBAT (DE). 

E. — Relation du voyage de Monseigneur André de Mello de Castra à la 
Caur de Rome en qualité d'envoyé extraordinaire du Roy de Portug, i>. /. 
V. auprés de Sa S, Clément XL Paris, 1709, foi. 

(Viagem de André de Mello c Castro à corte de Roma.) 

103) BELLOY PIERRE. 

E. — Declaratíon des droits de succession legitime sur le royaume de 
Portugal, appartenant à la reine mére du roi três chretien Catherine de 
Médids. Montanban, 1581. Anvers, 1582. 

(Declaração do direito de Gatharina de Medicis á coroa de Portugal.) 

104) BELHAS (J.) — Chef de Bataillon du Génie. 

E. — Joumaux des siéges faits ou soulenw par les Français dam la Pe- 
nmsule de 1807 à 1814, rediges d'apres les ordres du Gouvemement sur les 
documents existant aux archives de la guerre et au depot des forti/ications. 
Paris, Chez F. Didot, 4 vol., 8.*» gr., 1836. 

(Cercos postos ou sustentados na Peninsula pelos francezes.) 

105) BEMBO (PIERRE DE). 

E. — Uhistoire du nouveau monde découvert par les Portugallois, Paris, 
1556. 

(Historia do Novo Mundo descoberto pelos portugnezes.) 

106) BENDOCCI, ou BINDOCCI (ANTÓNIO) - Advogado e poeta, 
natural de Síena, na Toscana, i 

E. — Carolo Alberto in Oporto. Poema. 
((Carlos Alberto no Porto.) 

107) BENEDICT (JULES). 
E. — / Portoghese a Goa. 

(Os portaguezes em Goa.) — É uma composição tbeatral. 

108) BENTHAM (JEREMIE) — Moralista e legislador. 

Nasceu em Londres no anno de 1747, e falleceu na mesma cidade em 
1832.2 

E. — Essai sur la situation politiqfie de VRspagne, sur la constitution et 

1 Revista Populary vol 5.**, pag. S95. 

' Firmin Didol — Nouvelle Bioçraphie (Inivenelley vol 5.", pag. 40H. 



140 BE 

sur le nouveau Code Espaçnol, sur la ConstittUion de Portugal Sc. Sc. TrO' 
duU de l'Anglais, precedes d'observations sur la rétxduHon de la PeninsiUe 
et sur Vhistoire du gouvemement représeníatif en Europe, et suivis d'ume 
traductum nouvelle de la cansttíutwn des Cartes. Paris, 1823, 8.» XXXI^ S63 
pag. 6 mais um Supplemento com 100 pag. 

(Sobre a sitoação politica do Hespanha e constituição de Portugal.) . 

É uma serie de cartas dirigidas ao conde de Tereno a respeito do Código 
Hespanhol e da política de Hespanha. Bentham censura o rigor das leis. 

«Lançae os olhos para Portugal. Esta nação magnânima, regenerada hoje 
acaba de atirar para longe de si o duplicado jugo d'um despotismo domestico, 
6 d'um despotismo estrangeiro. Fazendo-se independente, fez-se livre. P^sse-se 
na extrema apathia, no extremo aviltamento dos opprimidos, no seu silencio, 
na sua paciência, na sua miséria; pergunte-se-lhe se tanta vergonha e lagrimas 
foram pagas com uma só vingança. EUa responderá: Não.» 

A pag. 241 começa a carta á nação portugueza. Sou fim é aconselhar os 
portuguezes, a que adoptem para seu governo a constituição baseada na repre- 
sentação nacional. 

109) BERESFORD (Lord Viscouirr G. C. B.) —Genial inglez. 
Nasceu no anno de 1770. 

E. — I. Strictures on c^ertain passages of L. Col. Napier*s Histary of Pe- 
ninsular War, 

(Reparos sobre certas passagens da historia da guerra peninsular de Na- 
pier.) 

II. Further structures. 

(Novos reparos.) 

in. Refutation of Col. Napier's Jusíi/icaiion. London, 1831-1834, 3 voL, 
8.» gr. 

(Refutação da justificação de Napier.) 

IV. JMler to Charles Edward Long, Esq. on the extracts recenlby jm- 
blished from the manuscript Journal and private correspondence of the late 
lieut. Gen. R. B. Long. London, John Murray, 1833, 8.", 61 pag. 

(Carta sobre o diário e correspondência de Long.) 

Y. A second letter to Charles Edward Long Esq. on the Ms. Journal 
and private correspondente ofthe late Lieut. Gen. R. B. Long. London, John 
Murray, 1834, 113 pag. 

(Segunda caria, etc.) 

110) BERQERON (LOUIS) — Jornalista francez. 
Nasceu em Cliauny, no anno de 1811. ^ 

E. na fíibliotheque Poimlaire, impressa era Paris, a obra seguinte: 

' Firmin Diílol — Nouvelle fíiographie Universellej vol. li.", pag. Íi08. 



BE 141 

tampa^nes d*Espaçne et de Portugal sons VEtnpire. Paris, 1833. 
(Ê nm interessante resomo de nossas lactas na guerra peninsolar.) 
«IVes tentativas desgraçadas (diz Bergeron) bastaram a Napoleão : parou 

na presença d'uma fortuna invencivel, e não expõe mais suas águias ás aíliron- 

las no território portuguez.« ^ 

• 

ili BERJUMERA. (D. NICOLAU DIAZ DE) — Litterato hespanhoh 
Escreveu um extenso e assaz desenvolvido trabalho offerecido á Acadenna 
Real das Sciencias de Lisboa^ no qual examina, e discute contra D. Paschoal 
de Gayangos (que pretende ser o celebre romance Palmeirim de Inglaterra^ 
de origem hespanhola), a questão sob todos os aspectos, procurando não dei- 
xar de pé alguma das objecções propostas pelo seu iilustre patrício. Entre as 
provas que apresenta, não é talvez a de menor peso a que resulta da confron- 
ta^ minuciosa, que fez das edições portugueza e castelhana, mostrando com 
repetidos exemplos de legares parallelos, que a segunda não passa de traduc- 
ção pouco esmerada, e por vezes menos fiel da primeira. 2 

Em 1826 no catalogo dos livros hespanhoes e portuguezes impresso em 
Londres por D. Vicente Salva, attríbue-se a paternidade do referido romance 
ora a Miguel Ferrer, ora a Luiz Hurtado: o que se lé na pag. 163 da 1.' parte 
e nas 156 e 157 da 2.* Funda se para arrancar aos portuguezes a palma de 
Inglaterra, conforme a expressão do immprtal Cervantes, em sair á luz o livro 
hespanhol em 1547, e o portuguez só em 1567, edição de Évora por André de 
Burgos. 3 

A edição hespanhola é precedida d'um acróstico, que significa — Luiz Hur- 
tado autor ai lector dá sadud. E d'aqui tirou por consequência também Salva 
que Luiz Hurtado era o auctor do romance, sendo elle tão somente auctor do 
acróstico, no qual não ha belleza de estylo, nem coisa que cheire a poesia, na 
qiiníão de Odorico Mendes. 

Para refutar Salva tomou a penna o escriptor brazileiro, e, n'um bem ela- 
borado opúsculo de 79 pag. provou, quanto era possível, que o Palmeirim^ um 
dos romances mais notáveis devidos á penna dos portuguezes fora composição 
de Francisco de Moraes, e que Luiz Hurtado havia sido traductor do romance 
e auctor do acróstico. 

D. Paschoal Gayangos pesaroso de ver a litteratura do seu paiz privada 



< «Napoleão qaix fazer um terceiro e ultimo esforço para se apoderar de Portugal, 
e expulsar d'elle a Wellington. Mas que chefe assaz invencível se poderia dar a esta no- 
▼a eipediçio? Em que giande general repousavam bastantes esperanças para que se lhes 
podesse pedir uma victoria n'aquclle paiz, onde Soult e Junot tinham Ceado mal. Este 
grande general, este chefe invencível foi Masscni, a primeira gloria do exercito francez 
abaixo do Napoleão, o filho querido da victoria, c que por garantia do futuro levava com- 
sigo suas campanhas da Itália, o uma reputação militar e sem mancha.» (Pag. 95.) 

« Sr. Innocencio Francisco da Silva— Dicctonario BibliographicOy vol. 9.% pag. 360. 

s Manuel Odorico í&euáQá — Opúsculo acerca do Palmeirim de Inglaterra e de seu 
auctor, pag. 1. 



i42 BE 

d'ama tão befla joía, pobiicoa em 1862 alguns artigos em os nomeros 2 e 3 
da Revista Espcnuda âe Madrid, pretendeado demonstrar: i.<> Que vinte an- 
no6 antes que em Portugal fosse conhecido o Palmeirim, saíra este á luz «m 
Toledo, e era pouco depois traduzido em Trancez e italiano, com a particula- 
ridade de se dizerem ambas as versões feitas sobre o original castelhano. %.** 
Que da dita obra se declarou anctòr, sem que ninguém se lhe oppozesse, um 
escriptor toledano (Luiz Hurtado). 3." Que antes de 1567 não se imprimiu 
aqueilaobra em Portugal, e na primeira edição de Évora nem sequer se lhe 
nomea o auctor. 4.* Que só passados vinte annos, e quando Moraes já era fal- 
iecido, foi que nm livreiro de Lisboa se lembrou de reimprimir o Palmeirim 
fazendo-o preceder de uma dedicatória de Moraes à infanta D. Maria, na qual 
se diz por modo terminante e decisivo, que elle e não outro fora o auctor do 
livro em questão. 

Todos estes argumentos foram pulverisados pelo sr. D. Nicolau Diaz de 
Beijumera, e parabéns lhe devem os amantes da litteratura portngueza. De mo* 
do que Amadis, uma das nossas maiores glorias, é attribuido aos hespanhoes, 
com o Palmeirim succede o mesmo, e Dianna deMontemayor n'aquelle idio- 
ma é escripto. E não será lícito dizer que nossos antepassados eram desleixa- 
dos, e negligentíssimos em legarem a seus Olhos aquellas glorias, que de di- 
reito lhes pertenciam? 

E de nós que direi? Tão importantes polemicas litterarias travadas só por 
estrangeiros, e em que os portuguezes, a quem cumpria mais do que a nin- 
guém tomar parte n*e]las, não comparecem, faliam cloquentíssimamente a 
nosso respeito. 

112 BERMUDES (FR. JERONTMO) — Natural de Galliza o profes- 
sor eni Salamanca. 

E. — I. Nise lacrimosa. 

(Tragedia, cujo ^umpto é a morte de D. Ignez de Castro.) 

n. Nise laureata, 

(Coroação de D. Ignez de Castro.) 

Suscitou-se uma questão Htteraria muito importante: Se a tragedia Iffnez 
de Castro, do nosso António Ferreira era uma traducção ou imitação da de 
Bermudes, ou se a d'este era copiada ou imitada da do nosso poeta. 

Martínez da La Rosa, porém, sentenciou o pleito a favor do nosso compa- 
triota, no que não devia ter escrúpulos, pois António Ferreira em vida dava 
como sua a Castro, que por isso lhe valou os louvores de Diogo Bernardes. 

Quem desejar tomar conhecimento d'esta grave questão mais a fundo, veja 
Diccionarto Bibliographico, vol. l.M)ap. HO c iil, o vol. 2.«, pag. 143 a 146. 

113) BERTELLETI (DAVIDE). 

E. — Ignez de Castro. Tragedia. Milano, 1826. 

114) BERTHOUD (S. HENRI). 

E. — Camoens moarant. ((iamòcs moribundo ) 



BI 143 

Pequeno romance acompanhado d'ama estampa, qae se poblícoa no i.<* 
vol. do jornal francez Musée des Famiíles, anno de 1833. 

115) BERTOLOTTI (DAVIDE). 

E. •— Storia di Portogallo tratía dal La Clede, dal Vertot, dal DurdetU, 
dal Batíri e da altri autori per —cura di — . In continuazione delia Storia Uni- 
neriale scriUa dagli Autori ipiu distinti conramie carte geografiche, Nella 
sUmperia di Pio Cipicchia, 3 vol., 12, Roma, 1833. 

(Historia de Portagal.) 

Existe um exemplar d'esta obra na Bibliotheca Publica de Lisboa. 

ii6) BERTOLOTTI. 

E. — Descrizione delV ornato di piítura che se ammira nella capella di 
S. António di Padova, nella chieza di 5. Perónio, Bolognia, 1662. 

(Descripção dos ornatos das pinturas, que se admiram na capella de Santo 
António de Pádua, na egreja de S. Petronio.) 

117) BERTUCH (FREDERIG JUSTIN). 

E.--Magasin der Spanischen wnd Portugiestschen litteratur, herausge^ 
geben. Weimar, 1780-1782, 3 vol. 

(Deposito de litteratura hespanhola e portugueza.) 

118) BES-CHRYVIN van Spanien en Portngat, etc, (Em boUandez.) 
(Descripção de Hespanba e Portugal contendo os pormenores de tudo 

quanto seu estado passado e presente oflereco de mais interessante. Leyde, 
1707, foi. 

119) BETENDORF (P. JOÃO FILIPPE) — Antigo missionário do 
Brazil. 

E. — Compendio da Doutrina Christã na lingua Portugueza e Brasilica. 
Composto pelo P, — e reimpresso de ordem de Sím Alteza Reat o Príncipe 
Regente N, S., por Fr. José Marianno da Conceição Vellozo. Lisboa, 1800. 
Offlcina de Simão Thaddes Ferreira, 131 pag., 12.« 

120) BIANCARDI (MIGUEL ANDRÉ) — Padre da congregação dà 
Missão em Portugal. 

Nasceu em S. Martinho de Noagli, no arcebispado de Génova, no anno de 
1772, e falleceu cm Lisboa, cm 1842. 

Na vida d'este missionário, cscripta pelo padre Jo:^ Cuelbo da Silva, e im- 
pressa em 1848 n'esta cidade de Lisboa, encontraram -se algumas poesias mys- 
tycas, compostas na lingua portugueza, pelo padre Biancardi. 

121) BLA.NOHI (FRANCISCO). 

E. — D. Ignez de Castro, Opera, Londrcá, 1797. 



i44 BI 

i22) BIELFELD (DE). 

E. — Instiluciones poíUicas, obra en que se trata de los reynos de PoT' 
tugal y Espana, de su situación local, de sus posesiones, de sus vecinos y 
limites, de su clima... de la nobleza, de la forma, de su gobiemo, de sus de- 
partamentos, dei Soberano y de sus titulos, de la sucesion ai trono, de sus 
exércitos &c. Aumentada de muchas notas por D. VcUentin de Forenda. 
Bordéus, 1781, 4.« 

(Descripção de Portugal e Hespanha.) 

i23) BIERING (CHRISTIAN HENRI). 

E. — Poetiske Tauher over Ldssabons Undergang. Copenhague, 1756. 

(Pensamentos poéticos sobre a destruição de Lisboa.) 

124) BIGOT (STANISLAS) — Ingénieur eiva. '^ 

£. — Pont suspendu de Porto. Détails des travaux, smvi de trais pian- 
ches explicatives. Lisboa, na typographia de Morando, 1843, 4.^ 23 pag. 

(Ponte pênsil do Douro.) 

Por este relatório se vé que a solemnidade para o começo dos traballuM 
foi celebcada a 2 de maio de 1841, com assistência das auctoridades do Porto 
e que a ponte (cujo comprimento é de ITO^jU) assenta sobre quatro obeliscos 
de 18" de altura, ligados dois a dois na sua parte mais alta por tlranles de 
ferro. O rio Douro por debaixo d'eila tem a largura de 155*°. Abriu-se á cir- 
culação publica em fevereiro de 1843, e foi concessionário doesta empresa o 
conde de Giaranges Lucotte, e engenheiros Staniislas Bigot o Amódée Car- 
ruelte. 

125) BIOTA (D. ANTÓNIO DE FUERTES Y). 

E. — Anti-nmnifestio 6 verdadera declaracion dei derecho de los Senores 
reyes de Castilla a Portugal. A la Sacra y Real Magestad dei rey D. Phi» 
lippe IV. Escrivelo —.Bvuyàs de Flandres, lGi3,4." 

(Direito dos reis de Castclia á coroa de Portugal.) 

126) BIRAGO (GIO: BAT) - Jurisconsulto italiano, que vivia na pri- 
meira metade do século xvi. * 

E. — Historia delle revolutione di Porfogallo per la quali la corona é trans- 
ferita dei re di Castiylia ai dura di Uraganza Giovanni IV. Génova 1646> 
Leone 1646. 

(Historia das revoluções de Portugal.) 

Ha uma edição que apparece mencionada com o seguinte titulo: Historia 
delia desunione dei regno di Portwjallo dalla corona di Castiglia. Amster- 
dam, 1646. 

No catalogo manuscriplo da livraria do condo de Lavradio apparece men- 



' Firmin l)i«lol — j>out;W/f liioijraphir rníiYn.7'V, \ol. í.". piic. 115. 



cionada oatra edição d'esta ultima obra, impressa em Âmsterdam no anno 
de I6i6. 

Encontrei ainda uma outra dada por impressa em Lugduni, 1644. 

117) BIBAOV&&. 

E. — Responsio Juridicopolitica ad librum inscriptum Jura Joannis IV, 
PofiugaUiae Regis á a livio Giotta á in qua jfrimo rejiciuntur praeten- 
ikmes inhantium corona Portugalliae, Âugustae Vindelicomm, 1644, 4.*. Em 
latmi e italiano. 

(Resposta juridicopolitica contra o livro intitulado Jura Joannis IV Por- 
tugaUiae Regis.) 

128) BLAIRIE (OLLIVIER DE LA). 

E. — Usbonne et les Portugais, par — . Paris, 1820. 
(Lisboa e os portuguezes.) 

129) BLANOHINO VERONENSI (JOSEPHO) — Presbytero Con- 
gregationis Oratoríi Sancti Philippi Nerii de Urbe.) 

E. — Evangeliarium quadruplex Latinae Versionis antiquae seu Veteris 
Italicae nwnc primum in lucem editum ex Codicibus manuscriptis oureis, 
argenteis, purpureis aliisque plus quam millenariae antiquUaíis sub aus- 
picOs Joannis V Regis Fidelisstmi Lusitaniae, Algarbiarum &c, a — . Rom», 
1748, 4 Yol. foi. 

Dá noticia doesta obra o Journal des Sçavants de 1750 a pag. 308. É uma 
impressão dos Evangelhos feita sobre manuscriptos antiquíssimos, debaixo 
dos auspícios do nosso D. João V. 

130) BLANO (SIEUR VINCENT LE — ). 

E. — L^ voyages du — dans la plupart des pays de fAsie et dans des 
Indes Orientales. 

(Viagem na maior parte dos paizes da Ásia, e das ^ndias orientaes.) 

Esta obra apparece citada na Vida de Camões, quS precede a traducçào 
dos Luziadas por Ortaire Foumier et Desaules (pag xxxvi). 

Trata da índia portugueza. 

131) BLANEY (Lobd). 

E. — Narrative of a forced Joumey through Spain and Portugal, 3 vol. 
(Descripção de marcbas forçadas atravez de Hespanha e Portugal.) 

132) BLAZE (HENHI). 
E. — Don Sebastian, 

Romance publicado no Muséc des Familles (anno de 184i, vol. li.») acom- 
panhado de duas estampas. 

133) BLONDXN (J. N.) — Sccrétaire- interprete á Ia Bíbliotheque du 

TOMO 1 10 



146 BL 

Roi, aiUeur de dl verses grammaires dediées á S. M. Louis XYlll; d'uu Ma- 
noel de Ia pureté da langage, adopte comme classique dans le CoUégo Royai 
de la MariDc, etc. 

E. — Grammaire Polyglotte, Franraise, Latine, Italiennc, Espaçnole, Por- 
higaise et Anglaise; Dam laquelle ces diverses langues sont consíderées tous 
le rapport du mécanisme et de Vanalogie propões à chacune d*elles. De- 
diée au BoL Seconde edition. Paris, Gbez Brianchoo, líbrairo, i826, 4.% 

ill pag. 

(GraiDinatica Polyglotta-latinaportugueza.) 

134) BLOUNT (EDWARD). 

E. — The historie of thc uniting of the kingdom of Portugal to lhe crown 
of Castile. LondoD, 1610. 

(Historia da união do reino do Portugal á coroa de Castella.) 

135) BLUTEAU (D. RAPHAEL). 

Nascea em Londres a 4 de dezembro de 1640, ^ e faiieccu em Lisboa a 
13 de fevereiro de 1734, sendo então Propósito dos regulares de S. Caetano, 
n'esta cidade. 

Apezar de estrangeiro foi elle quem compoz o primeiro diccionario com- 
pleto do nosso idioma com o seguinte titulo: 

L Vocabulário Portuguez e Latino, AulicOj Anatómico, Architeciamco, 
Bellico, Botânico, BrazUico, Cómico, Critico, Chimco, Dogmático, Dialéctico, 
Dendrplogico, Ecclesiastico, Etymologico, Económico, Florifero, Forense, Fru- 
ctifero, Geographico, Geometnco, Gnomonico, Uydrographico, Homonymio, Hie- 
rologico, Ichtyologico, Indico, Isagogico, Laco7tíco, Ltturgico, Uthologico, Me- 
dico, Musico, Meteorológico, Náutico, Numérico, Neoteiico, Ortliographico, 
Óptico, Ornithologico, Poético, Philologico, Phamiaceutico, Quiddidativo, Qua- 
litativo, Quantitativo, Bhetorico, Rústico, Romano, Synibolico, Synonimico, 
Syllabico, Theologico, Terapêutico, Technologico, UramlogicOy Xenophonico, 
Zoológico, auctorisado com exemplos dos melhores eseriptoí'es portuguezes e 
latinos, e offerecido ael-rei de Portugal D.João F. Tomo 1.*», Coimbra 1712, 
8 vol. O ultimo tomo fpi impresso em 1721, foi. 

II. Supplemento ao Vocabulário Poitugucz e LiUino, que acabou de sair 
á luz. Amw de 1721. Lisboa, 1727, 2 tomos. 

Todos estes dez volumes custaram dez annos de trabalho ao seu auctor. 

III. Primiàas Evangélicas ou sennões e panegyiicos do P. D, Raphael 
Bluteau. Offeiecido á seienissima alteza de Cosmo Terceiro duque de Tos- 
cana, Lisboa, 1676, parte 2.» 1085, parle 3.% Paris 1698, 4." 

IV. Sci-mõcs panegyricoíí c dontrinacs, Tomo 1.°, Lisboa 1732, louio 2.* 
1733. foi. 

• Xrchuo PillorcòrOf vol. '^:\ pag. 201. Porem o bi. lnii(»(;niuio diz que nascera cm 
1638. V. Diccionario Bihliograplnm, >nl. 7.", pa^;. 41 bfm (omo lambem discrepH em 
quanto ao dia do faliorinionlo 



BO 147 

V. Prosíis portuguezas, recitadas em differentcs canffi'essos academcoi. 
Parle !.•, Lisboa 1718, parle 2." 17Í8, foi. 

VI. Institicrão sobre a cultura da atnoreira. Coimbra, 1769. 

136) BOA (DARTIN DE). 

E. — Fios sanctorum: fiestas y santos de Andalucta, Castilla y Portu- 
çal^ Sevilha, 1615. (Feslas dos sanlos de — .) 

137) BOCAGE (BARBIÉ DU). 

Publicou em o n."" 195 do Moniteur de 1807 uma memoria, lida em 3 de 
junho do mesmo anuo em sessão publica do Inslíluio, na qual pretende pro- 
var que a costa orieolal da Nova Hollanda foi visitada pelos portuguezes em 
1525, muitos annos antes que o capilào C9ok allí abordasse em 1770. * 

138) BOCANDÊ (BERTRAND) — Naluralisla e viajante francez. 
Nasceu em Nantes, no anno de 1800. Estabeleceu-se em Guiné, e escreveu. ^ 
Noies sur la Guinée ou Sénégambie meridionale: E diversas memorias jm- 

blicadas no — BuUetin de la Societé Geographique, en 1849. 
(Notas sobre a Guiné portugueza.) 

139) BOCANEGRA — (111.»» Scnr. D. Francisco, entonces arcediano de 
aquella iglesia, y hoy obispo de Guadix y Baza). 

E. — Oracion fúnebre que en las suntuosas lumras que á la perpetua, 
digna, bien merecida memoria de la Senora Dona Maria Anna de Áustria, 
rema viuda de Portugal, consagro la M. N. M. L. ciudad de Almeria, con 
asistencia dei III/^ Cabildo eclesiástico de ella, en los dias 4 2^ 5 noviembre 
dd a«k> 1754, dijo et — . Con licencia, Madrid, 1770, imprenta de F. X. Garcia. 

(Oração fúnebre de D. Maria Anna de Áustria.) 

140) BODIN (HENRI SOULANGE). 

E. — Histoire de Portugal depuis sa separation de la Castille jusqu*à 
nos jours, par Henri Schaeffer Professeur d' Histoire à rUnivei'sité de Gie- 
zen. Traduit,par — . Avec une note sur la Chronique inedUe de la Conquêíe* 
de Guinée donnée par le Vicomte de Santarém de VAcademie Royale des 
Sciences de Usbonne, et Membre Coirespondant de l' Instituí de France, Pa- 
Ti8, Adolphe Delabays, libraire-editeur, 1858, 4.% 662 pag. 

A traducçao franceza do original allemão não ficou terminada. 

r 

«A pesar nosso o dever e a justiça requerem acres e merecidas censuras 
ao traductor francez. Com eíTeito, se pelo dedo se conhece o gigante, avaliare- 
mos logo a consciência com que tal versão (antes inversão) se perpetrou, lendo 
na capa em letras, que arremetlem com os olhos a clausula de ser feita a tra- 

I BáWíí — Essai Statislique, vol. 1.*, pag. 19. 

' Vapcrcaii — Dirfionaire des ConUmporainSy pa;;. 217. 



148 BO 

docção— avec des notes de M. le vicomte de Santarém, e logo no rosto a se- 
guinte limitação contradictoria : avec une note sur la chronique de Ia conquôte 
de Gninée, donnée par M. le vicomte de Santarém— avultando este ultimo 
nome em letra maiúscula. E realmente só uma nota, ou antes espécie de an- 
nuncio, ou prospecto da nova publicação de Azurara, é que ahi apparece da 
penna do sr. Santarém. 

«Vistes nunca mais dourada taboleta de vendedor de cominhos? Factos 
d*estes, que parecem de importância nuUa, são graves injurias contra todo o 
género humano, que sabe ler; são crimes litterarios, que a todos os que pe- 
gam na penna cumpre punir. Servir-se de um nome accreditado na critica dá 
historia portugucza como de isca para pescar assignantes e compradores á 
obra, é próprio de traficantes de letras, > e não de litteratos. 

«A traducçâo nada contém de mais, e tem muito de menos do que o ori- 
ginal, e pouco satisfeito ficaria o sr. ScbaeíTer, quando viu o seu filho querido 
e legitimo proclamado bastardo em nação estranha, e por juizes sem provas. 

«O sentido do author, quando não adulterado, é saltado aos pés juntos pelo 
empenho de poupar escripta. A doutrina é apresentada, quando o é, com di- 
visões de outra forma. As notas, em que o sr. Schaeffer poz tanto esmero, prin- 
cipalmente as que são escriptas em portuguez, vem ás vezes tão desfiguradas 
que se não podem ler. Em citações não fallemos, que nem julgamos valer a 
pena de nos darmos a esses escrúpulos de algarismos, quando temos tio no- 
táveis pontos de censura. Por derradeiro nem vem o reinado do sr. D. João 11, 
que já no allemão se publicou. 

«No demais c um livro excellente — isto é no papel e uo typo.» ^ 

141) BOILEAU — Um dos mais celebres poetas fraucezes do tempo de 
Luiz XIV. 

E. — Resposta d Carta, que S. E. o Conde da Ericeira me escreveu de 
Lisboaj remettcndo-me a traducrão da minha — Arte Poética — feita por 
elle em verso portuguez, 1697. 

«Apesar de minhas obras terem dado que fallar pelo mundo, não concebi 
todavia de mim uma opinião excessivamente alta; e, se os louvores, que me 
deram, me iisoujearam bem agradavelmeuto, uão me cegaram com tudo. Mas 
confesso que a iraducçào, que v. ex.» se dignou fazer da minha Arte Poética, 
e os elogios, com que a accompanhou ao remettcr-m'a, produziram em mim 
um verdadeiro orgulho. Desde então não me foi possível julgar-me um homem 
vulgar, vendo-me tão extraordinariamente honrado; e pareceu-me que o ter 
um traductor com a vossa intciligencia e jerarchia era para mim um titulo de 
mérito, que me distinguia de todos os escriptores do nosso século. Apenas 

* Este facto traz ã memoria a reimpressão da Grammalica Ingleza^ de UrcuUo, era 
Paris, como sendo composição do dr. Constâncio. 

5 Sr. Francisco Adoipho Vainbagen na Revida Universal Lisbonense j vol. !.•, pag. 
U, anno do 1824. 



BO ,49 

possuo um imperfeitíssimo conbecimeDto de vosso idioma, e nenhum estudo 
particular flz d'elle. Com tudo comprehendi muito bem a vossa traducçlo, a 
ponto de n'ella me admirar a mim mesmo, e de me julgar um escriptor muito 
maia hábil em portuguez, do que em francez. Realmente enriqueceis todos 
meus pensamentos, quando os exprimis. Tudo quanto manejaes, converte-se em 
coro, e os próprios seixos, se a expressão é permittida, nas vossas mãos trans- 
formam-se em pedras preciosas. Ã vista do exposto juigae, se deveis exigir de 
mim, que vos note as passagens, onde podereis ter-vos um pouco desviado do 
meu sentido. 

«Quando, em logar dos meus pensamentos, me tivésseis, sem n'isso reflec- 
tir, emprestado alguns dos vossos, bem longe de os fazer desapparecer, pen- 
saria em me approveitar do vosso descuido, e adoptal-os-hia para com elles 
me honrar : porém vós em nenhuma parte me fazeis passar por uma tal prova. 
Tudo é egualmente justo, exacto, fiel em vossa traducção : e, se bem que me 
tendes muito embellezado, não deixo eu de me reconhecer em toda a parte 
d'ella. 

«Não torneis, pois, a dizer, senhor, que receiaes não me terdes entendido 
bem. Dizei-me antes o que fizestes para me entenderdes tão bem, e para per- 
ceberdes na minha obra até mesmo subtilezas, que eu julgava não podeí^m 
ser sentidas senão por pessoas nascidas na França, e educadas na corte db 
Luiz, o Grande. Vejo claramente que não sois estrangeiro em nenhum paiz, e 
que, pela extenção de vossos conhecimentos, sois de todas as cortes, e de to- 
das as nações. Disto dão testemunho a carta e os versos francezes, que me fi- 
zestes a honra de escrever. N*elles apenas se encontra de estrangeiro o vosso 
nome, e não existe na França um homem de bom gosto, que não desejasse 
tel-os feito. Mostrei-os a alguns de nossos melhores escriptores. Nenhum hou- 
ve, que d^elles nao ficasse extremamente encantado, e que não me desse a en- 
tender que, se de vós tivesse recebido eguaes louvores, ter-vos-hia já tornado 
a eserever volumes de prosa e verso. Que pensareis vós então de mim, tendo- 
me eu contentado com o vos responder por meio d*uma carta de cumprimen- 
tos? Não me accusareis então de ser ou incivil, ou grosseiro? Não, meu se- 
nhor: nem uma, nem outra cousa eu sou: mas, com franqueza, eu não faço 
versos, nem mesmo prosa» quando quero. ApoIIo é para mim um deus caprl- 
cho80> que não me dá a mim, como dá a vós, audiência a todas as horas. É mis- 
ter que eu aguarde os momentos próprios. £ d'elles terei cuidado de lançar 
não, quando os encontrar: e serei bem infeliz, se morrer ficando-vos em di- 
vida d'nma parte de vossos encómios. O que desde já vos posso dizer, é que 
na primeira edição de minhas obras, não deixarei d'introduzir n*ella vossa 
venão, e que não perderei nenhuma occasião de fazer saber a todo o mundo, 
que das extremidades de vosso continente, e de tão longe, como as colnmnas 
de Hercules, me vieram os louvores, df» qne eu me pago mais, e a obra com 
a qual me sinto mais honrado t. < 



* Oeuvres de Boilenu Paris, 1864, toI 2 ", pag. 406. 



i50 



BO 



i4S) BOIS (DU). 

E. _ Vayages faits par le sieur D. B. aux !les Dauphines m Madagás- 
car et Bourbon ou Mascarenne, és années 1669-70-71-72 dans lesqueh il 
est curieusement traité du Cap Vert &c, &c. Paris, 1674. 

(Viagens feitas a — nas quaes se traia curiosamente de Cabo Verde.) 

14^ BOLAFFIO (JOSÉ VITA) — Mestre de Arithmetica em Trieste. 

£. — Números certos para formar as combinações de cambio entre a pra- 
ça de Lisboa, e diversas outras praças da Europa, que tem cambio estabe- 
tecido com a mesma. Compostos por — . Vienna, na oíllcina de Mathias André 
Scbmidt, 1803, 4.^ com nm mappa. 

(Esta obra é dedicada a António Maria Galvet, cônsul geral* de Portugal 
em Trieste. 

144) BONDE (GUILLELHUS). 

E. — Ad Serenissimum Dominum Joannem V PortugcUliae regem de JuUi 
CtovU clari admodum pictoris operibus, sive sermones três, Londioi» 1733. 

Esta obra, que vi citada pelas palavras referidas, parece ser um discurso 
offerecido ao nosso rei D. João V, a respeito das obras do celeberrimo pintor 
em miniatura D. Giulio Clovio. 

145) BON (LE) ADVIS MESPRISÉ, ou la lettre de Monsr. Trista» 
de Mendosse^ Jadis Ambassadeur pour lenouveau Eletto DonJoanel Quarto: 
par grace de trahison Roy de Portugal, escrite à sou successeur V Ambassa- 
deur de Portugal. Francisco de Sousa Cotinlio: presente a la Haye. 161k9, 4 
folha<a, 4,o 

Este folheto é relativo á restauração de Portugal, a qual vitupera; e faz 
parte d'uma bella collecção de opúsculos, concernentes ao mesmo assumpto, 
e á lucta contra os hollandezes no Brazil, a qual pertence ao ex."*» sr. mar- 
quez de Sousa, e que este senbor teve a bondade de pôr â disposição do 
auetor d'este trabalho, para d'ella tirar os apontamentos que fossem conve- 
nientes. ^ 

146) BONNET (CHARLES) — Engenheiro. 

Escreveu a Memoria sobre o Algarve, abaixo citada, que é o fructo das 
suas viagens feitas nesta provincia nos annos de 1846-47. 

Mémoire sur le royaume de V Algarve contenant la description des moi^ 
tagnes, des sources, des cours d^eau, des villes etc, du climat, de la vége- 
tation, des animaux, de Vinduslrie, du commei ce, etc, ainsi qu'une esquisse 
historique de cette contrée, (Nas Memorias da Academia Real das Sciencias 
de Lisboa, 2.* série, tomo 2.^ parte 2.*, de pag. 1 até 176.) 

No vol. 9.<> (pag. 230 e seguintes) da Revista Universal Lisbonense vem 

< Sempre que daqui por diante apparecerem estas lellras M. S. é porque a obra re- 
ferida Tem na collecção do ex."^" sr. marquez de Sousa. 



uma noticia de M. M. Franzlni acerca dos trabalhos da commissão geológica 
dirigida por mr. Charles Bonnet nas suas explorações á província do Alem- 
tejo, em 1849. 

i47) BONNEVAL (RENÉ D£). 

E. — Repouses ati.r paradoxes de VAbbé Desfontaines contre ígnez de 
Castro. I7Í3. 

(Resposta aos paradoxos do abbade Desfontaines contra Ignez de Castro.) 

148) BONUCOI (ANTÓNIO MARIA, Della Compagnu di Gibsu)* 
E. — I. Orazione nelle solenni esequie Della Maestá dei Ré de Portogallo 
scritta in italiano e in portoghese da — E detta nel primo linguaggio dal 
medesimo nella Chieza Nazionale di S. AntorUo in Roma. In Roma» nella 
stampería di António di Rossi, alia Piazza di Ceri, 1707. Con lícenza dé Sa- 
periori, S.**, 61 pag. 
(Esta oração fúnebre de D. Pedro II é offerecida ao rei de Portugal D. João V.) 
II. Isíoria della vita ed eroiche azioni de D. Affonso HenriqueSy primo 
te de Portogallo. Veneza 1719. 

(Historia da vida e acções heróicas de D. AfTonso Henriques.) 
Creio que este livro foi composto por occasião de se tratar da canonisaçao 
do nosso primeiro rei, ardentemente desejada por D. João V. 

i49) BORDIGNÊ (Conte DE). 

E. — Legitimité Portugaise. Paris. 

Nada mais posso dizer a respeito d'esta obra^ que vi citada. 

itSO) BORELLO (CAMILLO). 

E.— Theatrum Regiam sive Regam Portugalliae a --. Bruxellas, 1628. 

(Ttieatro régio, ou dos reis de Portugal.) 

Parece ser uma biographia dos nossos reis. 

151) BÕSCHE (EDUARDO THEODORO). 

E. — l. Novo IHcdonario geral das lingttas Portugueza e Allemã, com 
particular menção dos termos das sciencias, artes, industria, commercio, e 
navegação. Hamburgo, em casa do edítorproprietario Roberto Kíttler, o tomo 
l.*de847pag.eo2.<> de 808. 

Vi também n*um catalogo de livros esta obra como impressa em Leipsig. 

II. Diálogos Poi^tuguezes e Allemães. Hamburgo, 1836. 

itSíi) BOS8IO (MATTHEUS). 

Diz o sr. Innoeencio a pag. 164 do 4.*' tomo do Diccionario BibliograpMco, 
qa» este eserlptor lhe parecia ser de nação italiano, que fora secretario da 
embaixada de Sabóia, n^e^ta corte, e que traduziu do italiano para portnguez 
o seguinte livro: 

Compendio genealógico da real casa de Sabmfa, cam um appendice em 



m BO 

que se dá mcnnia noticia dos estados, rendas^ forças e títulos que tem esta 
augustiseima casa» 0/ferecida á Sereníssima Infanta de Portugal pelo conde 
D. Jeronymo Marcello de Gubematis, presidente no Supremo Senado de Nixa^^ 
enviado extraordinário de S. A. R. de Saboya, n'esta corte, etc, Lisboa» por 
Miguel Deslandes, 1682, 4.% 38 pag. 

153) BOTERO (GIOVANNI— BENESE)>-Escriptor italiano celebra. 
E.—Delle Relatione Universali di — . Parte prima, Nella quale si da ra- 

guaglío de Continenti, e deW Isole sino ai presente scoverte. Revista daWAu- 
tore, e di nuovo arrichita in infiniti luogki di cose memorabíli e curiose. In 
Roma, 1595, foi. 1.' parte 403 pag. 2.* 289. 

Trata esta obra amplamente das descobertas e conquistas dos portugaetei, 
de cujos feitos era grande admirador, e aos quaes considera como om dM 
primeiros povos do universo. 

«Má nissuna natione si mostro mai piu vehemente, e che partecipassa pia 
delia terríbilitá dei furore, che i Portoghesí: le cui navigationi oitre ai. capo di 
Bonasperanza, e oltre alio streto di Sincapura, e gli acquisti di Ormuz, di Goa 
e di Malacca, e le difese di Gocin e di Diu, e di Gau C^ic) e di Goa, hannopia 
dei vero, ebe dei verisimile. 

«Lisbonna á giuditio universale, la piu popolosa Citta delle Cbristíanitá^se 
tu ne eccetui Parigi. Questa Gittá vai quasi tutto il resto dei regno; perebe fk 
popolo grandíssimo, e vi capita tutta la mercantia, e tutto il trafica dell'Etbio- 
pia, dei Prasil, delia Madera, e deiraltre Isole, e di tutto Settentríooe.* 

154) BOUOHOT (AUGUSTE) — Professeur dHisloire au Lycée Napo- 
leon. 

E. — Histoire de Portugal et de ses colonies par — . Paris, libraíre de L. 
Hachelte, 1854, 8.°, 470. 

Esta historia de Portugal faz parte da coilecçâo de compêndios de bistoria, 
compostos por uma sociedade de professores e de litteratos, debaixo da direc- 
ção de M. Duruy. Seu auctor mostra-se um enthusiasmado admirador dos feitos 
dos portuguezes, e diz que Napoleão I tinha tido muita razão em mandar es- 
tudar a historia de Portugal nos lyceus de França. 

155) BOULLIAU (ISMAEL). 

E. — Pro ecclesiis Luzitanicis ad clenim Gallícanum libri duo. Stras- 
bourg, 1656. Paris, 1657, Argentinae, 1670 

(Dois livros dirigidos ao clero francez em prol das egrejas lusitanas.) 
Todos sabem que depois da restauração de Portugal, o papa, acérrimo par- 
tidário de Gastella, tinha-se obstinadamente recusado a confirmar bispos pan 
o nosso paiz, d'onde resultou virem as dioceses portugupzas a ficar sem pas- 
toras e o escreverem -se alguns livros a este respeito, 



BO 153 

im BOURCHIER (JOHAN). 

£. — The Cronicleit of Englandey Fraunce, Spayne, PortyngcUe, ác. Traiu- 
iaíeâ omi of Frenche Mo our mateniall englmhe tangue, London, 1523-25, 
4 vol (Chronicas de Inglaterra, França, liespanha, Portugal, etc. 

É a traducçâo das celebres Chronicas de Froissart, em que este famoso 
eaeriptor falia circurnstanciadamente da nossa batalha de Aljubarrota, e dos 
f^tos dos portugueses por aquelles tempos. 

157) BOURDIEO (MIGUEL IiE).—Francez. 

EL — I. Nova grammatica da língua franceza, por Lhomond, traduzida e 
accrescentada da conjugação por extenso dos verbos irregulares e defeituo- 
MS. Lisboa, 1823. 

n. Grammatica ingleza de Siret, traduzida e posta em nova ordem, por 
um methodo mais claro e fácil dos que tem havido até ao presente. Lisboa, 
1813. 

IIL Elementos da grammatica latina, exposta em nova ordem. Lisboa, 
1816. 

rV. Historia da conjurasão de Catilina e da guerra de Jugurtha, por 
Saihutio, traduzida em vulgar com o texto latino em frente, e notas criti- 
cas e históricas para a intelligeíicia do auctor. Lisboa, 1820. 

V. Jesu Christo por ma tolerância modelo dos legisladores, traduzido do 
francez. Lisboa, 1821. 

158) BOURGOING (JEAN FRANQOIS, Baron de) — Escriptor e ce- 
lebre diplomata. 

JKascen em Nevers no anno de 1748, e falleceu em julho de 1811. ^ 

Residiu pelo espaço de sete annos em Hespanha, como secretario d'embai- 
xada, e durante este tempo recolheu os apontamentos necessários para a sua 
obra Quadro da Hespanha moderna, obra estimada, da qual existem quatro 
edições, e que foi traduzida em dinamarquez, inglez e allemão. 

Porém d'este auctor o que mais nos interessa é a Voyage do Duc deCha- 
teltt É» Portugal. 

Eis o que Bonrgoing ncs diz a respeito da referida obra : 

«Portugal, um dos paízes, com os quaes temos, ou pelo menos podíamos 
ter mais relações commerciaes, uma das potencias de segunda ordem, que mais 
nos interessam relativamente á politica, Portugal é muito pouco conhecido, es- 
pecialmente pelos francezes. Até agora somente appareceram descripções 
ou falsas, ou incompletas d'esta porção da Europa, outrora tão fl(»resc«ite, na 
aeUiâiidade tâo degenerada. Algumas obras foram consagradas a appresentar 
cerUs epochas de sua historia; outras a narrar as conquistas e a gloria dos 
antigos portuguezes,- e a pel-os em parallelo com a escravidão e nullidade dos 
nossos dias. Um inglez James Murphy publicou recentemente uni volume 

1 Firmio Didot — NouwUe Biographie Universelle, vol. 7.', pag. 90. 



«4 BO 

sobre o estado de Portugal, mas qaasi que n'eUe se limitou a observações re- 
lativas à sua profissão de architecto... O anctor do Tableau de Lisbonneestre' 
veQ particularidades curiosas ; porém limitou- se quasi unicamente â descalpçio 
doesta capital. Faltava, pois, mostrac ainda P ortugal debaixo de diversas fiíees, 
descrever suas províncias da Europa, e suas colónias, costumes, habitantes, 
população, progressos nas scieneias e artes, sua politica etc. e o duque deGia- 
telet, cuja obra publicamos, achou-se no caso de poder desempenhar esta ta- 
refa. Consultou as pessoas mais instruídas do paiz percorrido por elle com 
maior cuidado, que pelo trivial dos viajantes. Vio de perto o marques de Pom- 
bal em seu retiro; d'elle recebeu diversas informações tão curiosas, cemo aa- 
thentieas, cuja exactidão verifícon nos mesmos legares. 

«Seu manuscripto, que nos foi confiado, continha algumas imperfeições. Di- 
ligenciamos rectifical-as, e substituir algumas lacunas. O auetor não tivera va- 
gar para limar seu trabalho. O estylo achava-se por vezes mcorreeto. Tomá- 
mos^ pois, a liberdade de fazer desapparecer estas ligeiras manchas, sem alte- 
rar nem seu plano, nem suas idéas. Póde-se, por tanto, considerar o texto eomo 
pertencendo-lhe exclusivamente. 

«Porém, como ha alguns annos que Chatelet viajou em Portuga], muito hn- 
perfeitamente ofTereceria sua obra a descripção doeste reino, se lhe nao tivés- 
semos ajuntado algumas notas, e até alguns supplementos, que farão comple- 
tamente conhecer os portuguezes dos tempos actuaes. Para esse fim procurámos 
o auxilio dos escriptos mais recentes, e esclarecimentos fornecidos por pessoas 
que residiram n aquelle paiz... 

«Algumas attenções politicas tinham impedido no tempo de nosso antigo 
regimen a impressão d*este manuscripto. O auctor e editor procuraram egoal- 
mente evitar quanto podosse ofTender os portuguezes. Fazem-lhes por vezes 
algumas censuras assas graves, dão-lhes lições algum tanto ásperas; porém 
abstíveram-se tanto um como outro d'aquelle azedume, que ofTende, e não 
corrige. Ha, todavia, portuguezes illustrados, que gemem sobre a situação de 
seu paiz tanto, quanto o podem fazer os mais severos estrangeiros. 

«Conhecem as causas de sua degeneração, e os remédios, que curavam os 
males, que estão padecendo. Se o duplo terror, religioso e politico, que os con- 
tem, obsta a que se expliquem com franqueza, hão de perdoar, e agradecer 
talvez a estrangeiros mais independentes o pintarem as desordens, de que seu 
paiz é presa, o despertar em seus compatriotas a lembrança de sua antiga 
grandeza, o chamar para o meio d'elles a sabedoria, e a energia em appoio 
das antecipações da natureza. E que paiz na Europa foi roais bem tratado por 
ella, que Portugal? Rivaliza com todos pelo que diz respeito á bondade do 
clima, e à variedade das producções, que podem prosperar sobre seu terreno. 
Possue tantas costas, quantas comporta a extensão de seu solo. Tem valles 
férteis e risonhos, montanhas repartidas de maneira a fazerem manar em to- 
das as direcções de seu centro e alturas as aguas vivificantes, que tomam as 
irrigações fáceis, e suavisam os inconvenientes das séccas debaixo d'um céo 
ardente; algumas, que para clle são uma trincheira quasi inexpugnável con- 
tra o imico inimigo, que lêem a temor por terra : vários rins, qne podem ser 



BO 155 

navegáveis; um, especialmente, cQja embocadura lhes dá um dos bellos portos 
da Europa : habitantes natoralmeute espirituosos, e nos quaes o valor esci^u 
ao torpor quasi universal» que se apoderou de todas suas outras faculdades : 
habitantes, que teem provado poderem ter a coragem e actividade necessárias 
para as grandes empresas, e manejar com prospero resultado todos os instm- 
mentos da prosperidade. 

«Porém ha mais d'um século que má administração, falsos cálculos, instí- 
tuições viciosas, o dominio dos frades e dos inglezes reduziram a quasi nada 
todias estas brilhantes vantagens. A philosophia allumia a maior parte da Ea- 
Topa, 6 Portugal ainda jaz nas trevas. Tem nas suas producç5es, e nas de suas 
vastas colónias os elementos do mais variado commercío, e desamparado em 
mãos perfidamente obsequiadoras, que o condemnam á ociosidade e á misé- 
ria. Reina em Moçambique e Macao, e obedece servilmente em Lisboa e Porto.» 
V. Chatelet (duc de). 

159) BOURNISIEU (BERTHE DE). 

E. — D. Pedro à D, Ignez de Castro, Heroide. Paris, 1788. 

160) BOUTERWEK (FREDERICK) — Celebre philosopho, poeta e 
crítico allemão. 

liaseen em Okar no anno de 1766, e faileceu em G(»ltingue em setembro 
de 1828. 1 

«A obra capital que assegura ao nome de Bouterwek uma longa duração 
é a sua íUstoria da poesia e da eloquência dos povos modernos. * 

E. — History of Spanish and Portugueze lÀterature by—, Tramslated 
from ike original German by Thomasina Ross, London, 18^. 

V. Aoss (Thomasina). 

161) BOWDIOH (THOHAS EDWARD). — Viajante inglez. 
Nasceu em Bristol no anno de 1790, e faileceu em 1824. ^ 

£. — I. An Account oflhe discoveries of the Portuguese tn th€ interior of 
Angola and Mozambique, London, 1824. 

(Narração das descobertas dos portuguezes no interior de Angola e Mo- 
çambique.) 

Vem mencionada esta obra no catalogo manuscrípto da livraría do conde 
d» Lavradio. 

fi. — Exonrsions in Madeira and Porto Santo, during the autumn cf 18S3. 
London, 1824. 

(Digressões pela Madeira e Porto Santo.) 

N*esta obra vem Observações sobre Cabo Verde, 

162) BOWLES (W. L.) — Poeta inglez. 

< Finnin Didot — iVouvelie Biographie Générale, vol. 7 ^, pag. 127. 
» FirmiB Didol— Nouvelle Biogi-aphie Vniversêlle, Tdl. 7.*, pa^. 151. 



106 BR 

Nasceu em KiDgis HittoD no anno de 1762, e falleceu em 1800. < 

E. — ÍÃUt S(mg of Camoéns. LoDdon, 1809. (Ultimo canto de Gamdea.) 

163) BOYD (Captain). 

E. — A description of the Azares or Western Mands. London, 1836. 

(Descripção dos Açores on ilhas occidentaes.) 

«Esta relação rescende ao caracter britânico, que raras vezes pecca pela 
indulgência para com as outras nações: acham-se n^ella comtudo moitas no- 
ticias importantes para o conhecimento physico do archipelago.* ^ 

Vem uma pequena analyse d'esta obra em o n.« 1 do Diário do Governo^ 
de 1835. 

164) BRADFORD (WILUAM). 

E,^Sketches in the country, character and costume in Portugal and 
Spain. London. 

(Esboços do paiz, caracter e costumes de Portugal e Hespanha.) 
Traz ao lado uma traducçao franceza. 

165) BRADSHAWS. 

E. — lUustrated Hand-Book to Spain and Portugal: a complêt gmàe for 
travéllers in the Península, WUh nuips, town plans, and steel illustraikms. 
Londres, 12.« largo. 

(Guia illnstrada de Hespanha e Portugal.) 

166) BRANDANO (ALESSANDRO). — Natural de Roma. 

E. — Historia delia guerre de Portugallo stuxedute per roccasione delia 
seperazione di quel regno delia Corona Cattolica. Yenezia, 1689, 2 tomos, 
4.*, o 1.» de 5i5 pag. e o 2.*» de 432. 

Chega até o reinado de D. João IV.— V. Brandano (Francisco). 

(Historia das guerras de Portugal succedidas por causa da separação 
d'aquelle reino da coroa de Gastella). 

167) BRANDANO (FRANCESCO) — Sobrinho de Alexandre Bran- 
dano. 

Continuou a historia começada por seu tio. 

Dell' Istoria deite guerre di Portogallo che continua quella di Alessan- 
dro Brandano. Parte seconda, nella quaJe si contengono gli Avvenimenti ac- 
caduti nel tempo delia Regina Ludovica. Roma, 1716, 4.^', 451 pag. 

(Historia das guerras de Portugal continuada — .) 

168) BRANDT IN BRAZILIEN Gedruct in't Jaer om Heeren. 1648, 
9 pag., 8.» 

» Firrain Didot — JVouríí/c Biographif rnivnseUe, vo! 7.», pag. 157 
* Morelét — Us Açores, pag 15. 



BR m 

Diz respeito ás lucus entre os portugaezes e hollaodezes por caosa do 
BrtziL-M. S. 

169) BRASILSGHE OORLOGHS OVERWEGING Gedruckt m7 
JoiT, I648y 4 folhas sem numeração. 

Diz também respeito à lacta dos nossos com os hollandezes.— M. S. 

■ 

170) BRASILSGHE GELT-SACK WAEK m dat claerlijik vertootU 
wordí waer dat de Participanten van de West Indtsche Comp. haet Celt 
f^Meven is Gedruct in Brasilien op't Reciff, Anno de i647, 15 folhas sem 
numeração.— M. S. 

171) BRASYLS SCHUYT Praeiien ghehouden tusschen enn Offker 
een Domine, en een Coopman, noopend den Staet van Brasyl: Mede hoe de 
Offideren en Soldaten tegenwoordich aldaer ghetracteer t werden, en hoe men 
placht te leven ten tyde doen de Portogysen noch onder het onverdraeglUijck 
lock der HoUanderen saten Ghedruckt inde West Indische Kamer by Maa*- 
ter, Doer het gelt soolustich klinckt alsser zijn Aes-stae^ten, li folhas. 

Trata dos negócios do Brazil no tempo em que os boliandezes se queriam 
apossar d'aquelle paiz. < — M. S. 

172) BRAT (Mb.) 

E. — Talha or the Moor of Portugal, A romance. iVew York, 1831. 
(Talha, ou o Mouro de Portugal. Romance. 

173) BRAT (Mrs. ANNA ELIZA). 

E. — Von Dr. E, N. Barmann Der Talba vvn Portugal; oder schidfale 
der Ignez de Castro, Kiel, 1835, 3 vol. 

Parece-me ser um romance haseado na historia de D. Ignez de Castro. 

174) BRESIL et Portugal, Paris, íBVk, Imprensa de Plassan, 8,*», folheto. 

175 BRETON. 

E. — LEspagne et le Portugal ou tneurs, usages et costumes des habitam 
de ces royaumes. Precede d*un préds histwique par — . Ouwage omé de dn- 
guante quatre planches repi'ésentant douze vues et plus de soixatUe costu- 
mes différents la plupart d^après des dessins executes en 1809 et 1810. Pa- 
ris, 6 tomos, 1815, l^.*" 

(A Hespanha e Portugal, ou costumes, usos, trajos d'este paiz etc.) 



I O auclor deate trabalho nfto p05)»ue conhecimeotos ãufficieotei da lingua hollan- 
deia para poder fazer a traducção do8 titulob das obras cst-riplas neste idioma, nen 
conhece pessoa a quem possa consultar. 



158 BR 

Aló agora ainda não encontrei exemplar algum com as referidas estampas' 
apesar de não ser esta obra das raras, e qae qâo passa d' ama compilação. 

O volame sexto é o destinado para tractar de Portagal. 

O compilador servíu-se para este trabalho das obras de Twiss, Raynal» 
Morphy, e de duas ou três outras. 

«Para formar uma idéa do aspecto encantador, que olTerece a cidade de 
Lisboa, é necessário imaginar um rio magnifico, com mais de três lagoas de 
largura» e cujo vasto porto está continuamente coberto d'uma multidão de 
navios. 

«Ao longe ergue-se em amphitheatro a cidade sobre soberbas collinas. 

«Os próprios arrabaldes estão de tal maneira semeados de casas de recreia 
e de conventos, que toda a extensão das margens do Tejo, até se perder de 
vista, parece não formar mais que uma só cidade, e custa a diíTerençar o que 
pertence exclusivamente a esta bella povoação. Com eíTeito, ainda que a propríi 
cidade occupe sobre a margem do rio^ um espaço de duas léguas, as povoa* ' 
ções de Pedrouços, Belém e algumas outras são o prolongamento, como Ghail- 
lot, Passy e Auteuil o são da parte occidental de Paris na margem direita do 
Sena. 

«Não se poderia imaginar na Europa cidade marítima mais favoravelmente 
situada para o commercio de todas as partes do mundo, principalmente da 
Ameríca. Lisboa é o principal mercado de todo o commercio do reino com 
suas colónias, e com os paizes mais ricos do universo. Sua riqueza e a de todo 
o Portugal seriam immensas, se os habitantes fossem mais industriosos, senão 
importassem da Inglaterra a maior parte dos objectos de consumo. 

«Os negociantes portuguezes são fallados por sua probidade severa, e pelo 
seu zelo escrupuloso no cumprimento do seus deveres. 

«A ignorância, e a superstição em geral são os maiores defeitos, de que os 
habitantes de Portugal podem ser acrusados, mas estes defeitos não os arras* 
tani a excessos criminosos.* 

i76) BREVIS ASSERTIO eí apologia avclamationis et juslUia:^ Sere- 
nissinU et Potentissimi Portugalliae Regis Joajinis inter veros et legitmos 
ÍAisUaniae Reges nmnine (hiarti^ opposita altqtUhm tmúrariis. impudenti- 
bus et temcrariis scripíaribíis, 9 folhas sem data nem iogar de impressão. 

(Breve vindicaç^o e apologia da acclamação e justiça do sereníssimo e po- 
tentíssimo rei de Portuga! João, o quarto em quanto ao nome entro os reis 
verdadeiros e legítimos de Portugal, contra alguns escriptores contrários, des- 
carados e temerários). 

Faz parte da collecção de opúsculos formando um volume, e relativos àac- 
clamação de D. Joilo IV, pertencente ao ex."*' sr. marquez de Sousa. 

177) BREVIS ET FIDA nar ratio et roníinuatio rerum onííiium a 
Drako et Norreijsio (post felirem ex occidetUalihns insalis rcditum) im sua 
ea;peditione Poríngaltcn^i singnlis diebus gestnrum. iTancofurli, 1590, *.", fo- 
lheto. 



BR i59 

(Narração breve, e fiel continuação de todos os suecessos de Drake e Nor- 
rys (depois do sen feliz regresso dos Açores) acontecidos diariamente na sna 
expedição a Portugal. 

178) BREVIS REPETITIO omnium que, Excellentissimus D. Legaim 
ParÈugaUiae ad componendas res BrasUicanas proposuit vel egii a die t3^ 
MaU usque ad 1 Novembris hujus anni 1647. ExhibUa Celsis PrepotmUibus 
D. D. Ordinibus GenercUibus harum Confcederatarum Provinciarum ad. 28. 
diem ejusdem mensis. Hagae-Comitís. Kxcudebat Ludolpbus Breeckeveit Ty- 
pographas. Anno 1647. 8 Tolhas.— M. S. 

(Breve recapitolação de tudo, quanto o ex."<* sr. Legado de Portugal pro- 
poaoa praticou com o fim de pacificar os negócios do Brazil desde o dia 23 
de maio até 1 de novembro doeste anno de 1647. Apresentada aos potentíssi- 
mos Senhores Estados Geraes d'estas províncias confederadas até o dia 28 do 
mesmo raez.) 

i79) BRIAND (P. CÉSAR). 

£. — Les petits voyageurs en Espagne et en Portugal, Paris, 1835. 

(Os pequenos viajantes em Hespanha e Portugal.) 

180 BRIEFVE ET SOWÍLÂIRE description de la vie et,mort de Dam 
Antome premier du nom, et dix-huictiesme Roi de Portugal, Avec plusieurs 
LfUirei servantes à VHistoire du Temps. A Paris. Chcz Gervais Ãlliot, au 
Palais prés la Chapelle sainct Michel. iii>cxxix. Avcc Privilege du Roy. 

Traz um magnifico retrato de D. Christovào, filho de D. António, em volta 
do qual estão os seguintes dizeres : 

No alto — Ckristophorus + Dei-\- Gralia + Pnnceps + Portugalliae + 
Por baixo — Fí/fíM Z>. Antonii XVllL Pmtugalliae Regis, 
Á esquerda d'estas ultimaâ palavras . 

D. 

Dumonstier 

Pinxit. 9.* Septemlnc 

1632. 

Do lado oppusto: 

laspar 
ísac Fecit » » 
E no baixo da folha: 

Hic wultu. et. íneritis Priticeps de Sanguine Hegnum 
Quo nuigis atteiitur, tatUo virtute rcsurgit 
Renaíus de la Rachemaillet. 
Começa esta obra por uma dedicatória ao rei, feita por D. Christovão, fi- 
lho de D. António, e auctor d'este livro. 

Segue uma advertência ao leitor, e copia da apptovaçào de dois doutorea 
em theologia. datada esta ultima de 26 de janeiro de 1629. 



i«o BR 

«D. ÂntoDio, primeiro do nome, e decimo oitavo rei de Portugal, desces-' 
dente em linha varonil dos reis de França, Hagoes Gapet, e Roberto sen âlbo 
pelo ramo dos primeiros daques de Borgonha era ilibo legitimo de D. Laitr 
segundo filho do rei D. Manuel de boa memoria; o que se viu clarameole 
tanto pelo testamento do referido infante seu pae, como pelo tratamento e re- 
cepção que lhe fez o rei D. João III, seu tio, depois da morte de seu pae, dei« 
xando-lhe usar do timbre de suas armas, sem n'ellas haver signal de bastar- 
dia, e também pela estima, que d'elle fez o rei D. Sebastião, quando pela piv 
meira vez foi á Africa, em Tanger, dando-lhe o cargo de condestavel na pre- 
sença de D. Duarte, seu primo, que n'elle estava provido. 

«Foi proclamado e reconhecido como verdadeiro rei, primeiramente em 
Santarém, e depois em Lisboa, dia de S. João, 24 de junho de 1580, e irnme- 
diatamente depois em Setúbal pelo corpo dos três estados do reino, que allt 
estavam congregados, tendo fugido os cinco governadores, dos quaes três para 
Hespanha, e tendo ficado dois em Portugal; e em seguida, depois de reooohe- 
eido pela Universidade de Coimbra, e por todas as outras cidades de Portu- 
gal, e possessões da coroa fora do dito reino. 

«D'alli voltou a Lisboa para se preparar contra as forças do rei de Hespa- 
nha Philippe II, commandadas pelo duque d' Alba, que começavam a entrar» 
dizendo pertencer-lhe o dito reino por ser alho da infanta D. Izabel sua miot 
ftandando-se antes em 3uas forças, que no direito por oUe pretendido, sabendo 
as leis do reino, que d'elle excluem as filhas, como a lei Salica na França; re« 
conhecendo também a fraqueza do reino por causa da perda do rei D. Selias* 
tião na Africa; e fiando-se em um grande numero d^aquelies, que tinham sido 
subornados com grandes promessas pelo duque de Ossuoa e D. Christovào 
de Moura, seus embaixadores. 

«Isto foi o que o resolveu a esta conquista, a qual se fez, como se segue: 

«A saber:— Ao duque de Medina foram recommendadas as terras situadas 
ao longo do rio Guadiana até Moura e o reino do Algarve: ao marquez de 
Saraval a fronteira de Castellobranco até Pinhel e extremo da Beira: ao conde 
d'Alba e de Lista, senhor de Samora foi designada a cidade de Miranda até 
Torre de Moncorvo e Freixo d'£spada á Cinta: ao conde de Benavente foi 
recommendada a conquista de Bragança: ao conde do Monterei a da terra de 
Chaves, Vinhaes, e Mirandelia; e ao conde de Lemos a província d'£ntre Douro 
e Minho. A cada um dos quaes foram assignado% dois mil homens de pé, e du- 
zentos de cavallo, nào fallando no exercito do duque de Alba. 

«O rei D. António, ainda que carecendo de forças, o esperava com grande 
coragem, e o referido duque de Alba tendo desembarcado na entrada do rio 
Tejo, tomou Cascaes, e o castello de S. Julião, por causa da traição do go- 
vernador, que estava dentro, chamado Tristão Vaz da Veiga, e approximon-se 
de Lisboa. O dito rei com as poucas tropas, que tinha, o aguardou na ponte de 
Alcântara, e tendo allí combatido por alguns dias, vendo-sc abandonado dos 
soldados, foi constrangido a deixar a ponte, e retirando -se para a cidade, achou 
que um dos seus servidores familiares eslava cercado pelos inimigos, e querea- 
doo livrar, como o foz valorosamente foi l<íridn na cabeça, c assim passou atra- 



BR i61 

Vtt de Lisboa mandando abrir as prisões da cidade, e foi fazer-se traclar a três 
léguas da referida povoação, perlo de Santo António do Tojal, e depois em 
Santarém, <Hide começou a reunir algum resto da nobreza e dos fidalgos que 
o seguiam. 

«D*abi foi a Aveiro, e vendo que Ibe não queriam abrir a porta, fez tomar 
áe assalto a cidade em pleno dia, e entregou-a aos soldados para a saquea- 
rem. Em seguida marcbou para o Porto, onde os da cidade receiosos de se- 
riai também saqueados e maltratados lhe mandaram por dois religiosos pe- 
dir misericórdia, a qual sendo lhes concedida, o rei entrou na cidade, e d*ella 
mandou ao rei de França Henrique III, e á rainha sua mãe; um embaixador 
eiiamado António de Brito Pimentel pedindo lhes soccorro, e fazendo-lhes sa- 
ber o estado, em que se achava, dos quaes foi bem recebido e honrado. 

cF(Nrtíficando-se o rei, e congregando suas forças na mencionada cidade 
approximaram-se os hespanhoes, e quizeram passar o rio Douro para o apa- 
nliarem, emquanto elle lhes resistia por um lado; os habitantes da cidade lhes 
deram entrada por um outro, de modo que foi obrigado a retirar-se para um 
porto de mar chamado Vianna, para d'alii se embarcar, e ir á França, mas não 
Oi podado fazer, retirou-se para os montes, donde deu aviso para França, por 
meio d'nm portuguez chamado Jeronymo da Silva, de quanto lhe acontecera; 
60 rei Ghristianissimo e a rainha sua mãe enviaram um navio, no qual estava 
om chamado Pierre d'Or para procurar salval-o, o que não podendo por então 
láier, mandou embora o navio, e o rei D. António se conservou escondido em 
Portugal todo o resto do anuo de i580 até 6 de janeiro de 1581, em que se 
embarcou em um navio de Enebuse, cujo capitão se chamava Cornelius 
d'Egmond. 

«Deve-se aqui notar que se embarcou à tardinha do dia de Reis, e come- 
çando a viajar, viram-se três bellas estrellas no Céo, o que admirou a todos 
for lâo estarem no costume de serem vistas: o navio, no qual estava, chama- 
va-se três Reis: um gsjieão de guerra, que fazia guarda para reconhecer os 
BiTios, que passavam, e observar se elle estava dentro d'elle, perto do qual 
piss&Ta, tinham também o nome de Três Reis, e chegando a Calais na França, 
a primeira hospedaria, em que entrou tinha por insígnia Três Reis. 

iDe Calais passou á Inglaterra, para dispor a rainha Izabel a juntar suas 
forças com as de França, das quaes estava seguro; e voltou promptamente a 
Dicq[)pe, onde o esperavam o senhor de Atrozze com vários senhores france- 
zes; o condestavei de Portugal, e o embaixador António de Brito; e d'alli foi 
eondmido a Paris, onde foi bem recebido tanto do rei, como da rainha sua 
mie, pela qual foi também muito visitado, e pela rainha então reinante, e pela 
rainha de Navarra, e por todos os senhores, que então estavam na corte, e hos- 
pedoa-se no palácio da rainha mãe, onde se conservou alguns dias: depois 
passou para o castello de Plessis Picquet, perto de Paris, e d'ahi para Tours, 
onde 86 descobriu um portuguez, que tinha sido mandado para o matar, e d*allí 
fot para Nantes para se embarcar na armada do senhor de Slrozze, a qual se 
lhe {«reparava, e estando em Belle Islo á espera de tempo, o senhor de Saincte 
Sdeine foi comprado por um hespanhol chamado o capitão António por ses- 

TOMO 1 11 



162 BR 

scota mil escudus pagáveis cm Génova, o <iue foi a causa principal da perda 
d'aquclla armada; e embaraço á restauração de Portugal. 

«O lei retiron-se para a liba Terceira, onde mandou cortar a cabeça a am, 
que viera para o matar, e d'alli voltou à França, donde se mandou o commen* 
dador de Cbastes com alguma tropas para o guardarem, e defenderem a dita 
ilha, a qual sendo assaltada pelo marquez do Santa Cruz, foi tomada peia com* 
binação, que este marquez âzera com um sargento mestre chamado João Ba- 
ptista Samiche, o que foi a causa, porque o dito commendador voltou para 
França. 

«O rei de Portugal estava então em Rueil, perto de Paris, onde vieram qua- 
tro para e assassinarem, e d'allí se retirou para Bretagne para um castello, 
que a dita rainha mãe lhe dera para seu retiro, chamado Sussignon, e depois 
de n'elle residir alguns mczes começou a liga na França, e sabendo queMon- 
tigny, capitão do dito castello, o queria entregar ao duque do Mercuenr,d'eUe 
saiu, e se retirou para perto d'Auray para casa d*um nobre e generoso gea- 
tilhomem chamado Le Plessis Duquer; e alguns niezes depois veiu a Poicloo 
para o castello de Beauvoir sobre mar, onde a dama de la Ganache, dnqoeza 
de Ludunois lhe pedira que Ocasse; e algum tempo depois o duque de Mer* 
eneur tendo suas tropas reunidas, e a dita dama sendo avisada de que eUe 
queria mandar prender o referido rei, e pol-o nas mãos d'um pagador geral 
por nome D. João de Heredia, por outro nome Moreau, para o levar á Eespà" 
nha, lhe enviou seu mordomo com outras pessoas, cavallos o dinheiro (saben? 
do que o dito rei estava muito falto d'elle) e lhe pediu se deixasse acompaohar 
por cUes para um logar seguro; o que o rei fez, levando unicamente o prin* 
cipe D. Manuel seu filho, um Gdalgo, seu primeiro camarista, deixando aili o 
príncipe D. Christovão, seu outro Glho, com todos os outros seus gentishomens, 
o qual disfarçado no trajo de lacaio veiu ter com o rei seu pae á Rochella. 

«D'alli o dito rei passou á Inglaterra, tendo sido para alli chamado, e con- 
vidado pela rainha l7abel, a Om de o fazer escapar do perigo, em que podia 
incorrer por causa da liga; o indo de Plymouth a Londres, a rainha lhe man- 
dou fazer uma magnifica recepção por alguns gentis-homens disfarçados em 
pastores sobre a montanha de Salisbery, dizendo-ihc que elle era o bem vin- 
do, e assegurando o da parte do grande pastor do paiz de sua benevolência, 
com promessas de lhe dar todo o soccorro. E por todas as povoações, pelas 
quaes passava, os governadores d'ellas, o vinham receber ás portas, apresen- 
tando-lhe as chaves, o mandando tocar os sinos, como o faziam a seus reis: 

•O rei estando em Londres enviou desde 25 de outubro de 1588 o prindpe 
D. Christovão, seu filho ao imperador de Marrocos i)ara servir de reféns de 
cem mil miticacs, equivalentes a quatro centos mil francos, que o dito impe- 
rador lhe promettera, e tendo alli estado mais de três annos bem tratado, e 
honrosamente servido, enviou-o ao rei seu pae, som nada ter cumprido de soa 
promessa, tendo ouvido que eslava no caminho um dos quatro principaes 
chaoux do grão senhor para o sollicitar a cumprir a palavra, ou a remetter o 
dito priucipe para Conslaulinopla, e este chaoux tinha ordeiii de tomar todas 
as galc-i c gcnlos do guerra ucco^sarias para accomi»:inharem o dito príncipe. 



BR 163 

iNo principio do anno de 1583 a rainha dlnglatcrra deu um soccorro ao 
dito rei de doze mil homens para saltarem em terra, commandados por sir 
FyaLQcis Drak no mar, e pelo general Norris em terra, e estando prestes a fa- 
zerem-se de vela, o thesoureiro d'Inglaterra, milord Borlé propoz ao conselho, 
qae seria bom, achando-se a armada tão forte, que procurassem na passagem 
tomar Coronha na Galliza; e effectivamente se mandou um postilhão para dar 
ordem aos generaes de effectuarem isto; o que foi causa de não terem liber- 
tado Portugal, e de tal sorte que sem tomarem a cidade de Corunha, se reti- 
raram com perda de muita gente, e separação de navios. O que vendo o rei 
protestou contra os generaes não querendo passar adiante : mas dizendo estes 
que tinbam ainda bastante gente continuaram sua viagem, e chegando a Peniche, 
o capitão, que estava dentro, entregou o castello, e ali se aprisionou o resto 
dos soldados, que tinham ficado, em numero próximo a cinco mil homens, 
com os quaes o rei marchou para Lisboa, distante quatro léguas, e pelo cami- 
nho não se encontravam mais que festejos dos portuguezes aos inglezes com 
abraços, bom agasalho e tratamento, dizendo-lhes que eram bem vindos, pois 
qae lhes traziam seu rei; e assim chegaram aos arrabaldes de Santa Catharina 
de Lisboa sem nenhum obstáculo : estando alojado n'aquelle sitio, o rei era a 
toda a hora avisado da boa vontade dos coronéis e principaes commandantes 
das tropas da cidade, e que appresentando-se, se lhe abririam as portas. 

«EUe eommunicou isto ao general Norris a íim de o persuadir a accompa- 
nhal-o, 6 entrar com suas tropas; ao que Norris respondeu, que não tinha pól- 
vora, nem balas, e que era mister ila buscar a Cascaes, aonde Drak tinha 
clief^o. O rei replicou-lhe dizendo: Que depois de o ter levado até à porta 
de soa casa, não o fizesse apartar d'ella; e lhe disse, que para o confirmar a 
respeito dos offerecimentos, que, lhe faziam de o receberem, elle iria a trezen* 
tos passos na frente com seus portuguezes, e no caso que lhe faltassem, e que 
dle fosse trahido, poder-se-hía facilmente retirar com todas suas tropas para 
Gaseaes. Ao que o general Norris não querendo annuir, o rei viu se na neces- 
sidade de voltar a Cascaes, e ali foi constrangido a embarcar-se na esquadra, 
a qual aehando-se desprovida de viveres, e infectada da peste, em que se tinha 
contaminado na Corunha, voltou em desordem para Inglaterra, aonde, logo 
qod o rd chegou, não perdeu tempo em participar á rainha, e descobrir- lhe a 
UMã, pela qual nada se tinha feito em Portugal, soilicitando-a de novo a que 
o soccorresse, e lhe desse novas forças para lá tomar. 

* «A isto a rainha respondeu: Que em quanto ás despezas com os navios 
e munições de bocca e de guerra, ella as faria; mas que procurasse n'outra 
parte o dinheiro, que era necessário para pagar aos soldados. O que vendo o 
rei, e sabendo que o rei Henrique o Grande estava em Díeppe no anno 1590, 
foi ler com elle, e lhe pediu auxilio e soccorro. A isto lhe deu o rei em res- 
posta: Que com grande sentimento seu n'aquclla occasião não o podia pres- 
tar, mas que, quando se visse mais firmo em seu estado, o faria com todo o 

prazer. 

<D'aii voltou o rei D. António para Londres^ onde estava então o embaixa- 
dor de Franca, o senhor de Beauvoií< la Nucle, a (|uom deu relação do olTure- 



164 BR 

cimento generoso, que o rei lhe Qzera, pedindo-lbe que o avisasse das noticias 
de prosperidade de sua magestade; e d'ali por diante se communicavam e fre- 
quentavam até ao anno de 1594, em que o dito sr. embaixador o avisou de 
que podia então vir à França; o que fez: e por este tempo foi descoberta a 
traição de três, que conspiravam contra sua vida, e contra a da rainha de In- 
glaterra; os quaes foram executados em Londres. E veiu ter com o rei em 
Chartres, onde foi bem recebido, e assegurado pelo sr. marechal do Matignoa 
de parte de sua magestade, que teria toda a satisfação; o qual sr. marechal 
lhe disse que, se elle quizesse assistir á sagração do rei, fosse adiante, que te- 
ria cuidado de lhe ministrar o que lhe fosse necessário. O que o rei de Portu- 
gal não poude effectuar por causa de sufficação, que não o deixava descançar 
uma hora: e d*allí veiu a Paris, onde estando e rei, começou a sollicítal-o 
para que lhe desse soccorro, e para este effeito que lhe emprestasse cento o 
vinte mil escudos: o que o rei lhe concedeu, e não lhes podendo fomec(^ em 
metal sonante, deu-lhe uma carta patente assignada por sua mão, e referen- 
dada por Neufville, e sellada com o grande sello na data de 22 de abril de 
i595, com o Om de embolsar no anno seguinte a dita somma âquelles, que 
lh'a adiantavam; e lhe concedeu entre vários outros senhores o senhor de 
Clermont d'Amboise para ser general dos francczes, que deviam ir a Portu- 
gal; e o rei D. António procurando quem lhe adiantasse esta somma, foi ac- 
commettido d'uma doença, de modo que a 26 do agosto no dito anno falleeea 
na edade de 64 annos, tendo alguns dias antes feito seu testamento, e díspoeí- 
sição de sua ultima vontade, o deixando três cartas, uma para o rei Christíanis- 
mo, outra para a rainha dlnglaterra, e a terceira para os senhores estados de 
Hollabda, pcdindo-Ihes que tivessem a bondado de proteger seus fllhos e fâ- 
mulos. E o príncipe D. Ghristovão, seu filho, participou por um gentil homem 
mandado expressamente a sua magestade, (que estava n'aquelle tempo em 
Leão,) a morte do rei, seu pae, e lhe remetteu a mencionada carta, ao qual, e 
aos executores testamentários d'aquelle rei, sua magestade referida respondeu 
e participou ao senhor príncipe de Conty, c ao cardeal de Gonday a ordem, 
que deviam observar a respeito do corpo do defuncto, os quaes o mandaram, 
embalsamar, e estando n'um caixão de chumbo, queriam-n'o depositar na ca- 
pella da defuncta rainha mãe com uma capclla ardente, o que os referidos 
executores não quizeram permittir, dizendo que isso fazia uma dcspeza exces* 
siva, e enviarauí seu coração para a ogreja da Ave Maria, o seu corpo para o 
convento dos Franciscanos de Paris por um dos mestres de ccremonias, o ^l 
fez armar de preto com as armas de Portugal a capella, que fica por traz do 
altar mór da egreja, onde foi depositado, o ainda agora repousa na dita cgreja, 
n2 primeira capella da nave. 

•O rei D. António era dotado de todas as perfeições reacs, e dignas d'um 
grande principe, sendo misericordioso e compassivo, inimigo dos mentirosos» 
dos calumniadorcs, dos delractares, dos juradores, dos blasphcmos, repel- 
lindo pessoas lacs do sua presença, e dizendo que uns c outros eram iudigno^^ 
de estarem enlre as pessoas de bem, visto (|ue aíiueilc, ([uc se fiasse n'elles 9 
por lim seria trahido, sendo lacs que nâo pensavam senào no seu próprio iia- 



BU 163 

leresse. Sua piedade e virtude se patenleia claramente nos psalmos peniten- 
ciaes, que deixou por sua morte. Era muito liberal, de maneira tal que não havia 
ninguém, quer fosse nacional, quer estrangeiro, de qualquer qualidade, que 
tendo recorrido a elle, nâo fosse ajudado liberalmente. E com efTeito ninguém 
saía de soa presença que não tivesse bom resultado em seus pedidos, até 
seus inimigos, herdatido isto do infante D. Luiz seu pae, que no seu tempo era 
cognominado pae dos estrangeiros, e da nobreza por aconselhar à obediência, 
fidelidade, e amor, que devia ter ao rei D. João III, sendo inimigo de todos 
aquelles, que se esqueciam de tal dever, dizendo que não eram dignos do ti- 
tulo de nobreza. 

«O dito rei foi tão zeloso da liberdade de seu reino, que nada omittiu, nem 
deixou pedra, em que não bulisse, para o fim do livramento e restauração de 
Portugal, como se verá nas cartas seguintes, que d'isto fazem prova, e que 
tcstímunham a verdadeira justiça de sua causa. Deixou dois filhos, o príncipe 
D. Manuel (que na HoUanda se casou com a irmã do fallecido príncipe de 
Orange Maurício de Nassau, da qual teve dois filhos, e seis filhas, e no fim de 
dois annos, que alli residiu, quer fosse pela viagem, que se fez ao Brazil sem 
lh*o participarem, ou por qualquer outra causa, elle se passou para o partido 
de Hespanha, com seus dois filhos no anno de 1626 (em abril), e indo-o visitar 
o príncipe D. Christovão, a quem o rei seu pae apresentou ao rei Henrique, o 
Grandey no dia seguinte áquelle, em que voltou a Paris, depois da tomada de 
Laon na Picardia, no fim de dezembro de 1594. 

«O referido príncipe assistiu á morte do rei, seu pae, que lhe deu sua ben- 
ção, de quem é actualmente verdadeiro e único herdeiro e successor de todos 
08 direitos, que lhe pertenciam; e tendo ficado debaixo da protecção do falle- 
cido rei Henrique o Grande^ e actualmente debaixo da do grande tríumphador 
Luiz XIH, o JustOf acha-se sempre desejoso, como o dever o obriga, de achar, 
se íôr iK)ssivel, o meio de restituir Portugal á sua liberdade, tanto para alli 
mandar enterrar o corpo do fallecido rei, seu pae, como ordena em seu testa- 
mento, ao que é obrigado como seu filho, como para com Deus com todas as 
.sortes de serviços e submissões, como deseja generosamente ser reconhecido 
á magestade do rei Christianismo, que o protege : e segundo a grandeza de 
seu valor, nada lhe será mais custoso que o morrer sem effectuar o que seu 
régio coração pretende, apesar de se achar sobrecarregado de maguas e de 
angustias.» 
'Depois d'esta biographia seguem-se as cartas: 

I Cartas patentes do rei Henrique III, a respeito da tomada dos navios 

portuQuezes emprestados ao rei D. António. Em francez, pag. 29. 
n Cartas patentes de commissão para informar e proceder contra 
aquelles, que se tinliam esforçado para tomar o dito rei de Portu- 
gal. Em francoz, pag. 39-44. 

ni Carta do rei ao duque Merctieur relativa ao mesmo assumpto. Em 
francez, pag. 45-48. 

IV Cartas patentes de salva guarda passadas pelo rei Henrique III ao 
rei de Portugal. Em francez, 48-53. 



ICC BR 

V Carla do rei a respeito das .<iol)redita$ cartas patentes de commssõo 

e salva guarda am maioros e almotaceis da cidade de Nantes. Em 
francez, pag. 5.')-r)G. 

VI Carta em hespanhol do conde de Leycester ao rei de Pwtugal D. An- 

tónio, Pag. 57-58. 
Tradocção da mesma carta em francez, pag. 59-60*. 
Vil Carta da rainha mãe do rei Henrique III, escripla ao rei de Par* 

tugaly quando estava na Inglaterra, Em francez, pag 61-64. 
VIII Carta do imperador de Marrocm ao rei de Portugal, traduzida do 
árabe em latim pelo senhor Gabriel Sionita, professor régio da lín- 
gua arábica em Paris. Em latim, pag. 6i-69. 
IX Carta da rainlia de Inglaterra Isabel, escripta ao imperador de 
Marrocos, na occasião em que o rei de Portugal lhe enviou o prhi' 
cipe D. Christovão, seu filho. Em hespanhol, pag. 69-74. 
Tradacção da mesma carta de hespanhol cm francez, pag. 74-77. 
X Carta de Sir Francis Drak ao rei D. António, Em francez, pag. 
78-82. 

XI Carta da referida rainlia, escripta em latim ao grande senkor sul- 

tão Murad Cham a respeito do referido rei de PortugtU. Em latim, 
pag. 82-86. 
Traducçào da referida carta cm francez, pag* 86-91. 

XII Carta em hespanhol da referida rainha escripta ao imperador de 

Marrocos, a respeito do dito rei, Pag. 91-96. 
Tradiicção da mesma carta em francez, pag. 98-102. 

XIII Carta em italiano da dieta rainha escripta ao rei de Portugal Pâg. 

102-107. 
Traducçrio da mesma caria de italiano em francez, pag. 107-112. 

XIV Cartas patentes do rei Henrique o Grande, em favor do dito rei de 

Portugal, Em francez, pag. 112-116. 
XV Caria do rei de Portugal, escripta em portuguez, pouco antet de 
sua morlc ao rei Henrique o Grande. Pag. 116-120. , 

Traducção da mesma carta em francez, pag. 121-125. 
XVI Extracto d*um artigo do testamento do rei de Portugal, feito em Pa- 
ria a \?t de juUio de irífío. Traduzido do portuguez em francez, pag. 
125-128. 
Vem em seguida esta advertência: 

«O rei Henrique o Grande, escreveu de Lyon ao príncipe de Por- 
tugal D. (Christovão uma carta, depois da morte do dito rei de Porta- 
gai, a qual tendo-sí» perdido durante as guorras, nào ponde ser in- 
cluida aqui, mas apresentam-sc as duíis seguintes, que o rei escre- 
veu a Diogo Botelho, « Scipião de Figueiredo.» 
XVII Caria escripta ao smbor Diogo Botelho. Em francez, pag. 128-130. 
XVUI Caria esrripia ao sifvhor Scipião Figueiredo. Em francez, pag. 130- 
132. 
XIX Caria (pie D. António 1 deste nome, e decimo oitavo rei de Portu» 



BK 161 

gal escrevija nu siuUUsivw padre u papa Gregório A7//, nn Rueil 

no anm de 4o83. Em francoz, pag. 133-261. 
XX Segunda carta escripta da Roch^lla pelo rei D, António ao nosso santo 

padre o papa Sixto V. Em francez, pag. 261-275. 
XXI Terceira carta escripta de Inglaterra pelo mesmo rei ao papa Sixto V. 

Em francez, pag. 276-282. 
XXII Qfiarta carta do dito rei ao papa Sixto F, escripta de Inglaterra. 

Ep francez, pag. 282-287. 

XXIII Quinta carta do dito rei ao papa Clemente VIII. Pag. 287-291. 

XXIV Sexta carta do lUto rei ao papa Clemente VIIL Em francez, pag. 

292-300. 
O referido livro da vida de D. António é d'ama raridade extraordinária. 
O único exemplar, que lenho visto, ó o que obsequiosamente me emprestou o 
ex"* sr. conde de (ieraz do Lima pjira d*elle me servir nVste irabaliio. 

i8i) BRIGNOLI (Da.) 

E. — In morte di Sua Alteza hnperiale La Principessa Amélia. Ode. 
Foi publicada e^la sentida poesin no vol. 12." da Revista Universal Lis- 
bonense. (1853). 

182) BRTTiTiAC (Maoemoiselle S. B. D£) 

E. — Agnes de Castro. Nouvelle Portugavte. Amsterdam, 1710. 
(Ignez de Castro, novelia.) 

183) BROOKWELL (C.) 

E. — Naiural and politicai hhtary of Portugal during the rngn of John 
V. LondoD, 1726, 8." 
, (Historia natural e politica de Portugal durante o reinado de D. João V.) 

É livro raríssimo, diz o visconde de Santarém a pag. cccxxxii do tomo 
6.® do Quadro elementar das relações politicas de Portugal com as diversas 
potencias do mundo. 

A um escriptor do mesmo nome vejo attribuida na Historia de Portugal 
do sr. João Félix (Lisboa, 1848, vol. 1." pag. 60) uma obra com o seguinte ti- 
tulo: Tke natural and politicai history o f Portugal to which is added the history 
of Brasil, and o ther dominions subjert to the crown of Portugal in Asia^ 
Africa and America. 182o. 

Nio vi nem uma nem outra, o por isso não posso dizer se ambas são uma 
e a mesma obra, ou se efíectivamente são duas differentes. 

184) BKOME (JAOQUES). 

E.— Traveis through Portugal^ Spain and Ualy, London, 1712. 
(Viagens em Portugal, etc.) 

185) BROOK (T. H.) 

K. — i4 history of the Island of St, Helena, from its disco^)erg by the 



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BR 169 

189) BRUGE (JAMES). — Celebre viajanle íoglez. 

Nascea em Kíanaírd no anno de 1730 e fallecea em 1794. > 

E. " Voyage aux sources du NU en Nubie et en Abyssinie pendant les 
annés 1768, 69, 70, 71, et 72. Traduit deVAnglm par /. H, .Castera. Londres, 
4701, 13 vol. 

Ha varias ontras tradacções d*esta obra em diflferentes idiomas. 

Se bem que este trabalho não foi escripto para tratar exclusivamente de 
assamptos portuguezes, é todavia um d^aquelles, em que a cada passo se está 
fatiando das acções de nossos antepassados. 

Y^amos algumas das passagens mais notáveis d*esta obra. 

Tomo 4." pag. 142 e seguintes: «Joào I rei de Portugal, depois de ter ven- 
cido os mouros em varias batalhas, constrange-os a tornarem a passar o mar^ 
e a regressarem à sua pátria. ^ Suas victorias apagaram a vergonha da alcu- 
nha, que lhe tinham posto; e João o Bastardo não foi depois designado s^não 
pelo nome glorioso de João o Vingador, Não era porém isto ainda bastante 
para sua grande alma. Ajudado por alguns marinheiros inglezes, fez uma des- 
cida ás costas da Barbaria, poz cerco a Ceuta, e tornou-se promptamente se- 
ahor d'esta grande cidade. As ligações doeste príncipe com os inglezes eram 
uma consequência de seu casamento com Filippa de Lancastcr, irmã d'Henri- 
que IV, rei dlnglaterra. João, o Vingador teve d*este consorcio cinco filhos, 
todos bravos, todos guerreiros na tomada de Ceuta, e em estado de comman- 
darem exércitos. Henrique, o mais novo d'estes príncipes, tinha então apenas 
vinte annos, mas foi o prímeiro a subir à brecha debaixo das vistas de seu 
•pae, que o nomeou immediatamente mestre da ordem de Christo. 

«Apesar de todas as felicidades, que teve o rei João I na guerra d*Afríca, 
o príncipe Henrique conheceu bem depressa que Portugal era excessivamente 
limitado para luctar sosinho contra o enorme poder dos mahometanos, cujo 
dominio se estendia sobre as roais ricas partes do mundo conhecido. O en- 
grandecimento repentino de Veneza feriu ao mesmo tempo os olhos d'este prín- 
cipe. Veneza devia só ao seu commercio a vantagem de poder resistir a seus 
formidáveis inimigos. Portugal de per si era mais importante que Veneza; mas 
reinavam em seu seio a pobreza, a ignorância, o orgulho, e a preguiça: desde 
a expulsão dos mouros ate a agricultura n'este paiz estava em despreso. 

. «Desde sua mais tenra juventude o príncipe Henríque ' amara apaixona- 
damente as mathematicas, e cultivara cuidadosamente a astronomia. Generoso 
e valente era inimigo da superstição, da vaidade e da ira. Tratava com a maior 
bondade os judeus e os árabes, únicos, que podiam secundar o. ardor, que ti- 
nha de se instruir. Em .vão, indubitavelmente, teria elle tentado tomar Portu- 
gal ríval do commercio do Mediterrâneo, do qual Veneza estava de posse. Po- 
rém restava-lhe um outro meio d'ir procurar as mercadorias á índia: era mis- 

1 Firroin Viioi — NouveUe Biogriaphie UniverseUct tomo 7.<>, pag. 562. 

' Bruce dSo eslava, como se yé, perfeitamente conhecedor da historia de Portugal. 

> James Bruce— Voyagff aux sources du iVti, Tol. é.^, pag. 143. 



170 BK 

ter atravessar o Oceano Atlântico, dobrar o famoso Cabo, ao qaal cntào sp 
dava o nome de Promontório das tormentas, e penetrar no mar da Asia. Esti- 
mulado por esta idéa o príncipe Henrique rctirouse para ama casa de campo 
solitária, aflm de poder consagrar todo seu tempo ao estado e á meditação da* 
seos grandes projectos. A ignorância o os preconceitos de seu secaio enm 
contra elle. Nào se conhecia então oatra goographia mais qao a dos poetas. 
Os portagaezes imaginavam que todas as terras semeadas entre os trópi- 
cos nâo podiam ter habitantes, sendo abrazadas por am sol, ci^o ardor nada 
havia qoe refrigerasbO, e banhadas por um mar ardente. Por isso acredita- 
vam que qualquer empreza para descobrir aqucllas regiões era nâo somente 
ama loucura, mas até am excesso d'audacia, um attentado contra a Provi- 
dencia. 

«Com tudo se o príncipe Henrique teve que combater os preconceitos de 
sua nação, achou por outro lado poderosos motivos d'animação. A historia 
grc^a, que elle estudava cuidadosamente, lhe provoa que a viagem, na qual 
pensava, tinha sido já executada duas vezes: primeiramente pelos Phenieíos, 
darante o reinado de Necho no Egypto, e depois por Eudoxo, no reinado d'am 
oatro rei do Egypto muito menos antigo, em tempo de Ptolomeu Lathyni& 
Endoxo dobrou a ponta mais meridional d'Africa, e chegou a Cadix. Uannoa 
tinha ainda feito mais: partira de Carthago, e depois de ter passado o estreí* 
to, tinha avançado para o Oceano Atlântico, até 25° de latitude Norte. 

«Mas am exemplo mais recente é o de Macham, navegador mglez, o qoal 
no século xiv, voltando da costa occidental d^Africa, naufragou, e se salvot 
na ilha da Madeira, então deshabitada, com uma mulher, a quem elle amava 
ternamente Pouco depois Macham teve a desgraça de perder soa companheira, 
e não podendo supportar por mais tempo a solidão completa, em que se acha- 
va, 1 construía uma canoa, com a qual ganhou o continente, onde os habitan- 
tes se apoderaram de sua pessoa, e o apresentaram ao califa como um obje- 
cto de curiosidade. Finalmente em 136^ os Normandos de Dieppe tiveram uma 
companhia, que ia commorcíar até Serra Leoa, que não está mais que a 7<^ da 
linha. 

t A doçura, com que o príncipe de Portugal, tratava os prisioneiros mouros, 
foi recompensada peias instrucções, que recebeu d^elles. Participaram-lhe que 
alguns de seus compatriotas do reino de Suz tinliam penetrado muito pelo 
deserto dentro, montados em camellos, levando comsigo agua e provisões; qae 
depois de alguns dias de marcha tinham encontrado minas de sal; que tinham 
tomado um carregamento extrahido d'ellas, e depois tinham ido alem dos li- 
mites das chQvas do trópico, onde acharam grandes cidades habitadas por ho- 
mens negros e de cabello revolto. Estes homens haviam recebido muito bem 
os viajantes mercadores, e lhes tinham ensinado que havia ainda alem de sen 
paiz um grande numero de tribus bem povoadas e guerreiras. Por fim D. Pe- 
dro, irmão do príncipe Henrique, trouxe na sua vinda de Veneza um mappa- 
mundi, no qual toda a costa do Oceano Atlântico estava distínctamente tra- 

* James Br\\c€í -Voyaqr. nur xourcpi; du Ml. vol. í.». pag 146. 



BR 171 

cada, e estava figarado na extremidade meridional d' Africa um cabo rodeiado 
d'am mar, qae conimunicava com o Oceano Indico. 

«Apenas o príncipe se jnlgou segnro de haver ama passagem para as In- 
'dias, dando a volta d*Afríca, que se occapou em mandar constmir quanto era 
necessário para esta navegação. Corrigiu as tábuas solaras dos árabes, fez ai- 
gumas aheraçoes no astrolábio, porque o quarto do circulo ainda não era co- 
nhecido em Portugal. 

tllenrique pela sua beneficência e liberalidade tinha attrahido para seu lado 
03 mais babeis pilotos de seu tempo, e os mais sábios mathematicos, e lhes 
propoz de pôr sua theoria em pratica. Havia já dez annos que fazia partir na- 
vios para tentarem executar seus projectos sem ter ainda podido determinar 
os marinheiros, que os tripulavam^ a passarem o Cabo Nan, isto é, avança- 
rem trinta léguas mais até ao Cabo Bojador. Sua coragem só se limitava a isto, 
e a idóa d'um Oceano tempestuoso lhes fazia uma tal impressão, que voltavam 
successivamente satisfeitos de sua audácia e de sua sciencia. Mas o princípe 
pensava muito differentemente. Dissimulando comtndo a opinião desvantajosa, 
que elles lhe davam de seu talento, continuou a demonstrar-lhes a possibili- 
dade, que havia, d'executar seu projecto, e a premetter-lhes recompensas. En- 
6o emprehenderam novas viagens, e bem depressa voltaram tendo adiantado 
tão pouco como da primeira vez. Ha até probabilidades de que estes ensaios 
inúteis teriam durado ainda muito tempo, se um acaso, ou antes a providen- 
jeia, não tivesse vindo em sua ajuda. 

« Juão Gonçalves e Tristam Vaz, ambos da casa do infante D. Henrique na 
qualidade de gentishomens de sua camará, vendo a impressão, que a incapa- 
cidade de seus pilotos fazia n'elle, obtiveram d'eàte príncipe o commando d'uma 
pequena embarcação, e resolveram dobrar o Cabo Bojador, e descobrir a costa, 
que se prolonga alem. Foram surprehendidos por uma tempestade violenta, e 
depois de terem estado por alguns dias em perigo de morte, abordaram a uma 
pequena ilha, a que deram o nome de Porto Santo. João Gonçalves e Tristam 
Vaz estavam animados d'um verdadeiro espiríto de descobertas. Longe de se 
julgarem perdidos em um novo mundo, e de se contentarem com o que ti- 
nham feito, occuparamse em examinar bem o local, aonde o acaso os tinha 
arrojado. Emquanto os dois viajantes percorriam esta ilha, que era estéril» e 
pouco valia, observaram no horísonte um ponto negro, que nem mudava de 
sitio, nem de figura, e convencidos de que era uma terra, voltaram a Lisboa 
•para darem parte ao infante D. Henrique de sua duplicada descoberta. 

«Immediatamente este fez preparar três navios, dos quaes dois foram ecm- 
fiados a Vaz e a Zarco, e o terceiro a Bartholomeu Perestrello, goitilhomeai 
da camará do príncipe D. João, irmão de Henrique. Estes navegantes não eu- 
ganaram as esperanças de quem os enviara. Ganharam primeiro Porto Santo, 
e depois avançaram até o ponto negro, visto por seus predecessores, que iiã9 
era outra coisa senão a ilha da Madeira, então completamente coberta de ar- 
voredo. No tempo doesta descoberta tinha cessado de viver João I, e D. Duarte 
subira ao throno. Porém não impediu isto a Henrique de continuar o curso 
de seus projectos. 



172 BR 

tGil Eannes estimulado pela ventura dos últimos viajantes partiu com a 
intenção de dobrar o cabo Bojador, sem se desviar da costa, de maneira a po' 
der encontrar terras desconhecidas. Os ventos e o mar favoreceram n^ò. Do- 
brou facilmente o cabo, e depois de se ter adiantado algumas léguas para a 
bahia, que fica ao sul, veiu felizmente contar para Portugal que tinha achado 
um mar não menos navegável além, que àquem do cabo Bojador, e que as 
diíficuldades, os perigos d*cste oceano, que tinham até então espantado os ma-' 
rinheiros, eram sem nenhum fundamento. 

«A passagem do cabo Bojador foi dentro cm pouco conhecida na Europa, e 
despertou no espirito de todos os navegantes o desejo de tentarem aventaras. 
Os mais ousados vieram depressa ter com o infante D. Henrique; e esta emu- 
lação augmentou ainda a coragem dos portuguezes, já orgulhosos com suas 
prosperidades. Mas ha sempre homens, que incapazes de produzirem alguma 
cousa grandiosa, passam seu tempo a criticar as emprezas dos outros. Estes 
homens censuravam o infante de ter escolhido o momento, em que a guerra 
dos Mouros acabava de custar muita gente e dinheiro a Portugal, para fazei; 
novas despêzas procurando descobrir paizes, que elles consideravam como inú- 
teis e perdidos no oceano. Apesar de se não atreverem a avançar como ou- 
tr'ora que este oceano fervia continuamente à roda doestas terras ardentesi, 
sustentavam ainda que estas terras estavam de tal sorte abrazadas pelo soj^ 
que todos os homens, que as habitavam, deviam tomar-se pretos, e que n'el- 
las não podia haver alguma vegetação ^ Raciocínios taes teriam com tudo 
sido sufficíentes para transtornar todos os desígnios do infante Henrique, se o 
rei de Portugal tivesse pensado, como a maior parte de seus vassallos. Porém 
Portugal estava destinado a chegar dentro em pouco ao mais alto ponto de 
heroísmo e de gloria, graças á longa serie de príncipes sábios e valentes, que 
o governaram. 

•O rei Duarte em logar de responder aos detractores das novas emprezas, 
testemunhou mais respeito e confiança a seu irmão 2. Querendo mesmo exeí- 
tal-o a levar ainda mais longe seus projectos deu-lhe por toda sua vida a so- 
berania da Madeira e Porto Santo, e de quantos paizes podesse mandar desco- 
brir sobre a costa d'Africa, e submetteu para sempre a jurisdicção espiritual 
da Madeira á ordem de Clirísto, do qual o infante era grão-mestre. 

■As viagens continuaram então debaixo dos auspícios de Henrique. Nano 
Tristão dobrou o cabo Branco, e chegou até um pequeno rio, em cujas mar- 
gens encontrou habitantes, que possuíam ouro, pelo que este rio se ficou cha- 
mando rio do Ouro, o construíram alli um forte, a que pozeram o nome de 
Arguim. No anno 1445 Diniz Fernandes foi o primeiro, que descobriu o rio 
Senegal, cuja margem sepientrional é habitada por mouros asenagi, de côr 
baça, e a margem meridional pelos Jalofs, negros que recolhem, e vendem a 
gomma arábica. 

' James Bruce— Fof/aj/c aux sources du NU, vol. 4.*, pag. 152. 
5 Bruce chamalhe tio (pag. 152). Como já disse esto auctor commelle muitas ine- 
xactidões na historia de Portugal. 



BR i73 

«Depois o navegador portaguez avançando além do rio avistou Gabo Ver- 
de, 6 foi não menos encantado, que sorprehendído do espectáculo, que se lhe 
offèrecia no meio da zona tórrida, quando achou uma região regada por gran* 
des rios, e ornada da mais brilhante verdura. A guerra civil assolava o povo 
dos JaloGs. Bemoi, um de seus príncipes reinava pela astúcia de sua mãe, que 
linha conseguido collocal-o sobre o tbrono n'um tempo de menoridade com 
prejuízo de seus três outros irmãos^ que eram os herdeiros legítimos. O mais 
velho doestes príncipes conservava uma sombra de poder, e parecia favorecer 
o usurpador. Durante aquelle tempo Bemoi se ligou estreitamente com os por- 
tugnezes. Prometteulhes tudo quanto elles quizeram, e principalmente de lhes 
conceder um terreno para construírem um forte sobre o continente, e até d*elle 
mesmo se converter ao christianismo, o que parecia mesmo desejar arden- 
temente. O irmão roais velho de Bemoi não tardou que morresse, e os outros 
dois irmãos attacaram Bemoi; porém foi defendido pelos portuguezes, de quem 
elle tinha recebido por empréstimo grossas sommas de dinheiro. Depois hesi- 
tou em se converter, e deu ordem aos portuguezes de sairem d'aqueile paiz, e 
de o deixarem sosinho sustentar sua fortuna. Com tudo tendo perdido uma 
batalha contra seus irmãos, foi bem depressa reduzido á necessidade de fugir 
atravez do deserto até Arguim, e d'alii embarcou para Lisboa com um grande 
numero d'aquelles, que lhe eram aíTeiçoados. Foi acolhido pelo rei de Porlu- 
gial com todas as honras devidas a um soberano, e recebeu o baptismo sendo 
j^resentado na egreja pelo rei e rainha. Fizeram-se muitas festas na occasião 
d*esta conversão. 

«O rei de Portugal appressou os preparativos, que deviam servir a tornar 
a pôr seu alliado no throno : e logo que os festejos acabaram, estava prompta 
para partir uma frota e um exercito considerável. Porém infelizmente para 
Bemoi o commando d'esta expedição foi dado a Tristão da Cunha, guerreiro 
bravo e experimentado, mas d'um caracter tão orgulhoso e cruel, que seus 
compatriotas lhe tinham posto a alcunha de Biragudo. 

«A frota não tardou em chegar á Africa. Desembarcaram as tropas, e seu 
numero e valor não lhes deixando receiar alguma opposição, o general portu- 
goez começou a construir um forte, sem se importar se o logar, em que lan- 
çava os alicerces, era doentio. Era um logar baixo e pantanoso, e por isso as 
febres começaram immediatamente a causar estragos entre os portuguezes, e 
a fazer perder de vista o fim da expedição. 

«Ck)m tudo os murmúrios do exercito e o receio de íicar sosinho para com- 
mandar seu forte desesperavam Cunha. Um dia, que elle estava a divertir-se a 
bordo de seu navio, tendo tido alguma altercação com Bemoi, trespassou-ihe 
o coração com uma punhalada, e o estendeu morto a seus pés, sem que o 
desgraçado rei tivesse tempo de dizer uma só palavra. Immediatamente o forte 
foi abandonado, e o exercito voltou para Portugal, depois de ter feito maiores 
despezas, que todas as descobertas do principe Henrique. 

«Porém o ccu recompensou a sabedoria do rei de Portugal com uma des- 
coberta, que o indcmnisou amplamente. O principal Qm das expedições do 
principe Henrique era achar uma passagem para as índias oricntaes, dobrando 



174 BR 

a ponta meridional d' Africa, coisa qae se julgava então impossível. > Para ob- 
viar aos inconvenientes, qae podessem sobrevir nas viagens por mar, empre- 
hendea-se uma outra por terra. No commercio da índia atravessava-se a 
AfHca em toda sua largura, d'oriente para occidente. O príncipe Henríque ti- 
nha tido desígnio de fazer seguir um caminho parallelo para ir ao meio dia, 
passando por paizes, onde dominava o chrístianismo; por quanto alguns cbrís- 
taos vindo da Palestina tinham referido, havia muito tempo, que existia em ' 
Jerusalém um convento de monjes, súbditos d'um príncipe chrístão, que ha- 
bitava no coração d'Afirica, e cujo imperío se estendia das costas do mar Ver- 
melho até à do Atlântico. Accresceniavam ainda, que alguns d'aquclles mon- 
jes vinham frequentemente a Alexandria, cujo patriarcha era o único, que ti- 
nha o privilegio de enviar um bispo ao paiz d'elles. Marco Paolo, viajante Ve- 
neziano, tinha derramado muita confusão sobre toda esta historia, dizendo quo 
encontrara nas suas viagens na Tartaria este príncipe christao, que se chama- 
va o Prestes João. 

«Com tudo o rei de Portugal escolheu para seus embaixadores junto doeste 
príncipe a Pedro da Covilhã o AfTonso de Paiva. Covilhã era um homem muito 
capaz de desempenhar uma tal missão. Empregado algumas vezes pelo ultimo 
rei em negócios mui delicados, tinha mostrado muita sagacidade e prudência. 
Além d'isso estava ainda em todo o vigor da edade, corajoso, activo, dextro 
para manejar toda a qualidade d'armas, modesto e jovial na conversação; e o 
que coroava tantas qualidades brilhantes, era quo tinha a feliz vantagem de ad- 
quirir promptamcnto o conhecimento das línguas, e de poder bem depressa 
explicar-se por toda a parte sem interprete. 

•Foi na corte de Bcmoi quo se teve a primeira cortesã, que existia um 
príncipe christao no interior d' Africa. Os habitantes das costas do mar Atlân- 
tico contavam, quo penetrando no paiz para este, cncoutravam*sc algumas na- 
ções poderosas, habitando em cidades e governadas por príncipes independen- 
tes uns dos outros; o que mais longe, ao oriente d'es3as naçòes, estava um 
soberano, cujos vassalos nem eram pagãos, nem idolatras; mas meio judeus e 
meio christãos. 

•Parece que estes pormenores deveram ser levados ao Senegal pelas cara- 
vanas. Certamente a linguagem dos negros não foi na origem mais que um 
dialecto do abyssinio. 

•No Benim, outro paiz da Negricía, tiveram os portuguezes uma nova prova 



* Nilo admira que Bruce usasse de expressões lào ciilbusíasticus: a Historia l/nè- 
iTi'5a/ composta por uma sociedade litteraría, c traduzida cm francez diz a pag. 433 do 
tomo 23.**— Les portugais furcnt los Tuiidatcurs <iu commcrce. cl de la marine des curo- 
péens. 

•O primeiro unicórnio, ou rhinoceronle da Ásia, du q uai se publicou a gravura, foi 
pintado por Alberl Durer no principiu do século wi, cunformc um animal vivo, que os 
portuguezes trouxeram da índia. Durer piutou-o .superiormente: c todavia õ coriforroc 
este quadro que se tccm empalhado por todas a.» partes do niuntlb lautas copias informes 
e monstruosas.» (Brucf) Voifnqr mu ^ourra dv ^i' \*<\. l.T", pa;;- 110. 



BR i75 

de qae existia am príncipe christào do centro d' Africa, e ao sudoeste d'este 
paiz. 

«Os habitantes referiam, que era um principe muito poderoso, o qual sa 
chamava Ogané, e que seu reino ficava a perto de duzentas e dncoenta lé- 
guas de distancia de Bením. Accrescentavam que na sua eleva^ ao throno 
08 reis de Benim recebiam d'este principe uma cruz de cobre, e um bastão 
ewo. 

•Parece que esta palavra Ogané é uma corrupção de João ou de Jeanoy 
tituk), que os christaos orientaes deram aos reis d'Abysslnia. Mas é bem diffl- 
cil de se acreditar que houvesse relações entro o império de Abyssinia e o Be- 
nim, não somente por causa da distancia, mas porque o intervallo, que os se- 
para, é habitado pelos povos os mais selvagens do mundo, os gallas e os shan- 
gailas. 

«Com effeito a corte da Abyssinia residia n'aquelle tempo em Shoa, pro- 
vinda (tonteira do sudoeste, e seria possivei que tivesse estendido sua poten-* 
cia peio paiz de seus bárbaros visinbos até perto de Benim, que está nas mar- 
gens do mar Atlântico. 

«O rei de Portugal estava resolvido a não demorar por mais tempo a des- 
cdberta dos legares, que produziam especiarias na índia, e d'uma passagem 
para se dirigirem por terra para a costa oriental d' Africa. Covilhã e Paiva fo- 
ram pois encarregados d*esta missão, e munidos de credenciaes se dirigiram 
a Alexandria. ^ Deu se-lhes ao mesaio tempo uma carta redigida debaixo da 
4ireeção do príncipe Henrique, e se lhos recommendou que a verificassem, e a 
corrigissem conforme o que vissem. Deviam informar-se onde se faziam os 
principaes mercados de especiarias, principalmente de pimenta; quaes os ca- 
minhos por onde se enviavam estas mercadorias á Europa, d'onde vinham o 
ouro e prata: e finalmente o rei lhes tinha recommendado que se informas- 
sem, se era possivei dirigirem-se á índia dobrando o promontório meridional 
da costa d'Aflrica. 

«De Alexandria os viajantes portuguezes se encaminharam para o Cairo, e 
depois para Suez, na extremidade do mar Vermelho; e tendo-se aggregado a 
uma caravana de mouros, caminharam por Aden, cidade rica e commercial 
áqnem do estreito de Babelmandeb. Alii separaram-se. Covilhã singrou para a 
índia, e Paiva se fez de vela para Suakem, ilha pequena, e de pouco commer- 
cio, situada sobre a costa de Berbéria. De Paiva apenas sabemos, que queren- 
do ir mais longe, perdeu a vida, e nunca mais se ouviu fallar n'elle. ' 

«Covilhã mais feliz chegou a Calicut e a Goa. D^alli atravessando o oceano 
indico, foi ver as minas de Sofala. ' Depois tomou para Aden e Cairo, onde, em 



< A esta missão se referiu, ba pottco« dias, Lesscps n*uiii discurso na Sociedade Geo- 
giaphica de Paris, a respeilo da descoberta da Austrália, pelo português Heredia. 

' Bruce~-Foy<i(/(u aux sourccs du NU. vol. 4.*, pag. 168. 

* «Um dia fallei ao principe de Shoa a respeilo da historia, que se contou aos por- 
tuguezes na occasi(iC da dcscoherta de Benin. Perguotei-lhe se era verdade, como a tal 
historia o referia, que os negros de Benin tivessem relaroes com um estado cbristio, 



176 Bí^. 

vez de encontrar, como esperava, seu companheiro Paiva, recebeu a noticia de 
sua morte. Foi encontrado no Cairo por dois judeus, chamados Abraham e Jo- 
aepb, que lhe traziam cartas do rei d'Abyssinia. Então entregando a Âbrahani 
suas respostas, conservou Joseph comsigo, e tomando a tomar o caminho de 
Aden, dirigiu- se a Ormuz no golpho Pérsico. Alli Covilhã separou-se do judeu 
Josepb^que se aproveitou d' uma caravana, que atravessava o deserto para ir a 
Alepo. Covilhã não tendo outro projecto mais que visitar a Abyssinia» volloa 
ainda a Aden, e passando o estreito de Babelmandeb, desembarcou finalmente 
nos estados do rei d^Abyssmia. 



situado DO interior d'Afrlca, que elles reconheciam como soberano, e de quem recebianl 
a iofestidura de suas províncias? Se existiam taes relações com o Shoa, ou alguos vestí- 
gios de que tivessem existido outr*ora? E se havia finalmente algum outro estado christao 
ou judeu na vísinhança do logar, ao qual o que se diz dos negros de Benin, podesse ap- 
plícar-se? Amba lassus me respondeu: Que em Sboa nSo se conhecia Bem*D; que até nlisea 
ouvira pronunciar este nome, nem citar algum costume similhante áquelle, de que Calla; 
quenão conhecia nenhum outro estado christão mais para o interior ao sul seofto o reino 
de Narea, do qual uma grande parte estava conquistado pelos Gallas, nacSo pagã. Ac- 
crescenlou que os negros visinhos de Shoa eram excessivamente ferozes, cruéis, mais 
perigosos que os Gallas, e eguaes aos Shangallas d'Âbyssinia. Os outroé povos, toraoa 
elle, eram em parte Mahometanos, e quasi todos da naçSo dos Gallas, poique alguas 
doestes abraçam a religião de Mobomet. Porém não fazem trafico algum com o Oceano 
apezar de conhecerem o commercío do Oceano lúdico, por ficar mais perto d*elles, e pnr 
lhes levarem os negociantes mouros mercadorias da índia. Porém os Gallas iuTadiímni 
quasi todos os paizes, que separam estas nações da costa do mar, e fazem com que o 
caminho das caravanas seja muito perigoso.» (Bruce — Voyages aux sourcet du NU, vol. 
10.S pag. 161. 

«Foi em Gondar que os jesuitas portuguozes coostruiram sua primeira e mais ma- 
gnifica casa, quando emprebenderam a conversão do rei daÂbyssínia. Socinios, que rei- 
nava então deu-lheso terreno, e forncceu-lhes o dinheiro. Fizeram o convento e a egreja 
com suas próprias mãos, c a obra de talha em cedro muito bem feita. O monarcha zeloso 
da egreja catbolica, quiz depois ter uma casa de prazer no mesmo sitio. Fizcram-lha os 
jesuitas e elle recompensou-os magnificamente. É um dos mais bcllos sitios do mando. Na 
frente prolonga-se o vasto lago Trana. As planicies ricas e ferieis do Dembea, do Gojam, 
do Maits>ba o rod(iam, e as vistas não são alli embaraçadas senão pelas altas montanhas 
de Begander s de Woggira.» (Idem, idem, vol. 9.o pag. 17.) 

«Nenhum dos primeiros portuguezos (vol. 9.o pag. 201) quo chegaram á Abys8inia, 
nem Covilhã, nem Rodrigues de Lima, nem Ghrislovam da Gama, nem mesmo o pa- 
triarcha Afl^onso Mendes viram as nascentes do Nilo, nem disseram lel-as visto. Pedro 
Paes veio depois, no reinado de Denghel, e a elle é quo se attribuc Cí^ta honra. You 
considerar por um momento »e eslas pertensões iião bem fundadas. 

«Paes deixou uma historia manu^criplii da missão dos jesuilai-, c das coisas mai;» 
notáveis, que no seu tempo se passaram na Abyssinia.» 

•Esta historia está escripta em dois grossos volumes em oitavo n'um eslylo simples e 
natural. Espalharam-se copias por todos os coUegios e seminários dos jesuítas; e na oc^ 
casião da suppressão de sua ordem cncontraram-i^e copias cm todas as suas bibliolbecas. 

•Atbanasio Kírcher, jesuíta, que se tornou celebcrrimo pela variedade de seus co- 
nhocimcolos, pelo numero de ^eus escriplo.v c muilo mai^* pelo arrojo <.'om que assevera 



BR 177 

«>0 príncipe chamado Alexandre estava então á frente de suas tropas para 
obrigar vassallos rebeldes a pagarem Ibe o tributo, que lhes tinha imposto. 

«Recebeu Covilhã com bondade: porém a curiosidade, mais que o proveito 
que podia tirar d'uma tal embaixada o interessou em favor dos portuguezes, 
e levou-o comsigo para Shoa, onde a corte então residia. 

iGomtudo Covilhã não tornou mais á Europa. Uma politica cruel não per< 
mitte que os estrangeiros, que poseram o pó na Abyssinia, possam d'alli sair 
Covilhã alli casou; e conservando seu favor no reinado de difíferentes principesi 
chegou aos primeiros empregos, que desempenhou sem duvida com a su- 



factos infcrosimeis, e contrários a todas as noções, que temos em bisloria natural; Atha- 
nasio Kircher é o primeiro, que publicou uma dcsciipc^odas nascentes do Nilo, que diz 
ter tirado do Diário ou Historia do Paes. 

•Com tudo devo observar que lai não acbet nas Ires copias da Uisloríade Paes, que 
Tl na Itália, no roeu regresso da Abyssinia- A primeira, que vi estava em Milão, onde 
por intervenção d^alguns amidos obtive a facilidade de a examinar com todo o descanço. 
Yi uma outra em Bolonha; e a terceira vetu-mo ás mãos em Roma. Percorri-as rapida- 
mente, e depressa me dirigi ao sitio, em que julgava dever estar a descripção, que pro* 
cnrava, porém não a encontrei. Todavia não me arriscarei a dizer minha opinião por 
este anico exame Appresentarei outras provas em confirmação de meu parecer, e demons- 
trarei que o missionário Paes não falia da descoberta, da qual lhe querem dar a honra, 
em nenhuma de suas obras, excepto n'aquella, que passou pelas mãos de Kircber. Af- 
foBso Mendes chegou á Abyssinia cousa d'um anno depois da morte de Paes. Masapezar 
de^que a descoberta das nascentes do Nilo seria muito lisongetra para elie, para o Papa 
e para o rei de Hespanba, e para todos seus grandes patronos d 'Itália e de Portugal; 
ainda que escreveu a historia de seu paiz, e de quanto dizia respeito á sua missão, d'uma 
maneira muito circumstanciada, e com muita sensatez, nunca disse coisa alguma da pre- 
«endlda viajem de Paes às nascentes do Nilo: e todavia serviram-se da aoctorídade mesmo 
d*Aironso Mendes para espalhar esta historia em Roma, e em Portugal. Balthazar Telles, 
Jesnita muito sábio* escreveu a respeito da Abyssinia dois volumes em folio, nos qoaes 
te encontra muita ingenuidade e imparcialidade, attendendo ao espirito d*aquelle tempo. 
Bedara que soa obra é feita conforme as memorias do patríarcha AflTonáo Mendes, e os 
dois volumes de Paes, assim como conforme as relações e as carias d 'alguns outros jesui- 
tas, que lodos tinham estado em differenles sítios. Telles tinha tido uma plena communíca- 
çâo de todos estes oscriptos. Principalmente não despreza as relações annuads de Paes 
desde 1598 até 1622. £ com tudo não fez nenhuma menção das nascentes do Nilo, apezar 
de não deixar de se espraiar com complacência sobre o mérito e os trabalhos de alguns 
missionários, durante o longo reinado do sultão Segued, que occupava metade da sua obra. 

«Km seguida ao que acabo de observar para provar que Paes nunca foi ás nascentes 
do Nilo, nem pretendeu ler la ido, quero transcrever a relação, que Paes faz d'esta via- 
gem imaginaria, ou antes a relação que o padre Kircher lhe empresta. Se houver um 
anico de meus leitores, que possa accreditar que um homem de (^enio, tal como Paes, trans- 
portado por acaso junto d'essas nascentes, pulando de prazer, e sentindo luda a impor- 
tância de sua descoberta, como elle parece seotil-a, possa ter feito a descripção, que se 
lhe atlribue, consinto em ser considerado sómeute como o segundo depois d 'este missio- 
nário. 

• Porem, antes de copiar esta descri|>ção, resta-me fazei uma obicrvaçao a respeito d as 
datas da viagem. O dia memorável, que a€ marcou para o da descoberta, e Sldabnl de 

TOMO I i2 



178 BR 

perioridade, qoe um homem, coja edusaçào tinha sido esmerada» devia ler 
sobre om povo ignorante e bárbaro. Escreveu amiudadas vezes ao rei de Por- 
tugal, que por sua parte nada poupou para continuar uma correspondência 
sem interrupção. No diário, que Covilhã enviou ao monarcha, descreveu cuida* 
dosamente os difTerentes portos da índia, que tinha visto, a situação e a rique- 
za das minas de Sofala. Disse que este paiz era mui povoado, e cheio de cida- 
des opulentas. Exhortou o rei a proseguir a descoberta d'uma passagem pelo 
sul d'Africa, passagem, que elle sustentou ser sem perigo. Asseverou, ser o ca- 
bo conhecido na índia, e finalmente remetteu um mappa, de que um moiro 



1SI8. N'ei(ta época as chuvas começaram já a cahir; e a estação sendo doentia, não se 
põem exércitos em campanha sem uma extrema urgência. E* só depois do mex de Sep. 
lembro até fevereiro que os abyssinios se afastam de seus lares, e vão para a guerra. 

«Ha na Abyssinia duas nações d*Agows; uma éados Agows de Damot. que habitan 
09 arredores das nascentes do Nilo; a segunda é a dos Agows, conhecidos debaixo do 
Tcheratz-Agows, que vivem perto das nascentes do Tacaizé. Vemos na historia do 
nado de Socinios, qne elle marchou dilTerentes vezes contra os Agows. A primeira vez foi 
em 1608, no primeiro anuo de seu reinado; eos ann^s Ethiopios dizem que fora coalra 
Tcberatz -Agows. Em 1611 Sosinío» foi combater ainda os mesmos Agows de Lasta; de 
sorte que, se Paes tivesse sido morto com este principe, não teria podido ver outras 
nascentes, senão a do Tacazzé. A terceira expediçile do rei foi em 1625, dirigida coatra 
Sacala, Geesb e Ashoa. Os Gallas fizeram uma invasão no Gojam; mas retiraram-se, 
porque o exercito real marchou contra elles, e tornaram a passar o Nilo, defronte do paia 
d'ellet. Socinios avançou então contra os Agows de Damot, e deu batalha aos habitaates 
de Sacala, d'Asboa, e de Geesh, que viviam cm volta das nascentes do Nilo. Foi então 
i|ue Paes, ou outro qualquer, que estivesse na comitiva do imperador, teria podido ver 
n»tas nascentes com segurança, pois que o exercito real estava acampado não longo 
d'aquelle sitio, talvez mesmo ao lado das na:^centes, pois o logar seria perfeitamente ooa- 
veniente para um acampamento. Porem Socinios achava-se alli em 1625, e Paes tinha 
morrido em 1622. 

«Agora vou copiar a descripção que Kircher fez das nascentes do Nilo, diseodo qne a 
tinha tomado de Paes, e submetto-a a todas as pessoas sensatas para julgarem se ella 
parece ter sido traçada por uma testemunha ocular; se ella não pode applicar-se á nas- 
cente de qualquer rio, ou de qualquer ribeiro, como o Nilo se finalmente não é eice»» 
sivamente vaga para dar uma idca clara do que se quiz fazer conhecer. 

«Os Ethiopios dão hoje ao Nilo o nomo de Abaoy. Tem nascimento no reino de Gojanz 
e no districto de Sabala, cujos habitantes se chamam Agows. O nascimento do Nilo ficji 
na parte Occidental do Gojam, e no sitio o mais elevado d'um valle, que se parece com 
uma grande campina cercada do altas montanhas. Achando-me n^esta terra a 21 d'Abril 
de 1618 com o rei, e exercito, subi até o sitio, onde está a nascente, e observei tudo coa 
muita altenç^o. Descobri primeiramente duas fontes redondas, tendo cada uma um diâ- 
metro de coisa de quatro vezes a largura de minha mão; e contemplei com um prazer 
extremo o que nem Cyro, rei dos Persas, nem Cambyses, nem Alexandre o grande, nom 
o famoso Júlio César poderam descobrir. Estas fontes não correm na esplanada, que está 
no cume da montanha; mas a agua nasce no pcdes^ta montanha. Estam a coisa d'umtiro 
(ie pedia de di^lincia uma da outra. Discm oa habitantes estar toda a montanha cbeia 
dagua, u accrc^ccntam que toda a planicio dos arrabaldes fluctua continuamente, prova 
•jcrlaquc tia muita a?uu por debaixo. EVíla a razão, pela ({iiul em vez de transbordar 



BR 179 

lhe tinha feito presente nó qual o promontório estava bera marcado, assim como 
todas as cidades, que bordavam a costa visinha. 

iCom estas iustrucções o rei de Portugal mandou armar três navios, cujo 
commando deu a Bartholameu Dias, recomendando-lhe que se informasse bem 
do rei da Abyssinia, quando se achasse nas costas ocidentaes d'Africa. Dias 
foi até ãl"» e meio de latitude sul, e depois de alh' ter posto um padrão, tomou 
posse d'aque]le paiz em nome d'este príncipe. Fez-se de vela, e entrou na Bahia 
dos Pastores, nome que deu a este logar por causa da multidão de bois, que 
vio em terra. Não sabendo muito bem para onde dirigia sua navegação^ Dias 



pelo alto da montanha, a agua abre com Tíolencia uma passagem por baixo. O povo do 
paii, bem como o imperador, que estava alli á frente do seu exercito, disseram que n'esle 
aoDO a terra tremia menos em volta d'estas fontes, por causa da secca, mas que nos annos 
antecedentes tremia a ponto que era muito perigoso approximar-se d'ella. A esplanada, 
qoe fica DO alto da montanha, tem coisa d'nm tiro de funda de largura. Os naturaes ha- 
bitam DO pé da montanha, do lado do occidente, a uma Icgua da fonto. 

«Este sitio cbama-se Geesb; e a fonte parece estar distante de tieesh um tiro de peça 
d^artilheria. Finalmente a planície, onde a fonte está situada, é d'um accesso difficiliimo 
de todos 08 lados, menos do norte por onde se pode la subir facilmente. 

•Tomarei a liberdade de fazer algumas reflexões, mas que bastarão para provar que 
esta descrípção nfto pode ser de Paes, nem de nenhuma outra pessoa, que tenha viajado 
pela AbyseiDÍa. Em primeiro logar não ha por estes sítios logar algum conhecido peio 
nome de Sabala, mas sim um que tem o nome de Sacaia. Sacala em Imgua Ethiopica 
significa terra muito alta, d'onde a agua corre de todos os lados, tanto a este, como a 
oeste, a norte e a »al. Assim os telhados das casas em forma de cone são chamados 8a- 
Gtlftj por^oe na occasião de chover, corre a agua egualroente de ambos os lados. Assim 
eorre doe piocaros das montanhas. Assim se vé em Sacala o Nilo correndo para o norte 
ao ^tseo qoe varias outras nascentes formam o lago e ribeira de Temsi, e precipt- 
tam-ee para o sal na planície de Ashoa, trezentos pés acima do nível da montanha de 
Geesb. 

•Nem Sacala nem Geesh estão a oeste do Gojam, nem se approxímam d*e3ta direc- 
ção. Para ir de Sacala ao Gojam é necessário primeiramente atravessar as altas monta- 
nhas de Litcbambara, depois as de Amid-Amíd; descendo-se de Amid-Aroid entra-se na 
província de Damot, e depois de se ter atravessado era toda sua largura, cbega-se ás 
IroBteiras occfdentaes do Gojam. Os erros, que se encontram na descrfpção attribuida 
a Paes, s&o de tal forma, qae é impossível terem escapado a am homem, que tivesse es- 
tado n'aqaelles togares, e fazendo parle d'om exercito, no qual cada officíal, cada sol- 
dado o eonheciam cdmo o favorito do monarcha, e se teriam apressado a ministrar lhe 
informações seguras. Não havia até ninguém n'aquello exercito, que não tivef>se oonsi- 
derado como nma bonra tel^ Paes somente empregado a ir-lho buscar ama palba no 
mais elevado píncaro das montanhas d'Amid'-Amid. 

«Todo é inteiramente falso na descrípção de que acabo de fallar, tanto em relação 
ao aomero e á posição das nascentes, como á sitoação da montanha, e da aldeia de Geesb. 
Tialia nas mãos a pretendida descrípção dê Paes, quando fiz o exame das nascentes do 
Nilo, • dos togares adjacentes. Medi todas as distancias, e achei-as todas imaginarias. 

•Não é faeil conceber porque Paes observa: «Que a agua, que acha ama saída no 
pé da ioiontanba, não corre do alto.» Seria bem pura extranhar quo fos50 d'oatra sorte; 
e não duvido que uma montanha fazendo c^gui('>bur a a^^ua prlo «cu cume; quando nAn 



180 BR 

chegou ao rio do Infante, depois de ter alcançado aqacUe formidável cabo, ter* 
ino dos desejos de todos os portugnezes. AUi querendo approximar-se da terra, 
foi por um mar tempestaoso, e contrariado pelos ventos; porém obstinoa-se 
em descobrir a costa, e cbegon Onalmente á vista do cabo, a que dea o nome 
de Promontório das Tempestades, por cansa de tudo quanto seu navio tinba ti- 
do que soíTrer para alli chegar. 

«O grande Gm d'esta viagem estava em summa realisado. IMas c seus com- 
panheiros tinham passado por muitos perigos; c por isso na sua volta não se 
deixou de fazer jastiça «â sua intrepidez, e constância. Estes navegantes tínbam 



agua tinha uma saida lirre pelo pé da montanha, fosse a coisa mais curiosa, que os doi» 
jesuítas tivessem podido vér em sua viagem. 

«Hlas de qual montanha falia o missionário? NSo a nomeou: disse pelo contrarfo, 
que as nascentes do Nilo estavam situadas na parte mais alta d*uma planície. Se issin 
era, esta maneira de descrever as coisas dSo poderia ser entendida sem um ioterprete. 
Paes diz depois que a montanha está cheia d'agua, e estremece; e que ha uma aldeia al- 
guma coisa abaíio do cume. Emquanto a mim nada vi de tudo isso. Qualquer que seja 
a montanha, da qual Paes quer fallar, pôde realmente haver alli terrenos frios e homi- 
dos: mas se é a respeito da montanha de Geesh, posso assegurar que não exista aldeia 
a mais d'um quarto do légua de seu âmbito. A aldeia de.Gee»h está a meia subida d'am 
rochedo, d'onde se desce para a planície d'Asha. O pé d'este rochedo, isto é, a ptauicie 
está a trezentos pés abaixo da base da montanha de Geesh, e do sitio d*onde brõuni as 
nascentes do Nilo. 

•Paes diz em seguida que ha Ires milhas da aldeia de Geesh ás nascentes. Meu quarto 
de circulo estava cm minha tenda, posto perto da aldeia: por isso era-me nccessarío me- 
dir a distancia afim de poder fazer a compensação, c calcular minhas observaçi^es, como 
se tivc>sem sido feitas nas próprias nascentes. Eu caminhei desde a margem do cume do 
rochedo ale ao centro da esplanada verdejante, d*ondc brota a principal nascente, e achei 
1760; e é a isso que Paes chama uma légua, ou o maior alcance d 'uma bomba. Pelo que 
me toca, creio que é impossível que alguém tendo estado nos legares, commettesse taes 
erros, ou então a narração devia ser considerada como não tendo exactidão. 

•Terminarei por uma obi^ervação, que prova, creio o invencivclmente, que Paes neo- 
ca viu as nascentes do Nilo. Elle diz que u campo, no qual estão situadas estas naccee- 
los, é d*um accesso diflScil, c que a subida c muito íngreme, excepto do lado do norte. 

•Mas se se reflecte nas primeiras palavras d>sla descripção, achar-ee-ba que é a 
descida e não a subida, que deve ser custosa; pois as nascentes do Nilo flcam n*um Talle, 
e desce-se antes para um valle, do que se sobe para elle. 

«Todavia, suppondo que seja um valle, e que n'este valle haja um campo, e que 
no meio do campo se erga uma montanha, equo sobre a montanha brotam as nascentes, 
direi ainda, que, se estes togares são inaccessíveis, é principalmente do lado do norte, 
por onde se sobe para alli pelas planícies de Gontto. Quando vimos do este, sobe-seper 
Sacala, e pelo valle de Litcbambara; e quando se sae da planície d'Ashoa para o meio 
dia, tem-sc o rochedo perpendicular c escarpado de Geesh, coberto de arbustos esptnbe- 
sos, de arvores, e de bambus, que occultam a entrada de cavernas medonhas. Ao norte 
temos as 'montanhas do Aforroasha, cobertas egualmente de todas as espécies de arvores, 
de plantas armadas de espinhos, o principalmcnic de kantulTaíi. Estes logares estão além 
d'i><o cheios de feras, c de grande numero de enormes macacos de cabcllo comprido, que 
muitas vc/e> andam em pé como homens. N'estas montanha*^ cscarpadat) nlo se enron- 



experimentado lanlas icmposiados; earro.^lado com tantos perigos, que duran- 
te o resto da vida do rd Joào, nào so cossou de failar d*este terrivel cabo. Com 
tado b rei trocou o nome do Promontório daâ- Tormentas, que Bartbolomeu 
Ibe tinha posto, e quiz que se chamasse Gabo de Boa Esperança. 

•Todavia apezar de se achar descoberta a passagem do cabo, não faltaram 
poderosos na corte, que queriam que se renunciasse à empreza. 

«Uma das razoes, de que se serviam em appoio de sua opinião é verda- 
deiramente curiosa; e, se os portuguezes não tivessem depois mostrado o 
maior heroísmo, teriamos direito a crer que não existindo o príncipe Henrique, 



ftram mais que sendas muito estreitas, que parecem ler sido feitas para cabras, e outros 
anímaes selvagens; quando se caminha por estas sendas ellas conduzem muitas vezos á 
borda de precipícios, e somos obrigados a retrogradar para achar um melhor caminho. 
Emfim Tíndo de este, dos arredores de Zeegam, e da planície, onde o rio faz tantas vol- 
tas e zig-zags, acha-se o caminho menos custoso, e comtudo os que sobem ás nascentes 
do Nilo por aquelle lado, não acham ainda que seja muito fácil. 

«Nfto me resta mais que uma coisa a notar; é que nenhum dos jesuítas, quer seja 
Paes, quer seja algum outro missionário, faz uso d'esta descoberta na geographia, nem 
• applicou a fixar a latitude, nem a longitude de nenhum logar. 

•Os historiadores doesta sociedade litlerata não julgaram mesmo a propósito appro- 
veilarem-se dos documentos, que lhe tinham apresentado para fazerem menção da via- 
gem de Paes; porque não teria sido fácil sem duvida sustentar só com a auctoridade de 
Kircber, que escrevia em Roma, a realidade d'uma descoberta, que elle attribue a Paes, 
e qve não se acha nos escriptos do próprio Paes. Se esta viagem fosse verdadeira, ter- 
8»-hia pelo menos publicado o itinerário; e a maior parte dos iesuítas eram assaz ins- 
troidos para determinarem, ou bem ou mal, a latitude e a longitude de alguns legares 
«toados n*e6tes paizes, onde elles residiram perto de cem annos Accrescentemos que ne- 
nhum membro d'esta sociedade disse em tempo algum palavra a respeito da idolatria, 
que reina nas cercanias das nascentes do Nilo; e no emtanto parece que quanto diz res- 
peito á religião, não lhes poderia ter escapado. 

•Se os jesuítas tivessem querido ir ás nascentes do Nilo, teriam podido partir de 
DaDCOKj-epor meio d'uma bússola, cujo uso era onlão bem conhecido dos portuguezes, 
ter-lbos-hia sido fácil encaminbarem-se para alli, e traçarem exactamente sua marcha. 
Qoaodo habitaram seu convento de Gorgora, não estavam a cmcoenta milhas de Geesh. 
Eogaoaram-se comtudo dez milhas, dizendo que havia mais de sessenta milhas de dis- 
tapeia entre estes dois legares; porém este erro provém de accreditarem que as nascen- 
tes do Nilo estavam na província doGojam, e que do Gojam « Gorgora ha effectívamenle 
sessenta milhas. 

«Quando, depois de ter bem determinado a latitude e a longitude de Gondar, eu 
parti para me encaminhar ás nascentes do Nilo, pensei que o conhecimento geographico 
dos togares era o ucico fructo, que a posteridade poderia tirar de minha viagem, e que 
valia mais traçar um simples itinerário, que descripções mais agradáveis, mas menos 
oteis. Em conformidade com isto marquei diariamente a duração da minha marcha com 
o relógio na mão, e regulei a direcção d*elles com uma bússola. Tomei a altura do sol e 
dasostrellas em Dmgleber, nas margens do Belti, e cm Goutt; e finalmente determinei 
a latitude das nascentes do Nilo por meio de vai ias pbservaçOes, e sua longitude por 
uma observação única, e mui favorável. Retirei-me das nascentes do Nilo por um cami- 
nbo dífferenfe d'uquelle, que tinha tomado, quando para lá me dirigi. Segui a margem 



^«2 BR 

o zdo peU religião e o espirito de conquista úalkx cfnaliwíme affroQxado 
n'esfa naçio. 

cOs detractores das descobertas diziam pois, qoe a passagem a ladia peto 
Cabo de Boa Esperança privando os estados Maorilanos do commertio das as- 
pectarias induziria estes povos a rennirem-se para exterminar os portngnens. 
Porém o tirar-lhes este coramerciofdra com efleito a ambição do piincipeHeB- 
riqae. Qoería a mina dos moiros, como chefe da ordem de Chrislo, ordem 
estabelecida contra os infiéis, e mais particnlarmente contra os sectários de 
Mabomet 



•pposta do no e obserrei a altura do mI lio loo^e do coiTcoto de Welled-AMo, ia 
própria casa do Sbalaba Welled Amlac. Xanfoei taakea na aiaba caria todas as aldeias, 
^oe e« tioba atraTCásado, ob Yisto a poaca dbtaocia do camiako, beai coso o gtaade 
■aoiero do rios, qie me foi nocossarío paisar. Qfttm laB(ar os olbos para a MÍaba pe- 
qQcna carta, aio podorá fomar mais qoe asa idéa imperfeita dos iaconmodos «|»ooBi 
me CQStOQ. Todavia jolgoei-me amplameote recompensado de meãs tnbattnwr, ^«aado 
comparei cm Goiídar o calculo da minha jornada, conforme a bnssola, com aqatllo qae 
me de? ia dar segundo minhas ebserraçSes astronómicas. Achei que nio me tiaba eaga- 
nado $eo2o em coisa de noTe milhas sobre a lalitnde, e sete milhas sabre a loagítida, 
erro de mui pouca monta n*uma grande carta, e quasi imperceptÍYcl o^oma eirta rada* 
lida. Certamente nem Pedro Paes, nem algum outro homem, que oase aspirar a ama des- 
coberta por tanto tempo, e tio ardentemente desejada, teria podido tuer o qae m ia; 
de sorte, qoe partindo de Goni^ora ha metade menos de caminho, do que partíado de 
Gondar. Mas quando fosse verdade qoe Paes emprebeodeu a descoberta, da qual Kirther 
lhe dá a honra, não era menos verdade, qoe linha deixado o mondo na mesma ignora»- 
cia, em que o tinha achado, pois teria viajado como um ladrão, que uescobriado as nas- 
centes occultas do Nilo, para eilas teria olhado, e de repente teria deixado cair • vea so- 
bre ellas, como se tivesse receio de as vér. 

«LodoUe Yossio divertiram-se muito coma historia d*esta descoberta; acreditam q«e 
Kircber a fez paia Paes, do qual não citam o nome, mas a quem chamam o descobndor 
dos rios. 

«Dizem ser muito ridículo ima.;:inar que o imperador dWbyssinia fiiesse vir um jo- 
suita da Europa, para ser o antiquário do seu paiz, para lhe ensinar que as nascestes 
do Nilo estavam nos seus estados, e moslrar-lhe o Ingar d'onde ellas brotam. Ma^ a cri- 
tica (Je Vos>io é despropositada. Nem Paes nem Kircher, nem quem quer que foi o aac- 
tor d 'este livro, onde se falia d e<ta descoberta, nunca pretendeu que tivesse havido no- 
cessidadc de ensinar ao imperador d^Âbjssioia o logar, em que estavam as nascentes. 
Conta somente que os Agows de Geesh lhe disseram que a montanha tremia no tempo 
da secca, e que mesmo tinha tremido naquelle anno, e que o imperador, que estava pre- 
sente ao dito dos Agows. o tinha conGrmadu cora seu próprio testimunho. Não é iste di- 
zer que Paes ensinou o imperador, cujo exercito e>tava acampado perto de Geesb, qae 
as nascentes do Nilo estavam em seus estados, o que eram aquellas mesmas, que elle 
estavá vendo. í James hrwce —Voijage anx sourcfi du .Yi7, vol. 9.», pag. 201 a StiO.) 

• <>»nla-se que o celebre Affonso dAIbuquerque, vicc-rei das índias, escreveu muitas 
vezes ao rei de Porlu^'al, I) Manuel, para lhe mandar alguns habitantes da Madeira, 
homens co>tumados a nivelar aterra, para prepararem plantaçOes de canna de assucar. 
Albuquerque queria servír-se dellcs para executar a empreza que formara de lançar o 
Nilo pura o mar Vermelho, cuni o Gm de esfomear o Eíiypto. O filho de ^Albuquerque 



BR 183 

<D. Manoel, que occupava entào o reino de Portugal desviando-sc de erros 
vãos, resolveu seguir o projecto, o mais nobre e o mais arrojado, que uma na- 
ção poude jamais emprebender, e que, apezar de ter custado já muito tempo e 
dinheiro, tinha também já começado a apresentar bellos resultados, superiores 
a qnanto se esperava. Não teve necessidade de andar a procurar muito tempo 
jjMura iançar as vistas sobre Vasco da Gama, homem distincto pela sua coragem 
e por uma grande presença d'espirito. Escolheu-o para commandar esta fro- 
ta, e entregou-lhe na sua partida o diário, e o mappa da índia por Pedro da 



refere este caso inverosimil, e accrescenta que nio duvida que seu pae se tivesse saldo 
)»ein, porque elle sabia d'ummodoÍDCODtestavel, que, quando os árabes do alto Egypto es- 
taTam em guerra com o sultão, ioterrompiam o curso do caqal, que está entre Bonna, 
no Egypto, e Cosseir sobre o mar Vermelho. 

«Telles e Le Graud ao referirem as opiniões de Albuquerque e de seu filho, fazem 
«laitos elogios ao filho á custa do pae, mas sem duvida nao teem razão. 

•Em primeiro logar vimos na historia d'Abyssinia, que tudo quanto D. Manuel 
ponde fazer, foi enviar quatrocentos homens em soccorro do rei d'Abyssinia, cijos esta- 
úoè estavam eotSo quan totalmente invadidos pelos turcos e pelos moiros. Não é pois 
da lodia que se podia esperar a execução d'oma empreza tão grandiosa e tão difficil, 
como a de desviar o curso do Nilo. Depois o joven Albuquerque eogana-se evidentemente 
BO facto que assevera. 

«Nunca houve canal entre Cosseir e Cana. As mercadorias que vêem pelo mar Ver- 
nelho foram sempre transportadas por caravanas. (Idem, idem, vol. 9.®, pag. 355. 

•Diz-se nos escriptos dos jesuitas que os Agows adoram as caonas* Yeja-se a nota- 
rei carta que o ras Sela Cbristos dirigiu ao imperador Socinios, e que está inseria em 
Baltbazar Telles; tomo %.<>, pag. I9G. Porem eu nunca observei n'este povo algum vestí- 
gio de tal culto. (Pag. 100.) 

«A infanteria abyssinia tem estandartes pintados de duas cores differentes, e com ti- 
ras, qae se cruzam em amarelio e branco, ou em vermelho e verde; porém os estandar- 
tes 4a cavallaria teem um leão vermelho, verde ou branco. A primeira invenção dMslo c 
attribuida aos portuguezes. (Idem, idem, vol. 8.% pag. 104.) 

«Vou agora contar a relação que faz do baptismo annual dos abyssioios Alvarez, 
capellão do embaixador portuguez D. Rodrigo de Lima. 

«O rei d'Abyssinía linha convidado D. Rodrigo de Lima a assistir á celebração da 

Epiphania. Os portuguezes encaminharam-se a milha e meia do acampamento, para a 

borda d'um lago desiinado para a cerimonia. Alvarez diz que todos aquelles, que encon- 

.travam do caminho, lhes perguntavam se se iam baptisar, ao que este capellão respon- 

liia que oão, porque tinham sido baplisados á nascença. 

«De noite, diz elle, reuni u-se um grande 'numero de padres, que se pozeram a can- 
lar, ou para melhor dizer a mugir com a intenção de abençoarem a agua. Depois da meia 
noite começou o baptismo. O abuna Marcos, o rei e a rainha foram os primeiros a en- 
.trarem no lago. Tinham cada um d'elles uma porção de panno de algodão em volta da 
ciaUira; porém o povo não eslava tão coberto. Ao romper do sol a cerimonia estava quasi 
«ícabada, e quando Alvarez chegou ao lago, viu que estava cheio d*agua benta, e que se 
tiaba deitado D'elle muito azeite. 

«Parece, segundo esta passagem, que o capellão portuguez não estava ainda no la- 
, go, quando a cerimonia estava mais de metade feita, e que elle não foi testemunha nem 
. da Jbeoção da agua, nem da ímmersão do rei, da rainha c do abuna. Emquanto ao azeite 



m BR 

Oivilliã, com cartas para todos príncipes indíaoos, úm qna<^ tinha oaviílo 
fallar. 

«Porém, o que Vasco da Gama fez na soa partida, nào annonciava nem om 
guerreiro, nem um grande homem; suas procissões, seos votos, soas momiee», 
soa devoção apparatosa e digna d*iim verdadeiro supersticioso, todo sea pro- 
cedimento finalmente parecia mais dirigido a desanimar seus soldados, do que 
a os animar a servir valentemente soa pátria. 

«Lembrou-lhes muito inconvenientemente as tempestades, que Dias tínha 
sofl^do perto d'aqaeUe terrível cabo que iam dobrar, e não fez mais que per- 



deitado na agoa, não qoero contradiíer pofitÍTamente Àharef, porqoe, ainda qae eu li- 
Tesse chegado cedo, qaando fui ? ér o baptismo d'Adowa e o de Habha, seria posrifel 
que se tívesie praticado a mesma coisa, e que a obscuridade me tÍTesse impedido de vér. 
Comtudo, nunca ou? í díier na Abyssinia que se empregasse o azeite para esta cerimo- 
nia. Continuemos a narracAo da Alfares: 

«Tinha-se erguido um ampbitbeatro, onde o rei estafa assentado, de maneira qee 
linha a face voltada para o lago. O rosto do monarcba estava coberto com om ?e« 4e 
tafetá atui; e um velbo, que era o aio doeste príncipe, tinha-se metlido na agoa até aos 
bombros, nú como a mão, e meio morto de frio, pois tinha caído muito gelo doraaie a 
noite. 

«Este felbo pegava na cabeça de todos aquelles, que se aproximavam d'eBe, e os 
mergulhava na agua, dizendo-lbesem língua abyssinia: Eu te baptiso em nome do Padre, 
do Filho e do Espirito Santo. 

• 4 província de Shoa, onde o rei d'Aby89Ínia estava então, achando-se aos 8* de la- 
titude norte, e o sol if sul de soa decli nação meridional, avançando para o norte, este 
astro de¥Ía estar no dia da Epiphanía a menos de ÍU)'' do zenilh do lago, onde se fazia o 
baptismo. N*e?ta estação o tbermometro de Farenheít sobe em Goadar a 68*, e em Sboa 
não pódc plevar-se a menos de 70*; porque Gondar fica pelos \^ de latitude norte, isto 
é, a 4° mais ao norte. Ora é iroposisivel que a agua gele em Shoa, e posso asseverar q«e 
nunca vi gelo em algum sitio da Abyssinia, mesmo nas mais frias montanhas. E além 
d'Í8S0 n este paiz o roez de janeiro é um dos mais quentes do anno. 

«O baptismo, diz Alvarez, começou á meia noite, e o velbo que presidiai corímo- 
nia, mergulhava na agua a cabeça dos neophitos, dizendo-ihes: Eu te baptiso em uome 
do Padre, do Filho e do Espirito Santo. 

«Ao romper do sol a multidão augmentou, e só ás nove horas é que tudo foi acabado. 
É mister convir que o tempo deveu parecer bem longo a um velbo, que estava mettido 
atéaoB hombros na agua gelada. 

Mas o numero dos baptisados não foi menos de quarenta mil, porque as mulheres 
estavam misturadas confusamente com os homens; e póde-se julgar que o baptisador ge- 
ral teve bastante occupação para não ter frio, se é verdade que passaram pelas suas 
mãos no espaço de nove horas, quarenta mil pessoas. 

•As mulher*^, conforme o capellão portuguez, estavam na presença dos homens sem 
terem nada no corpo, que as pudesse cobrir. O abuna. o rei e a rainha foram os primei- 
ros baptisados, e não tinham outro vestuário senão um panno de algodão em volta dos 
rins^ mas eu atrevo ne a afiírmar que nunca se contou coisa alguma mais opposta aos 
costumes d'um paiz. O rei d* Abyssinia anda todo coberto, e a única parte do corpo, que 
se lhe pôde vér são o< olhos. 

»A rainha e todas as outras mulheres, quer em publico, quer em particular, estio 



BR f85 

ím.idirlhps por ostíi manoira. quonsla vingam lhes oITt^rPcia maiores perigos, 
qac gloria. 

«Com tudo a 44 de julho do 1497 (}ama partia de Lisboa com sua pequena 
frota; e como a arte da navegação tinha já feito grandes progressos, singrou no 
alto mar em direitura ás Ilhas Canárias, e depois ás de Cabo Verde, onde lan- 
çou ferro, e onde tomou agua e mantimentos. Tendo-se feito de vella, foi contra- 
riado quatro vezes pelos ventos e mau tempo, e opprimido de fadiga viu-se obri- 
gado a entrar na grande bahia de Santa Helena. Vasco viu que os habitantes 
d*esta bahia eram baixos, negros, e fallavam uma linguagem desconhecida, lin- 
guagem que se vio depois ser a mesma, que a do Cabo de Boa Esperança. 

«Os portuguezes não tinham ainda conhecimento dos ventos geraes o das 

egaalmente cobertas até á barba. Teem por vergonha deixar um estranho v£r-lbes a ponta 
do pé, e teem grande cuidado cm terem asmUos cobertas até á extremidade das unhas. 

«O velho aio, que estava no lago, pronunciava cm abyssinio a formula: Eu te bap- 
tiso em nome do Padre, do Filho e do Espírito Santo. É certo que Alvares nSo percebia 
am4 nnica palavra d'c.sla língua, mas o que é mais para admirar é que o capellão por- 
tiiguex fallou em latim ao rei, que o entendeu muito bem, e que lhe perguntou se se tinha 
doatorado em Sarbonne. Qui crediderit, et baptisatus fuerit, salvws erit, disse ainda Al- 
Tare«. 

•Tendes razfto emquanto ao baptismo, responde o rei; cstds palavras 82o do nosso 
Sêlvad«r; porém a cerimonia, que acabamos de praticar, foi inventada por um de meus 
avós, em favor dos abyssinios, que se tinham feito mahometanos, e que desejavam regres- 
sar ao chrístianismo. 

•Alvares, querendo persuadir-nos que esta cerimonia era realmente um baptismo, 
diz que antes da sua chegada ao lago, tinha-se deitado azeite na agua. Não se atreve 
poii a afBrmar que o vio fazer, porque é uma falsidade; mas sabe que era um dos ritos 
das egrejas do Oriente, é por isso que falia d'elle. 

•O capeUâo de D. Rodrigo de Lima teria devido ver, que não somente os homens 
e as mulheres se lavavam no lago, mas que faziam banhar alli os cavallos, vacaS) mulas, 
e ama quantidade immensa de burros. 

•Não terei por conseguinte escrúpulos em dizer, que tudo quanto Alvares diz n'esta 
relaçãO) não passa d'uma mentira grosseira, porque os abyssinios nunca olharam como 
nm baptismo a cerimonia, que praticam no dia da Epiphania. (Voyages aux sources du 
NU, vol. 8. ', pag. 138 ] 

•A calaracta d'Atala, no rio Nilo offereceu á minha vista um dos mais bellos espec- 
táculos, que tenho visto. O jesuíta Jeronymo Lobo pretende que se poz debaixo do arco 
que forma o Nilo, precipitando-se. Conta que não somente allí se assentou com traaquil- 
lifkule, mas que, olhando atravez da massa d'agua que cala, viu a luz dividida como por 
vm prisma, n*uma iafinidade de circnlos malisados como o do arco íris. Porém eu ouso 
sem hesitar dizer que é uma mentira. A bacia que recebe a cascata é muito profunda, e 
a agua está alli extremamente agitada. Mas suppondo mesmo que houvesse do meto does- 
ta bacia uma elevação, onde se podcsse sentar, seria impossível a um homem chegar 
âlfi. (Idem, idem, pag. 28i.» 

Bruce a todos os escriptores porluguezes tinha, como se tem visto, na conta de 
falsarios e mentirosos. De egual modo procederam para com elle os escriptores euro- 
peus, que chegaram a duvidar que Bruce tivesse estado na Aby ssinia. 



186 BR 

moQçoes, qoe reinam n'estes mares; e Gama tinha partido para a índia na es- 
taçao mais desfavorável. A 16 de novembro fez-se de vela para o Cabo com 
vento de sudoeste: porém no mesmo dia o maa tempo se declarou, e os por- 
tugueses foram de tal maneira acossados pelo temporal, que a i8, tendo final- 
mente descoberto o Cabo, nào se atreveram a dobral-o.. Viu-se então quanto 
as impressões, que lhes tinha deixado a viagem de Dias, eram mais fortes, que 
os deveres, obediência e resignação, que tinham tão solemnemente jurado na 
capella da ermida, aonde Vasco os tinha levado em procissão. Toda a equipa- 
gem se revoltou, e se recuzou a ir mais longe, estando os pilotos, e contrames- 
tres mesmo á frente dos amotinados. Porém Vasco, bem convencido que ne* 
nhum perigo extraordinário os esperava alem do Cabo, persistiu em querel-o 
dobrar, e os offlciaes animados do mesmo ardor, que seu commandante apo- 
deraram-se dos chefes amotinados^ e pozeram-nos a ferros no porão. 

<0 próprio Vasco tomou na mão o leme de seu navio, e se desviou da torra, 
com grande espanto de seus mais bravos companheiros. O temporal durou 
ainda dois dias, mas elle não poude abalar a constância do almirante, que a 
20 teve finalmente a honra de dobrar o cabo. N'este momento de triumpbo as 
trombetas e tambores fizeram-se ouvir, e Vasco permittiu a seus companheiros 
toda a sorte de regosijos, a fim de banir a lembrança de seus receios, fazel-os 
concordar com elle em que este cabo tinha sido mui justamente chamado o Cabo 
de Boa Esperança. 

«A 25 os portuguezes ancoraram n'um pequeno porto, a que deram o no- 
me de S. Braz. Pouco depois viram um grande numere de habitantes, corre- 
rem à praia, e aos montes próximos. O almirante temendo alguma surpreza, 
fez desembarcar gente armada. Porém antes d'isso mandou que atirassem para 
a praia guisos de metal, e outras bagatelias. Os indígenas apoderaram-se d'ellas 
precipitadamente, e avcnluraram-se mesmo a chegar tão perto, que um d*eiles 
tomou alguma coisa mesmo da mão do almirante. Logo que Vasco desceu á 
terra, os selvagens acolheram-no cantando e tocando flauta; e elle mandou aos 
portuguezes, que tocassem trombeta, e dançassem á roda dos selvagens. 

«De S. Braz até sessenta léguas mais longe, a costa pareceu aos portugue- 
zes coberta de arvoredo, e d'uma verdura extremamente agradável. Em dia 
de Natal approximaram-se da terra, e entraram n'um rio, ao qual deram o 
nome de rio dos Reis. Chamaram também toda a que se extende de S. Braz a 
este rio— Terra do Natal. O tempo tinha-se tornado muito bello; os portugue- 
ses deitaram todas suas lanchas no mar para descerem a terra, e viram a praia 
juncada de homens e de mulheres de grande estatura, mas que não tinham naa- 
neiras affaveis e agradáveis. O almirante mandou desembarcar Martim Affonso, 
que fallava varias linguas dos negros. Este fez-se muito bem entender, e foi 
agradavelmente acolhido pelo chefe, ou rei, a quem o almirante mandou de 
presente algumas bagatelias, e que em compensação ofifereceu quanto produ- 
zia seu paiz. Tanto estava encantado dos portuguezes! 

«A io de janeiro de 1498, tendo renovado sua provisão d'agua, que os pró- 
prios negros ajudaram os marinheiros a metterem a bordo, Gama deixou este 
povo aíTavel c generoso, e adianlou-se alé ao Cabo, a que deu o nome de Gabo 



BR 187 

tias Correntes. Alli termina a Costa do Natal, e começa a de Sofala ao norte 
do Gabo. Gama, vindo do meio dia ao Cabo das Correntes, chegou exacta- 
mente ao mesmo sitio, aonde Covilhã tinha ido ao vir do Norte, de maneira 
qae estes dois portaguezes tinham feito elles sós a volta inteira d' Africa. 

«Subiu ao throno d'Abyssinia Iscander, e os portugnezes derramaram uma 
grande confusão sobre uma parte da historia d'este paiz, Iscander subiu ao 
throno em 1475. Morreu, diz-se, em 1490, o que é confirmado por Ludolf; e 
todavia todo o mundo sabe, que não devia ter morrido, senão em 1492. A maio- 
ria dos portuguezes confessa além d'isso que Covilhã viu Iscander, e convw- 
8on com eUe algum tempo antes da sua morte: o que deve efíectivamente ser 
verdade, se este príncipe viveu até 1492; porque Pedro da Covilhã entrou ef- 
íectivamente na Abyssinia em 1490, assim como nol-o conta Galvão nas me- 
morias de seu pae. Mas por outra parte Telles diz-nos que Iscander tinha mor- 
rido seis mezes antes da chegada de Covilhã. Que acreditar? Se Covilhã não 
chegou effectivamente á Abyssinia senão seis mezes depois do assassinato d'l6- 
cander^ foi então no fim do reinado de Amdo-Sion, menino, que não occupou 
o throno mais qae sete mezes. Nem Alvarez, nem Telles fazem menção d'estc 
joven rei, e ambos commetteram uma serie d'erros, o que prova que os his- 
toriadores portuguezes prestam pouca attenção á Ghronología Abyssinia. Di- 
zem que Iscander era pae de Naod, quando era seu irmão. Paliando depois a 
respeito de Helena apresentam-na como mãe de David; e todavia Helena, de- 
clarada Iteghé, durante a menoridade de David III, não era senão avó, ou para 
melhor dizer esposa do avô d'este príncipe, e ella nunca teve filho. 

«Achei perto de quatro annos de differença entre meu calculo, e o dos au- 
ctores, que acabo de citar. Mas julguei não dever servilmente renunciar á mi- 
nba-opinião, para seguir a de estrangeiros, que entendiam muito mal a lingua, 
e quasi que não conheciam a maneira de contar do paiz, do qual escreviam a 
historia. Meu calculo aliás é apoiado por um eclipse de sol succedido em 1553, 
no decimo terceiro anno do reinado de Cláudio. Partindo d'esta epocha até o 
instante, em que puz os pés nas terras d'Abyssinia; e remontando depois ao 
tempo dlscander, parece que este príncipe subiu ao throno em 1478, e que 
reinando 17 annos, deveu viver até o anno de 1495. D'esta sorte poude ver Pe- 
dro do Covilhã, e conversar com elle, se Covilhã effectivamente foi á Abyssi- 
nia em 1490. 

«Depois do assassinato dlscander os abyssinios offereceram a coroa a Naod, 
irmão dlscander, e morrendo depois d'um reinado de treze annos, succedeu- 
Ihe David. ^ 

«Por este tempo os turcos, que até então tinham sido julgados como nada 
valendo no meio dia da Africa e da Ásia se mostraram de repente debaixo 
d'um aspecto, que fez tremer todos estes estados. 

«Selim, imperador de Constantinopla, venceu Canso El Guari, Sultão do 
^líyp^o, que morreu no combate. Algum tempo depois tendo dado uma se- 
gunda batalha, Selim ainda vencedor se apossou do Cairo, e debaixo do espe- 

* James Bruce— Km/ojyg aug: sources du NU, vol 4.", p«g. 18f. 



188 BR 

cioso pretexto que Tomam-Bcy, successor de Canso, tinha mandado matar c^ 
embaixadores turcos, mandou enforcar o desgraçado Sultão na porta principal 
de sua capital, e com esta execução sanguinolenta destruiu a raç^i dos Mame* 
lukos. Sinan-Becha, primeiro ministro e general de Selim; conquistou bem de 
pressa toda a península da Arábia até ás margens do Oceano Indico. 

«O povo por multo tempo acostumado a combater, e a quem Mahomet ti- 
nha inspirado seu enthusiasmo, conquistou o Oriente. Mas o luxo o desarmou 
bem de pressa, e o reduziu á mesma situação, em que elle estava, logo que 
Augusto quiz submettel-o. Sínan-Pacba não teve, pois, necessidade mais que 
d'um punhado de guerreiros para exterminar os soberanos legítimos d*estas 
regiões. Uns foram vencidos pela força, outros pela perfídia, e Sínan os subs- 
tituiu em cada cidade principal por officiaes de confiança, com guarnições de 
janisaros, que não conheciam outras leis mais que as militares. 

«A guerra comtudo tinha mudado de forma debaixo d'estes novos con- 
quistadores. As espingardas, a artilheria estavam empregadas contra os dar- 
dos, lanças, frechas, únicas armas usadas na Arábia e na Abyssínia. Uma frota 
carregada de soldados, e de instrumentos de guerra, cujos nomes eram tão des- 
conhecidos aos povos doestas regiões, como seus effeitos destruidores, foi des- 
tinada pelos turcos a conquistar a índia; e ainda que o valor português veia 
em ajuda dos índios, e repellisse gloriosamente os othomanos, estes fortifica- 
ram sem cessar os diversos postos, que tinham na Arábia, e com os soceorros 
dos quaes contavam, se um inimigo quizesso detel-os, se a tempestade, on 
qualquer outro obstáculo tivesse podido oppôr-se ao regresso d'elles. 

«Pôde se dizer que estas guarnições de janisaros devoravam as entranhas 
do commercio debaixo do pretexto de o proteger. Seu commandante tinha pois 
estabelecido alfandegas em alguns portos. Mas viu se bem depressa quo o ver- 
dadeiro motivo era o de conhecer melhor as pessoas, ás quaes podiam extor- 
quir mais dinheiro. Jidda,. Zibid, Moka, cidades commerciantes c visinhas de 
Abyssínia, ainda que situadas sobre a costa di*Arabia; Suakem, ilha na costa 
d'Africa, ás portas dos abyssinios, e no caminho das caravanas, que vão da 
Abyssínia ao Cairo, estavam todas debaixo do commando d*um bachá turco, 
e tinham guarnições turcas enviadas pelo imperador Selim, e por Solimão, seu 
successor. 

«Os mercadores árabes não gostando senão da paz, e tendo aquella boa fé, 
que um commercio prospero inspira, fugiram sem demora para longe da vio- 
lência, e da injustiça dos turcos, e levaram suas riquezas para as costas do 
reino d'Adel. O commercio da índia, querendo escapar aos mesmos tyrannos, 
foi também para Adel refugiar-se entre seus amigos, e alli foi que os mouros 
o cultivaram durante todo o tempo, que durou a impolitica e barbara oppres- 
são dos turcos. 

«Zeyla é uma ilhota, situada na costa d^Adel, opposta à Arábia Feliz, na 
entrada do Oceano Indico. Os turcos estabelecidos na Arábia, apesar de não 
advinharem a verdadeira causa da fugida do commercio, ficaram muito qui- 
zilados de o verem refluir para o reino d'Adel. Apoderaram-se de Zeyla, e es- 
tabeleceram alii uma alfandega, e por meio d'estc posto, enlas galeras, que en- 



BR i89 

viavam em cruzeiro para os estreitos, submetteram o commercio, que o reino 
d*Adel fazia com a índia, ás contribuições, que podiam d'alguma sorte in- 
demnísal-os da deserção, que suas injustiças e violências tinham occasionado 
na Arábia. 

«Este novo estabelecimento dos turcos ameaçou destruir ao mesmo tempo 
o reino d*Adel, e o império d'Abyssinía. Considerando a disciplina firme e se- 
vera do governo dos turcos, e a politica fraca, os prejuisos dos adelios e dos 
abyssinios, parece mais que provável, que estes* dois últimos povos teriam 
sido submettidos, se a índia nao tivesse sido o principal alvo da ambição dos 
turcos» e se não tivessem allí encontrado os portuguezes solidamente estabeleci- 
dos. Os portuguezes foram governados por uma successão de reis, que não ti- 
veram talvez outros, que os egualassem; e seus offlciaes o soldados eram su- 
periores emquanto á disciplina, à coragem, ao amor da pátria, a todos os exér- 
citos, dos quaes a historia nos offerece o exemplo. 

«A imperatriz Helena informada então dos progressos do poder portuguez 
na índia conheceu que o soccorro desta nação era o único, que podia salvar 
Adel e a Abyssinia. 

«O portuguez Pedro da Covilhã vindo como embaixador á corte d'Abys- 
sinia, alii tinha residido durante dois reinados, sem que quizessem de modo 
algum deixal-o ir embora. Tínha-se d'alguma sorte tornado antes um objecto 
de curiosidade, que de utilidade. Além da liberdade nada Ibe faltava. A im- 
peratriz tinha-o casado com uma mulher de alta jerarcbia, e accumnlado de 
riquezas e de honras. Comtudo, na época em que havia a recciar as conquis- 
tas dos turcos, esta prínceza começou a perceber de que importância podia 
ser para ella um homem, que lhe fornecesse meios seguros de correspondên- 
cia com a índia e Portugal; pois as pessoas, a quem ella tinha resolvido diri- 
gir-se, não lhe eram menos desconhecidas, que as linguas d'ellas. 

«Ilavia então na corte d'Abyssinia um mercador chamado Matheus, ^ ho- 
mem intelligente, honrado, e havia muito tempo acostumado a percorrer os 
estados do Oriente para as necessidades mercantis do rei e dos grandes da 
Aby59inia. Estivera no Cairo, Jerusalém, Ormuz, Ispaham, nas índias Orientacs, 
e na costa de Malabar, tanto nos logares conquistados pelos portuguezes, como 
nos que tinham ficado debaixo do dominio de seus príncipes legitimos. Era 
floalmcnte um d'esses agentes que eram empregados pelos monarchas e abyssi- 
nios ricos a irem vender ou trocar as mercadorias, que lhes são pagas em gé- 
neros. Em summa Matheus foi escolhido pela imperatriz Helena para ser seu 
embaixador juuto do rei de Portugal: ella o mandou acompanhar por um jo- 
ven abyssioio, que morreu na viajem. As cartas, que Helena dirigiu n'esta 
occasião ao monarcha europeu, são muito extensas, e conteem mais ficções e 
vaidade, que coisas verdadeiras. 

«Na primeira metade da carta, metade que se suppòe dictada por Covi- 
lhã, a iniporatriz diz que o que ella pede ao rei, lho será explicado por Ma- 
theus, seu embaixador, a quem cila qualifica com o titulo de confidente, e 

* JaDie^ Brucc— Voiiflfjifs aux sources du NU, vol. i ", i)*6- ^^^- 



190 BR 

de homem informado de seas roais secretos desígnios. Pede ao raonareha, qae 
dé credito a quanto este embaixador lhe disser em particular» ^ como se ella 
mesma lhe fallasse. Tanta prudência annuncia sem duvida tudo que se devia 
esperar d*um homem por muito tempo acostumado a negociações secretas. 

tMas o fmal d'estes mesmos despachos divulga todo o segredo da embaixa- 
da, e este flnal é dictado, segundo se pôde crer, pelos ministros da Abyssinia. 

cPede-se ao rei de Portugal que envie forças suficientes para libertar 
Meca e Medina; que arme uma esquadra para defender as costas d^Abyssinia, 
c atacar o poder dos turcos por mar, ao passo que os abyssinios extermina- 
riam por terra todos os mahometanos. Finalmente prodigalisam-se aos maho- 
metanos turcos e moiros os epithetos mais injuriosos. 

«Â primeira parte d'esta missiva não podia impedir Matheus de passar, 
nem causarlhe algum desgosto, mas comtudo se Matheus tivesse sido preso, 
o seus despachos interceptados, sua embaixada teria sido recompensada com 
a perda da vida. 

«Quando o jovcn monarcha d' Abyssinia esteve em edade de reinar, longe 
de approvar a missão de Matheus, obstinou-se em ser contra ella. 

«Matheus chegou felizmente até Dabul, mas o governador tomando-o por 
um espião mandou prendei- o. Foi salvo das mãos doeste governador por AÍToq- 
so d'Albuquerque, que tinha já suas vistas sobre a Abyssinia. 

«Albuquerque, antes que Matheus desembarcasse, quíz tractar partícolar- 
mente com elle, aflm de o persuadir a que lhe mostrasse seus despachos. Mas 
Matheus recusou-se absolutamente a isso. Este procedimento foi prejudicial ao 
embaixador, pois Albuquerque desde este momento pareceu disposto, bem 
como todos seus oíliciaes, a fazerem pouco caso d'elle, quando desembarcasse. 
Porém Matheus sabendo bem que o caracter, do que estava revestido, tomava 
sagrada sua pessoa, não quiz ser tractado como um simples particular. Mandou 
advertir o vice-rei, o bispo, c todo o clero que independentemente de seu titu- 
lo de embaixador, que exigia o respeitassem, clle era portador d'um pedaço 
da verdadeira cruz, que a imperatriz enviava ao rei de Portugal; e lhes man- 
dou dizer que a não ser que quizessem ser arguidos de sacrílegos, deviam tes- 
temunhar a maior veneração a esta relíquia preciosa, e celebrar sua chegada 
com uma festa solemnc. Não foi preciso mais. Todas as ruas de Gôa foram cheias 
de procissões. - O vice-rei e os primeiros oíliciaes foram receber Matheus, quan- 
do descia da chalupa, e o acompanharam ao palácio, onde foi alojado e tra- 
tado com magnificência. Mas, apesar d' isto, só passados três annos de residên- 
cia na índia é que teve licença, em 1513, de continuar sua viagem para Por- 
tugal. 

«O historiador Damião de Góes, homem cheio de bom sonso e de candura 
não pode comprehender, porque se enviava como embaixador um arménio, e 
não um dos primeiros nobres da Abyssinia. Mas é provável que ninguém fosse 
mais capaz que clle, para desempenhar as inteuçues da imperatriz. 

' James Brucc— Ií'»/'*'/'' mu soimcs dv Ai/, vol. 5.". pnp. 200. 



BR i9i 

«A desgraça, que tinha acompanhado Mathens á índia, o acompanhou até 
Portogai. Os capitães dos navios pareciam disputar entre elies sobre qaem o 
trataria peor. Mas finalmente chegou a Lisboa. O rei, apenas foi informado da 
maneira indigna como seus offlciaes tinham procedido com Mathens, man- 
dou*os carregar de ferros, e provavelmente teriam ficado presos o resto da 
vida, se o próprio arménio não tivesse tido a generosidade de pedir o perdão 
d'elles. 

«David não tinha mais que doze annos, quando subio ao throno, e durante 
sua menoridade Helena concluirá um tratado de paz com o rei de Adel. Mas 
os turcos continuavam suas hostilidades, e David não tendo ainda 16 annos 
tomou repentinamente o partido de reunir um exercito, e de o commaudar em 
pessoa. Deu*se a batalha n'um valle entre a província montanhosa de Fatigar 
e as planícies de Adel.Diz-se que ficaram no campo de batalha doze mil mussul- 
manos, e que os abyssinios pouca gente perderam. O estandarte verde de Ma- 
bomet foi tomado, bem como a tenda de veludo preto bordada a ouro, que 
o rei deu depois ao embaixador de Portugal, para servir para a celebração da 
missa. Esta victoria foi alcançada no mez de julho de 1516, e no mesmo dia 
uma esquadra portugueza, debaixo do commando de Lopo Soares de Alber- 
garia se apoderou da ilha de Zeyla na entrada do mar Roxo, e queimou os 
estabelecimentos d'ella. ^ 

«Ê certo que nem as suspeitas que tinha havido na índia a respeito do ar- 
ménio Matheus, nem o nascimento obscuro doeste embaixador fizeram impres« 
são no rei de Portugal. Este príncipe prestou-lhe as maiores honras á sua che- 
gada, e não lhe testemunhou menos apreço para com os objectos de sua missão, 
que consideração para seu amo. Emquanto Matheus esteve em Lisboa foi alo- 
jado e tratado magnificamente. 

«O rei D. Manoel considerando de quanta utilidade podia ser para os por- 
tugueses um amigo tão poderoso nas costas do mar Vermelho, onde suas es- 
quadras achavam toda a sorte de provisões e de soccorros, quando perseguis- 
sem as esquadras turcas, mandou preparar uma embaixada, e ao mesmo tem- 
po enviou Matheus na frota de Albergaria. E Duarte Galvão homem de gran- 
de capacidade, foi nomeado para ir como embaixador á Abyssinia. 

«Com tudo a esquadra de Soares entrou no mar Vermelho, e parou na ilha 
baixa de Gamarão, sobre a.costa d^Arabia Feliz. ^ Era o logar mais doentio, que 
o almirante podia escolher. Por isso Duarte Galvão alli morreu. Com tudo Soa- 
res resolveu passar o inverno n'aquelle sitio, e levou ao cabo sua resolução. 

«Quando o ignorante Soares voltou à índia, foi substituído por Lopes Se- 
queira. Saiu de Goa com uma frota considerável, entrou no mar Vermelho, 
fez-se de vela para a ilha de Masuah, aonde chegou a 16 d'abril de 1520, le- 
vando comsigo o embaixador Matheus. Á primeira vista da esquadra todos os 
habitantes de Massuah abandonaram a ilha, fugiram para o continente, para 
Arkééko. Sequeira tendo-se conservado alguns dias em frente de Bfassuah, sem 

* James Brucc— Vo»/«7c.s aux sources du Nilf vol. 4.', pag. Í15. 
2 Idem, idem, pag. %!G. 



192 BR 

deixar praticar o menor acto de hostilidade, am christào e am moaro vieram 
ter com elle, e lhe participaram que a costa fronteira fazia parte de império 
da Abyssinia, e era governada por um oíficial abyssínio, revestido com o car- 
go de Baharnagash. Disseram-lhe que os habitantes de Massuah haviam fugido, 
porque os turcos tinham pur costume desembarcar na ilha, e saqueal-a, mas 
que todos os habitantes eram christâos. O commandante portuguez ficou encan- 
tado com taes novas, e vendo que Matheus só tinha dito a verdade, entrou a 
tratal-o com muito maiores attenções. Louvou os habitantes por terem fugido 
para Arkééko> antes do que exporemse aos insultos dos turcos, e disso-lhes 
que eram christâos os portuguezes, e que tinham vindo para aqueUas paragens 
em seviço ao rei da Abyssinia. 

«No dia seguinte o governador d'Ârkééko veiu á praia, acompanhado de 
trinta homens a cavallo, e de duzentos a pé. A conversação entre esto gover- 
nador e Sequeira foi franca e amigável. O abyssinio convidou o portuguez a 
vir a terra, affirmando lhe que o Baharnagash estava já informado da chega- 
da da esquadra. 

«Sequeira fcz-lhe varias perguntas relativas á religiilo do paiz; o gover- 
nador indicando -lhe com o dedo uma montanha, que estava a cousa de vinte 
milhas de distancia, lho disse haver allí um convento, que se chamava o mos- 
teiro de Dissan, cujos monges informados de sua chegada tinham mandado 
sete d*entre elles para irem ao seu encontro. Com eíTeito os sete monges nao tar- 
daram em appresentar-se e o general portuguez recebeu os mui aíTectuosamcn- 
to. Matheus tinha muitas vezes fallado a Sequeira a respeito do mosteiro de 
Bissau. 

«Os monges, apenas viram Malheus, derramando lagrimas d'alegria felici- 
taram-no pela sua vinda, depois d'uma tão longa ausência. O general portu- 
guez convidou csies monges para virem abordo, dcu-llies um ban(iucte,c pre- 
sentes convenientes. Depois escolheu sete portuguezes, á frente dos quaes es- 
tava Pedro Gomes Teixeira, auditor das índias Onentaes, a quem a língua 
árabe era muito familiar, para irem pagar a visita ao mosteiro do Bassan. Tei- 
xeira trouxe do mosteiro um manuscripto om pergaminho, de que os monges 
lhe fizeram presente para o rei de Portugal. 

«A 24 d'abril o Baharnagash veiu a Arkécko. Este começou dizendo ao 
portuguez que, por certas prophecias, havia muito tempo, que eram esperados 
no paiz; e que clle c os outros empregados abyssinios estavam promptos a 
prestrar-lhes todos os serviços, que estivessem nas suas mãos. Depois que o 
general portuguez lhes agradeceu, os padres e monges terminaram sua con- 
versação por alguns actos religiosos, e deram i)rescntcs uns aos outros. 

«N'esta entrevista todas as suspeitas, que tinha havido a respeito de Ma- 
theus, cessaram, e foi reconhecido como um verdadeiro embaixador. Todos os 
portuguezes se agruparam entào cm volta de Sequeira desejando cada um ser 
escolhido para acompanhar o Arménio á curte. Nomeou então para embaixa- 
dor a D. Rodrigo de Lima, cm logar do fallecido Cialvào, c escolheu para o 
acompanharem a Jorire d'Abreu, L(»ih'z da (íama. Joàu Scol.ire era o secre- 
tario; João Gunealvez sru IVilor c inler|iiele: Manuel de Mara. seu url;ani^ta,e 



BR i93 

mestre João, seu medico. Havia aioda na sua comitiva mais três portuguezes. 
Os capellies eram João Fernandes, Pedro AfTonso Mendes, e Francisco Alva- 
res. ÍSL também Matbeus, e levava comsígo Ires portuguezes, Magalhães, Alva- 
renga e Diogo Fernandes. O rei, que andava em guerra com os turcos, tinha 
marchado para o oriente, até ás fronteiras de Fatogar, e alli se tinha deixado 
íkar, achando-se exactamente ao meio dia de seus estados. O embaixador por- 
tagaez tinha desembarcado ao Norte da Abyssinia, de maneira que para ir ter 
eom o monarcba foi preciso atravessar quasi todo o império, caminhando por 
florestas, sobre serras inteiramente difTerentes das da Europa, cheias de feras, 
e de homens ainda mais selvagens, que as próprias feras, e separadas por gran- 
des rios, que as chuvas do trópico fazem muitas vezes transbordar. Além d'isto 
eneontram-se muitas vezes por este caminho desertos, que realmente não são 
muito extensos, mas onde nem homens, nem animaes podem encontrar ali- 
mento, ou soccorro algum. Comtudo este pequeno bando de portugueses, foi 
tão bravo que não hesitou um só momento. Nada do que podia contribuir pa- 
ra a gloria de seu príncipe, honra de seu paiz lhes pareceu difflcil. ^ 

•Depois de muitos trabalhos encontraram os portuguezes uns monges do 
convento de S. Miguel, que lhes deram uma vacca. Aqui Matbeus separou sua 
bagagem da dos outros viajantes, e a pôz debaixo da guarda dos monges. 
Trazia sem duvida dinheiro de Portugal; e desconfiando da recepção do rei, 
teve a prudência de pôr o, que lhe pertencia, ao abrigo do perigo: mas foi-lhe 
inútil esta precaução, porque oito dias depois uma febre fez morrer este armé- 
nio. Pouco depois o criado de D. Rodrigo foi victima da mesma doença. 

•Comtudo a morte de Matheus não deixava meios aos portuguezes de se 
explicarem com o rei a respeito d'uma promessa^ que elle, ou a imperatriz mãe 
tinham feito de lhes ceder um terço do reino como paga dos soccorroa, que 
dessem aos abyssinios. Temiam além d'isso a epidemia, à qual Matbeus aca- 
bava de succumbir. 

«Vou deixar agora D. Rodrígo continuar sua viagem, cuja relação escri- 
pt» por seu capellão Alvares não achou grande credito nos historiadores do 
seu paiz. É verdade que ha, principalmente no tocante á religião, um grande 
numero de coisas mui dííliceis de se acreditarem, e que, segundo creio, são 
obra dos jesuítas: Alguns annos depois de Alvares deixar a Abyssinia, Telles, 
contemporâneo de Alvares, o accusou de falsidades, e Damião de Góes, um dos 
primeiros historiadores portuguezes diz que viu debaixo do nome de Alvares 
um diário muito diíTerente d'aquelle, que se publicou. Emquanto a mim con- 
fesso que o, q e se contou da primeira audiência concedida pelo rei, me pa- 
rece ser, bem como outras muitas coisas mencionadas depois, obra de pessoas, 
qae nunca estiveram na Abyssinia. Se minha opinião é justa, Francisco Alva- 
res não deve ser accusado das interpolações mentirosas, das quaes não foi 
anctor. Não posso conceber como os catholicos poderam ser tão bem e tão ge- 

* James Bruce — Voyage aux sourees du NU, vol. 4.** pa^?. 22i. £ muito curiosa a 
def^ripção da viagem, e gloriosa para os portuguezes, mas nâo se traduz, as.^im como se 
teoi jà feito a outras pad^agens iuleressanlcs por e:»lc artigo ir já excessivamente lon;o. 

TOMO 1 1-1 



!94 BR 

ncrosamcnte recebidos, como nos diz Alvares. O sangae, que se derramoa 
pouco depois, nos prova que, se os abyssíDios sentiram com effeito alguma 
inclinação em si para a egreja Romana, esta inclinação foi passageira. Em- 
quanto ao resto da relação entrego-a ao juiso do publico, como uma obra bem 
pouco digna de fé. 

«lia na relação de Alvares duas coisas, que me surprebenderam muito. A 
primeira é o perigo contínuo, que correram os viajantes de serem devorados 
pelos tigres, que se approxiroavam até ao alcance d'uma lança; ^ e a segonda 
é o campo de favas, por meio do qual passaram. Confesso que nunca vi fa- 
vas na Abyssinia. 

«D. Rodrigo de Lima tinha desembarcado na Abyssinia a 16 d'abril de 
1520, e nâo chegou à vista do acampamento do rei, senão a 16 d*outubro do 
mesmo anno. E depois d'uma viagem tão penosa, que acabava de fazer, esperava 
ter sem dií&culdade uma audiência d'este príncipe, mas enganava-se. Em vet 
de o mandar vir á sua presença, o rei mandou-lhe ordem pelo commandan- 
te dos burros para assentar sua tenda a três milhas mais longe do acampa- 
mento. 

«O embaixador portuguez nem por isso foi muito bem acolhido por David, 
o parece mesmo que as intenções d'este príncipe eram não o deixar regressar 
ao reino, o que era costume na Abyssinia, mas, depois de o ter demorado cnico 
annos, como resolveu enviar uma embaixada a Portugal, era necessário dei- 
xar partir D. Rodrigo, todavia reteve á força o secretario da embaixada, o mes- 
tre João, e o pintor Lazaro d*Andreas, e D. Rodrigo foi obrigado a retirar-se 
sem elles. 

«Zaga-Zaab, monge abyssinio, que tinha aprendido a língua portugueza 
durante a residência de D. Rodrigo na corte d' Abyssinia, foi escolhido para 
embaixador. Os portuguezes, e clle partiram bem Tornecidos de tudo, que lhes 
era necessário para a viagem, e chegaram felizmente a Massuah, onde eocoii- 
traram uma esquadra commandada pelo governador do índia Heitor da Sil- 
veira, que estava esperando D. Rodrigo. Mas ou o imperador d'Abyssinia ti- 
vesse mudado de parecer, ou não, a 27 d'abril de 1526 quatro mensageiros 
chrgaram da corte, trazendo ordem para D. Rodrigo voltar para traz, e levar 
Heitor comsigo. Os portuguezes recusaram obedecer, e contentaram-se com 
que Zaga-Zaab fizesse o que quízesse. O abyssinio declarou que se fosse apa- 
nhado, talvez fosse lançado n'uraa cova de leões, e por isso apressou-se a em- 
barcar na esquadra, que saiu de Massuah no dia seguinte. 

«As viagens frequentes dos portuguezes causaram sérios sustos aos turcos; 
mas nem o rei d' Abyssinia, nem os portuguezes tinham tirado alguma vanta- 
gem doestas viagens. E ha muitas apparencias de que as diversas esquadras, 
í]ue se diri^^íam a Massuah, não tinham outro fim senão procurar o embaixa- 
dor D. Rodrigo. Os seis annos perdidos em questões e em puerilidades entro 
o rei d* Abyssinia e o embaixador de Portugal tinham tido ar do formar liga- 
ções serias entre as duas nações; c o que inquietava ainda mais os mouros, 

* Jiiiiie.» Brucc— roi/ar/r auj snnrrca ihi Ml, vol. í.". pap. 2IJI. 



KR 193 

era qae oaida transpirava. > Mas, porque nào titiha nada transpirado? Porque 
não 86 tínbam fixado em nenhum piano determinado, porque uào se tinham 
feito mais que propostas vãs e ociosas, que não havia nem poder, nem von- 
tade d*execatar. Tal era por exemplo o projecto de reunir dois exércitos para 
conquistar a Arábia até Jerusalém. 

•Dq[)Ois da chegada de Covilhã á Abyssinia as coisas estavam bem mu- 
dadas. Os portuguezes tinham primeiramente desejado a amisade dos abyssi- 
nios para poderem por meio d'e5tes communicar com a índia. Porém depois 
podiam prescindir d'am tal soccorro, pois que tinham achado á útil passagem 
do Cabo da Boa Esperança. Por outro lado David, livre de receio dos mouros 
d*Adel,a quem elle vencera, vendo que o poder formidável dos turcos, depois 
de terem conquistado o Egypto, era constantemente repellido na índia pelos 
portQgoezes, e descontente finalmente do procedimento pouco aíTavel do em- 
baixador D. Rodrigo, e das promessas exorbitantes, que a imperatriz Helena 
tinha feito, sem elle saber, por meio do arménio Matbcus, não desejou aper- 
tar mais com os portuguezes laços, dos quaes não previa a utilidade. 

«A c<mquista da índia era o principal objecto da ambição de Selim; mas 
eneontroQ tantos obstáculos, que renunciou a isso, e tendo já submettido a 
Arábia, que se estende sobre um lado do mar Vermelho, resolveu levar seu 
domínio para a margem opposta. Três rasões o determinavam a este projecto: 
a primeira, que a cidade sancta de Meca estaria então em muito maior segu- 
rança, caso que uma esquadra portugueza viesse unir suas forças a um exer- 
cito abyssinio; segunda que as galeras turcas não haviam de navegar tran- 
quilamente na extremidade do golpho arábico, emquanto os abyssinios fos- 
sem senhores de conceder aos portuguezes uma ilha, ou um porto de mar, 
para alli se estabelecerem e fortifical-o. A terceira, finalmente, porque sendo 
o imperador da Abyssinia, segundo se dizia, um príncipe, do qual o propheta 
tinha honrado um predecessor com uma correspondência, julgava Selim de 
seo dever convertel-o e a seu reino ao islamismo por meio da espada. 

•Os turcos eram babeis no manejo da espingarda, e munidos d' uma pode- 
rosa artilheria, e ajudados por numerosas esquadras, que apesar de continua- 
mente vencidas na índia pelos portuguezes, contra os quaes eram destinadas, 
nao tínbam comtudo cessado jamais de cruzarem no mar Vermelho, e de re- 
forçarem os portos turcos com guarnições novas. 

cA imperatriz Helena morreu em 1525, um anno antes que D. Rodrigo dei- 
xasse a Abyssinia. Pouco depois da morte d'esta rainha David se preparou a 
começar de novo a guerra contra os mouros. ^ Depois do rei da Abyssinia ter 
ganho uma batalha, avançeu para perseguir os mouros, e deu um combate 
em Sbimbra-Coré, em que os abyssinios ficaram completamente derrotados, e 
.os mouros continuando a guerra iam assolando quanto encontravam, e redu- 
alam ao captiveiro os habitantes poupados pela espada. No primeiro de maio 
de i528 deuse ainda outra batalha, e o monarcha abyssinio foi outra vez 

' James Bruce— Voi/agc aux sources du A'i7, vol. 4 *> pag. i40. 
s Idem, idem, pag. ?i5. 



i% BR 

vencido, e nos aonos seguintes os mouros iam sempre invadindo os territorioSp 
assolando tudo, o queimando as egrejas. A 6 de fevereiro de I53i foi onín vei 
David derrotado em Dalukus, nas margens do Nilo, e os mooros, julgando ea- 
tào não sor necessário estarem unidos, se dividiram em dois corpos; um m» 
parando-se para ir queimar Axum, e o outro flcando em Amhara, e continiiaii- 
do de victoria em victoria obrigaram o reii para salvar a vida, a refogiar-se 
nas montanhas. 

«Havia doze annos que D. Rodrigo de Lima tinha partido de Massoah para 
regressar a Portugal, levando comsigo a Zaga-Zaab, embaixador do rei da 
Abyssinia. Este embaixador chegou felizmente a Lisboa, e foi recebido com 
muita magniGcencia pelo rei João. Mas, como na sua saida Zaga, tinha dttxado 
a Abyssinia prospera, e como provavelmente a vida, que passava em Porta- 
gai, era mais agradável para elle, que a de seu paiz, não se appn^soa a pôr 
(Im á sua embaixada. Além d'ísso os estabelecimentos portugueses na índia 
tinham chegado a tal ponto de grandesa, e de prosperidade, que não lhes dd* 
xavam tempo para cuidar d'um alliado tal como o rei da Abyssinia. E no de* 
curso de doze annos as cousas estavam tão mudadas, que não tinha ficado ao 
rol da Abyssinia mais que o titulo de rei, e uma vida tão aventurosa, e âo 
perigosa, que um só dia não podia contar com o dia seguinte. 

«David tinha retido na Abyssinia dois portuguezes, que D. Rodrigo troa* 
xera das índias, um chamado mestre João, e o outro Lazaro d'Andrade. O 
abuna Marcos^ velho, e enfermo, já não tendo relações com o Cairo desde a 
conquista dos turcos, tinha-se tornado muito indifTerente para com a egr^t 
grega. Algum tempo antes de sua morte designou a pedido do rei para sen 
successor ao portuguez João; e por conseguinte sagrou*o abuna, depois de 
lhe ter dado as ordens inferiores todas d'uma vez; porque João não era mais 
que um secular estudante de medicina, muito simples e muito snpersticiosOb 
Chamar- Ihe-hemos d'aqui por diante Joào Berumdes. i 

«Este João consentiu promplainente em acceitar a prelatura, ^ com a con* 
dição todavia que o papa a approvaria; e partiu para Roma, não pelo caminho 
ordinário da índia, mas atravessando a Arábia e o Egypto. O novo bispo che- 
gou sem accidente à Itália; e Paulo 111, então, papa lhe confirmou não somente 
o patriarchado d' Abyssinia, mas deu-Ihe tambcm o de Alexandria. A estes 
empregos Bermudes ajuntou ainda um outro. Foi nomeado embaixador de 
David na corte de Portugal; e certamente era digno de desempenhar este car- 
go, quaesquer que fossem seus talentos militares. Tinha residido doze annos 
na Abyssinia, conhecia perfeitamente o paiz, e fora testemunha d^umaalluvião 
de desastres, que pozeram esto império na ruina. As desgraças de David esta- 
vam então no seu cumulo, e este priíicipe morreu cm 1540. 

«Pela morte de David subiu Cláudio ao throno. Todos os chefes mabome-. 
tanos se apressaram a formar uma liga contra clle, mas Cláudio caia sobra 
aquelles de siibito, o compl»^tampnlo ns ílorroton. Depois seguindo de victoria 

> Este famoo Juilo Bfrmiide» jaz na e^ioja ()t< S. Sebastião da Pedreira, em Li»l>oa. 
^ James Bni< e — Vmfn'ie 'lux sonnes hi \H. pa;;. Íj8. 



BR 197 

em victoria poz seu estado em posiçíio bem difTorentc d'aqaella, em que o ti- 
nha deixado seu pae. 

«Em quanto as cousas se mudavam tão favoravelmente na Abyssinía, o 
embaixador João Bermudes dirigiu -se de Roma a Lisboa, onde o rei de Por- 
tuga] o reconheceu por patriarcha d'AIexandria e d'Abyssinia. A primeira 
consây que fez, foi dar um exemplo de disciplina abyssinia pondo em ferros 
Zaga Zaab por ter perdido tanto tempo em cumprir o objecto de sua missão. 
Mas o rei de Portugal obteve poucos dias depois que Zaga Zaab fosse solto. 
Bermudes occupou-se então com zelo do motivo de sua viagem. Fez um qua- 
dro tão sombrio dos desastres da Abyssinia, tanto intrigou junto do rei e doa 
grandes, que obteve uma ordem do monarcba para que D. Garcia de Noronha» 
que ia exercer o cargo de vice rei das índias, enviasse quatro centos soldados 
portnguezes a Massuah para soccorrerem a Abyssinia. 

«João Bermudes querendo ainda melhor certifícar-se doeste soccorro, re- 
solveu embarcar na frota, que levava D. Garcia de Noronha; mas foi repenti- 
namente accommettido d'uma doença, a qual elle attribuiu a veneno, que lhe 
dera Zaga Zaab, e adiou sua partida. Achando-se restabelecido no fim d*um 
anno chegou felizmente á índia. Mas D. Garcia de Noronha tinha jà morrido, 
e sea successor D. Estevão da Gama não seguiu o projecto de soccorrer a 
Abyssinia com tanto ardor, como Bermudes o teria desejado. 

«Com tudo, depois d'algumas delongas, D. Estevão da Gama emprehendeu 
passar o estreito de Babelmandeb, e ir queimar as galés turcas, que estavam 
em Soez. Mas o general portuguez não conseguiu seu (im, pois tendo sido des- 
coberto seu projecto, as galés estavam todas varadas em terra. De Suez diri- 
gía-se para Massuah, onde a esquadra tinha necessidade de fazer aguada. Por 
coDsegainte mandou suas barcaças a Arkééko, onde a agua é muito boa. Mas 
08 turcos e os moiros de Zeyla e d'Adel, então senhores de Arkééko se apo- 
deraram d'uns mil fardos d'algodão, que tinham sido mandados em troca da 
agua e mantimentos, e mandaram dizer ao general portuguez : Que o rei de 
Adel, seu senhor, era d*aqui por diante senhor de toda a Ethiopia, e não que- 
ria que se continuasse a regosijar com seus vassallos; com tudo, se o com- 
maadante da esquadra quízesse fazer paz com elle, restituir-lhe-ia seus mil 
fiurdos d'algodão, fomecer-lhe-ia mantimentos com abundância, e lhe daria as 
satisfações necessárias por causa d'uns sessenta portnguezes, que tinham sido 
mortos junto de Zeyla. 

•D. Estevão viu facilmente o laço, que lhe armavam os mouros, e queren- 
do pagar lhes na mesma moeda, lhes mandou dizer: Que estava disposto a 
tratar com o offlcial mouro, que não pedia a restituição dos mil fardos d'algo- 
daoy em quanto aos portuguezes mortos, que mereciam a morte como traido- 
res a desertores; que remettia ainda mil fardos d'algodão para que lhe désso 
agua e mantimentos, principalmente gado vivo; que finalmente, como era tem- 
po de festa, queria celebrar paz com os habitantes, e que elle mesmo traria 
soas mercadorias a terra, apenas o dia de paschoa tivesse passado. 

«Tendo sido acceites estas convenções com má fé reciproca, D. Estevão 
tendo obtido os fornecimentos, do que tinha precisão, prohibíu expressamente 



198 BR 

aos portuguezcs irem a terra. Depois escolheu seiscentos homens, dos qaacs 
dea o commando a Martim Corrêa, que ejnbarcou em barcos ligeiros, desem- 
barcou às escondidas junto de Arkééko, apoderouse da povoação, e passou 
todos os habitantes ao íio de espada. Nur, que commandava na provinda pelo 
rei d'Adel fugiu, mas foi morto com um tiro de espingarda por Martim Cinírea, 
que lhe cortou a cabeça, e a mandou de presente á rainha Sabei Wengel, que 
a recebeu com grandes signaes de alegria. 

•Com tudo D. Estevão da Gama escolheu os pertuguezes, que destinava 
para ajudar Cláudio. O desgraçado resultado d*esta campanha, em que os por- 
tuguezcs ficaram completamente derrotados, e seu general D. Chrístovão da 
Gama morto, pode ver-se em Diogo de Couto. 

«Cláudio mostrou o maior pesar pela morte de D. Christovão; ^ prantean- 
doo por três dias; depois mandou três mil onças para serem repartidas pelos 
pertuguezes, que para o logar de D. Christovão tinham nomeado por general 
AÍTonso Caldeira. Estes bravos soldados appressaram-se então em ir ter com 
(Cláudio, e lhe pediram fervorosamente que os levasse ao combate, a fim de 
poderem vingar a morte de D. Christovão. Pouco depois morreu Affonso Cal- 
deira, e foi para seu logar Árias Dias, que veiu a ser um dos favoritos do 
rei. Os portuguczes eíTectívamente foram levados ao combate, os inimigos fo- 
ram derrotados, e seu general morto pelo portuguez Pedro Leão. 

«Cláudio, depois de ter destruído completamente os inimigos do sea paiz, 
applicou-se aos negócios da religião. Tinha mandado pedir ao Cairo um aba- 
na para succcssor do abuna Marcos, e já este successor vinha no caminlio, 
quando Bermudas, não podendo supportnr esto golpe, declarou publicamente 
ao rei, que tendo sido embaixador do David em lioma, o tendo feito homena- 
gem do reino o do rei ao soberano poniilicc, esperava que Cláudio cumpriria 
.as obrigações de seu pae abraçando a religião romana. Poróm o rei recusou. 
Até cntào os abyssiaios tiuham assistido com respeito á missa dos portugue- 
zcs, e estos iam ás egrejas dos abyssinios, e casavam com mulheres abyssinias, 
o parece que as crcanças eram baptisadas indifTerentemente nas egrejas dos 
dois povos. Cláudio dizia que não tinha feito promessa alguma, e que Berma- 
des não era verdadeiro abuna, e que não o considerava senão como abuna 
dos Francos, Bermudes porém declarou- lho que eslava maldito e excommun- 
gado, e que ia reunir todos os pertuguezes, e rctirar-se para a índia. Ao que 
o rei deu em resposta que desejava até que Bermudes se retirasse; mas que 
em quanto aos poituguezes não podiam sair do reino sem licença sua. As dis- 
putas theologicas, o por llm as injurias c desordens continuavam sempre, e 
ciiegaram as cousas a ponto, que n'uma noite os portuguczes assaltaram a ten- 
da do rei, c mataram alguns de seus creados. Bermudes foi mandado então 
para o paiz dos gafats, onde residiu sete mezes, c, quando voltou á corte, achou 
já Árias Dias morto, c os pertuguezes muito aíTeiçoados ao monarcha. Bermu- 
des quiz então intrigar, mas Cláudio desterrou-o para as montanhas pelo resto 
(lo sua vida. 

í James B ruce— Tí/j/í/ f/c aux scurccs dv Ml, vol. 4 ", pag. 288. 



BR 199 

«o' novo general doa porluguczos era Gaspar de Sousa, * homem egiial- 
mente amado do sua nação c do rei da Abyssinia. Suas sollícítaçòes c as de 
Kasmatí Robel foram a causa de se efTectuar o desterro de Bermudes, mas ac- 
eonselbaram-Ihe secretamente que embarcasse para a índia, em quanto ainda 
era tempo. Por conseguinte dírigiu-se a Dobarwa, onde parece que se dcmo- 
roa dois annos tranquillo e esquecido da corte, dizendo todos os dias missa a 
dez portuguezes, ^ que se tinham estabelecido n'esta cidade, depois da derrota 
de D. Christovào. Depois foi a Massuáh, e approveitando se d'uma monção fa- 
vorável embarcou n'um navio portuguez, levando comsigo seus dez compa- 
triotas, que persuadira a deixarem Dobarwa, e que chegaram felizmente a 
Goa. Ignacio, fundador da ordem dos Jesuítas, estava então em Roma, e aca- 
bava de lançar os alicerces do poder, a que se elevaram seus discípulos. A 
conversão da Abyssinia pareceu importante ao Santo, e nomeou um jesuíta pa- 
triarcha da Abyssinia sem se importar de Bermudes. O novo patriarcba cha- 
mava-se Nunes Barreto. Ignacio entregou-lbe para Cláudio uma carta, e com 
ella, e accompanhado de grande numero de padres, Barreto se dirigiu para 
Goa. Porém, sendo informado ao alli chegar da aversão de Cláudio á egreja 
catholíca, julgou que, em logar de comprometter a dignidade d*um patriarcha, 
valia mais enviar André Oviedo, bispo d'Ueliopolis, Melchior Caneyro, bispo 
de Nicea, e alguns outros padres como embaixadores do vice rei das índias 
junto de Cláudio, e fomecel-os das necessárias cartas de crença. Estes envia- 
dos chegaram a Massuah em i^8. Quando Cláudio foi informado da sua che- 
gada, ficou contente por julgar ser um reforço, mas vendo que eram padres 
mudou de sentimento e disse : Que muito se admirava de que o rei de Portu- 
gal se envolvesse em seus negócios; que elle e seus predecessores não tinham 
prestado homenagem senão á cadeira de S. Marcos, e reconhecido outro patriar- 
cba senão o de Alexandria. Todavia mandou-os admittir á sua presença. 

«Nunes Barreto morreu na índia, e Oviedo herdou o titulo de patriarcba 
d'Alexandria, como o papa tinha ordenado. 

«Pela morte de Cláudio, n'uma batalha contra os mouros em Í5d9, subiu 
ao throno seu irmão Menas. 

«D. Sebastião, rei de Portugal, informado do mau estado da religião na 
Abyssinia, pediu ao papa que encarregasse todos os missionários, que alli es- 
tavam já, que fossem pregar o Evangelho ao Japão. Mas Oviedo deu ao papa 
uma resposta, em que appresentou tao boas rasoes, que sua missão na Ethio- 
pia foi confirmada. 

«Na sua elevação ao throno Menas tinha recebido com complacência as fc- 
líeitações do patriarcba portuguez Oviedo. Mas, sabendo depois que elle pre- 
gava, e que suas pregações semeavam a discórdia e a animosidade entre seus 
vassallos, mandon-o vir à sua presença, e lhe impoz um silencio absoluto. ^ 
Oviedo recusou obedecer; e então o rei perdendo a paciência, deitou-se a elle^ 

< James Bruce— Fayage aux sources du NU, vol. i <>. pag. 301. 
3 Idem, idem, pag. 302. 
* Idem, idem, pag. 3iS0. 



íoo BR 

bntca-lhc indignamente, arrancou-lbc a barba, rasgoa-lhe o fato, tiroa-lhe o 
cálix a flm de o impedir de dizer missa. Depois desterroao, bem como a Praa- 
cisco Lopes para uma montanha deserta, onde estes dois padres passaram por 
toda a sorte de sofTrimentos durante os sete mezes, que alli estiveram. 

iMenas fez ainda publicar varias ordens rigorosas contra os portogoezes* 
Não qaiz consentir que elles casassem com mulheres abyssinias,e mandou ás 
abyssinias, que estavam casadas com elles, que fossem para as egrejas catbo- 
licas. Depois d'ísto, tendo mandado chamar o patriarcha do logar do desterro, 
prohibíu o de ficar no reino debaixo de pena de morte. Mas Oviedo recnson 
obedecer, o o rei pucbando pela espada o mataria, se não fosse contido pelas 
supplicas da rainha, e das pessoas, que o cercavam. 

«Depois de terem batido muito em Oviedo foi outra vez mandado para a 
montanha; e d'esta vez a ordem de seu banimento comprehendia o de todos 
õs portuguezes, que se achassem na Âbyssinía, mas o patriarcha em logar de 
cumprir esta ordem, juntou-se a seus compatriotas, e todos se passaram para 
o Baharnagash, que era inimigo do rei; e acabava de concluir um traetado 
com Selim. Os portuguezes, como este mostrava desejos de abraçar a religião 
chrístà, lhe asseguravam que receberia promptamente da índia todos os soe- 
corros, de que tivesse necessidade. 

«N'esta esperança pastou-se o mais vantajosamente, que lhe foi possível, 
evitando a batalha, e poz sua esperança nos auxilies portuguezes, cuja chegada 
o rei muito receiava, mas tendose passado a estação da chegada de navios da 
índia sem que nenhum apparecesse, resolveu dar combate ao rei, mas foi der- 
rotado por Mcnas a 20 d'abril de lo62. 

«O comportaponto dos catholicos no reinado antecedente tinha-lhe causado 
horror. Que se imagine um rei tal como Cláudio sentado no seu throno, no 
meio de seus cortezàos, maldito, anathcmatísado e chamado na sua face hereje 
c mentiroso por um padre ignorante e grosseiro como Jeão Bermudes, atacado 
de noite, e obrigado a fugir para salvar a vida do furor d*um bando de estran- 
geiros, aos qua<'s sustentava com seu pâo. Depois considere a Menas pedindo 
a Oviedo que não pregasse uma religião nociva â tranquillidade de seu paiz, 
e o fanático Oviedo declarando, não querer obedecer ás ordens do rei? Que 
teria acontecido na França, na Hcspanha, em Portugal a estrangeiros, que ti- 
vessem procedido de forma egual? 

• Accrescenlomos ainda que desde o primeiro portuguez até o ultimo todos 
combateram no exercito de Baharnagash, que lho queria tirar a coroa. 

•Pela morte d(í Menas snccodou no throno Serlza-Denghel, que tomou o 
noun*- dl» M«'li'c Srguoii. ^ 

OvitMio e os outros porlii^Miozos nào lhe appnroctTani na corte. O rei não 
impedia conítiulo i\w os padres catholiros l)aplisa^s^MI), pregassem, e desem- 
penhassem outras fuiirnus do s(mi minislorio. Faltava íiuiitas vezes com elogio 
de sua moral, d«» sua parioiícia e da pureza de seus costuinos; mas condem- 
nava altamente seu? priuri()ii)s relij^Mu^rOS. 

* James UiUi'*i—Vo\jn(je aux sourccs du Ml, |»;ig. 328. 



BR aoi 

tO reinado d*este príncipe foi passado quasi todo em guerras, e sempre 
muito affeiçoado á cgreja de Alexandria. Morreu em Í5d5. 

«Succedeulhe Z^ Denghel. 

«A religião romana achava-se sem appoio.^ Todos os padres d*esSa reli- 
gião, que tinham ficado na Abyssinia, alli tinham morrido, e a entrada no reino 
ficara fechada aos outros por causa da violenta animosidade dos turcos^edas 
eroeldades, que exerciam sobre os missionários, que caiam nas soas mãos 
Comtudo Melchior Silvano, indio, vigário da egreja de Santa Anna em Goafoi 
julgado próprio para ir levar alguns soccorros ao pequeno numero de catho- 
licos, que a Abyssinia contava ainda. Dirigiu se a Massuah em i597, e penetrou 
na Abyssinia, sem que se suspeitasse quem elle era. 

«Em 1600 Pedro Paes, o mais estimável de quantos missionários apparece- 
ram na Abyssinia, e aquelle, que melhores resultados colheu, chegou a Mas- 
suah. Tinha estado preso por muito tempo, e soíTrido muito, antes de poder 
chegar a esta ilha, mas finalmente poude conseguir tomar a direcção d'um 
pequeno rebanho catholico. 

«Paes nào se appressou a appresentar-se na corte, como tinham feito seus 
antecessores, mas conservando*se fechado no convento de Tremona, na pro- 
víncia de Tigre, começou a aprender sem descanço a língua geez, e adquiria 
um conhecimento d'ella tal, que a sabia muito melhor, que os naturaes do paiz. 
Applicou-se á instrucçâo da mocidade, e recebia na sua escola tanto os rapa- 
zes abyssinios, como portuguezes. Os grandes progressos dos discípulos leva- 
ram bem depressa longe a reputação do mestre. João Gabriel, um dos offlciaes 
portuguezes mais dístinctos foi o primeiro, que fallou d'elle ao rei, o qual dea 
ordem para que Paes fosse à sua presença. 

«Em abril de 1601 Paes accompanhado de dois de seus jovens discípulos 
80 apresentou ao monarcha, que tinha entào sua corte em Dancan, ^ e que o 
recebeu com as mesmas honras, que se concedem às pessoas de primeira ca- 
Ihegoría. Uma tal distincçâo nào deixou de desagradar aos monges abyssinios, 
que previram brevemente que o abatimento d'elle8 se seguiria à elevação de 
Paes no que se não enganaram. N'uma disputa, a que se procedeu na pre- 
sença do rei no dia seguinte ao da chegada de Paes, este portuguez quiz que 
seus dois jovens discípulos sustentassem sua causa contra todos os theologos 
abyssinios. Uma victoria a mais fácil e a mais completa ficou do lado dos es- 
tudantes. 

«Então disse-se a missa conforme o rito da egreja romana, e Paes recitou 
em seguida um sermão, que apesar de ser o primeiro pregado na Abyssinia, 
excedeu tanto em elegância e pureza do dicção tudo, quanto se conhecia na 
lingua sábia, no Geez, que os ouvintes o consideraram como um primeiro mi- 
lagre do pregador. 

«O rei ficou tão encantado da belleza d'este sermão, que desde este ins- 
tante não somente tomou a resolução de abraçar a religião catholíca; mas até 

* James Bruce— Koyaj/e aux sources du NU, vol. 5.', pag. 12. 
' Idem, idem, pag. II. 



SOS BR 

deu parte d'i8So a Paes, obrígando-o todavia a jurar que havia de guardar se- 
gredo por um certo tempo. 

•Todavia este juramento exigido foi imprudentemente violado pelo próprio 
rei, que prohibiu d'ahi por diante festejar o sabbado dos judeus. Escreveu ao 
mesmo tempo a Phllippe III rei de Hespanha e de Portugal pedindo-lhe jesuí- 
tas para a pregação da fé. 

«Estas medidas promptas de mais foram bem depressa divulgadas, e cada 
descontente, que trazia em seu coração os principies de revolta, não deixou de 
asseverar que seu descontentamento provinha de seu zelo em prol da verda* 
deira religião. 

«A maior parte dos cortezãos seguiram o exemplo do rei. Alguns trabalha- 
vam como cortezãos para merecerem o favor do príncipe^ e propunham-se a 
seguir a religião catholíca, só em quanto fosse moda, e em quanto os não ex- 
pozesse a perigo. Outros conformavam-se com o sentimento do rei peia verda- 
deira affeição, que a este tinham. 

«Entre as pessoas da corte mais aíTectas ao rei distinguiu-se Laeca liariam, 
o companheiro inseparável de sua boa e má fortuna. Foi este homem um dos 
que abraçaram a religião catholica no mesmo dia, que o príncipe. Mas esta 
conversão tomou-se bem depressa o pretexto, de que se serviram seus inimi- 
gos para assassinarem a ambos. 

«Za-Selassé irritado começou a formar conventiculos com os monges, aos 
quaes fez crer que o procedimento do rei annunciava diariamente, que a egreja 
de Alexandria ia ser totalmente reprovada, e que nenhuma outra religião se- 
ria tolerada na Abyssinia, senão o romana. 

«A província de Gojam sempre opposta ao, que apresentava a menor ap- 
parencia d'inclinaçâo para a egreja Romana, declarou-se contra o rei. ^ Za Se- 
lasse teve uma conferencia com o abuna Petros, e lhe propoz de absolver os 
soldados, e todos os vassallos do rei de seu juramento de fidelidade. E o abuna 
depois d'alguma hesitação desligou todos os abyssinios da fldelidade, que ti- 
nham jurado a Za Denghel, declarando o rei maldíeto e excommungado, bem 
como todos aquelles, que defendessem e favorecessem sua causa. Za Selasse 
poz-se á frente do exercito dos rebeldes reunidos cm Gojam, e o rei estava 
prompto a partir de Dancaz para marchar ao encontro do traidor. 

«Za Denghel avançou repentinamente para a planície de Bartcho. Emquanto 
ia no caminho foi desamparado pelo ras Athanasius, e depois por uma grande 
parte de suas tropas. Esta deserção mostrou-lhe os primeiros eíTeitos da ex- 
conmiunhão lançada pelo abuna; e as coisas chegaram a ponto que João Ga* 
briel, official portuguez de primeira distincção, aconselhou ao rei o evitar uma 
batalha, e retirar-se, em quanto ainda era tempo, para algum logar fortiOcado, 
com o âm de passar alli o resto do anno, e esperar que o erro de seus vassallos 
se dissipasse. Mas este príncipe julgando-se deshonrado se desse ares de fugir 
na frente d'um rebelde, resolveu combater Za Selasse. 

<A 13 d'outubro de 1604, tendo o rei formado seu exercito para a batalha, 

* James B ruce— Koyayíf aux sourccs du A't7, ¥ol. (í.**, pag. Í0. 



BR Í03 

estando á direita o próprio rei com 200 portaguezes, e um grande numero de 
abyssinios, mandou chamar Paes para lhe deitar a absolvição» mas este jesuíta 
estava então muito longe, na provincia de Tigre. 

«Deu-se a batalha, e depois d'uma lucta porfiada as forças do rei achan- 
do-se envolvidas pelo exercito inteiro de Za Selasse, e seu numero dimmuindo 
a cada instante não poderam resistir por muito tempo. O próprio rei foi morto, 
e com elle acabou a batalha. 

«O resto d*este anno e o seguinte foram passados em terríveis lactas entre 
Jacob o Socinios, aspirando ambos a subirem ao throno. Feriu-se finalmente 
uma grande batalha entre os dois, na qual Jacob foi derrotado, e perdeu a vida. 
Os jesuítas dizem que a perseguição dos vencidos entrou pela noite dentro, 
que um corpo de cavallaria, no qual havia muitos portuguezes^ e que fugia 
diante dos vencedores, caiu n'um precipício muito profundo, que a obscuri- 
dade não deixava ver. Que o portuguez Manuel Gonçalves sentindo que o seu 
cavallo faltava debaixo de si, se agarrou a uma arvore, onde passou a noite 
com grande medo, e sem saber onde se achava; mas que o dia lhe augmen- 
tou o susto, descobrindo-lhe seus companheiros esmagados, bem como os ca- 
vallos, no valle profundo, que estava por baixe d^elle. ^ 

«Socinios achando-se sem competidor começou a reinar em i605. 

«Os portuguezes, que restavam do exercito vindo á Abyssinía debaixo do 
commando de Christovão da Gama, tinham-se excessivamente multiplicado, e 
haviam sempre acostumado seus filhos ao uso das armas de fogo. Formavam 
então um corpo particular commandado por João Gabriel, antigo offlcial, que 
se conservou sempre junto do rei, se bem que depois do reinado de Cláudio 
a maior parte dos soldados seguia a fortuna, qae mais lhes convinha. 

«Menas não estimava muito os portuguezes, para os conservar no seu exer- 
cito, com receio das falias sediciosas de seus padres, sempre promptos a dize- 
rem mal da religião e do governo do rei. Expulsou-os pois a todos de seu remo; 
porém em vez d'obedecerem, reuniram*se ao Baharnagash Isaac, então ligado 
com os turcos, e revoltados contra seu amo. Não parece que Sertza Denghel 
fizesse mais caso dos portuguezes, que Menas, nem que os empregasse muito 
durante seu reinado. Mas, quando o rei menino Jacob subiu ao throno aggre- 
garam-se-lhe todos; e, depois do desterro de Jacob, alguns d*elles se^iram o 
partido de Za Denghel, e combateram com a maior coragem na batalha do 
Bartcho. 

«Quando Jacob tomou a tomar posse da coroa, os portuguezes voltaram 
para elle, e foram vencidos com este príncipe no combate de Lebart, onde se 
tinham reunido todos contra Socinios. Ve-se pois que para qualquer parte, que 
se declaravam, eram batidos por causa da cobardia dos abyssinios, com os 
quaes se achavam ligados. Comtudo, apesar dos multiplicados revezes dos par- 
tidos, que abraçavam, perdendo sempre pouca gente, fosse qual fosse a sorte 
do resto do exercito, as tropas do paiz nunca ousavam fazer-lhe frente, e se 
retiravam com a mesma segurança, que se tivessem alcançado victoria, pois 

* James Brucc— Voyaye aux sources du Nil^ toI. 5.'', pag. 39. 



SM BR 

08 vencedores tinham interesse em não os atacarem, estando qoasi sempre cer* 
tos de que não podiam resistir a soas armas. 

«Socinios procedia d'am modo inteiramente contrario ao de Menas. Resol- 
veu attrair a si os portagaezes, e pol-os era estado tal qne podesse perfeita* 
mente contar com elles. Por isso começou a fazer grandes favores a seus pa* 
dres. €bamon o jesuita Paes para a corte, onde, depois das costumadas dispu- 
ta sobre a supremacia do papa, e as duas naturezas de Gbrísto, foi celebra- 
da uma missa, e pregado um sermão com o mesmo resultado, que no tempo 
de Za Dengbei, e com não menor descontentamento do clero. ^ 

«A província de Dembea estendendo-se em roda do lago Trana, é a mais 
fértil, ea melbor cultivada de todafAbyssinia. Sobre a borda meridional d'e8te 
lago ergue-se, mas não a grande altura, um rochedo, formando uma espécie 
de promontório, e avançando muito para o lago. Não ha talvez no mundo si- 
tio mais bello,e pittoresco do que este, regado d'aguas por todos os lados, me- 
nos pelo sul. O clima é alli delicioso, e a febre não faz estragos. Paes pediu 
este promontório, e o rei lhe concedeu a posse para sempre» Depois ficaram 
os abyssinios cheios de pasmo ao contemplarem um convento construído de 
pedra e cal, coisa, de que até então não tinham a menor idéa. Mas ficaram ain- 
da muito mais maravilhados, quando Paes emprehendeu construir da mesma 
um palácio, que o rei lhe tinha pedido. Este palácio está na extremidade mais 
meridional da península, n'um sitio chamado Gorgora. Os abyssinios experi- 
mentavam uma admiração misturada com terror ao verem uma casa erguer-se 
sobre outra casa, pois assim é que chamam a uma casa, que tem mais d'um 
andar. Paes desenvolveu n'esta occasião toda sua industria, e a extensão de 
seus talentos. Foi ao mesmo tempo architecto, pedreiro, carpinteiro, ferreiro, 
e se serviu com muita destreza das variadas ferramentas, das quaes se faz uso 
n*estes oífícios. 

«Como Socinios se proponha então a atacar os Agows de Damot, que se 
tinham revoltado, e reprimir as incursões, que faziam os Gallas na província 
de Gojam, viu com a maior satisfação um ediQcio commodo, collocado na parte 
de seus estados, em que contava fazer sua principal residência. Seus desejos 
mais ardentes eram mandar vir para seu reino um certo numero de portu- 
guezes, que juntos aos, que lá estavam já, e aos neophitos, que elle se lison- 
jeava de ter, quando abraçasse a religião Catholica, podessem ajudal-o a ex- 
tirpar esse espirito de rebellião, que parecia ter-se apoderado geralmente do 
coração de seus vassallos, e principalmente do clero, ensinado havia pouco a 
servir-se do perigoso privilegio de amaldiçoar e excommungar os reis. Este 
príncipe não tinha visto em Paes e seus companheiros, nada senão a submis- 
são e um grande amor á monarchia. Seu procedimento e costumes eram ver- 
dadeiramente apostólicos. 

«Quando Paos construiu o palácio de Gorgora, desenvolveu génio e talento 
universaes, que lhe mereceram a admiração de todo o império d'Abyssinia. 



* James hruce—Voyage aux sources du NU^ vol 6.', pag. 45. 



BR X» 

Mas se empregou zelo e actividade n*esta obra» não foi remisso n'iim outra 
mais importante a seus olhos, o da conversão d'aquelle paiz. i 

«O próprio ras Sela Christos tinhase convertido estando próximo a ir a Go. 
jam para ir combater os Gallas, e desejou muito fazer uma abjuração authen- 
tica na presença de Paes; mas como este trabalhava então no palácio e mos- 
teiro de Gorgora, Sela Christos foi obrigado a contentar*se com um outro Je- 
suíta chamado Francisco António de Angelis. Depois, tendo regressado vence- 
dor dos Gallas, deu á companhia um terreno e dinheiro para fondar em Gol- 
lela um convento, que foi o terceiro, que os jesuítas tiveram na Abyssinia. 

«Comtudo, apesar de convertido no fondo do coração, não tinha ainda So- 
cinios dado um passo, que podesse chamar a conversão dos outros. Assistia 
frequentemente ás disputas theologicas entre os missionários e os monges abys- 
sinios, disputas, que versavam quasi todas sobre a questão muito tempo agi- 
tada das duas naturezas de Ghristo; mas ainda que a victoria ficasse do lado 
dos jesuítas, não conseguiram comtudo convencer seus adversários. O abona 
Simão acabou por se queixar mesmo ao rei de que se tivesse disputado sobre 
artigos de fé sem o convidarem a ajudar o clero nas suas controvérsias. 

«O rei, que não pensava que o saber e eloquência do abona podessem ser 
d*am grande peso n'estas disputas, mandou que fossem renovadas na presença 
do pontífice. Porém a ignorância do abuna ainda foi mais nociva á sua egreja; 
e o rei olhando desde este momento a questão como decidida, declarou publi- 
camente pela primeira vez, que havia duas naturezas, uma divina, outra hu- 
mana, absolutamente distinctas entre si, mas reunidas n'uma só pessoa, que é 
Ghristo. 

«N'aquelle tempo o rei recebeu por via das índias cartas de Philippe n, de 
Madrid em 1609, e do Papa Paulo V com data de 1611. Mas estas cartas nada 
continham senão exhortações empoladas para induzir a Socinios, que perse- 
verasse na religião Gatholica, e para o assegurar do soqporro do Espirito Santo, 
em vez do soccorro dos portaguezes, que elle pedira. Todavia a conversão de 
Socinios estava combinada entre o rei e Paes, e foi decidido que faria primei- 
ramente uma abjuração publica, e depois se contaria com o rei e com o papa 
para lhe enviarem soldados. 

«Era necessário que o monarcha abyssinio escrevesse ao papa para lhe dar 
parte de sua submissão á Sé de Roma. Mas pensou-se que cartas sobre um tal 
assumpto eram importantes de mais para se enviarem como seus primeiros 
despachos para a Europa, sem as mandar acompanhar por pessoas, que po- 
dessem em occasião conveniente tomar o caracter d'embaixadory e dar as ex- 
plicações e seguranças necessárias. ^ 

«Gonsiderou-se primeiramete que o caminho de Massuah estava sugeito a 
muitos perigos, e que talvez as cartas não chegassem à Europa, por causa do 
estado de rebellíão, em que aquella provinda se achava, e então escolheu- 
se o mais longo por ser o mais seguro. Havia de se passar por Narea, e pelas 

^ James Bruce^Voyages aux sources du NU, vol. S.<>, pag. 110. 
' Idéffl, idem, pa^. 113. 



206 BR 

provinciaB meridionaes para irem a Meliade, nas costas do Oceano ladico, onde 
ellas por mar poderiam 8er enviadas para Goa. 

•Os missionários tiraram á sorte qoal d'eHes emprehendería esta longa e 
perigosa viagem; e a sorte cahio em António Fernandes, homem moito praden- 
te, e estimado do rei, e por confls^ão geral o mais próprio para levar ao cabo 
uma tal empresa. Depois Fernandes escolheu para seu companheiro, e embai- 
xador janto ao papa, e ao rei de Hespanha a Fecur Egrié, um dos primeiros 
Abyssinios convertidos á religião Catholica, na qual persistio até á morte. 

«No principio de março de 1613 António Fernandes partiu para a provin- 
da de Gojam, onde encontrou o ras Sela Christos. Fecur Egrió tinha partido 
adiante para poder dispor seus negócios domésticos, levando comsigo dez por- 
tuguezes, dos quaes seis só o deviam accompanhar até Narea, e os quatro de- 
viam embarcar com elle para a índia. Sela Christos procurou guias entre os 
Shats e os Gallas, povos bárbaros, fazendo-os dar reféns, e pagando-lhes muito 
bem para ensinarem o caminho aos portuguezes. 

«A i6 de abril os viajantes deixarem Umbarma, onde estava acampado 
Sela Christos, que também os tinha feito accompanhar do quarenta homens, 
armados de escudos e dardos. Dirigiram se para o occidente, e no fim de dois 
dias chegaram a Senassé, villa principal dos Gongas. Fernandes vendo que estes 
povos estavam dispostes a tratarem mal os portuguezes, foi com um doestes a 
Sela Christos, que immediatamente mandou partir três officiaes e um corpo de 
tropas para castigar os Gongas, e accompanharam a caravana até fora do seu 
território e alcance. Mas os Gongas sabendo o que se passava appressaram-se 
em dar ao embaixador uma guarda, que o accompanhou ate Mine junto d'um 
vau do Nilo. Um dia depois de atravessarem o Nilo, entraram no reino de Bi- 
zamo, habitado pelos Gallas. No dia seguinte entraram num bosque, do qual 
tiveram muito trabalho para sair, e era quasi meia noite, quando chegaram à 
margem do rio Meleg. Ao outro dia acharam o vau, e passaram-no sem dif- 
ficuldade. Atravessaram depois uma serra, o chegaram a Gonea, onde encontra- 
ram tropas commandadas pelos principaes officiaes d'este reino, que os rece- 
beram com muita hoora. 

«Seis dias depois de terem deixado Ganea os Socinios chegaram á corte 
de Bonero. Este rei recebeu os com civilidade, mas com um ar de constran- 
gimento e de friesa; eos viajantes souberam que provinha isto de ter um monje 
persuadido ao rei que o fim d'aquella viajem era conduzirem para Abyssinia 
tropas portuguezas por aquelie caminho, as quaes mais cedo ou mais tardo 
haviam de destruir Narea. Por tanto os conselheiros de Bonero fizeram com 
que elles fossem desviados do caminho direito, e tivessem que passar no reino 
de Bali por um caminho mais comprido e mais perigoso, dando-lhes com tudo 
cincoenta cruzado em ouro como indemnisaçào, e recommendando-os a um 
embaixador do rei de Gingiro, por onde os portuguezes tinham que passar. 

«Fecur Egrié e sua comitiva partiram da corte de Narea com este embaixa- 
dor, e caminharam directamente para Oriente. Ao quinto dia chegaram a um 
posto dos narccnses, no qual o olíicial eslava encarreirado de lhes dar uma guar- 
da até ás fronteiras. 



BR S07 

tTendo marchado quatro dias seguidos nnm paíz inteiramente devastado 
pelos Gallas, sempre com receio de serem encontrados por estes povos, tiveram 
de se esconder até ár noite nnm i)osqae, para não serem vistos pelo Galas, que 
andavam guardando seus rebanhos na planície; e só de noite poderam conti- 
noar sen caminho. Chegaram depois à margem d'um rio que os portognezes 
chamavam Zebée. A passagem d*este rio, foi medonha para os viajantes. Ti- 
nham*se amarrado arvores da praia ao primeiro rochedo; depois d'este roche* 
do, a um outro, e assim sem interrupção até á margem. 

cEram tâo elásticas estas arvores, que o peso d'uma só pessoa as fazia vergar. 
A corrente rápida e escumante do rio formava um abysmo táo profundo, que 
perturbava a cabeça d'aquelles, que passavam por cima d'esta ponte oscilante, 
presa á ponta das rochas. Com grande susto passaram poisa ponte, e foi então 
necessário informar o rei de Gingiro da chegada d'esta caravana, e pedir-lhe 
a honra d'uma audiência. Mas só passados oito dias é que foram admittidos á 
sua presença. Levavam uma carta do imperador d'Abyssinia para este rei, o 
qual depois de a ter lido disse que a única coisa que Socinios n'el]a pedia era 
de os proteger, e de lhes dar uma boa guarda, em quanto estivessem em seus 
estados, e de os mandar acompanhar mais longe: o que faria com o maior pra- 
zer. ♦ 

cO embaixador e o jesuita deixando o reino de Gingiro, marcharam direc- 
tamente para Oriente, e entraram no reino de Cambat, independente do im- 
pério d'Abyssinia. Pararam em Sangara, capital do paiz, onde residia um mou- 
ro, que era o governador. Passados dois dias tiveram querepellir umaaggres- 
sao dos povos Guragués, tribu visinho, os quaes ficaram derrotados. 

«Ao sairein do reino de Cambat ^ os viajantes entraram no pequeno terri- 
tório d'Alaba, independente do rei d'Abyssinia, cujo governador era mouro, 
e se chamava Aliko. 

«Este crendo que o fim da viagem do jesuita era fazer vir por este ca- 
minho os portuguezes da índia, para trabalharem na destruição da reUgião 
mahometana, como o tinham feito outr*ora, entrou n uma tal cólera, que che- 
gou a ameaçar o jesuita de o mandar matar, bem como a quantos o accompa- 
nhavam; e teria immediatamente posto em execução sua ameaça, a não ser a 
segurança, que Baharo lhe deu da autenticidade das cartas do rei, e a não ser 
o respeito para com o direito das gentes, que lhe inspirava o titulo de embai- 
xador, de que Fecur Egrié estava revestido. Com tudo mandou fechar toda a 
caravana n'uma estreita prisão, onde alguns portuguezes morreram. Depois 
reuniu um conselho, no qual houve quem desse o voto de se matarem todos; 
mas um homem d*um caracter distincto disse que bastava contentarem«se com 
o mandarem os estrangeiros para Ameknal, de cuja casa vinham, e esta opi- 
nião prevaleceu. 

•Recuaram pois para o reino de Cambat, e d'allí para a corte de Socinios, 
sem nenhuma vantagem para elles. 

•Ainda que Socinios não tinha declarado abertamente a resolução, que hou- 

« 

* James» Bruce— Vot/ai/es aux sources du NUy vol. 5.*, pag. 141. 



908 BR 

• 

vem formado, de abraçar a religião catholica, com tudo significoa que sua von- 
tade era qae d*aqai por diante ninguém negasse que havia duas naturezas em 
Christo, e quem se atrevesse a negal-o, ou pol-o em duvida, seria desterrado 
por sete annos. 

cilas o abuna, orgultioso com a protecção d'Bmana Ghristos, um dos ir- 
mãos uterinos do rei, pronunciou uma sentença de excommunhão, que man- 
dou affixar n'uma das portas da egreja do palácio, declarando amaldiçoados 
quantos sustentassem que havia duas naturezas em Christo. 

•O rei tinha marchado contra os agows, mas ao saber a audácia do abona, 
marchou promptamente para Gorgora, e mandou-lhe dizer que, se immedia* 
tamente não levantava a excommunhào, lhe mandava cortar a cabeça. O abana 
receioso obedeceu. Com tudo formaram-se depois varias conjurações umas, 
atraz das outras contra o rei, mas foram debejladas, n'uma das quaes os por* 
tuguezes prestaram grande auxilio ao rei. 

•Foi em 1620, anno, em que Socinios marchou contra um revoltoso cha- 
mado Janael, que Paes empregara na construcção da egreja de Gorgora. 
Ao voltar para Dancaz o imperador encontrou Paes em Gorgora pela primeira 
vez, e alli esteve até 3 d*outubro, em que lhe trouxeram na presença de Paes 
a noticia da^victoría de Sela Ghristos sobre os rebeldes de Damot. ^ 

•Depois da derrota de Jonael o rei tinha resolvido deitar fora a mascarada 
professar abertamente a religião catholica, e as prosperidades do Sela Ghris- 
tos o confirmaram n'esta opinião. Bfandou ir á sua presença Paes com o fim 
de fazer uma profissão publica do cathoiicismo. e depois de lhe ter declarado 
suas idéas, disse-lhe que para prova da sinceridade de sua conversão, não fi- 
cava senão com sua primeira mulher, e que tinha mandado embora todas as 
outras. 

Paes, depois de ter recebido a conGssão do imperador, e a abjuração pu* 
blica da religião grega, voltou para Gorgora, cantando o cântico de Simeão 
Nunc dimittis, como se sua missão estivera acabada. Não se enganou, pois 
sendo atacado d'uma febre violenta, morreu em maio de i623, com grandes 
signaes de piedade e resignação, e uma firme convicção de ter cumprido seus 
deveres durante o curso d*uma vida pura, activa e bem empregada. Tinha es- 
tado sete annos captivo entre os mouros d'Arabia, e dezenove annos missioná- 
rio na Abyssinia, durante os mais difficeis tempos, e sempre saíra das situações 
perigosas com honra sua, e vantagem para a religião. Era extremamente ma- 
gro por causa de sua abstinência e trabalhos continues. Gonhecia perfeita- 
mente a theologia escbolastica, e todos os livros, que diziam respeito á sua pro- 
fissão. Intendia muito bem o latim, o grego e o árabe, e trabalhava continua- 
mente com suas mãos, mostrando-se tão bom obreiro como architecto. Ti- 
nha-se feito pintor, esculplor, pedreiro, carpinteiro, ferreiro, ferrador e carrei- 
ro: estava em estado de erigir conventos, palácios, omal-os, mobilal-os, sem 
ter necessidade da ajuda d'uma só pessoa. Assim é quo fez o mosteiro de Gol- 
leia, e o ronvenlo o palácio de Gorgora. Porém o seu dole mais distincto ersL 

' Jame> Drucc— rov(/'/('ò aux umrres du Mil, vol. ii.", píig. I6G. 



BR m 

a paciência e o ze!o, que tinha na instruccào da mocidade. N*ama palavra era 
elie na Abyssinia o sustentáculo da religião. Na sua chegada havia cem an- 
noSy que as sementes do catholícismo tinham sido lançadas no paiz, mas só 
mui pouco fructo tinham produzido. Dezenove annos de trabalho d'este mis- 
sionário mudaram de tal sorte as cousas, que a religião romana foi abraçada 
publicamente pelo monarcha, e seis annos depois da morte de Paes caiu n'este 
paiz a religião, apesar de defendida vigorosamente por um príncipe, por um 
palríarcha enviado de Roma, e por mais de vinte missionários muito zelosos. 

«A abjuração que fez Socinios da religião grega, foi seguida por um vio- 
lento manifesto, em que começa por estabelecer a supremacia da egreja de 
Roma e da cadeira de S. Pedro. Insiste muito sobre as duas naturezas de 
Ghristo, e accusava em geral o clero abyssinio de mau procedimento. 

•Mas nem o exemplo do rei, nem seu manifesto, tiveram o effeito que se 
desejava. ^ Um rebelde se declarou contra o rei na província de Ambara, e foi 
necessário o emprego d'armas paia o anniquilar. 

•A alegria da victoria foi augmentada com a da chegada d'um patriarcha. 
Era este o jesuita portuguez AfTonso Mendes, sagrado em Lisboa a 25 de maio 
de 1624, e homem de muito saber, o qual depois de muitos trabalhos na via- 
gem chegou à Abyssinia, e teve a primeira audiência do imperador a ii de fe- 
vereiro de 1626, e foi decidido que Socinios prestaria juramento de obediência 
á cadeira de Roma. 

«Celebrou-se esta ceremonia com toda a pompa. O patriarcha para mos- 
trar sua superioridade sobre os abunas, pregou um sermão em hngua portu- 
guês, no qual provava a supremacia da cadeira de S. Pedro. O imperador, o 
príncipe real Facilidas prestaram o juramento, mas a corte estava cheia de 
descontentes. Pronunciou-se uma excommunhão solemne contra as pessoafi, 
que traissem seu juramento, e que todos aquelles, que estavam a ponto de re- 
ceber ordens sacras, deviam primeiramente abraçar a religião cathollca, de- 
baixo de pena de morte no caso de desobediência, que todos os abyssinios em 
geral deviam celebrar a paschoa, e guardar a quaresma conforme os ritos da 
egreja de Roma, com risco de serem egualmente mortos, se a isso faltassem. 

«Ainda que o patriarcha tinha chegado á Abyssinia, não succedia o mesmo 
aquelles, que deviam ajudar a missão. O rei deu ordem para se mandarem 
cartas de protecção a Francisco Machado e a Bernôrdo Pereira, dois jesuítas, 
que estavam na índia, para chegarem com segurança a Bilur, no reino de 
Dancali; mas o secretario do monarcha poz por malícia, ou descuido Zeyla, em 
vez de Bilur, e n*aquella ilha pertencente ao rei de Adel havia o maior ódio á 
religião catholica, e o sheík de Zeyla mandou-os matar. Além d'isto escreven- 
se uma carta a Socinios, na qual o tratavam de apóstata e d'outros nomes 
odiosos por ter desamparado a religião de seus pães. 

«Tecla Georgis, genro de Socinios, governador então na província de Tígré 
resolvido a revoltar-se, associou-se aos homens mais distinctos e mais pode- 
rosos da província, e particularmente a Guebra Maríam e a João Akayo, a quem 



' James HTikCQ—Voyaijex aux soutces du A'i7, vol. 5.*>, p^g. 171. 
TOMO I 



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ÍIO BR 

declarou nào poder supportar por mais tempo a religião romana, e querer de- 
fender a antiga egreja de Alexandria. £ para melhor convencer osabyBsiniot 
de sna sinceridade, qaeimon todos os crucifixos, todas as imagens de santos 
e todos os paramentos das egrejasi e mandando vir o abbade Jacob» seu capei- 
Ião catholico, o matou por sna própria mão. 

•Á primeira noticia da traição de seu genro Socinios deu ordem a Keba 
Ghristos de marchar contra os rebeldes com as tropas, que tinha comsigo. < 
Este cumpriu as ordens, e derrotou completamente as forças de Tecla Geórgia, 
e foi apanhado e enforcado. Revoltaram-se depois es agows de Lasta, e der- 
rotaram as tropas do imperador, o qual no princípio de fevereiro de i6S9 
marchou contra elles, mas íicou mal, e os adversários creando brios marcha- 
ram para a capital: foram todavia derrotados pelas forças do rei. 

•N'aquelle tempo o príncipe Facilidas começou a attrair as attenções de 
todos os abyssinios. Tinha mostrado grande valor na guerra, e julgavam-n'o 
inimigo da religião catholica. Comtudo vivia com os jesuítas de maneira, qno 
não sabiam se era amigo, ou inimigo d^elles. 

•Este príncipe recebeu do papa Urbano VIII uma mensagem muito llson- 
geira, á qual não respondeu. 

•Outra grande perda para os catholícos foi a morte de Fecur Egrié, um 
dos primeiros sustentáculos da religião catholica. Tinha a mesmo abraçado 
antes do rei, e de Sela Ghristos, e foi o principal author da versão dos Hvroe 
portuguezes em lingua ethiopica, versão em que foi muito ajudado pelo jeeuita 
António do Angelis. Entraram logo os catholicos a serem perseguidos pelos 
revoltosos, c o rei vendo o descontentamento geral, que havia no seu reíno^ 
foi permittindo a pouco e pouco algumas das ceremonías da egreja grega. O 
imperador partiu então para a guerra de Sasta á frente d'um grande exerdto, 
do qual um dos principaes corpos era formado por filhos de portugueses. De- 
pois de se ter assenhoreado de duas montanhas, chegou a uma terceira tio 
excessivamente alta e d'um accesso tão díílieil, que os assaltantes cheios de 
terror perderam logo as esperanças de se fazerem senhores d'ella. Todavia o 
príncipe perdeu alli muito menos gente, porque foi ajudado pelos portugue- 
zes, que interceptando por baixo toda a commuDicaçao, ílzeram com que a 
guarnição d'uma montanha não podessc soccorrer a da outra; fizeram-se se- 
nhores d'eila, e um capiláo porluguez tomou a cadeira, que servia de throno 
ao rebelde Melcha Chrístos, que teve de fugir s<» com dez cavalleiros. 

«Quiz depois o imperador entrar em segunda companha contra os habitan 
tes de Lasta, mas então as tropas recusaram obedecer, mandando- lhe dizer 
Que ellas não podiam dizer se a religião romana era má, porque a não conb 
ciam, nem a desejavam conhecer : que ninguém podia pretender professam? 
religião, que se nào podia comprehender, nem acreditar: quefmalmenteef 
vam prompias a combater, e a perder a vida pelo imperador, mas comac 
dição, que lhes restituiria a sua antiga religião; sem o que não podiam to 
parte nas suas guerras, nem deiíí-jareiíi sor victoriosas. 

* JaniCí Bruí.c— Voí/«(/cs aux yources du :Vi7, vol. .'».'. piij;. 200 



BK m 

tO rei mandou então responder qae restabeleceria a religião, se voltasse 
▼ietoríoso de Lasta. ^ 

tTendo com effeito regressado vencedor teve uma conferencia com o pa- 
triareha Affonso Mendes, que lhe censurou muito ter abandonado a fé catho- 
Kca no mesmo tempo, em que a victoria obtida pelas orações dos padres doesta 
religião lhe forneciam uma occasião de melhor a consolidar. O rei respondeu 
tom am modo de grande indiíTerença : Que tinha feito todos os esforços pos- 
síveis para a defender : Que se tinham já derramado torrentes de sangue, sendo 
ainda necessário vir a derramar outro tanto, e que com tudo era incerto se 
iiso viria a produzir algum effeito : mas que pensaria^ e no dia seguinte daria 

resposta. 

cCom eíTeito no dia seguinte Socinios remetteu uma declaração ao patriar- 

eha por meio de Za-Mariam: Quando abraçamos a religião romana, sustenta- 
mol-a com zelo; mas o povo não lhe mostrou nenhuma aíTeição. Júlio revol- 
tou-ae por causa do odiO; que tinha a Selas Ghristos, mas servindo-se do pre- 
texto de defender a fé de seus pães, e morreu com um grande numero de seus 
partidários. Gabriel imitou-o depois, e teve a mesma sorte. Tecla Gorgoris for- 
mou também uma liga a favor da egreja de Alexandria, e arrastou á ruina uma 
immensa multidão de bravos guerreiros. Tal foi, não ha mais que um anno> o 
motivo da rebellião de Serca Christos; e agora mesmo ò isto o que põe as armas 
na mão aos montanhezes de Lasta. A religião romana não tem nada de mau; mas 
06 habitantes d*este paiz não a comprehendem. Que aquelles, que são affeiçoa- 
dos a esta religião, continuem a seguíl-a, como fizeram os portuguezes em 
tempo de Azenaf Segued; porém que comam e bebam com os abyssinios, e ca- 
sem com suas filhas. Mas também que aquelles, que não gostam da religião de 
Roma, sigam aqnella, que antigamente receberam da egreja da Alexandria. 

cO patriarcha perguntou a Za Mariam se esta declaração vinha do mesmo 
rei, ao que respondeu que sim. E o patriarcha tendo reflectido por um mo- 
mento, encarregou Manuel de Almeida de levar ao rei esta resposta : Que o 
patriarcha acabava de ser informado que o exercício das duas religiões seria 
tivre no reino, e que os sectários da egreja da Alexandria obteriam quanto se 
lhes podesse conceder, sem violar a pureza da fé catholica, que effectivamente 
nio havia difficuldade em conceder aos habitantes de Lasta a religião de seus 
antepassados, tal como era, pois não tinham abraçado outra. Mas que em 
quanto aquelles, que tinham promettido ser fieis á egreja catholica, e que ti- 
nham commungado n'esta egreja, não se podia, sem commetter um grande 
peecado, permittir-lhes renunciar uma religião, na qual tinham entrado com 
o juramento de viver e crer n'ella. ^ 

•O rei ouviu com attenção esta resposta, a qual bem esperava, e replicou 
somente: Que posso eu fazer? Não me é possível governar por mais tempo 
meu reino t E immediatamente deu ordem. para se fazer a seguinte proclama- 
ção feita a 14 de junho de 1632 : Ouvi ! Ouvi ! Ouvi I Nós o primeiro vos demos 

* James Bruce— Voyaflfcs auj- soutres du .Yi7, vol. 'i.", p.ig. 2ii>. 
S Idem, idem, pag. Í50. 



112 BR 

a religião romana, julgando -a boa: mas varias pessoas morreram combatendo 
contra esta religião, entre oatras Júlio, Gabriel, Tecla Gorgoris, Serca Cbris-- 
tos, e ultimamente ainda os selvagens camponezes de Lasta. Nós vos restítai- 
mos pois a fé de vossos pães. 

«Que os padres digam suas missas em suas próprias egrejas. Que o povo 
volte a seus primeiros altares, à sua primeira liturgia, e que seja feliz. Em 
quanto a mim, já velho pela edade, e pela guerra, e opprimido de enfermida- 
des, já me não sinto com forças para governar; e nomeio meu filho Facilídas 
para reinar em meu logar. 

•Assim foi destruída n'um só dia a egreja catholica, e a jerarchia de Roma 
na Abyssinia. Foi destruída pelos esforços, que o governo civil fez para se de- 
fender das usurpações dos padres, e da tyrannia ecclesiastica, que sem duvida 
não tinham outro alvo mais que anniquilar a constituição da Abyssinia, e de 
submetter este império ao governo portuguoz, como já o tinham experimen- 
tado vários reinos da índia. 

«O rei morreu a 7 de setembro de 1632, tendo professado a religião ro- 
mana até o ultimo momento de sua vida. 

«Facilidas escreveu ao patriarcha: Que a religião grega achando-se resta- 
belecida, tomava-so indispensável que todos os padres catholícos deixassem a 
Abyssinia : que acabava de saber que um abuna pedido do Cairo pelo impe- 
rador seu pae, e por elle mesmo, estava a caminho, e só esperava para entrar 
no império o ver sair todos os missionários romanos : que lhes ordenava que 
deixassem seus conventos, e se reunissem em Frcmona, e esperassem alli suas 
ordens. 

• Chegaram pois o patriarcha e seus companheiros a Fremona no fim de 
abril de 1633, tendo sido maltratados no caminho, e resolveram fazer partir 
para a índia e para Hespanha Jeronymo Lobo, o mais fanático d'aquelle gru- 
po, com o fim de fazer vir um exercito, que podesse assolar, e submetter a 
Abyssinia. 

«Mas Facilidas estava informado de tudo. Vendo que o patriarcha só pro- 
curava ganhar tempo, e sabendo que elle e seus missionários tinham um gran- 
de montão de armas de fogo, deu ordem a um de seus ofiiciaes para ir a Fre- 
mona pedir aquelias armas, e todas as munições de guerra, que tinham; < e 
os mandou prevenir ao mesmo tempo que estivessem promptos para partir 
para Massuah. O patriarcha recusou primeiramente obedecer, e Facilidas, em 
logar de o punir se contentou do lhe mandar representar com doçura, a im- 
prudência e inutilidade de sua recusa, e as más consequências, que podia ter 
para ello. Então o patriarcha entregou as armas. Mas era logar de conduzir 
seus missionários para Massuah, tinha intenções bem diíTerenles das do rei da 
Abyssinia. Concebeu o projecto de deixar seus padres, e de os fazer dispersar 
por todas as províncias do império, se fosí^e obrigado a embarcar para Mas- 
suah, bem resolvido a nào o fazer senão em ultima extremidade. 

• Com este desiguio Iraclou de se pòr d( l)aixo da protecção do Baharna- 

1 Jamc^ Bru(e- Voynqe^ aux ^ovrcrb •'" !\i!. vn| j;.", \>^-' •^«3. 



BR 2!3 

gash João Akay, qae estava então revoltado contra seu soberano; e elle reu- 
niu um grupo de homens armados para irem buscar os missionários perto de 
Fremona, e pol-os fora do alcance do governador de Tigre. Este projecto au- 
daz teve o melhor resultado. Akay prometteu sua protecção; e o patriarcha e 
seus companheiros tendo fugido de noite á vigilância dos guardas, a quem o 
rei os tinha confiado, encontraram-se com os soldados do Baharnagash, com- 
maodados por Tecla Emanuel, e se refugiaram em Adicota. O Baharnagash 
recebeu muito affectuosamente o patriarcha e os missionários. 

cPorém algum tempo depois receberam os padres ordem de sair de Adi- 
cota, e o Akay continuou a transferil-os d'um logar doentio para outro, até que 
lhes estragou a saúde. 

«Com tudo Facilidas mandou dizer ao Baharnagash, que lhe perdoaria 
tudo quanto se tinha passado, com a condição de lhe entregar o patriarcha e 
seus companheiros : mas João Akay recusou. Para não faltar à sua palavra não 
qniz entregar os jesuítas ao rei, mas consentiu em os vender aos turcos. Por 
isso estes padres foram entregues por uma somma de dinheiro ao bacha de 
Massuah, que os acolheu muito bem. 

«Dois jesuítas ficaram em Adicota de combinação com Akay, sem que Fa- 
cilidas o soubesse. Esperavam occasião de soíTrerem o martyrio, e ella chegou. 
Todos qu6^ ficaram na Abyssinia morreram de morte violenta, por ordem do 
monarcha, e a maior parte foram enforcados, sendo o ultimo Bernardo No- 
gueira. 

«Facilidas irritado com a obstinação dos missionários, e principalmente 
com o boato, que espalharam, que o vice rei das índias não tardaria em en- 
viar um exercito á Abyssinia, concluiu um tratado com os bachas de Massuah 
e de Suakem para fecharem seus portos aos portuguezes, não deixando nenhum 
d*elles penetrar na Abyssinia. 

«Com eíTeito, quantos padres europeus poder am conseguir entrar na Abys- 
sinia durante este reinado e o seguinte foram todos mortos. 

«Depois da morte do ultimo missionário Bernardo Nogueira nada mais 
se soube do que se passava na Abyssinia, senão por meio d*alguns mercado- 
res ethiopes, que iam commerciar com os hollandezes da Batavia. Foi alli que 
o engenhoso Ludolf, muito occupado com a historia Abyssinia, e não se pou- 
pando a algum trabalho para conservar correspondência com aquelle paiz, 
soube que Facilidas depois d*um longo e prospero reinado tmha morrido e 
deixado a coroa a seu filho Hannés, primeiro. 

«Este mandou ajuntar todos os livros, que os jesuítas tinham traduzido em 
lingna ethiopica, e fel os queimar. Morreu em 1680, e succedeu-lhe seu filho 
Jasous I.» 

Realmente este artigo tem sido excessivamente longo, mas a penna recusa- 
se a parar, quando vé a cada passo nomes e recordações portuguezas n'aquelle 
celebre paiz, conhecido antigamente pelo nome de império do Preste João das 
índias. Sendo a obra de Bruce composta de treze volumes, se d'e]Ia extrabisse 
só o que no^ diz respoilo, teria traduzido um terço de toda ella. 



214 BR 

•DuraDte o aDDo de 1835 e 1836 Maurício Tarnísier e Edmando Gombes 
viajaram na Abyssinia, e imprimiram a relação no Boletim da Sociedade 6eo* 
graphica de Paris nos mezes de jmíbo e julho de 1837. Esta viajem ânrao 
quinze mezes, e tiveram a felicidade de percorrer e estadar paizes ainda poueo 
conhecidos, e encontrar os vestigios deixados pelos portogaezes» ^ 

«Ás dez horas atravessei o Tadda, ^ uma das aldeias mais risonhas e pitto- 
reseas da província: passo o Moghetch por mna ponte levantada pelos porta- 
gaezes, bellissima constmcçào, sem a qual as commonicações estariam inter- 
rompidas darante cinco mezes do anno entre Gondar e as províncias do sol.» 

190) BRUCKER (MIGUEL RATMOND). 

E. — La chapelle des crânes dans Víle de Jfa<ierf .— (Capella dos craiieus 
na ilha da Madeira.) 

E' uma extensa descripçâo acompanhada d'uma estampa, que pnblieoa a 
pag. 19 e seguintes do Musée des Famlles^ do anno de 1834. 

191) BRT E MERIANI (De Fbanckfort). 

E. — Colleciiones Peregriíiationum in Indiatn Orientalem et tn InOam 
Occidentalem. 

•De vinte e cinco partes, ' memorias de differentes escriptos en diversas 
épocas, e originalmente em idiomas vários, se compõe a Colleccão, que é entre 
os amadores conhecida pelo titulo convencional de grandes e pequenas viagens» 
deinominação, que lhe nasce de formato menor e maior das duas séries, em 
que parece estar dividida. 

«A primeira série, em folio ordinário^ comprehende doze partes, em cinco 
volumes, e consta toda de escriptos relativos ás índias Oríentaes. A segunda 
série (Grandes viagens) em folio maior, abrange treze partes, em três volumes, 
respeitantes às Índias Occidentaes, sob o titulo de Historia da America ou do 
novo mundo, 

«Paciência e trabalho aturado tirariam d'esta grande collecção de viagens 
muitas noções da nossa historia; algumas importantes, outras de pequena trans- 
cendência, inda que assim mesmo úteis talvez um dia á controvérsia; e todas 
perdidas em velhos livros, por cujos titules se não denunciam. 

«Oitava entre as partes, que compõem a primeira série da Collecção é o 
itinerário do hollandez João Hugo Linlschoten às Índias portuguezas, ou Oríen- 
taes: volume único, impresso a duas columnas. que abre com a viagem de 
Lisboa para a Índia começada em 8 d'abril 1583. 

•Muitas são as edições e traducções, que este livro tem tido. Escripto ori- 
ginalmente em hollandez, saio em 1596; depois em latim em 1599; em franeez 
em 1610; em allemão em 1614 etc.» 

* Urcullu— ^fí)(/rflp/ita, vol. 3.*, pag. 160. 

' Guillaume Le']eàn—Voya(je en Abyssinie en 186í a 18G3. No Tour lin Monde át 
186ÍJ, pa^. ii6. 

^ }ú->t' áv Toneá — Pauuratna, vol. 13.", pag. 39í. 



BU m 

Pane doesta viagem foi traduzida sobre o latim pelo sr. José de Torres, e 
publicada no vel. i3.° e i4.<* do jornal lltterario O Panorama^ iippresso em 
Lisboa. Vide Lintschoten. 

192) BUCHANAN (CLÁUDIO). 

No 4.«» volume do Investigador Portuçuez em Inglaterra encontra-se a Ira- 
dacção d'uma curiosa viagem feita por este escriptor inglez a Goa com muitas 
notícias da nossa inquisição n^esta cidade. 

•A magnífícencía das egrejas de Gôa excedeu toda a idéa, que formava de 
prévias descripções. Gôa be propriamente a cidade das egrejas, e parece que 
a riqueza das províncias se tem gasto na sua erecção. As amostras de arcbi- 
tectura antiga n'este logar excedem tudo o que se tem feito de semilhante na 
eutras partes do Oriente, em tempos modernos, tanto em grandeza, como em 
gosto. A capella do Palácio é edificada segundo o plano de S..Pedro em Roma, 
e diz-se ser um exacto modello d'aquella incomparável architectura. A egreja 
de S. Domingos, fundador da inquisição é decorada com pinturas dos mestres 
da Itália. S. Francisco Xavier jàz encerrado em um bello monumento de arte, 
6 o seu caixão é marchetado de prata e pedras preciosas. A Cathedral de Gôa 
é digna de uma das principaes cidades da Europa ! e a egreja e Convento dos 
•Agostinbos be um nobre edifício situado sobre uma eminência» e faz de longe 
uma vista magnifica. (Pag. 27.)— Sobre Goa Velha. Vide Pyrard. 

i93) BULLAR (JOSEPH). 

E. — A vDhUer in the Azores^ and a summer at baths of the Fumas, 
Londres, 184i, 2 vol. com estampas. — (Um inverno nos Açores, e um verão 
nos banhos da Fumas.) 

•Obra consagrada principalmente á descrípção pittoresca do paiz^ e dos 
usos, contém informações úteis acerca do clima, aguas e doenças do archipe- 
lago.» 1 

194) BULUALDI (ISM.) 

E. — Pro Ecclesiis LuziíarUcis libelli dw) fmense decembri 1649, mense 
martio 1651J Parissiis. £x officina Gramosiana, 1653. — (Dois opúsculos a fa- 
vor das egrejas de Portugal.) 

M^cionado no catalogo manuscripto dos livros portaguezes e relativos a 
Portogal existentes na Bibliotheca Imperial de Paris. 

195) BURGE (QUTTiT.AUME VANDEN). 

E. — Niewe Uistorische en geographische Reisbeschryvinge, 
(Novo Itinerário histórico e geograpbico de Hespanha e de Portugal. Con- 
tendo uma descrípção exacta doestes reinos e dos paizes e cidades submettidas 
a seu dominio tanto na Europa^ como nos outros continentes. Com uma expo- 



* Morelet — Us Açortíy pag. i5. 



216 RU 

siçào clara de suas divisões antigas e modernas, de sua situação. Tudo em f(Nr- 
roa de cartas por — . Haia, 1705, 4.») 

196) BURGO (THOMAS DE). 

E. — il Cathechism moral and contraversial proper for such as are ai- 
ready advanced to some knowledge of the Christian Doctrme to whieh is 
annexed by loay of an appendix a practical method of preparing for Sã' 
cramental Confession, dedicated to kis Eminence Cardinal Manad, Li^n, 
1752, 8.«, 446 pag. 

Este catbecismo é destinado para as educandas e freiras irlandeias do oon- 
vento dominicano do Bom Snccesso (próximo de Lisboa) fundado em 1639 por 
D. Ir^a de Brito, condessa da Atalaia. ^ 

É de suppôr que Thomaz de Burgo fosse algum padre irlandez, capdlão 
doeste convento. 

197) BURY (DE). 

E. — Lettre au sujet de la découverte de la Conjuration formée amíre 
le roy de Portugal, — (Carta a respeito da descoberta da conjuração formada 
contra o rei de Portugal.) 

« 

198) BURKBARDT. 

E. — Methodo de Ahn em Portuguez, Leipsig, 1868, 1 vol. 8.<* 
Yi esta obra citada em catálogos, e d'ella nada mais posso dizer. • 

199) BURNETT. 

E. — Views of Cintra. London. — (Vistas de Cintra.) 
É apenas uma coUecçâo de estampas, da qual só tenho visto um exem- 
plar. 

200) BURTON (RIOHARD FRANCIS) — Viajante o orientalisU ce- 
lebre. 

Nasceu no condado de Norfolk, em 1820. ^ 

E. — Goa and the blue Mountains, S."* — (Goa e as montanhas azues.) 

201) BUSSIÈRE (VICENTE TH. DE). 

E. — Histoire du Schisme Portugais dam le$ Indes, par—. Paris, 1854. 
— (Historia do scísma portuguez na índia.) 

202) BUSCA (GABRIELLO). 

E. — Delia espugnaiione et difesa delle Portuguezze. Turino, 1598. — At- 
taque e defeza dos portuguezes.) 

* Fr. Lucas de Santa Catbarina — Qnarta parle da Historia de S. IhniingoSf eap. 
IS." e seguintes. 

* Vapêreaa — Didionairt des Contempurains, pag. .108. 



BY «7 

203) BTRON (Lobd)« ~ Um dos imais famosos poetas inglezes dos tem- 
pos modernos. 

Nasceu em Londres no anno de i788, e falleceu em Missolonghi (na Gré- 
cia) a 19 de abril do anno de 1824. ^ 

Por algum tempo a leitura favorita do grande poeta britânico foi a tra- 
dueção das poesias do nosso Camões, vertidas em inglez por lord Strangford. 

Lord Byron escreveu a seguinte poesia, na qual lamenta as amarguras do 
poeta, recommenda a uma dama a leitura de suas obras, e deseja a esta que 
não passe pelas mesmas desventuras, que tornaram a vida de Camões tio 
amargurada 

STANZAQ TO A L.ADY 
WITH THE POEMS OF CAUOENS 

Tbis votíve pledge of fond esteem, 
Perhaps, dear giri! for me tbou' It prize; 
It sings of Love's enchanting dream, 
A theme we never can despise. 

Who blamcs it but thu envious foul, 
The old and disappointed maid, 
Or pupil of the prudish school, 
In sitigle sorrow doom'd to fade? 

Then read, dear gírl, with feeling read, 
For thou will ne'er be one of those; 
To tbee in vain I shall not plead. 
In pity for the poefs woes. 

He was in sooth a genuíno bard; 
His was no faint, fictitious flame: 
Like his, may love be thy reward, 
But not thy hapless fate the samo. 

CINTRA 
XVIH 

Lo f Cintra^s glorious Éden intervenes ^ 
In variagated maze of mount and glen. 
Ah, mo ! what hand can pencil guide, or pen. 



^ John Galt — Lord Byrony complete Works and Life. Paris, 18S7. 

' Para fugir da immuodicie de Lisboa, e de seas ainda mais immundos habitantes, 
a villa de Cintra^ a amas quinze milhas da capital, é tahex a todos os respeitos a mais 
deliciosa da Europa. Contém bellezas de todo o género, nalnraes e artificiass, palácios e 
jardins «aindo do meio das rochas, catarartas, despenhadeiros conventos sobre alturas es- 



218 BY 

To foUow hair in which the eye dilates, 
Tbrough vicws more dazzling unto mortal ken 
Tban those whereef sach things the bard relates, 
Who to the awe strak world unlock^d Elysium^s gates? 

XIX 

The borrid crags, by toppling convent crown'd, 

The cork-trees boar tbat clothe the shaggy steep, 

The moQDtain-moss by schorging skies imbrowD'd, 

The suoken glen, whose simless shrabs must weep, 

The tender aznre of the unruffled deep, 

The orange tints tbat gild tbe greenest bough, 

The torrents tbat from clifT to valley leap, 

The vine on bigh, the wjllow branch below, 

Mix'd in one mighty scene, wíth varied beauty glow. 

XX 

Then sjowly climb the many-winding way, 
And frequent torn to linger as yoa go, 
From loftier rocks new loveliness survey, 
And rest ye at «Our Lady*s boose of woe;» 
Wbere frugal monks their little relics show, 
And sundry legends to the stranger teli : 
Here impious men bave punlsh'd been, and lo ! 
Deep in yon cave Honorius long did dwell, 
In hope lo merit Heavon by making earlh a Hell. 

XXI 

And here and there, as up the crags you spring, 

Mark many rude-carved crosses near the palh : 

Yet dêem not these devotion's offering 

These are memoriais frail of murderous wralh : 

For wheresoe*er the sbrieking victim hath 

Pour'd forth bis blood beneath the assassinas knife, 

Some hand erects a cross of mouldering lath; 

And grove and glen wíth thousand such are rife 

Throughout ihis purple land, wbere law secures not life. 



pantosas, uma distanle vista do mar c do Tejo o alem d'isto c noiavel (se bera quede 
consideração secundaria) como scena da convençilo de 8ir liew Dalrymple. Une em fli 
mesmo toda a rusticidade das serranias com a verdura do sul da França — Byrons cuni' 
pleie Works pag. 86 

No 3.^ vol. do Investigador Portuijuez (pag. 449 e seg.) vem -uma IraducçSo em prosa 
destes versos do Childe Baroid e uma censura a Lord Byron. 



BY 

XXII 

On sloping mounds, or íd the vale beneath, 

Are domes where wbilome kings did make repair; 

Bat now the wild flowers roand tbem ooly breathe; 

let raiQ'd splendour stili is liogering there 

And yonder towers the Prince's palace faír : 

There thou too, Vathek ! England's wealthiest son, 

Once rorni'd thy Paradise, as not aware, 

When wanton Wealth her migbtiest deeds hath done, 

Meek Peace volnpluous lures was ever wont lo shun. 

XXIII 

Here didst thou dweil, here schemes of pleasare plan, 
Beneath yon mountaJn's ever beauteous brow : 
But now, as if a tbing unblest by Man, 
Thy fairy dweiling is as lone as thou ! 
Here giant weeds a passage scarce allow 
To halls deserted, portais gaping wide; 
Fresh lessons to the thinking bosom, how 
Vain are the pleasaunces on eartb supplied ; 
Swepl into wreks anon by Times's ungentle tíde ! 

XXIV 

Behold the hall where chieis were late convened ! 

Oh I dome díspleasing unto British eye ! 

With díadem hight foolscap, lo ! a flend, 

A little fíend that scofTs incessantly, 

There sits in parchment robe array'd, and by 

His side is hung a seal and sable scroll, 

>\l)cre blazon'd glare names known to chivalry, 

And sundry signatures adom the roll, 

Whereat the Urchin points and laughs with ali his soul. 

XXIX 

Yet Mafra shali one moment claim delay, 
Where dwelt of yore the Lusian's luckless queen ; 
And church and court did mingle their array, 
And mass and revel were alternate seen; 
Lordlings and freres-ill-sorted fry 1 ween ! 
But here the Babylonian whore hath bailt 
A dome where flaunts she in such glorioas sheen, 
That men forget the blood which she hath spilt» 
And how the knee to Pomp that leves to vamish gait. 



Si9 



220 BY 

XXX 

0'er vales that teem wítb fraits, romantíc bílis, 
(Oh, that sacb hills upheld a freeborn race I) 
Whereon to gaze the eye wilh joyaunce fills, 
Ghilde Harold wends through maoy a pleasant place. 
Though slnggards dêem it but a foolish cbase, 
And marvel men sboold qait theír easy chair, 
The toilsome way, and long leagne to trace. 
Oh t there is sweetness ín the monntain air, 
And Hfe, that bloated Ease can never hope to share. 

XXXI 

More bleak to view the hills at length recede, 

And, less luxaríant smoother vales extend ; 

Immense borizon-boonded plains succeed t 

Far as the eye discerns, withoaten end, 

Spaín's realms appear, whereon ber sbepberds tend 

Flocks, whose rích íleeee right well the trader knows 

Now mast the pastor's arm bis lambs defend : 

For Spain is compass'd by unyíelding foes. 

And ali most sbield tbeir ali, or share Subjection's woes. 

xxxn 

Where Lusitânia and ber Sister meet, 

Dêem ye what bounds the rival realms divide ? 

Or ere the jealous queens of nations greet, 

Dotb Tayo interpose bis migbty tide? 

Or dark sierras rise ín craggy pride? 

Or fence of art, like China's vasty wall? 

Ne barrier wall, ne river deep and ride, 

Ne borrid crags, nor mountaíns dark and tall, 

Rise like the rocks that part Hispania's land from Gaul 

XXXIII 

Bnt these between a silver streamlet glides, 
And scarce a name distinguisbeth the brook, 
Though rival kíngdoms press its verdant sides. 
Here leans the idie shepherd on bis crook, 
And vacant on the rippling waves dotb look, 
That peaceful still 'twixt bitterest foemen flow; 
For proud each peasant as the noblest duke . 
Well dotb the Spanish hind the difference know 
Twixt bim and Lusian slave, lhe lowest of the low. 



c 



204) CABANES (D. FHANCISCO XAVIER DE) - Brigadero de in- 
raateria de los reales ejercitos.) 

E.— Memoria que tiene por objeto manifestar la posibUidad y facUidad 
de hacer navegable el no Tajo desde Aranjuez hasta el Atlântico, las van* 
tajaSf de esta Empresa, y las concesiones hechas à la misma para realizar 
la navegaáon, Por^. Piiblicase de real Orden. Madrid Imprenta de D. Miguel 
de Burgos. Ano de 1829. foi. 210 pag. 

«Durante a guerra de Hespanha contra as tropas de Napoleão meus diver- 
sos empregos nos exércitos me subministraram meios de observar em diffe- 
reotes occasiões o curso e propriedades do rio Tejo desde Aranjuez e Toledo 
até Lisboa. Surprebendia-me que um rio tão caudaloso/ que atravessa de le- 
vante a poente duas terças partes da Península, e que em seus extremos tem 
dois mercados tão concorridos, como Madrid e Lisboa, não tivesse fixado a at- 
tenção das gerações passadas, nem merecido ao menos um ensaio pratico, se 
podia, ou não ser navegável; mas o que mais contribuiu para excitar mínba 
sarpreza foi a navegação pelo mesmo rio desde Abrantes até Yilla Velha, pro- 
movida e executada pelo engenheiro portuguez Anastácio, e que tão útil foi ao 
governo portuguez n^aquella época. Dizia então commigo: Porque motivo não 
se ha pensado em prolongar esta obra do Tejo até Alcântara, Talavera, Toledo 
o Aranjuez? Quando via em algumas antigas relações, que n'outro tempo se 
transportavam cereacs, e outras mercadorias desde Córdova a Sevilha, não po- 
dia deixar d'exclamar:porque nào imitamos este exemplo? Não cessei de pensar 
nos meios de formar uma planta da navegação do Tejo, que na minha opinião 
é a obra mais fácil de executar de todas d'esta classe, e a mais própria para 
dar áquelles, que a tentarem, uma lucrativa e proporcionada recompensa de 
sua decisão, trabalhos e riscos. 

«Convencido da exactidão e verdade, com que está escripto o projecto de 
navegação geral da Península, formado pelos fins do século xvi por João Bau- 



ns í^A 

tisUAiitoiieUi,e inserto n'iundos tomos dos Elementos de Mathematicsi (tom. a) 
por D. Benito Bails, dei come^ á tarefo de colligir apontamentos, e de em- 
prehender diligentes investigações, qne me podessem elocidar acerca de quanto 
diz respeito ao rio Tejo, do qoal somente se tinham idéas mui confusas. Na 
continua^ do Almocem de frutas Itierarios, publicada no anno de 1818, oi- 
contrei aJgnmas noticias relativas ao mea projecto, mas poaco claras, e ainda 
menos segaras para pod^ formar joizo acerca do conjancto e dos p^Hmeno- 
res da operação. Por ultimo as relações, que tive com algumas pessoas curio- 
sas e instmidãs, me proporcionaram Tariosconhecímentos applicaTeis ao mesmo 
desígnio, de sorte qne chegaei a saber qoe o rio Tejo bavia sido objecto de 
grandes considerações em tempo de Filippe II, e qne soa nav^açào havia sido 
intentada com tal actividade, e praticada com tão bom êxito, que o engenheiro 
AntoneUi, chegou n'am barco desde o Oceano até Aranjoez, e logo por Jarama 
e Manzanares até mais alem da ponte de Segóvia, e sitio, que chamavam «í 
moUno quemado, coisa que pareceria incrível, se não convencessem de sna ver- 
dade os documentos authasticos, em que o facto está consignado, e que ainda 
se conservam. Abandonou-se depois por varias causas, sendo uma d'ellis a 
separa^ de Portugal, um plano, que havia já fdto tantos progressos; mas 
sempre ficou assegurada a idéa de sua possibilidade. 

cEm 1887 tive occasião de observar tanto na França, como na Ingialerra 
e Paizes Baixos a applicação do vapor por meios mais adequados ao meu pro- 
jecto do Tejo, do que os, que me haviam suggerído os trabalhos feitos pda 
companhia do Guadalqnibir para as obras d'aquelle río. Também rectifiquei 
então minhas idéas em geral; porém coDtirmaQdo-me cada vez mais de qne era 
possível a navegação do Tejo, mediante o conveaienUí indireitamento de suas 
margens, pois d'este modo tomava-se mui fácil praticar-se n'ella uma via cons- 
tante de aguas de três pés e meio a quatro de 4)rofiindidade, e de vinte e cin- 
co de largura, que é de quanto se necessita para a navegação a vapor. 

«Antes das investigações ultimamente feitas somente se conheciam alguns 
pormenores acerca da navegação do Tejo. contidos nas Memorías de Garíbay, 
bem como n'uma relação do passeio, que pelas aguas dos rios Jarama e Tejo 
deu embarcado o rei D. Filippe 11, e aquelles de que se faz menção n'uma carta 
do padre Burriel, e no informe de Savedra sobre vários pontos de navegação 
interior. Parte doestas noticias estavam inéditas. Por noticias de tal qualidade, 
tão minuciosas e authenticas fica provado até á evidencia ser mui possivol na- 
vegar pelo Tejo. 

«João Bautista Antonellí era um engenheiro distincto,e mui acreditado, que 
havia servido com applauso e bom êxito em muitas commissões importantes, 
auxiliando D. Filippe II e o duque d'Alba na expedição de Portugal no anno 
1580. O plano geral de navegação interíor, que propoz da Península Hespa- 
nica podia reputar- se para aquelles tempos como grandioso, extraordinário, 
de muita novidade e mento, superior ás producções contemporâneas. Filippe II, 
que adoptou a proposta de Antonellí, tríbutou-lbe uma solemne homenagem 
navegando pessoalmente acompanhado de sua família pelos rios Jarama e Tejo 
desde Vaciamadrid até mais abaixo de Accca. 



GA m 

«Os procuradores do reino reunidos em Madrid em 1583 approvaram o pro- 
jecto de navegação interior apresentado por Antoneili^ e votaram para sua exe- 
cução cem mil ducados, que se não deviam appiicar para outro fim; e o fa- 
moso architecto do Escurial, Uerrera, era o conselheiro de Filippe II n'esta 
empreza. 

«No tempo de Filippe lY os engenheiros Carduchi e Martelli procederam 
a um novo reconhecimento no rio. 

«Também se pôde contar em o numero dos monarchas hespanhoes, que 
hão favorecido esta idéa, D. Fernando YI, que a poz debaixo de sua protecção 
para que se realisasset Por isso seu ministro D. Ricardo Wall ouviu os infor- 
mes, e examinou os planos e propostas, que lhe appresentou o alcaide D. Car- 
los de Simon Pontero, que abundava nas mesmas idéas de Antonelli e Cardu- 
chi, e a cujo dictame se aggregaram varias pessoas iilustradas, e com especia- 
lidade os engenheiros Briz e Simó Gil.» 

Os documentos relativos a esta importante empreza estavam guardados nos 
archivos de Simancas e de Toledo, e bom serviço prestou o hespanhol Cabanos 
pnblícando-os por meio da imprensa, pois doesta forma podemos conhecer com 
a maior minuciosídade quanto se passou relativamente a este assumpto. 

Dá-nos, pois, o auctor ^ todas as noticias seguintes : 

«Desde Aranjuez até Toledo (dez léguas) ú mui regular o curso do Tejo, e 
em geral tem todas as apparencias d'um canal sem corrente excessiva. 

«Nas immediações de Toledo ha muitos obstáculos, mas evitar-se-hiam na 
maior parte «om o canal, que estava projectado. 

«Desde Toledo até Puente dei Arzobispo (vinte e seis léguas) offerece o Tejo 
as mais formosas e fáceis ribeiras para a navegação, como o declara o enge- 
nheiro Antonelli, a ponto de as comparar com as do Pó, e outras da Lom- 
bardia. 

«Desde Puente dei Arzobispo até Herrera (quarenta léguas) ha lanços de 
mais difficuldade, que os já citados: porém também é maior o numero das 
obras a que se deve proceder, com que ficariam notavelmente acommodados 
6 dispostos para a navegação. 

«De Herrera até Abrantes (dezesete léguas) torna o Tejo a ser mais fá- 
cil para se navegar por elle, de maneira que a maior parte doeste districto, ou 
pelo menos desde Yílla Yelba até Abrantes se navegou sem interrupção em 
1812 e 1813, e actualmente por elle se navega também. 

«Desde Abrantes até Santarém (onze léguas) está sempre aberta a navega- 
ção, a qual é muito fácil de Santarém até Lisboa, por espaço de quatorze lé- 
guas. 

«Tanto as obras necessárias para passagem das represas e pontes, como as, 
que exigem as limpezas e encanamentos, longo do serem d'um custo muito 
grande, podem rcalisar-sc por uma quantia bastantemente módica em compa- 

i Pag. \li. 



124 CA 

raçao das vantagens, que devem proporcionar. ^ Galcalaram-se as despesas 
soperíormente ao que hão de ser effectivamente, e vé-se qae a somma total 
d'elias não excede a somma de 11.600:000 reales de velon. 

cHa mui exactos dados, qae asseguram nao estarem errados estes calca- 
los. Em primeiro logar as vinte e quatro léguas, que ha de rio desde Abran- 
tes a Alcântara, custaram, incluindo o caminho de sirga 418:000 reales velon. 
Ha noticia do importe do encanamento da navegação desde Taiavera la Yieja a 
Toledo, vinte e cinco léguas, que importou em 14.742:995 maravedis, que são 
433:617 reales de velon. Comparando o valor do dinheiro da Península do sé- 
culo XVI com o que tem actualmente equivaleria ao seguinte calculo: 

Obras Imporlaram Corresponde 

ao dinheiro actaal 

De Abrantes a Alcântara 418:000 r. v. 1.672:000 

De Alcanura a Taiavera la Yieja. . . 343:095 1.372:38! 

De Taiavera la Vieja a Toledo 433:617 1734:470 

Somma 1.194:712 4.778:85! 

«£ como nenhuma d*estas obras exige muitos mezes para sua conclnsio, 
bastará um só verão para tornar navegável o Tejo. 

«É preciso confessar em boa fé, que a respeito d'esta empreza se tem pro- 
cedido em todos os tempos com bastante injustiça, e mesquinhez ImplacaveL 
Em primeiro logar, porque desde o reinado de Filippe II em nenhum tempo 
quizeram examinar lealmente, nem mesmo ouvir as razões, que a favor d'ella 
apresentavam pessoas de merecimento, que d'ella trataram; e em segundo, por- 
que sempre foram mesquinhos com fundos para um objecto tão grandioso, e 
de tão incalculáveis vantagens, quando pelo contrario se teem applicado im- 
mensas quantias para obras inteiramente improductivas, e de cuja utilidade, 
mesmo considerada debaixo do aspecto de ornato, se duvida não poucas vezes. 

«Como se responderá á accusação, que a respeito de nossa incúria nos poda 
fazer a posteridade, sabendo que até ao anno de 1829 nada de positivo se sa- 
bia emquanto á navegação do rio Tejo, ao passo que em Simancas, e u'outrus 
archivos existiam os documentos preciosos, que agora pela primeira vez saem 
á luz? Como se responderá á accusação, que a mesma posteridade nos poderá 
fazer de não havermos tirado partido do rio Tejo para exportar nossas amon- 
toadas colheitas, em tempo, que nos sobrava o oiro e a prata, que empregáva- 
mos inconvenientemente em objectos contrários a nossos interesses? 

•As causas priucipaes, porém, que teem obstado á canaiisação do rio são 
as seguintes: !.■ O serem despovoadas as margens do Tejo, e os terrenos adja- 
centes a ellas. 2.* A escacez de conhecimentos relativos ao curso d*este rio, e 
aos terrenos visinhos. 3.* A desconfiança dos proprietários das obras construí- 
das no Tejo, c a falta de direitos para a existência de algumas d'ella8. 4.* A 
upce^sidad»^ de caminhos de sirga. 5.» A constante escassez da falta de nume- 

' FílLV li 



CA 22S 

rario. 6.* A separação de Portugal. 7.* A preferencia, que se dá aos canaes de 
derivação, por causa da dupla utilidade de navegação e rega, que propor- 
eionam. 

É incrível a falta de povoação^ que se nota nas margens d'este rio, pelo 
menos desde Talavera até Abrantes. 

O Tejo partindo de Aranjuez corre na Hespanha as provindas de Toledo e 
Extremadnra, e em Portugal as do Alemtejo e Extremadura portugucza. Na 
provincia de Toledo está deserto o dístricto de Aranjuez a Toledo, e regular- 
mente povoado o que corre desde este ponto, até Talavera. Continua logo o 
Tejo atravessando o districto mais deserto da Extremadura hespanhola, a qual 
provincia é a mais despovoada de Hespanha. Entra em seguida na do Alemtejo, 
que das de Portugal é a menos povoada, e só desde Abrantes, onde começa a 
Extremadura portugueza, entram a encontrar-se povoações importantes, como 
% mesma villa de Abrantes, Constância, Tancos, Santarém, Yiila Franca e ou* 
Iras. Por isso o viajante, que sem grandes conhecimentos da Península, per- 
corre pela primeira vez as margens do Tejo, não pode deixar de admirarse 
como margens de tanta celebridade se encontram em tão incrível desamparo* 

«Garibay nas suas memorias manifesta claramente a opposição dos tolede- 
tanos à navegação, e além d'isso sabe-se que os procuradores do reino, reuni- 
dos em Madrid no anno de 1583 adoptaram com gosto a proposta d'esta em- 
preza, não estando situadas nas margens do Tejo as cidades ou villas, que re- 
presentavam : e somente se oppozeram, mas mui fortemente, os procuradores 
de Toledo, que representavam e pertenciam a uma cidade situada na margem 
d'aquelle rio. E não é possível explicar o fundamento doesta opposição, senão 
attribaindo-o ao errado conceito, que d*ella formaram, com respeito a seus in- 
teresses^ os proprietários das obras praticadas no rio. 

«Outra difíiculdade eram os caminhos de sirga, pois se tratava nada menos 
que de praticar uma linha de communicação pelo espaço de cento e vinte seis 
^goas, com seis palmos de largo, conforme exigia Antonellí,.o que não podia 
deixar de custar sommas immensas. 

< AntonelU, o dr. Guillen, e varias outras pessoas ^ empregadas nas obras do 
Tejo durante o reinado de Filippe II se queixaram constantemente da escassez 
de numerário para as mesmas. Yô-se pelos documentos, que o dinheiro se des- 
viava d'estes trabalhos para outras obras. 

«Nos dois reinados, que se seguiram, a falta de numerário foi cada vez 
maior, a ponto de acconselhar ao rei o conselho doestado a que mandasse pa- 
rar as obras por causa da falta de meios. Na ultima metade do século xvu era 
quasi impossível pensar em similhante negocio, pois as hostilidades dos dois 
povos duraram pelo espaço de vinte e oito annos desde i640. Depois de reco- 
nhecida a independência de Portugal pelo governo hespanhol, D. Pedro, que 
governava então Portugal, achou- se em circumstancias tão dífficeis, que estas 
o obrigaram a pensar em assumptos bem diíTerentes, ao passo quo na Hespanha 
a complicação dos negócios não era menos lastimosa. ' 

* Pag. 20, 

TOMO I i5 



226 GA 

• 

«Um canal de derivação, qae se praticasse desde Aranjaez até ao Atlântico 
ii'Qm calcnlo moderado importaria em quinhentos milhões de reales: masnio 
daria resultados, que compensassem tão enorme despeza. Porém a navegado 
do Tejo é de tal importância, que não é possível prescindir de indicar suas van- 
tagens, e para isso se partirá sempre da hypothese, que veriGcando-se a passa- 
gem de barcos de Lisboa até Toledo e Aranjuez, se continuem os trabalhos em 
termos, que depois não haja dífficuldades, em que prosigam até Madrid. 

«Pelo espaço d'umas quarenta léguas desde a fronteira de Portugal ^ até ao 
Atlântico appresenta o curso e estado do rio diferenças notáveis, que dão mar- 
gem a varias reflexões não faltas de importância. Para examinar este distríeto 
convenientemente considerar-se-ha dividido em três partes, a saber : desde YiUa 
Velha, ou portas de Rodas até Abrantes : desde Abrantes até Santarém, e desde 
Santarém até Lisboa. 

«Pelo primeiro lanço, perto de quinze léguas de comprimento, se navegoa 
pelos annos de 18ii, Í8i2 e 1813 pelo systema do engenheiro portuguez Anas- 
tácio, em barcos chatos de capacidade de cento até centoe cincoentaquíntaes 
os quaes barcos tripulados por três ou quatro homens faziam sua viajem de su- 
bida por meio de remos e sirga, e raras vezes à vela, n'uns oito dias só. Com 
estes barcos se levavam a Yilla Velha os viveres, de que necessitava o exereito 
anglo-luso. 

«Pelo segundo lanço, desde Abrantes até Santarém, doze léguas, navega-se 
actualmente sem interrupção em barcos chatos da capacidade de duzentos 
quintaes. 

«Pelo terceiro lanço até Villa Franca navegam barcos de seiscentos até sete 
■centos quintaes. 

«Por agora só diremos que o rio Jarama oíTerece meios segares de estabe- 
lecer uma navegação activa entre Aranjuez e Vaciamadrid durante oito mezes do 
anno, e que as combinações, de que é susccplivel o real encanamento de Ja- 
rama com os recursos, que hão-de augmentar as aguas de Madrid e do Manza- 
nares, estabelecerão uma commoda e rápida coramunicação por agua entre as 
respectivas capitães dos dois reinos, que formam a Península Ibérica. 

«Em nosso modo de intender a navegação do Tejo deve assegurar aos qu« 
a verificarem meios de transportar annualmente acima de dois milhões e seis 
centos mil quintaes, a saber: milhão e meio em direcção desde o Atlântico até 
Aranjuez, e acima de milhão e cem mil quintaes em direcção desde Aranjuez 
até ao Atlântico. Para chegar a este fim parece-nos que serão suíficientes qua- 
renta barcos a vapor, e outros quarenta de transporte sem machina, trinta e 
seis dos quaes estarão em continuo serviço, e os quatro restantes em reserva, 
tendo cada um setenta pés de largo, e dezeseis de comprimento, de quinze to- 
neladas, e da força de vinte cavalios, e calculando-se cada viagem entre ida e 
volta desde Aranjuez até Lisboa em doze dias. 

€ Depois de concedido pelo governo hespanhol o privilegio da navegação no 
Tejo ao auclor d'cstas memorias, era necessário, além do privilegio, que o go- 

1 Pag. à9. 



GA 227 

verno de Portagal permittissc a passagem dos barcos até ao Atlanlico; diri- 
l^u-se por isso ao governo porluguez, que despachou, depois d'um detido 
exame, d'um modo favorável ao interesse dos dois paizes. ^ As pessoas, que mais 
coDtribuiram para esta concessão, além dos ministros, foram o duque de Ca- 
diYal, visconde de Santarém, o conde da Figueira, Joaquim Severino Gomes e 
D. Joaquim Acosta y Montealegre, ministro plenipotenciário de Hespanha. 

« O calculo dos gastos do estabelecimento da empreza chegará tao somente à 
importância de vinte milhões do reales. Constam estes gastos de três partes: 
1/ Obras avaliadas em 11:600:000 reales: 2.« barcos 8:000:000 reales: 3.« gas- 
tos imprevistos 400:000 reales. 

Os rendimentos annuaes devem orçar por 17:620:000 reales 

Despezas annuaes 10:500:000 

Differença a favor da empreza 7:120:000 

•Regosijemo-nos, pois, hespanhoes e portuguezes, com a celebração d'este 
trs^do, e consideremol-o, como o pacto de família peninsular, que unirá as 
duas nações com um vinculo tão intimo, como é evidente signal da concórdia 
e harmonia, que reina entre as esclarecidas e augustas dynastias de Borbon 
de Hespanha e de Bragança de Portugal. ^ 

•Sendo necessário examinar a fundo a corrente do rio, a 8 de abril de 1829 
embarcou em Aranjuez n'um barco, a que se poz o nome do Antonellí, o ín- 
genheiro Marco Artu, e com uma viagem de quarenta dias chegou a Lisboa, 
durante os quaes só navegou vinte e seis, sendo os outros destinados para ob- 
servar todos os pormenores e incidentes dignos de se notarem. A admiração, 
que isto causou aos habitantes das margens do Tejo, foi extraordinária, e inex- 
primivel, pois por nenhum modo julgavam que um barco procedente de Aran- 
juez podesse descer pelo rio, sem ser arrebatado pelas correntes, ou sem se des- 
pedaçar contra os penedos. Porém, onde a admiração chegou ao cumulo, foi em 
Lisboa, em cujas aguas, ainda que frequentadas por navios de todo o universo. 
não se tinha visto nenhum, que procedesse do centro da Peninsul^i desde o sé- 
culo XVI, em que o immortal Antonelli levou ao cabo egual operação debaixo 
dos auspicies de Filippe II. A viagem de regresso durou 138 dias, dos qu<ies 
somente se navegou por 112, sendo os restantes empregados em estudos e re- 
conhecimentos.» 

. 205) CABINET (THE) Cyclopedia. London, 1832. 

Apparece n'esta collecção uma Historia de Portugal e de Hespanha era 1 
vol« obra de que vi um exemplar em poder do sr. Francisco Arthur da Silva. 

« Pag. 43. 

' Pag. 51. Se bem que toda esta Memoria é mui interessante não se fazem roais ex- 
tractos, porque a via férrea fez dispensável a navegação pelo Tejo, como a propunha 
Cabanos. Diz o sr. Ribeiro de Saraiva em o n.<* 4:749 do Jomaí do Commcrcio de Lisboa 
que as diligencias para a oavegaçâo do Tejo foram suspendidas e frustradas pela revoliu 
çao fraoceza de 1830, e pela invasão de Ucspanba por Mina, sob auspicies francezes. 



228 CA 

206) CABRERA (LUÍS DE CÓRDOBA) — Cbronista hespanhol. 
Fallecea em 1655. * 

E*. — Crónica de Fdippe II re d^ Espana. Madrid, i619. 

A historia de Hespanha está tao intimamente entrelaçada com a de Porta- 
gal, que difflciimente se encontrará livro histórico hespanhol, no qoal se não 
tope com passagens, qae nos digam respeito. No entanto (por causa da brevi- 
dade) só mencionarei nm on oolro. 

207) GAGELADA (JUAN LOPES). 

E. — Profecia politica verificada en lo que está succidiendo a los portu» 
gueses por su ciega afidon a los inglezes^ hecha luego despues dei terremoto 
de 1755. México, 1806.— (Y. Profecia poUtíca.) 

208) GAILLEIÍER (E.) 

E. — I. Ant. Goveani ad DD. titfdum ad senatusconsullum Trebellianum 
commentariolum quae supersunt juxta fidem GratianopoUtani Codicis edidit. 
— Paris, 1865, 8.» 

É ama nova edição da obra aqui citada do nosso tão famigerado joriscon- 
sQlto António de Goavea, que, apesar de ser om dos maiores vultos litteranos, 
que mais honra dão ao nosso paiz, ainda não teve um portuguez que condi- 
gnamente lhe escrevesse a biographia. 

II. Ântoine de Govea fut il conseUler au parlement de Grenoblef Paris, 
1865. 

III. Etude sur Anioine de Govea (1505-1366), Paris, 1864, 8.» 46 pag. 

209) CALANDRELLI (JOSEPH) — Sócio correspondente da Acade- 
mia Real das Sciencias de Lisboa, a qual lhe publicou no 2.° volume das Me- 
morias 2 o seguinte artigo: 

Observatio Eclipsis Lunaris habita die 3 januarii anno 1787, m Colle* 
gU) Bomano.— (Observação do eclypse lunar no Collegio Romano). 

210) CALDERON. 

E. — Memoria sobre el estado de la industria minera de Partugal. 
Vem no Bulletin de la societé geologique de France, 2.* serie, tom. 7.» 

211) CAMMARANO. 

E. — Ines de Castro. A Lyric Tragedg, in three acts» Poetry by Signor 
Salvador Cammarano, The Music by Signor Perstani, As rcpresented at her 
Majesty's theatre. Haymarket, 1840. London, 1840, 8.» 81 pag. Em inglez e 
italiano. 

Os cantores, que desempenharam esta opera, foram os seguintes: 



* Firinin Didot — Nouvtlle Biographie Universelle, voi. 8,*>, pag. 43. 
' Pag. 39 do mencionado volume. 



CA 229 



nOMEKS 



D. AfToDso, rei de Portugal, Lablache,— !). Pedro, /íuòtnt.— Gonçalves, fi- 
dalgo hespanhol, Morelli.— Rodrigo, capitão de archeiros, GtUli. 

DAMAS 

D. Branca, Mademoiselle E. Gfmi.— Ignez de Castro, Madame Persiani. — 
Elvira, Madame BellinL 

Ha mais daas edições d*esta opera publicadas ambas no anno de 1839, uma 
em Londres, e outra em Firenze. 

212) GAMPADELLI (F.) 

Publicou no tomo 13 do Panorama uma ode em louvor do grande florista 
portuguez Constantino, então residente em Paris. 

ODE A MONSIEUB CONSTANTIN 

L'art sous ses mille aspects est d'essence divine; 
Son horizon sans borne est Tespace vermeil; 
En tous lieux il rayonne, il brille, 11 illumine : 

Cest le disque d'or du soleil. 
II revét à Tenvi cent formes saisissantes. 
lei, sous les couleurs qu'animent les pinceaux, 
II étale à nos yeux des toiles ravissantes 

Et de magnifiques tableaux. 
Lá, d'instruments sans nombre aux gammes infinies. 
Et de la voix humaine aux magiques ressorts, 
L*art créateur enfante un monde d'harmonies 

Dans les plus merveillenx accords. 
En mille objets divers il s'étale et s'exprime 
A Touie, à la vue, à tous les sens humains; 
Sous sa main qui le guide et Tesprit qui Tanime. 

II a des charmes sonverains. 
Constantin, vous, artiste, aux rives embaumées, 
An ciei des doux parfums, aux régions des fleurs, 
Vous avez apporté d'autres fleurs animées, 

D*autres parfums, d*autres senteurs. 
Dans ce mond attrayant de graces merveilleuses. 
De múltiplos couleurs, de beautés, de rayons, 
Vous semez à Tenvi sous nos mains curieuses 

Vos charmantes créations. 
Sur vos habiles doigts^ dans vos ardentes veilles, 
La nature à vous seul explique ses secrets; 
Eile ouvre à votre esprit ses plus riches merveilles^ 

Qu^elle cache aux yeux indiscrets. 



230 CA 

Votre arl, c'est ia natarc, et les ílears sont vos oeuvres; 
Fleurs des champs ou des monts, des jardins ou des bois, 
Qa*on le doive au soleil comme aux soins des manoeuvres, 

Se multiplient sous vos doigts. 
A ces créations, frnils de votre génie, 
Ríen ne manque, i'óclat, la fraicbeur, la bontc ; 
ToQi fait bríllant cortège à la grace iníinie. 

Cest Ia nature eo vérité t 
Oní, vous étes artiste, et le premier sans doute 
Quí jamais ait traduít, à notre étonnement, 
Les ouvrages de Dieu semés sur votre route 

Avec autant de sentiment. 
Car vous trompez nos sens, Táme, rintelligence, 
Hesitent á marquer, dans mille fleurs au choix, 
Celles que nous devons á la Toute-Puíssance 

Ou qui sont Tceuvre de vos doigts. 

213) CAMPAGNE DE SIX MÓIS dans le Royaume des Algarves en 
Portugal. Bruxelles, J. de Mat, imprimeur llbraire, i834, 4.<' 54 pag. com um 
mappa do Algarve. 

Esta obra é o diário do corpo de atiradores belgas commandado pelo te- 
nente coronel Lecharlier no serviço de Portugal. 

Em 23 de janeiro de 1834 o corpo belga^ contractado por Mendizabal, acba- 
va-se reunido em Falmouth, donde saiu com destino a Portugal em dois va- 
pores Royal Wílliam e City of Edimburg. Foi este corpo enviado para o Al- 
garve com o Dm de combater as guerrilhas, prmcipalmentc a de Remechido, 
tanto n'esta província, como na do Alemtejo. Celebrada a convenção de Évora 
Monte regressaram os belgas immedíatamente ao seu paíz. 

214) CAMPAGNE (LA) DE PORTUGAL, en 1810 et 1811. Ouvra- 
ge imprime á Londres, qu'il était defenda de laisser penetrer en France sous 
peine de mort; dans leguei les jactances de Buonaparte sont aprédées, ses 
mensonges dévoilés, son caractere peint au naturel, et sa chute prophetisée, 
Seconde édition. Paris, 1814, 8.°, 67 pag.— (Campanha de Portugal. — Obra 
impressa em Londres, c prohibida de entrar na França debaixo de penna de 
morte, etc ele) 

2 lo) CAMÇAIGNS OF THE BRITISH ARMY IN PORTUGAL, 
under the cammand of gf urrai tJic cari of WeVlnijtmi li. B. commandei' in 
chicf, etr. etc. Dcdiratrd hij prriui.^sion lo ///.< Lurd^ínp. London, Prinled by 
W. Dulm>T and Co. 1811 — («'ainpanhas do cxiToito ingl<;z em Portugal etr.) 

Folio máximo («; a poiíío do stir iurommodu,) com inv.e magnlGcas estam- 
pas, e (iiialoize paginas de Icxlo. 

As ('^lampas Iraelam dos seguinlcs assumptos : 

J.* Desembarque do exercito iiiglez na Bahia do Mondego.— 2.* Ataque 



CA 231 

dos corpos francczes commãndados pelo general Laborde, a i7 de agosto de 
1808. — 3.» Batalha do Vimeiro.— 4.« Embarque do general Jonot no cães de 
Sodré, depois da convenção de Cintra.— 5.* Ataque da forte posição de Grijó, 
a il de maio de 1809.— 6.* Passagem do Douro pela divisão do commando 
do tenente general Edward Paget.— 7.* Passagem do Douro pela divisão do 
tenente general Sir John Murray.— 8.<> Ponte de Nodin, em que se representa 
os francezes a deitarem ao rio Ave a ultima de suas peças de artilheria. — 9.* 
Ataque de retaguarda dos francezes em Salamonde.— 10.* Ponte de Saltador, 
onde terminou a perseguição depois do successo de Salamonde.— 11.* Vista da 
Ponte de Miserere, a umas três léguas de Salamonde, onde os francezes fati- 
gados estão em preparativos de se retirarem para a fronteira de Hespanha.— 
12.* Batalha de Talavera.— 13.* Batalha do Bussaco. 

216) OAMPOMANES (D. PEDRO RODRIGUES). 

E. — Noticia geográfica dei reyno y caminos de Portugal, Madrid, 1762. 

• 

217) OANDAU (M. L.) - Ancien chef d'institution. 

E. — I. Expéditions portugaises aux Indes Orientales par— .Tours, 1857, 
8."^, 140 pag. com uma estampa, que diz representar Mendes Pinto visitando 
o rei d*UDQi paiz da índia. Esta obra faz parte da Bibliotheqne des Ecoles Chre- 
tiennes approuveé par VEvêque de Nevers. Ha outra edição de 1858, e ainda 
outra de 1860. 

Este pequeno trabalho não é mais do que um resumo das viagens de 
Fernão Mendes Pinto. 

II. Mendes Pinto par — . Tours, 1847, Idem, 1851. 

218) CANETE (D. MANUEL). 

Escreveu um artigo em o numero 15 da Revista Litteraria Hespanhola, 
em elogio da Harpa do Crente do sr. Alexandre Herculano. < 

219) CANNECATIM (FR. BERNARDO MARTA DE) — Capuchinho 
italiano da província de Palermo, missionário apostólico, ex-prefeito das mis- 
sões de Angola e Congo, e superior actual do hospício dos missionários capu- 
chinhos italianos de Lisboa. 

E. Collecção de observações grammaticaes sobre a língua bunda ou an^ 
goknse, compostas por — . Lisboa, na impressão régia. Anno mdcccv, por or- 
dem superior, 4.<>, 218 pag. É dedicada a João VI. 

Esta obra é precedida d'um interessante prefacio, no qual apresenta a 
historia da lingua bunda, e a utilidade do conhecimento d'este idioma. 

Diccionario da lingua bunda ou angolense, explicada na portugueza e la* 
tina. Lisboa, impressão régia^ 1804, 4.°, 720 pag. 

220) OARAYON (PÈRE AUGUSTE) — Jesuita c historiador francez. 

^ Revista Universal Lisbonense^ vol. 5.", pag. lIíG- 



232 GA 

Nasceu no anno de 1813. 

E. — I. Prisons du marquis de Pombal, mnislre du Portugal ^-^ Journal 
de 1759 à 1777. Paris, 1865, 8.» — (Prisões do marquez de Pombal.) 

II. Lettres inédites sur le réIablissemeiU des jéswies en Portugal, du pe- 
re Joseph Delvaux» Paris, 1866, 8.° — (Cartas inéditas acerca do restabeleci- 
mento dos jesuitas em Portugal.) 

221) GABDON (EMILE). 

E. — Études sur VEspagne, le Portugal, et leurs colonies, Lettres sur l\Ex' 
posUion Universelle de 1862 par—. Paris. Revue du Monde Colonial, 1865, 8.», 
75 pag. — (Estudos sobre a — e suas colónias.) 

Faz uma pequena descripção de Portugal e suas colónias, apresenta um 
pequeno catalogo dos productos portaguezes, e prova que o paiz havia pros- 
perado ultimamente, apezar das calamidades, que o teem ferido. 

222) OARBL (AUGUSTE). 

E. — Preás historique de la guerre d'Espagne et de PoiHugal depuis 1808 
jusqu*à 1814. Paris, 1815. — (Resumo histórico da guerra—.) 

223) OARLISLE (Sm ANTHONYJ— Presidente do Collegio dos Cirur- 
giões da Cidade de Londres. 

Em 1835 presenteou a Escola Medico-Cirurgica de Lisboa com uma bella 
collecção de livros escolhidos. 

Vide Diário do Governo de 1835, n.« 297 . 

224) CARLOS (D.) E D. MIGUEL, Oui et non, est-il de Vintérêt des 
puissances legitimes et monarchiques de laisser périr dam la Péninsule lama- 
narchie et la légitimité ? Paris, 1823, 4.°, Idem 1838. — (Sobre a guerra civil 
entre D. Pedro e D. Miguel. 

225} CARNARVON (Conde de). 
V. Portugal and Gallicia. 

226) CARNE. 

E. — Le Portugal au XLY*"* siêcle. (Na Revue des deux Mondes,) 

227) OARNOTA (Conde de). 
V. Smith (John). 

228) CARRERE (PEDRO). 

V. Voyagc en Portugal, particuliérement à Lisbonne. 

229) CARRILLO (Fr. JUAN). 

E. — Historia de Santa Isabely infanta de Aragon y reina de Portugal. Za- 
ragoça, i615. 



CA Í33 

230) CARRILHO (Fr.JUAN). 

E. — Relacion histórica de la real fundacion dei Monasterio de las Des» 
calzas de S. Clara de la villa de Madrid. En las vidas de la princeza de 
Portugal D. Juana y de la Emperat. Maria su hermana, Madrid, i616, 4.*' 

O único exemplar, que teabo visto d'esta obra, foi em outubro de i873 em 
um leilão de livros. 

231) CARTA DUM INGLEZ a respeito do mathematico José Anas- 
tácio. 

Appareceu a traducçâo no 4.*' vol. do Investigador Porluguez^ pag. 3i. 

232) CASAUS (D. PEDRO FERRER Y). 

E. — Descripcion estadística y geográfica de Espana y Portugal, Escrita 
en ingleZy tradudda y aumentada com notas por ~. Madrid, Í8i7. 

233) CASIOVAI (STANISLAS). 

E. L — Monumenti relativi ai giodizio pronunciato delV Academia Etrusca 
di Cortona di un elogio éPAmerigo Vespucci. Florença, i780. 

II. Elogio dAmerigo Vespucci, che ha riportato il premio daUa nobUe Aca^ 
denda Etrusca di Cortona. Florença, i788. 

III. Dissertazione sopra il primo viaggio d^Amerigo Vespucci alie Indie Oc- 
ddentali, Florença, i809. 

lY. Exame critico dei primo viaggio d^Amerigo Vespucci. Florença, i8ii. 

Américo Vespucci, como todos sabem^ andou servindo na marinha portu- 
gueza, e tudo, quanto se escrever acerca d'este celebre navegador, interessa 
âquelle, que estudar nossas antigas descobertas. 

234) CASTRO (FRANCISCO DE). 

E. — Miraculosa vida y santas obras dei beato Juan de Dios. Granada, 1588. 
tt). Í6i3, Burgos, 1621. 

Gomo todos sabem este sancto é portuguez, natural de Extremoz. 

235) CASTRO G^COLAU FERNANDES). 

E. — Portugal convencido con la razon para ser vencido con las Católicas 
potentíssimas armas de D. Philippe IV. Milan, 1648. 

236) CATALANO (JOSEPHO). 

E.^De vita venerabUis servi Dei Bartholomcei de Quental. Romae, 1734. 

237) CATALDO (AQUILA SICULO). — Natural da Sicilia, estudou 
em Bolonha. 

Desejando el-rei D. Joáo II, escolher um mestre hábil para seu fllho natu- 
ral D. George, havido de D. Anna de Mendonça, escreveu a João de Azevedo, 
então residente n'aquella cidade pedindo- lhe inculcasse pessoa idónea para 
o fim desejado. 



234 CA 

Foi Cataldo o indigitado, veia para Portugal. > Dirigiu-se para Aveiro, on* 
de então se achava o discípulo entregue aos cuidados da princeza Santa 

Joanna. ^ 

D'ahi a dez annos passou este príncipe para casa do Conde de Abrantes, 
para onde também Cataldo foi viver. Pela morte de D. Joào II, ficou o nosso 
escriptor ao serviço d'elrei D. Manuel, com o fím de lhe escrever cartas em 
latim, e ao mesmo tempo occupava*se na educação litteraria dos filhos das 
pessoas mais distinctas da corte. Morreu em Lisboa com 52 annos de 
edade. 

Em relação á sua época possuía Cataldo bastante instrucção, e vé-se pelas 
suas obras ter sido eminente no conhecimento da língua latina, na qual todas 
são escriptas. O único exemplar doestas, que actualmente me consta existir 
em Portugal, acha-se na Bibliotbeca Publica do Porto, havendo também na 
da Academia Real das Sciencías algumas folhas d'um outro exemplar. Um ou- 
tro ainda se sabe existir em Paris em poder do sr. Ferdinand Denis. O exem- 
plar da Biblíotheca do Porto está falto de rosto, e de algumas folhas no 
fim. 

Na primeira folha lô -se o seguinte titulo: Cataldi aqiuleprimus ad Ema' 
nuelem phUosophantissimum portugaliae regem ethiopie maritime et indie. 

Esta obra (da qual já o sr. Alexandre Herculano fez menção no primeiro 
volume do Panorama) é em folio: os caracteres são gothicos, os próprios da 
época. 

Diz-se na primeira folha, em letra de mão, que este livro pertencera á li- 
vraria do mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, e no Om da obra tão bem se 
acha escrípto na mesma forma de letra— Impressum Uliissipone anno a parta 
Virginis MD mcnsis Februarií die xxi. 

Além de se tornar este livro muito apreciável pela sua extrema raridade, ' 
faz-se também muito digno de estimação como documento do progresso da 
arte typographíca em Portugal. Segundo nos diz o Panorama^ foi seu impres- 
sor Valentim de Moravia. 

E' muito interessante uma carta de Cataldo ao rabi de Nápoles procurando 
tanto a conversão d' este como de seus correligionários. Porém para melhor 
intelligencía d'ella é mister saber que tendo os reis catholicos expulsado de 
seus estados os judeus n'elles residentes, e querendo D. Manuel rei de Portu- 
gal casar com D. Isabel, filha dos referidos reis, viu-se por isso obrigado a an- 
nuir ás exigências fanáticas d'aquelles de expulsar também doeste reino os ju« 

* N*e8te resumo biograpbico, exirahido do que precede a coUecçao das obras de Ca- 
taldo publicadas no vol. 6.° das Provas da Historia Genealógica^ composto em latim por 
Antooio de Castro, nada se vô que nos possa, levar a crer que Calaido, por so ver des- 
presado na sua pátria, viesse cstabelecer-se em Portugal, como se diz no !.• vol. do Pa- 
norama^ a pag. 165. 

2 Devia ser nnles de maio de 1490, epocha da morto da Princeza Santa Joanna. — 
V. Fr. Luiz de Sousa, Historia de S. Domingos^ liv. 3.% cap. 10. 

' António Ribeiro dos Santos teve conhecimento de ires exemplares, ainda existentes 
em ícu tempo. Memorias de Litlcratura da Academia^ vol. 8.", pag. 97. 



CA 235 

deas aqai residentes. Foi um passo bem impoiitico o fmiestissimo para este 
paiz, mas o caso é que de poucas perseguições tào cruéis nos faz menção a 
bistoria, como da, que se fez aos judeus d*este paiz em i496. Entre outras 
cruezas praticadas contra este infeliz povo mandou D. Manoel tirar-lbes todos 
os filbos e filhas de quatorze annos para baixo, e distribuil-os pelas villas e 
logares do reino, onde á sua própria custa mandava que os creassem e dou • 
trinassem na Fó de Cbristo. £sta crueldade encheu os judeus d'um tal furor 
que muitos d'elles mataram os filhos, afogando -os e lançando-os em poços 
ô rios, atirando até mesmo com elles á parede, e querendo antes vel-os acabar 
d'esta maneira, que apartal-os de si, sem esperança de os tornarem a ver' 
chegando muitos no auge de seu furor até a matarem-se a si mesmos. ^ 

Nao só em Portugal e Castella eram os judeus opprimidos e detestados, 
6ram'no egualmente em outros paizes, e daqui infere Cataldo que deveriam 
deixar sua religião, e seguir a de Christo, sendo também argumentos condes- 
centes para o mesmo fim o cheirarem mal, e alguns outros de egual valor. 
Eis a traducção da carta curiosa, como lhe chama o sr. A. Herculano. ^ 

CARTA DE CATALDO 

Cataldo ao venturoso rabi de Nápoles, afim de o converter á verdade. 

• Accorda, accorda depressa: ergue finalmente a cabeça: até agora bastan- 
te, e de mais tens dormido. 

«£* chegado o tempo de despertares. Porque hesitas ainda, e nâo vais lavar 
todo esse corpo com agua sacratíssima, verdadeiramente salutifera? 

«Obriga-me a escrever-te o amor da pátria. E' mais perdoável. o crime 
saindo-se cedo do erro, que permanecendo n'elle. Se me fora possível da me- 
lhor vontade fallaria pessoalmente comtigo. 

«Nao vês claramente todo o mundo n'uma inundação contra os judeus? 
Arder em fogo todo o mundo contra elles ? Vós estaes já reduzidos a nada; 



* Damião de Góes — Chronica d^el-rei D. Manuel^ parle 1.', cap. 20. 

' Quando António de Castro publicou as obras de Cataldo eslava persuadido de qua 
úoda se achavam inéditas. «Yenerant forle ic manus nostras, Sereníssima Princeps, 
Cataldí quscumque cxlabant opera, qu», cum studio quam maiimo potuimds, illuslrata, 
a tenebris in lucem edere, victus amicorum precibus statuissem : le polissimum elígi, cui 
Sículum ipsom una cum lucubratiunculís nostris, lícet non fallaci ingeoio, nostra tamen 
mediocritate appositís : nunc primum edilum consecrarem. 

N'outra parle. «Seio ego, fore quamplures, bumanissime Lector, qui cum primum b»c. 
Cataldi opera in lucem veoerínl (ut sunt hominum ingenia) nostiam quantumlacumque 
in bis fuit, operam si non palam, saltem clanculum rcmordeant; et génio indulgentes li- 
bere insectentur. . . . Forte in bíbliotheca quadam inter qusdam nondum eicussa cum 
piara evolvo volumioa, librum capite censum lacerum seroissum conspicio: et qui (ut 
ita dicam) jam pene cum blattis, et tincis rixabat, quem cum lego, coepi continuo heroici 
carmÍDÍs majestale moverí.» Provas da Historia Genealógica da Real Casa Portvgueza^ 
Tol. 6.«, pag 391 e 393. 

É porém esta edição muito menos digua de apreço que a de 1500, até mesmo po'' 
Dão trazer os escriptos em prosa. 



«6 CA 

tendes sido expulsos da Allemaohaf Inglaterra, Hespanha, França e Sidlia: 
n*ania palavra de toda a Eoropa para a casa da perdição. Não tendes onde 
reclinar a cabeça, ou para failar com mais precisão, onde ponhais nm onieo 
pé! 

«Como é grande vossa cegueira I Não reconheeeis vir todo isto de Deosf 
Não qneiras pois ser, rogo-te^ tão intrépido soldado para perdi^ de tea corpo 
e de toa alma. Deos clementíssimo pelo espaço de mil e quinhentos annos soa- 
vissimamente vos chamou, e vos nntrio: e agora mesmo, apezar de toda vossa 
dureza, não cessa de vos chamar: actuahnente porem insta muito mais, e esta 
será a ultima admoestação. 

«Com effeito, Hanoel ministro de Deus Santíssimo, vos acconselha, como 
a filhos caríssimos, e dirige para o caminho da verdade. Não me admira qoe 
jovens e ignorantes se conservem pertinazes; porém admiro-me que velhos e 
peritos versados em tantos e tão excellentes livros permaneçam emperrados. 

«Se recusas crer em tantos milagres não so manifestados, mas até evidea- 
tissimos depois do nascimento de nosso Redemptor dá credito a teus numero- 
sos e grandes prophetas cantando por diversas maneiras^ como músicos em 
coro, a concepção de nosso Salvador, seu nascimento, humanidade immaca- 
latíssima, vida, paixão e resurreição. 

«Todas essas bellas prophecias, todas tendentes ao mesmo fim, foram já 
plenamente cumpridas. E senão foras instruído n*eUas, de bom grado t^as re- 
petiria uma por uma; N'essas prophecias muitas vezes os prophetas fállando 
dos tempos passados referiamse comtudo ao futuro. — Como filhos os creei e 
excUteiy porém elles me despresaram. — Conheceu o boi seu dono, e o jumento a 
estrebaria, que lhe dava seu dono; porém Israel me não conheceu, — E elle foi 
levado corno um cordeiro á morte. — Sublevaram-se os reis da terra, e os prín- 
cipes se congregaram contra o Senhor e r/mlra seu Christo: e outras muitas, 
que tu bem sabes, e cujo sentido tu embaraçado invertes e depravas com ro- 
deios e subterfúgios. 

«Mas dizes, (como também os outros teem por costume), se Deus estava pos- 
suído de tão ardente desejo de reparar o género humano, não o poderia fazer 
com o mínimo aceno, conforme aquellas palavras— O mesmo foliou, e tudo se 
fez; o mesmo mandou, e tudo foi creado ? 

«Ó miscrrimo entre os miseráveis! Sequioso no meio de crystallinas e abun- 
dantes fontes, não vés a agua, e esfomeado no meio das mais delicadas igua- 
rias recusas a comida ? Visto estares a ponto de perecer uma só te ofTerecerei, 
mas delicadíssima, a qual se bem comeres e digerires, nunca morrerás: Deus 
é a summa bondade, e pertence á summa bondade o repartir de si alguma coisa 
com todos. Para nos fazer participantes de seus dons foi mister encarnar o Ver- 
bo de Deusy e viver entre nós para nos ensinar. Finalmente para exemplo da 
humanidade não recusou padecer uma morte, pela qual se havia de viver éter- 
namente.* Ora pois, amigo, dissipa de tua alma as trevas; arreda a escuridão 
dos olhos da inteliígencia, e dirige sem constraugimento teus passos para a 
direita, que c estrada real, pois o caminho da esquerda nunca é bom. 

«Chamei*te amigo na qualidade de homem; mas na de judeu tenho-te por 



CA 537 

inimicissifflo. PermitUsse Deus, que como tal nem te conhecesse, nem te expe- 
rimentasse. Muito melhor é começar mal, e acabar bem, que fazer o contra- 
rio. 

«PSe diante dos teus olhos a Paulo e a Judas: Judas começando bem, aca- 
bou mal: com Paulo deu-se o contrario. Faze por ser antes Paulo, que Judas. 
Este, desesperando, inforcou-se, e matando-se deu cabo d'um homem scele- 
rado. Aquelle, emendando seu erro, veiu a ser o mestre das nações. O pri- 
meiro está vivendo com o Diabo, o segundo com Deus. Está na tua mão se- 
guires a um, ou a outro. 

«Se por acaso cem famosos médicos, entre os quaes Hippocrates, Chiron 
e Esculápio, ou Apollo em pessoa, viessem Juntos para curar um doente, se o 
doente não quizesse tratar-se, debalde empregariam seus artiflciosos poderes 
contra vontade do enfermo. 

tDeixa, deixa por algum tempo examinar tuas feridas: não vae nisso nem 
perigo de vida, nem terás alguma dôr ou incommodo. Responde-me: d*onde 
procede que nem um só judeu, posto que perfumado com bons aromas, e ves- 
tido com preciosas roupas, deixa de cheirar mal; fede, e causa náusea aos cir- 
curastantes: e apenas recebe o sagrado e santo baptismo, já não exhala, como 
anteriormente, fetido, parecendo ter vindo das immundicies; mas pelo contra- 
rio, como se tivesse saido d'um rosal, ou d'um logar cheio de deliciosos aro- 
mas, não sei a que suave e odorífero cheiro rescende, por um repentino mila- 
gre de Deus. 

^Mas asseveras que n*esta tão grande assolação, destruição e carnificina os 
judeus são martyres á maneira dos discípulos de Jesus Chrísto, que com grande 
promptidão sofifreram variadíssimos tormentos em diversos legares pelo seu 
prediiectissimo mestre ! 

«Em tudo devemos oppôr exemplo a exemplo. Teriam esses ladrões sofiGri- 
do tantos trabalhos e afflicções, tão crudelissimas mortes corpóreas com o mes- 
mo espirito com que aquelles ditosíssimos varões as padeceram ? O martyrio 
€onvertia-se para os christãos, quando estavam no meio das torturas, em de- 
licias, alegria e admirável jubilo: as brazas convertiam-se em rosas, que fa- 
cihnente os reanimavam quasí moribundos. Quem os invocava, e cria n'elles 
promptamente, era livre de doenças e padecimentos. Peço-te ainda que me 
digas: qual é a lei, que ordena que aquelle que se infor6a, se apunhala, ou se 
deita ao mar, seja havido por martyr? Será martyr, mas de Satanaz. 

tOht Quantos vimos nós n'este mesmo anno coroados com um tal marty- 
rio? Muitos valentes e magnânimos cireumcidados com o fim de não possuí- 
rem a gloria eterna, para cuja posse deveriam praticar isso mesmo, primeira- 
mente degollavam sua mulher e filhos, e em seguida á degollação, para que 
elles não fossem sem companhia, apertado o pescoço com uma corda, ficavam 
dq)endurados como lindíssimo espectáculo ! Ó cavalleiros dignos de eterna me^ 
moriat 

tTu, porém, manhoso, no meio de misérias taes, como da seita de Platão, 
e também para pareceres outro Platão, ris, e finges-te contente, emquanto os 
outros pelos seus merecimentos vão caminhando para o inferno. 



23» CA 

t Andas bem: exhorta-os nas synagogas com taas arengas a que se mos- 
trem fortes alliados de Satanaz. 

•Dizei-me,ó filhos e perfeitíssimos imitadores de Jadas: porqae jalgaes vó» 
qne o ser christãos é ser uma coisa vil, abominável e horrenda: vós que, ape- 
sar de não serdes christãos, ousaes commetter acções tão infames? Quando o 
piedosíssimo Manuel, depois de muitas supplicas, exhortações e carinhos, à ma- 
neira d'um óptimo pac, vos chamava (não se passou ainda muito tempo) para^ 
a fé catholica, fé própria de homens de intelligencia, obriga-vos por acaso a 
vos transformardes em serpentes, sapos, morcegos, e percevejos? * 

tÓ geração não de homens, mas de malvados brutos ! O benigníssimo rei 
acolheu-vos, e não se despresou de tomar-se vosso pae junto da fonte sagrada, 
6 também de dar seu nome áquelles, que não o mereciam. 

•Vós, os mais perdidos de todos os anímaes, obraes como mulas. Tratadas 
bem por seus donos, que em signal de amisade e carinho as aíTagavam, pas- 
sando-lhes levemente a mão por cima do espinhaço, recalcitram, e ou lhes fer- 
ram os dentes, ou lhes atiram um couce ao peito, ou ao estômago, d^onde lhes 
provém muitas vezes uma horribilissima morte. 

•Ó víboras, ó basiliscos mais perniciosos, que as próprias víboras, e os pró- 
prios basiliscos ! O justíssimo rei não poderia, em minha opinião, ofTerecer um 
mais agradável presente ao rei celeste, que esfollar a todos os príncipes da sy- 
nagoga, e, depois de esfollados, arrojal-os a um rio, onde houvesse bastantes 
penedos: rio, que, ha tanto tempo, desejam ir vér, e onde, (conforme elles pró- 
prios dizem) ha abundância de judeus reinando e triumphando; e as pelles 
d*elles cheias de palha, collocal-as nas summidades das torres. Ignoras porven- 
tura, que n'este mesmo anno, em que nos achamos, os Davids, teus parentes 
(cujo numero era infinito) foram todos mortos na Panooia, e piissiinamente es- 
trangulados pelo povo ? Ó habitantes da Panonia, vossos excellentes manjares 
constam de óptimas carnes 1 Julgando ter um lirio, senti um espinho, 

«Mas voltemos ao motivo, pelo qual se escreveu esta carta. 

«Se eu visse, que tão excellentes pessoas (toma bem sentido no, que vou 
dizer-te), quaes sào os ponliflces, imperadores, reis, duques e condes eram ju- 
deus, e não christãos: ou que os vilissimos judeus faziam ao menos um pe- 
quenino milagre d'aquellcs prodigalisados pelos apóstolos, tão pobres, eu re- 
negaria a crença, qu^ hoje tenho por inabalável, e me faria um immundo cir- 
cumcidado. Mas como observo perfeitamente o contrario, sou mais duro, que 
diamante, e até mesmo nem o sangue de bode me amoileceria. - Fazc-me a 
mercê de me provares que na lei de Christo existe alguma coisa, de que se 
deva fugir. 

^ Estes e ainda maiores impropérios eram usados trivialmente nas arjíumenlações 
d'aquella epora- Para prova Iciam-^e os escriplos do nosso thcologo Diogo Paiva de An- 
drade conlra o luthcrano lúímnilz, c \ice versa. 

* Era opinião de nossos antepassados (|uc os diamantes amolleciam facilmenie coro 
o sangue de bode. V. Vr. Amador Arraes — Dial. iv da (iloria c Iriumpho dos ludlanos^ 
cap. 23 foi. 130. (Ed. de iGOí;. 



CA 239 

«Ora, pois, o premio do paraizo, apesar de haver de ser muito grande, não 
o teriam as boas acções; e as más não teriam o do inferno, sendo digníssimas 
d'elle? Na necessária lei de viver, que melhor coisa e mais conveniente se pode 
descobrir para a conservação do corpo e da honestidade da vida? Converte-te 
depressa ao caminho da verdade, e não qaeiras esperar os males. Deos, de to- 
dos os bens é o bem mais perfeito, e tem os braços e o peito muito abertos 
para os peccadores, e não para os justos. O Espirito Santo te illumine.» 

• • 
Na referida collecção das obras de Cataldo, impressas em 1500 apparece 
em primeiro logar um poema em quatro cantos sobre o fallecimento do prín- 
cipe D. Affonso, dedicado a el-rei D. Manuel, e o qual começa do seguinte 
modo: 

1 Mesta ^ viris: jocõda deo: superaque catervis 

2 Cu gemitu: íletuque cano: reditúque per auras 

3 Alphonsi in patriam: falsoque cetera lugent 

4 Extinctum: eterno cum multis vere fruentem 

5 Cam patris matrisque graves in gaudia luctas 

6 Tum varii populi: pro re pro tempore versos 

7 Sacrosque cum ludis ebure festosque hymeneos: 

8 Jura diem diem fancti successít avunculus heres 

9 Emmanuel: summo regnis electus olympo: 

10 Pace pins: belloque ferox: mirandas utroque 

11 Mox letus dominum (trinum veneratus) et unum 

12 Omnia victuro cantabo secula plecto. 

13 Tu mibi meccenas: tu sis octavius: et tu 

14 Rex divine (precor) faveas quodcunque canenti: 

15 In mea tu spira foturum viscera numen 

16 Ipse licet nostri pars sis non parva laboris. Etc. 

Este mesmo poema (mas com bastantes variantes) apparece reimpresso no 
jà referido volume das Provas da Historia Genealógica. ^ Segne-se outro poema, 
a que seu auctor deu o nome de Arzitinge, ofTerecido a 0. João II, rei de Por- 
tugal, e nó qual canta a conquista de Arzilla e Tangere occupadas por D. Af- 
fonso V. 

Vem depois o Líber de perfecto homine, obra composta por ordem do rei 
D. João. Na dedicatória queixa-se o auctor das difficuldades, que teve para 
escrevel-a, pois necessitando consultar para a composição d'ella varías obras, 
o não poude fazer por serem então em Portugal os livros muitos raros, e es- 

1 Como sabem os versados nos livros antigos esta é a orthographia do século xti. 

' Omnia Cataldi Âquíl» Sicnli, quas eitant, opera per Ântonium de Castro, deouo 
correcta, ac nunc primum in lucem edita, quorum Catalogom sequens pagella indicabit. 
Appositis in margine adnotaliunculís, qose brevis commenlarii vice esse possnnt. 



J40 CA 

ses poacosy que possuía, tínha-os trazido de Itália, sendo em geral obras de 
jorispradeacia. 

Segaem-se varias outras composições, até que se encontra a ora^ reci- 
tada por Cataldo em Évora na occasiao de chegar alli a princeza D. IzabeL 
N'esta composição engrandece os portugaezes o mais possivel, fazendo-nos os 
mais pomposos elogios. 

Segue-se soa correspondência com pessoas das mais distinctas, tanto na- 
cionaes, como estrangeiras. 

Creio ser este o livro mais antigo impresso em Portugal, no qoal se en- 
contram caracteres gregos. 

António Ribeiro dos Santos diz que em 1509 se fizera oma segonda edi- 
ção das obras de Cataldo: isto parece*me engano: nao conheço [outra edição 
senão a de Affonso de Castro, (e esta só das obras poéticas) e impressa no vi voL 
das Provas da Historia Genealoçica da Real Casa Portugueza, a começar n^ 
pag. 389 doeste vol, até 571 

Era Cataldo respeitado pelos sábios estrangeiros, e muitas vezes consul- 
tado em vários assumptos, principalmente no, que dizia respeito à pureza das 
palavras latinas, de que temos um exemplo na carta, que lhe escreveu o Sici- 
lianno Marco Ennensi. 

Também Cataldo (como jà notou o sr. Alexandre Herculano) ^ sempre 
que designa em latim as palavras portuguez e Portugal emprega os termos 
LusUani e Lusitânia, contra o que estava em uso pouco antes, que era dizer-se 
n'aquella lingua Portucalenses e Portucale. 

Para se ver como os estrangeiros muitas vezes andam levianamente na 
composição de suas obras basta dizer que consultando eu vários livros para 
me informar do que dizem acerca de Aquila (este escriptor é assim conhecido 
entre os estrangeiros) copiando -se todos uns aos outros; apenas dizem ser na- 
tural da Sicilia, e ter-se vindo estabelecer em Portugal em 1509, onde compo- 
zera varias obras! ! Já vimos, que se devia achar entre nós antes de 1490. 

238) CAUSES DE L^ÉVÉNEMENT DE PORTUGAL. Ouvrage de- 
dié à totite puissance seculiêre et temporelle. 1759. Sem logar de impressão. 

239) OAVAZZI (P. GIO : ANTÓNIO — DA MONTECUCOOLO). 
Falleceu em Génova, no anno de 1692. ^ 

E. — Istorica Descrizione de* tre regni Congo, Modamba, et Angola situati 
nelV Etiópia inferiore Ocàdentale e delle Missioni Apostoliche esercitatem da 
Religiosi Cappucini, accuratamente compilata dal — Sacerdote Cappucino U 
quale vi fu' Prefeito e nel presente slile ridotta dal P, Fortunato Almandinida 
Bologna Predicatore d^irislcsso Ordine alV illmlrissimo Signor Conte Giacomo 
Isolani. In Bologna 1687, per Giacomo Monti, foi. 933 pag. Com esUimpas no 
texto representando feras, aves, e usos dos povos mencionados. 

* Historia de Portufinl. Inirodncrâo pag. 9. 

- Firmin Didol — Munvrltc Bvxjraphie rnivcrseUe^ vol. 9.*, pag. iS7. 



CE 241 

P. Didot falIa-DOs d*uma outra edição feita cm Milão, do anno de i690. 

240) OENNI STORICI E CANONICI dei patronato portughese nelle 
Indie (hientali. Parigi, 1834, folheto. — (Sobre o padroado portugaez no 
oriente.) 

241) OENSORINO (VICTORIANO). 

E. — Furfur Logicae Vemeyanae. Pampelunae, 1752, 4.*» 
Este opúsculo foi escrípto impugnando o Novo Methodo de estudar do nos- 
so celebre Luiz António Verney. * 



^ «Luiz ÂDtonio Yeniey, auctor do verdadeiro metbodo de estudar. A acceitaçSo, 
que esta obra grangeou, e com justa rasao na republica litloraria, deu o ultimo teste- 
munho ao merecimento do seu auctor, sendo logo traduzida por vai ias nações estrangei- 
ras, e adoptada nas escolas da mesma Itália. É digno de ler-se o elogio, que moderna- 
rocDte Ibe consagrou Degerando, correspondente do Instituto Nacional de França e das 
academias de Turim, Leão e da sociedade das artes de Génova, oa sua historia compa- 
rativa dos systemas de phílosophia relativos aos principies dos conhecimentos humanos, 
tomo 1.", png. 102, onde diz: Que Luiz António Yeruey, escriplor tão animoso em suas 
tentativas, como sábio cm suas máximas Gzera, apesar de tudo, no século passado admi. 
raveis esforços para que brilhasse na Hespanba c em Portugal a luz que íllustrava o 
rosto da Europa.» 

Para completar este trabalho e pôr em pratica as regras, que prescrevia em seu 
methodo compoz uma grammalica philosophíca da língua latina, que será sempre louva- 
da o estimada entre os litleratos; obra de apurado gosto e do tanta utilidade para todas 
AS nações, que mereceu logo ser adoptada nas escolas lie Itália, no coUegio real de Ná- 
poles» no ephebeo régio, e em outros diversos seminários na Apúlia, e em muitos mais 
fora do Itália. Compoz também a sua Lógica em G livro:<, que imprimiu em Roma, e de- 
dicou ao rei D. José I, o qual convencido do seu merecimento, creando então as escolas 
menores d'esle reino, a mandou lo^o adoptar para uso d*ellas. Não foi só aquelle grande 
rei, também as nações estrangeiras a adoptaram, convencidas de sua utilidade, e de 
quanto eram bem merecidos os elogios que lhe faziam, no Journal des Scavants^ os quaes 
analysando-a com toda a imparcialidade, lhe deram a preferencia a todas, quantas até 
eotfio tinham apparecido dizendo que Verney peia firmeza de seu caracter e espírito, pela 
attençâo com que evitava os enganos dos sentidos, e pela louvável perseverança com 
que regeitava todas as preoccupaçOes que o habito, e costumo e as diversas paiiOes tem 
introduzido no mundo, era o único bomem'que julgavam mais próprio para tratar di- 
gnamente a Lógica. Asiim, e pelo mesmo systema, publicou em 1753 quatro livros de 
metaphysica, que lambem imprimiu em Roma, e tiveram egual estima em toda a Itália, 
que então era o berço das sciencias. No Jornal dos Litleratos de Roma para os annos de 
175% e 1753 se dão a esta obra os títulos de bellissima e eruditíssima por illustrar mara- 
TÍlhosamenle aquelia matéria. Escreveu outra obra intitulada Apparatus ad Philosophia 
et Theelogiam^ que lhe grangeou muito credito, e os elogios dos sábios auctores do reTo- 
rido jornal, os quaes disseram que a historia d'estas sciencias escrípta com gosto e intel- 
ligencia fdra bebida pelo seu aactor nas mais puras fontes, o que eile mostrava uma 
equidade o moderação tal, que era pouco commum, e que fazia tanta honra aos verda- 
deiros sábios. 

Retratos e elogios dos varOes e donas^ por Pedro Joscde Figueiredo. 

TOMO I 16 



242 CE 

S42) GENTELLAS (JOACmM DE). 

E. — Voyages et conquestes des roys de Portugal ès Indes de Orient, Ethw- 
pie, Mauritanie d' Afrique et Europe. Le tout recuelly de fideles tesnunngs et 
mémoires du Sieur. Paris, 1578, 8.*» 

243) OERUTI (D. JAOIMTO). 

Parece ter sido sócio correspondente da Academia Real das Sciencias de 
Lisbba, por isso qae no l.*" vol. das Memorias d'esta illostre corporação qi- 
parece um pequeno artigo com o seguinte titulo: ^ 

Observadon de la total Emersion ò fin dei eclipse de sol dei dia i7 de oe» 
tóbre de 1781, ai Observatório de la Academia Real de los Cavalleros Guar* 
dias Marmas de Cartagena por—, Primer Professor de Mathematieas y direcUfr 
de los Estúdios, y D. Joseph Gonzales alferes de navio y segundo professor d$ 
mathematieas de la referida Academia. 

244) CERVANTES. 

O celebre auctor do D, Quixote, uma das maiores glorias de Hespanlu, 
mostrava-se muito affeiçoado às coisas portuguezas. O sr. Carlos Barroso es- 
creveu e publicou em Lisboa no anno de 1872 um opúsculo no qual mencio- 
na os diiTerentes legares, em que Cervantes se occupa de Portugal. 

•Cervantes veio a Lisboa com Phelippe II em 1581, onde se namorou se- 
cretamente de certa dama incógnita, e de quem teve uma âlha, cujo nome 
foi Isabel de Saavedra. Suppôe-se que seus amores na corte Lusitana lhe ins- 
piraram a linda novelia pastoril da Galatea, onde o auctor figura disfarçado 
no pegureiro Lauso, que suspira pela formosa pastora Silena. O escriptor de 
tâo bello idyllio assistiu à tomada da Ilha Terceira pelo Marquez de Santa 
Cruz. 

«No D. Qaijote dedica Cervantes um merecido elogio ao famoso rio Tejo, 
que beija as praias da inclyta cidade de Ulysses, e cujas areias consta da tra- 
dição serem de ouro. 

«Entre os livros, que adornavam a bíbliotheca do engenhoso Gdalgo, encon- 
traram alem de outros de auctores portuguezes, o Palmeirim de Inglaterra, e 
a Dianna de Jorge de Montemayor. 

Qaando exalta a imaginaria jerarchia de D. Dalcinea dei Toboso, afflrma 
que não ó oriunda de outras famílias celeberrimas de Hespanba, que menciona, 
nem mesmo dos Alemcastros, Palias e Menezes de Portugal. 

Era do exccllentissimo Camões uma das éclogas, que haviam de representar 
as pastoras, em cujas rede^ se embaraçou o pensativo escravo de Dulcinea. 

No Licenciado Vidraça observa- se a anecdota do porluguez, que pintava 
as barbas de negro, o qual altercando com um castelhano disse-lhe por estas 
barbas, que tenho no rosto, a quem redarguio o licenciado: Nào digaes tenho, 
dizei Tino (palavra hespanhola, que em porluguez equivale a Tinjo.) 

Em língua portugueza canta o namorado Manuel de Sousa Coutinho seus 

' E>la Observação occupa «is pag. I>26 e 527 do referido volume. 



CE t43 

amores, cuja Darraçao occupa todo o cap. x do liv. I do3 Trabalhos de Persiles 
e Segismonda. 

Na interessantíssima parte terceira dos mesmos presenceamos a chegada 
a Portugal, e desembarque dos viajantes na praia de Belém, donde se dirigem 
á famosa Lisboa, cujos ricos templos e hospitaes sào celebrados.— Aqui ei amor 
y la honestidad se dan las manos, y se pasean junto: la cortesia no deja que 
se llegue la arrogância, y la braveza no consiente que se le acerque la cobardia: 
todos seus moradores son agradables^ son cortezes, son liberales, y enamora- 
dos, porque son discretos: la ciudad es la mayor de Europa, y la de mayores 
tratos: em ella se descargan las riquezas dei Oriente y desde ella se reparten 
por el universo; su puerto es capaz no solo de naves, que se poedan reducir á 
numero, sino de selvas movibles de árboles que los de las naves forman: la 
hermosura de las mujeres admira y enamora, la bisarreria de los hombres pas- 
ma» como ellos dicen; finalmente esta es la tierra que da ai cielo santo y co- 
píosismo tributo.» 

Ao (aliar Cervantes de Valência e de suas lindas mulheres, diz que é gra- 
cioso o dialecto valenciano, e que só com o idioma portuguez— puede competir 
eu ser dulce y agradable. 

Na Viagem do Parnaso, canto iv encontram-se os hcguintes versos: 

Asi como las naves que cargadas. 
Llegan de ia oriental índia à Lisboa, 
Que son por las mayores estimadas; 
Esta llegó desde la popa à proa 
Cubierta de poetas, mercancia 
De quien hay saca en Calicut y en Goa. 
De la alta cumbre dei famoso Findo 
Bajaron três bizarros lusitanos, 
A quien mis alabanzas todas rindo 
Con prestos pies y con valientes manos 
Con Fernando Corrêa de la Cerda 
Piso Radrigues Lobo monte yllanos. 

Y porque Febo su razon no pierda, 
£1 grande Don António de Ataíde 
Llegó con fúria alborotada y cuerda. 

Paliando de Bento Caldcra traductor dos Luziadas diz o seguinte: 

Tu que de luso el singular tesoro 
Irigiste en nueva forma à la ribera 
Dei fértil rio, a quien el lecho de oro 
Tan famoso le hace adonde qulera; 
Con el devido aplauso, y el decoro 
Devido á ti, Benito de Galdera, 

Y á tu ingenio sin par prometo honrarle 

Y de lauro, y de hicdra coronarte. 



244 CH 

245) OHAPELLE (J. DE LA). 

E. — Vingtroisiêènie lettre du Suisse contenant un examen du Manifeste 
Latin de Portugal Basle. 1704, 4.*» — (Vigessima terceira carta do Suisso, con- 
tendo um exame do manifesto latino do Portugal.) 

246) OHARTE DU PORTUGAL comparée à la Charle Francatse et à 
la ConstitiUion du BrésiL 1826. 

247) CHASTE. 

E. — Voyage à Vlle Terceira des Azores. Paris, 1706. 

248) CHASTE (Comuendàdor de) 

«A esquadra de D. António ^ que em julho de 1582 chegou à ilha de S. 
Miguel, c n'ella entrou, mal poude gozar da rapidez do triumpho, que egaal, oa 
maior poder do marquez de Santa Cruz corria sobre ella. Doze dias depois, nas 
aguas de Villa Franca do Campo, oppunham armada a armada, e, em ordem 
de batalha, terrível era o aspecto de ambas as forças. Combatiam, d'uma parte 
o desespero d'uma causa quasi perdida; da outra, o receio de um rovez, qae 
podia díílícultar, comprometter mesmo a posição, e o poder do soberano do 
Castella. Eram dois tremendos competidores rivaes empenhados em lucta de 
morte! Ao mais infeliz, que succumbisse, ignóbil sepultura; ao vencedor, a posse 
da belleza, que na lucta ambos iam jogar uma coroa, objectos entào de tantas 
ambições e complacência; hoje, ornarto espinhoso, talisman impotente, coja 
fronte miraculosa estancou para sempre! 

«Depois de tão amarga provação só as ilhas Terceira e Fayal continuaram 
a resistência ao vencedor até o anno seguinte (1583), em que novo e maior 
poder de nova armada, comraandada pelo mesmo marquez chegou a vencel-asa 
despeito mesmo do recente soccorro, que tinham recebido de França na expe- 
di(;ão commandada por mr. de Ghaste. 

•E' d'esta ultima expedição Franceza e dos maus successos, com que o 
partido de D. António desfaileceu de todo ante o iriumplio, que rematou a 
conquista dos Açores pelos hespanhoes, que trata a relação que agora, e em 
continuação damos pela primeira vez em lingua vulgar, como valioso subsidio 
para a nossu historia. 

« A viagem foita á ilha Terceira dos Açores pelo commendador de Cbaste 
foi original e contemporaneamente cscripta em francez. Que o auctor foi teste- 
munha ocular dos successos, que narra, parece proval-o o que elle próprio diz 
quando no fim da viagem falia da barbaridade dos biscainhos, cujos navios 
faziam também parte da armada lie^panhola. Seria auctor da viajem o próprio 
commendador de Chaste ? 

«No fim d'ella se diz que clle entregara nas mãos da rainha de França — 
un ahregé de ce discotirs—a mais abai.xo na allocução, que por essa occasiâo 
lhe dirige, confessa que o discurso summario fora csciipto por elle «vous ver- 

* Panorama de ISJiC, vnl. 13. ', pn;?. 37. 



CH 245 

rez s*il vous plalsl, ce que la veriló m' a/W// ecrire cn ce papier.f ?íao nos pa- 
rece pois mní arriscado a erro suppor que a viagem seja escripta pelo próprio 
commendador. 

«Melchisedec Thevenot foi, que nós saibamos, o primeiro, que d*ella fallou, 
e que a promettcu dar nas suas Relations de divers voyages curieu^c; masnâo 
appareceu na primeira edição, que fez, e só depois da sua morte vem na 4." 

parte do tomo â.^" da nova edição; Paris 1696, comprehendendo 18 pag. em 
folio. 

•O titulo da obra é o seguinte: 

•Viagem feita á ilha Terceira pelo sr. Commendador de Chaste, gentil ho- 
mem ordinário da camará d'el-rei (de França) e governador por sua magostade 
da cidade e castelio de Dieppe e Arques.» ^ 

E' narração mui interessante e digna de ser lida. 

2W) OHATEAUBRIAND (FRANÇOIS RENÉ). 

Nasceu em Saint Maló em setembro do anno de 1768, ^ e falleceu a 4 de 
jalho de 1848. 

Fugindo em 1791 aos furores da revolução franceza com destino á Ameri- 
ca, passou o immortal auctor do Génio do Christianismo pelas nossas ilhas dos 
Açores, e desembarcou na Graciosa, onde foi muito bem acolhido pelos frades 
d'am convento, que ali havia. N'esta mesma ilha esteve em perigo de vida por 
se virar a lancha, quando ia a desembarcar. Admirou então Chateaubriand, 
segundo nos diz o escriptor de sua vida, as riaas collinas cobertas de cepas, o 
aeeio das casas, a apparencia vigorosa dos camponezes queimados pelo sol, c 
quasí nus, a vivacidade das mulheres baixas e morenas, mas bem apessoadas 
e vivas. 

Ao chegar à Graciosa o navio, em que Chateaubriand ia encharcado, os ha- 

1 A rainha mãe do rei, resolve oppor-se aos esforços qae o rei de Hespanha teotara 
para redazii á sua auctorídade as ilbiis Terceira e Fayal, resto do roioo de Portugal, que 
j4 possuia, havia cinco ou seis annos, sob titulo de vizinho forte e esperto, segundo creio» 
para cujo Gm desde muito preparava, tanto em Lisboa coroo nos demais portos do seu 
domioio, uma grande armada. O senhor D. António, acciamado rei do dito reino depois 
da morte de seu predecessor el-rei D. Sebastião, tendo por muito tempo implorado auxi- 
lio da dita rainha na extremidade de seus negócios, e para isso seguido e andado larga- 
mente na corte do rei de França por boas considerações, prometteu Sua Magestade assis- 
tir-lbe, dando ao sr. commendador de Chaste o commando de nove companhias de pé.» 
Pag. 38. 

• Depois do dito commendador agradecer a Sua Magestade lhe supplicou mui bumil- 
démenle considerasse a importância d'este plano e d'este embarque, a que iião dava con- 
sideração pela perda da sua vida, com tanto que podesse dar alguma satisfaçilo a Sua 
Magestade o que julgava mui diilicil precipitando a viagem por causa das proposições de 
um pobre rei apaixonado e desesperado de poder sor jamais restabelecido no seu reino 
de Portugal, de qae lhe n<lo restavam senito as ditas ilhas, que se propunha conservar 
a expensas da honra e da vida de outrem, sem ter mesmo a menor experiência em cou- 
sas de armas.» Idem. 

* Ancelot, il»^ rA''a!jL*mie F!an';;aiic — Vie de Chateaubriand^ pag'. 4. 



246 CH 

bitantes d*aqaella ilha, desconfíando de que fosse algam navio argelino, por 
nào conhecerem a bandeira tricolor, que ainda não tinham visto, correram to- 
dos à praia e perguntavam em portuguez e em varias outras lingoas, quem 
eram, e qne queriam, e os do navio também lhes respondiam em portuguez^ 
e em outras linguas. 

O illustre auctor dos Martyres e do Itinerário de Paris a Jertisalem, obras 
em que por vezes também apparece o nome de Portugal, conhecia bem quanto 
valia o nosso primeiro épico, pois fallando d'elle, diz : 

•Finalmente os portuguezcs perseguiam na Africa os mouros já expulsos 
das margens do Tejo : eram necessários navios para sustentarem e accompa- 
nharem os combatentes ao longo das costas. O cabo Nunes deteve por muito 
tempo os pilotos; Gil Eannes o dobrou em 1433; a Madeira foi descoberta, oa 
para melhor dizer tornada a descobrir : os Açores sairam do seio das ondas; ^ 
e como se estava sempre persuadido, segundo Ptolomeu, que a Ásia se appro- 
ximava da Africa, tomaram os Açores pelas ilhas, que, na opinião de Marco 
Paolo limitavam a Ásia no mar das índias. Pretendeu-se, que uma estatua 
equestre, mostrando o occidente com o dedo se erguia na praia da ilha do 
Corvo : algumas medalhas phenícias foram também trazidas d*esta ilha. 

De Gabo Nunes os portuguezes surgiram no Senegal : costearam saceesst- 
vãmente as ilhas de Gabo Verde, Gosta de Guiné, o Gabo Mesurado ao meio 
dia da Serra Leoa, o Benin e o Gongo. Bartholomeu Dias tocou em 1486 o fa- 
moso Gabo das Tormentas, ao qual deram dentro em pouco um nome mab 
auspicioso. 

Assim foi reconhecida esla extremidade meridional da Africa, que, no sen- 
tir dos geographos gregos e romanos, devia ligar-sc â Ásia. Alli se abriam as 
regiões mysleriosas, onde não se tinha entrado alô eniào senão por este mar 
de prodígios, que viu Deus e desappareceu — 3/flrí' vidit et fugit. 

Um espectro immenso, medonho ergue-sc em fronte de nós : sua attitade 
é ameaçadora: seu aspecto feroz; sua tez pallida; sua barba espessa e esquá- 
lida : seu cabello carregado de terra e lodo; seus lábios são negros; seus den- 
tes amarellos : seus olhos scintiilam chamejantes 

Elle falia : sua voz formidável parece sair dos abysmos de Neptuno. 

Eu sou o génio das tempestades, diz elle, domino este vasto promontório 
que nem Ptolomeu, nem Slrabo, nem Plinio, nem Pomponio, nem nenhum de 
vós conheceu. Eu ponho aqui balizas á terra africana, a este píncaro, que olha 
para o polo antárctico, e que até hoje, escondido aos olhos dos mortaes» se in- 
digna u'esle momento com a vossa audácia. 

De minha carne secea, de meus ossos convertidos sem rochedos, os deu- 
ses, os inflexíveis deuses, formaram o vasto promontório, que domina estas 
vastas ondas. 

A estas palavras deixou cair un)a correnl(í do lagrimas, c desappareceu. 
Com ollo extinguiu- se a nuvem tenebrosa, e o mar pareceu lançar um longo 
gemido. 

1 Voijmjc cn Améritiuc, pag. 28. 



CH Í47 

Vasco da Gama termioando uma navegação de memoria eterna, chegou em 
1478 a Calicat, na costa do Malabar. 

Tudo muda então no globo ; o mundo dos antigos está destruído. O mar 
das índias já não é um mar interior, um lago rodeado pelas costas da Ásia e 
da Africa : é um oceano, que d'um lado se junta ao Atlântico, do outro aos 
mares da China, e a um mar do Este, mais vasto ainda. Cem reinos civilisa- 
dos, árabes ou indíos, mahometanos ou idolatras, ilhas embalsamadas por aro- 
mas preciosos, são patenteadas aos povos do occidente. Apparece uma natu- 
reza completamento nova; o véo, que desde milhares de séculos occultava 
uma parte do mundo, levanta-se : descobre-se a pátria do sol, o logar d'onde 
elle sabe todas as manhãs para distribuir sua luz : vé-se a descoberto esse sá- 
bio e brilhante Oriente, cuja historia se misturava para nós ás viagens de Py- 
tbagoras, ás conquistas de Alexandre, ás lembranças das crusadas, e cujos 
perfumes nos chegavam atravez dos campos da Arábia e dos mares da Gré- 
cia. A Europa lhe enviou um poeta para o saudar, cantar e descrever : nobre 
embaixador, cujo génio e fortuna pareciam ter uma sympathia secreta com as 
regiões e destinos dos povos da índia ! O poeta do Tejo fez ouvir sua triste e 
bella voz nas margens do Ganges : pediu-lhes por empréstimo seu brilho, sua 
(juna e suas desgraças, não lhes deixou mais que suas riquezas. 

E é um pequeno povo encerrado n*um circulo de montanhas na extremi- 
dade oriental da Europa que abriu caminho para a parte mais pomposa da 
residência do homem 1 

Em quanto os portuguezes costeam os reinos de Quiteve, de Sedanda, de 
Moçambique, de Melinde; que elles iiâpõem tributos aos reis mouros ; que pe- 
neiram no mar Vermelho; que terminam a volta da Africa; que visitam o 
golfo Pérsico, e as duas penínsulas das índias; que sulcam os mares da Chi- 
na; que tocam no Cantão, reconhecem o Japão, as ilhas das Esp^iarias, e até 
as costas da Nova HoUanda, multidão de navegadores seguem o caminho tra- 
çado pelas velas de Colombo. 

Os portuguezes exploravam então as costas da índia e da China; os com- 
panheiros de Vasco da Gama e de Christovão Colombo saudavam-se das duas 
costas do mar desconhecido, que as separava : uns tinham encontrado um 
mondo antigo, os outros descoberto um mundo novo; das praias da America 
ás praias da Ásia os cantos de Camões respondiam aos cantos de Ercilla atra- 
vez das solidões do Oceano Pacífico.» 

tEra ahida um rico assumpto o dos Lusíadas K Custa a conceber como um 
bomem do génio de Camões não soube tirar d'elle maior proveito. Mas convém 
notar que esse poeta foi o primeiro poeta épico moderno, que vivia n*um se- 
eala bárbaro; que ha passagens patheticas e algumas vezes sublimes nos seus 
versos, e muito para notar-se é que foi o mais desgraçado dos homens. É so- 

* Génio do ChrisHanismOj lomo l."*, pag. 21S. 



248 CH 

phisma digno da crneldade do nosso socalo aíiirmar qac os bons escríptos 9ia 
inspirados na dosgraça. É falso qnc se possa escrever quando se soífre. Os ho- 
mens coasagrados ao cnito das mnsas saccnmbem mais depressa à dôr que os 
espíritos vulgares. Um genío forte depressa quebranta o corpo que o encerra : 
as grandes almas, como os grandes rios, assolam as suas margens.» 

• 

Carta de mr. de Chatcaubriand, aurtor dos Martyres ao sr. Francisco Ma- 
nuel do Nascimento, tradnctor da mesma obra. 

5 de setembro de 1812. Senhor: 

Se tivesse recebido as cartas, que teve a bondade de enviar-me, terme-bia 
apressado a responder-Ihes. Ignorava totalmente a honra, que me fez, tradu- 
zindo os, Martyres na lingua de Camões. Acceite, por tanto. Senhor, todos os 
agradecimentos, que lhe devo. Tenho um ardentíssimo desejo de ver minha 
fraca obra ataviada com todas as graças, que o Senhor lhe soube dar. Estou 
desde já convencido que Eudoro e Cymodocea hào de parecer bem mais no- 
bres e bém mais enternccedores trajando os vestuários de Gama e de Ignet. 
Tenho a honra de sor com uma alta consideração, 

Senhor, 
Sen mui humilde e mui obediente servo. 
Cliateaubriand. 

250) CHATELET (DUKE DE). 

E.— Traveis m Portugal. London, 1809, 2 vol. 
(Viagens cm—). 

251) CHATELET (Duc. du). 

E. —Voyage en Portugal, ou se tronvent.des details iníéressants sur ceRo- 
yaumc, ses habitants, ses colonies ; sur la Cour et M. de Pombal, sur te treni- 
blement de terre de Lisbonne, ctc. Revu, corrige sur le Manuscrit, et augmé^nté 
de notes sur la situotion actuelle de re royaume et de ses colonies, par J. Fr 
Bourgoing, ci-devant Ministre plcnipotentiaire de la Republique franraise eti 
Espagne, Membre associe de rinslitut National, etc.Avec la Carte du Portugal, 
et la Vue de la Baie de Lisbonne, Seconde edition. Tome 1. A Paris Cliez F, 
Buissim. Imp. Lib. rue Ilaule Fcuillo, n." 20. 

An 9." (1801) 208 pag. 8.° gr. ^ Com uma estampa representando a torre 
de Bf lera e bahia de Lisboa : o com uma carta geographica de Portugal : am- 
bas as cousas gravadas por Tardiou, Tainé. 

O duque de Chalelot achava-so cm Londres, quando concobou o desejo de 
visitar Portugal. Embarrou em Falmouth, a 8 de uiaio de 1777. a bordo do 
Embden. Dt^pois d'uuia viagem de seis dias chegou a Lisboa. 

«Na i^poca de minha cli»'gada arhava-so Lisboa era agitarão impossível de 

* A yourclle fíiogrnphic rnivcrscllr de Firmin Diiiol; loino '.", paj,'. 90, menciona 
outra eá\-òo de 1808. — V. Bnurgolng. 



CH ^%g 

descrever. Era véspera da celebração da coroação da rainha. O povo corria 
por aqai e por acolá cantando e dançando a foffa, espécie de dança nacional 
qae se executa aos pares com accompanhamento d^uma guitarra e d'outro 
qnalquer instrumento : dança lasciva a tal ponto, que o pudor cora ao ser tes- 
temunha d'ella, e não ousaria cu emprehender descrevel-a. Atravessei pela mul- 
tidão, e fui alojar-me n'uma hospedaria ingleza, situada |em Buenos Ayres : 
sítio agradável, e ao abrigo de cheiros fétidos, com os quaes a cidade está infe- 
ctada durante o estio, e das chuvas, de que está innundada durante o inverno. 

tTinham escolhido a praça do Commercio, como o logar mais appropriado 
à ceremonia da coroação. Fez se esta com grande magnificência, ao som da 
artilheria, e das acclamações d'um povo immenso, que concorrera de todas as 
partes para assistir a ella. Só a rainha pareceu não participar do jubilo geral. 
Aehava-se dolorosamente affectada. Os principaes senhores da corte tinham re- 
solvido mandar- lhe pedir pelo povo a cabeça de Pombal: a rainha achava-se 
informada do desígnio d^aqueUe, e receiava o pjsrigo d'uma recusa; porém, 
apesar de não gostar do marquez, respeitava-o como amigo de seu pai. 

tEu estava egualmente informado de quanto se tramava : quíz ser de perto 
testemunha da agitação, que d'isto havia de resultar. Percorri as ruas com um 
ílrancez versado na língua portugueza, e introduzi-me na multidão. Por toda 
a parte nada mais se ouvia, que o nome de Pombal: os espíritos azedavam - 
se: o motim estava prestes a romper, quando de repente sobreveiu uma pa- 
trulha de cavallaria, com um officíal á frente, o qual dirigindo -se ás pessoas, 
que formavam este grupo, prohibiu-lhes debaixo das mais rigorosas penas de 
fallarem no marquez de Pombal. ^ Dentro em pouco dispersou a multidão; as 
roas acharam-se n'um instante cheias de soldados a pé e a cavallo; e com 
tanta constância se entretiveram na dispersão dos grupos na occasião em que 
parecia forroarem-sc, que o povo se dirigiu para a praça antes de ter podido 
decidir alguma cousa. 

•Todos os fidalgos pareciam muito espantados, e no extremo da agitação. 
Vlamol-os ir, vir, mandar emissários do alto da galeria, onde se achavam, lan- 
çar para o povo olhares, nos quaes se pintavam a cólera e a impaciência. Ti- 
nha havido a prudente cautella de dividir este povo, mandando constrair na 
praça uma estacada de distancia a distancia, de fórma que se achou separado» 
e por assim dizer preso sem ter dado pór isso. Percebeu-se todavia uma espé- 
cie de rumor, e sete ou oito vozes gritaram : Pombal. Pombal, porém foram no 
mesmo instante abafadas pelos gritos de Viva a rainha, que os partidários do 
marquez levantaram. Uma grande quantidade de espectadores se tinha intro- 
duzido no interior da galeria depois de ter derribado os guardas, a rainha man- 
dou que os deixassem alli estar. Não se podendo as carruagens approximar, 
ella mesma se viu obrigada a passar por entre a multidão com o fim de se di- 
rigir para seu coche : foi este para ella o mais doce momento de sua vida : 
nns deitavam-se a seus pés, outros beijavam-Ihe a ponta do vestido, e com isto 
se enterneceu a ponto de lhe marejarem os olhos. 

' Duc de Chalelet — Yoyage en Portugal, lomo 1 .% pag. 6. 



S50 CH 

«Foram brilhantes as illominaçoes : a ceremonía celebroa-se com tanto de 
pompa, qaanto de tranquillidade : a colónia ingleza dea á noite um samptuoso 
baile aos principaes habitantes da cidade, sem duvida em testemunho de sen 
reconhecimento, porque era ella naçào ingleza a verdadeira soberana de Portu- 
gal que tinha sido coroada na pessoa da rainha. No dia seguinte tomaram ou- 
tra vez o lucto, que na véspera se tinha largado. No meio da alegria geral 
produzido pela queda de Pombal, tudo tornou a tomar um aspecto lúgubre, e 
saíram do baile para correrem para as egrejas. 

«^ rainha assignalou sua elevação ao throno por actos de bondade e de- 
mência. Mandou abrir as prisões, e soltar todos os desgraçados, que alli esta- 
vam detidos, alguns havia mais de vinte annos. Yi duas raparigas, que para 
alli tinham entrado ainda de mama na companhia de seus pães e mães : teem 
uma dezenove annos, e a outra vinte, e parecem ter quarenta. São as fi- 
lhas do desditoso conde de Alemã, compromettido na conspiração. Seu onioo 
crime era o ter emprestado, pela manhã do dia do assassinato^ uma espingar- 
da ao joven Aveiro, um dos conjurados, que lh'a pediu para ir á caça : pagou 
este favor, bem como sua mulher e alhos com vinte e um annos de prisão. É 
verdade que o marquez de Pombal tinha lançado mão da conjuração pari 
abater a arrogância dos fidalgos portuguezes, e reprimu* as atrocidades até 
então impunes, das quaes se tornavam culpados frequentemente. Tinha-se visto 
alguns d*elles matar um seu criado, ou um particular d*uma classe inferior, 
quando tinha a desgraça de lhes cair em desagrado, ou praticar alguma falta. 
A severidade de Pombal tinha posto freio a excessos tão terríveis. ^ 

tN*uma das digressões, que fiz em Portugal com o fim de visitar o interior 
d'este reino, fui ver o marquez de Pombal. Eu lhe era recommendado d*um 
modo particular, motivo pelo qual me recebeu com todas as at^enções possí- 
veis. Conhecia este ministro de fama, e não se podia exprimir o desejo, que eu 
tinha de conhecel-o pessoalmente. Cheguei pois á vílla de seu nome, e, da mi- 
nha hospedaria lhe escrevi com o fim de saber a hora, em que lhe poderia 
entregar as cartas, que tinha para elle. Alli me dirigi pelas dez horas da ma- 

* A nobreza era tão insolente, tão desenfreada, que era para temer nio somente de 
noite, mas até mesmo de dia. Eis o que se passou em Lisboa ba algum tempo. Dois fidal- 
gos Vflo em sua carruagem, e encontram um corregedor, que ia também na d'el!e: erm 
um vellio de vista muito curta, que não conheceu os Gdalgos, e passou sem os cumpri- 
mtntar. Estes offonderaro se d'isso, desceram da carruagem - para maltratar o velho, e 
depois de algumas representações, que este julgou poder-lhes fazer, um d'enes o atra? es- 
sou com sua espada. Fugiram para casa do embaixador de França, que os fez embarcar, 
mas passado pouco tempo tornaram aapparecer, tendo facilmente obtido seu perdão. Du- 
rante o ministério do marquez de Pombal teriam sido punidos severamente, fla seis an- 
nos um senbor matou om de seus criados n'um accesso de cólera : conseguiu escapar-se, 
porém voltou para Portugal logo depois do exílio d'e8te ministro.» 

•N'aquella epocba o gosto da maior parte dos nobres era ir de noite atacar as pa- 
trulhas, que percorriam a cidade. Tinham á sua frente o irmão do rei, homem feros e 
cruel. Todas as noites eram assignaiadas por encontros sanguinolentos entre estes es. 
treinas e as patrulhas, e quasi sempre d'eilc8 resultavam assassinios.» Tomo 1.% pag. 129- 



CH m 

nhã, e fui introdozido na babitaçaS d'este grande homem. Actualmente está 
algom tanto melhor alojado, mas na época, em qae o vi, estava n'ama pobrís- 
sima casa, e dormia n'um quarto, cujas paredes tinham sido estucadas de 
novo. 

•As maneiras do marquez de Pombal são agradáveis e attenciosas em ex- 
tremo. Fez-me mil perguntas; affectou ignorar completamente o que se pas- 
sava pela Europa. Pediu-me que o informasse dos acontecimentos. Até me fez 
perguntas relativas a Portugal, e sobre o estado em que se achava Lisboa. 
Quiz saber que motivo, ou acaso me conduzia áquelle logar táo affastado. — 
Costumado, lhe disse eu, a viajar desde minha mocidade, visito sempre o in- 
t^or dos paizes, que percorro, nao me limitando ás cidades principaes, e por- 
tos de mar, nos quaes nada ha de novo a estudar. Mas além d^isto desejava 
conhecer quem tanto tinha beneficiado seu paiz. Entramos pouco a pouco em 
conversa : convidou -me a passar com elle oito dias, e fez-me ficar para jantar 
e ceiar n'aqaelle dia. Exprimilhe meu espanto sobre o astado, em que tinha 
achado Lisboa, attendendo ao pouco tempo decorrido depois de sua catastro* 
phe. Respondeu-me que presentemente não cuidava em nada d*isso; achava-se 
velho, e pensava em descansar; porém qae, se a providencia lhe tivesse con- 
servado seu amo por mais tempo, ter-se-hia esforçado em continuar com o 
mesmo zelo a empreza, cuja execução apenas pudera esboçar; e que, sem du- 
vida, teria lançado os alicerces d'um palácio para o rei. Patenteou-me o ma- 
gnifico plano, que tinha adoptado para este edifício. Situado n'uma pequena 
eminência, perto de Belém, teria dominado o mar e a cidade, seria construído 
no centro d'um grande jardim, cercado de altos muros, aos quaes estariam de 
distancia em distancia contíguos os palácios dos principaes senhores da corte, 
e aposentadas as pessoas, qae n'elles fossem obrigadas a residir por causa de 
seus cargos. 

tO marquez de Pombal trouxe comsigo muitos livros : ou lé, ou manda ler 
continuamente : os livros são todos francezes. Falia nossa língua tão facilmen- 
te, como nós mesmos : sabe egualmente bem o allemão, inglez, e italiano. Não 
pronunciava sem grande ternura o nome de seu respeitável amo. tHonrava- 
mct dizia elle, com sua confiança. Perder seu rei e seu amigo I É uma prova 
forte de mais para eu poder resistir a ella ! Por isso o sol para mim perdeu o 
brilho de seus raios ! Nada, nada me pôde indemnisar da perda, que padeci l> 
A isto algumas lagrimas cabiam de seus olhos. Em vão procurava eu desviar 
a conversa para um outro assumpto, para este me levava sempre.— «Ao me- 
nos, continuava elle, aqui serei feliz. Vedes esta choupana? Não é minha : to« 
mo-a de aluguer. Aquelle homem accusado de não ter pensado mais que em 
si, nem mesmo na sua terra mandou construir um aposento»— ^ Depois mos- 
trando-me um grande edificio novo. «É um armazém pertencente ávilla. Man- 
,deí-o construir para n^elie se guardarem os cereaes, dos quaes está cheio. Em 

* Gré-se geralmente ler sido Lisboa sua pátria. «Sebastião José de Carfalbo e Mello 
nasceu em Lisboa, na bella casa da rua Formosa. Francisco Luiz Gomes, Le Marquis 
de Pombal, pag.i9.— Panorama, 1839, pag. 138. 



252 CH 

fim, à maneira de Sally, viverei mais aforíanado em meu retiro, que no meio 
dos grandes e da corte. Dt^ixaram-me trazer meus livros, e por isso pouco me 
resta a desejar. 

«Acabava, quando a marqueza de Pombal, sua mulher, cbegou : teve a 
bondade de me appresentar a ella. Conserva ainda uma parte de seus dotes 
pessoaes; e veste-se com muita arte e gosto. É discreta, sem duvida; porém 
não possue a força, nem o valor de seu marido para tolerar sua situação. N» 
tempo da prosperidade do marquez de Pombal tinha a seus pés os grandes e 
o povo : sua casa era uma espécie de corte. Quando os homens a iam visitar, 
punham-se de joelhos para lhe beijarem a mão, segundo o costume do paiz. 

tSua vaidade lisonjeada por tantas adulações não se pôde acostumar ao 
isolamento, a que foi condemnada pela desgraça de seu marido. - 

•Desamparada de toda a gente, solitária, n'uma villa desviada de povoa* 
çôes, a única satisfação que tem, é de ver seus filhos, que algumas vezes vão 
passar com ella quinze dias. Nascida allemã tem o orgulho das grandes fámi- 
lias de sua nação, e, depois de ter tido tanto de que lisonjear-se, geme em se- 
gredo sua expiação. 

tTentou disfarçar suas magnas, mas não o poude conseguir por muito 
tempo. Passados dez minutos de conversação, achavam-se seus olhos arraza- 
dos de lagrimas. «Aquillo é próprio de seu sexo, me dizia o marquez; conso- 
lal-a é para mim uma outra occupação, mas seguindo meu exemplo, bem de- 
pressa apprenderá a supportar nosso infortúnio.» Um instante depois vieram 
participar, que o jantar estava na mesa. «Vinde disse-me elle, tomar parte na 
comida frugal d'um eremita.» Em vez de comida frugal, que me annunciava, 
encontrei uma mesa bem servida, e na qual nada se resentia de sua desven- 
tura, nem mostrava o salneto da desgraça. Ao todo não passávamos de três. A 
conversa foi muito longa. Entrei a fallar com a marqueza a respeito de AUe- 
manha, e por algum tempo falíamos na sua lingua.Foi breve o jantar, ou pelo 
menos assim me pareceu : o calor era excessivo.» 

«Depois de nos levantarmos da mesa, cada um foi descançar por alguns 
momentos. Approveilci mo d'esle tempo para ir percorrer o logar habitado 
pelo iilustre par. Não é tão desagradável, como cm Lisboa m'o tinham pinta- 
do. N*uma altura estão as ruínas d'um velho caslello, oíferecendo uma vista 
bastante pittoresca; as aguas são excellentes. 

«Ao sair de casa do marquez encontrei à sua porta mais de duzentas 
pessoas, a quem se distribuía pão e caldo. D'esle modo é que elle tem adqui- 
rido um grande numero do partidários, que o exaltam mesmo com sua des- 
graça: pareceu-me ser bem quisto de todos habitantes do logar. Finalmente 
depois d'um pa?s(MO de cerca de duas horas, voltei para casa do marquez, a 
quem encontrei no meio de seus livros. Continuámos a conversa. Perguntou- 
me se tinha vislo a (vremouia da coroai^ào da rainha. Advinhel onde queria 
chegar, re.pomlillie que sim, e (\\h* me paneia ler-se celebrado com muita 
pompa e uiagestade. 

tQiiiz saber Si^ eu tinha reparado em todos os iucommodos, a que seus ini- 
migos se tinham entregado para o perderem: e até me pediu alguns pormeno- 



CH 253 

Qaiz saber a maneira como o povo tinha procedido. Disse-lhe qoanto sa- 
bia, e accrescentei que esta circamstancia era mais um triumpho para elle, 
porque demonstrava não só a impotência de seus adversários, mas até sua ani- 
mosidade. A estas palavras disse-me com a maior vivacidade, a qual lhe fica 
muito bem. t Avançam um paradoxo, fazendo-se interpretes do povo : mandam- 
ibe dizer que me deteste! Mas isso é impossível : minhas acções, meu proce- 
dimento, tudo me assegura do contrario. O povo portuguez não me pôde odiar, 
6 vós ides ouvir a rasão. Que é o portuguez hoje ? Que era elle ha quarenta an- 
nos? Não o puz eu em estado de já não ter necessidade de seus visinhos? Não 
estabeleci eu por toda a parte as artes, as officinas, o ensino? Não fiz além 
d'isso reedificar um terço da cidade de Lisboa? Não propaguei a actividade, 
e não derramei o bem estar por entre os operários? Por todos os direitos, 
que eu creio ter ao reconhecimento d'esse povo, tenho-o por assaz justo, para 
me querer devorar : e até não o fez.You dizer- vos quaes os auctores de quanto 
podereis ter ouvido e percebido no tempo da coroaçlo. Os fidalgos, que se obs- 
tinavam em suas insolentes pretensões, as quaes eu quiz anniquilar, emprega- 
ram todos os meios possíveis para me perderem. Elles não podiam decente- 
mente mostrar-se à frente do partido perseguidor. Que fizeram? Escolheram 
algumas de suas creaturas^ que disfarçadas em barbeiros, cosinheiros, mari- 
nheiros, ete. divagavam pelos logares públicos, desacreditando-me e pintando- 
me com as mais horríveis cores. O povo, que facilmente é seduzido, secundou 
um resentí mento, ao qual lhe faziam crer ser um dever associar-se. Aborre - 
cia-mc, porque lhe diziam q le assim era mister. Varias pessoas, que vós co- 
nheceis, accrescentou elle, com o fim de malquistar-me, andaram por alguns 
dias debaixo d' um tal disfarce, confundiram-se com a ralé, e inventaram ca- 
lumnias, que lhe appresentaram como verdades incontestáveis. Finalmente 
quanto obrei, foi por ordem de meu amo, e nada tenho de que arrepender-me. 
Accusam-me principalmente de ter sido cruel; mas obrigaram-me a ser rigo- 
roso. Quando eu annunciava as ordens do rei, e não faziam caso d'ellas, era 
indispensável recorrer á força : as prisões e os cárceres foram os únicos meios, 
que encontrei para domar esse povo cego e ignorante. 

c Doesta forma passei em casa d'este ministro cinco dias nas conversas as 
mais interessantes. Teve a bondade de communicar-me a respeito de Portugal 
varias noçêes e reflexões, de que fiz uso no decurso de minha obra. 

iO ±° volume das Viagens de Chatelet (que nada appresenta digno de es- 
pecial menção) termina com um Supplemento composto por Bourgoing, no qual 
se corrigem algumas inexactidões inseridas n'esta obra. 

«O duque de Chatelet, de quem nos temos occupado n*este artigo, parece 
ter sido filho da celebre marqueza de Chatelet, amante de Voltaire, e o qual 
morreu no cadafalso revolucionário, em 1794 depois de ter sido embaixador 
na Áustria e em Portugal, e coronel do regimento das guardas francezas em 
i722 e 1729. * 

«Veja-se Bourgoing. 

< FirmÍD Didot — NouvelU Biographie UnieerselUj tomo 14.* 



264 CH 

tPorém o que no daqae de Ghatelet nada tem de ^adavel é a pintara^ 
que nos faz do caracter dos portuguezes no tempo do marquez de Pombal. 

•O povo portuguez é naturalmente orgulhoso, soberbo e animoso, e detesta 
em geral qualquer outro povo : cré sinceramente que não existe no universo 
nação mais esclarecida e perfeita, que a sua. Seu ódio contra os hespanhoes é 
inexprimível : até mesmo tem aversão aos inglezes, aos quaes olham como seus 
mais temiv^ inimigos. Não sei se é prevenção nacional, mas julguei desco- 
brir em Lisboa que ali não se viam os francezes com maus olhos. 

•Seus habitantes nos consideram como intrépidos : estimam nossos milita- 
res, dos quaes concebem a mais elevada idéa : além d*isto, nossa vivacidade 
sympathisa com a d'elles. São (o que todavia custa a accreditar) propensos aM 
prazeres, e entregam-se a eiles, quando o podem fazer commodamente. Ha, 
segundo julgo, poucos povos mais feios, que os portuguezes. São baixos, mo- 
renos, mad conformados : o interior corresponde bastante, em geral, a este re- 
pugnante invólucro, principalmente em Lisboa, onde os homens parecem ag- 
glomerar todos os vicies da alma e do corpo K Ha, todavia, entre a capitai e o 
norte d'este reino uma differença notável. Nas províncias septentriooaes os ho- 
mens não são tão trigueiros^ nem tão feios; são mais francos, mais tratáveis na 
sociedade, muito mais valfntes, e mais laboriosos; porém, se é possível ainda 
mais escravisados pelos preconceitos. Esta differença dáse egualmente nas 
mulheres : são muito mais brancas, que as do sul. 

tOs portuguezes considerados no geral são vingativos, vis, soberbos, escar- 
necedores, presumpçosos excessivamente, ciosos e ignorantes. Depois de ter 
descripto os vícios, que julgo descobrir n'elies, seria injusto calando suas boas 
qualidades. São affeiçoados a sua pátria, amigos generosos, Icaes, sóbrios e ca- 
ritativos. Seriam bons christãos, se não estivessem cegos pelo fanatismo. Acham- 
se tão acostumados ás praticas religiosas, que são mais supersticiosos, que de- 
votos. Os fidalgos ou grandes de Portugal teem uma educação muito escassa; 
orgulhosos e insolentes, vivendo na mais crassa ignorância, quasi nunca saem 
de sen paiz para verem outros povos. A família do marquez de Pombal, a qaal 
frequentei muito, é quasi a única onde encontrei instrucção, e um conheci 
mento não superficial dos outros povos : fala nossa liogua, o inglez o o italía 
no com facilidade; e o que n'6lla me agradou infinitamente, foi o ver que peo 
sava a respeito de seu próprio paiz mui sensatamente, e sem nenhuma preoc 
cupação : cousa rara, mesmo nos povos os mais instruídos e cívilísados. Se ai 
gum fidalgo portuguez vir o que escrevo, ganharei títulos a seu rancor, por 
que votou ódio a quanto diz respeito ao nome de Pombal. Algumas outras 
casas se acham, mas em bem pequeno numero, nas quaes existem livrarias 
porém mesmo essas casas e livrarias estão fechadas para os estranhos. 

•Podemos, sem exaggeração, gabar os encantos das porlaguezas. Não ha 
europeas, que tenham melhor carnação. Teem muito espirito, e talvez ainda 
mais vivacidade qut; as francezas. Em quanto ao galanteio excedera todas as 
mulheres da Europa : toem na expressão essa ternura seduclora, que desperta 



' Chalelel — Voijages, loino l.«, pag. 70. 



CH 

« promette prazer : mas se este é facíl, é miúto perigoso obtel-o, porque os ma- 
ridos e parentes conhecendo a extrema fraqueza de suas mulheres, nunca as 
desamparam» espionando quantos rodeiam a casa, e se por acaso sae ou entra 
alguém, que desperta suas suspeitas, cravam-lhe no coração um punhal, de 
que andam sempre munidos. As damas de classe superior vestem-se á france- 
sa, exceptuando a cabeça, que enfeitam à moda do paiz com flores e diaman- 
tes coUoeados com muita garridice e arte. Todas ellas teem lindos olhos pretos 
multo expressivos.» 

252) OHAUVAIN (LÉONOE — DE OETTE). 

E. — Histoire de Portugal et de la Maison de Bragance par — Chez TAu- 
teur, a Gette. 1871, 8.°, 232. (Historia de Portugal e da casa de Bragança). 

É dedicada a D. Luiz, rei de Portugal. 

Esta obra não passa d'um não interrompido panegyrieo dos portuguezes. 

•É no livro d'um dos maiores poetas do mundo, do maior poeta portuguez, 
é nos Laziadas de Camões, que se encontra a primeira historia de Portugal. 
Camões foi o historiador épico de seu paiz à maneira do immortal Yirgilio, e 
€6 lÂLsiadas é um poema nacional como a Eneida. 

■O que os outros historiadores portuguezes, João de Barros, Diogo do Cou- 
to, Lopes de Castanheda contaram eloquentemente em prosa, Camões o con- 
sagrou melodiosamente em verso. Na poesia épica moderna Camões é em Por- 
tugal o que Tasso é na Itália, e Milton na Inglaterra. Não lhes procuremos 
equivalentes na França : o próprio Voltaire, sem embargo da sua Henríada 
asseverou que os francezes não tinham cabeça épica : outro tanto é mister di- 
zer da Allemanha. A França tem grandes poetas, taes como ComeiUe e Raci- 
ne; a Allemanha tem Goethe e Schiller; mas nenhuma das duas possue um 
Camões, um Yirgilio, e um Homero. 

«O assumpto dos Lusíadas não é nem uma guerra fabulosa, nem uma al- 
tercação de heities, nem o mundo em guerra por causa de uma Helena, como 
na Ilíada; não são as aventuras d'um Ulysses, como na Odyssea. E no em- 
tanto é um poema inteiramente homérico. A base dos Lusíadas é uma nova 
espécie de epopea, que celebra a descoberta heróica e maravilhosa d'um paiz 
por meio da navegação portugueza. O poeta dirige a frota para a embocadura 
do Ganges^ descreve-o ao passar as costas occidentaes do meio dia e do oriente 
da Africa, e os dífferentes povos, que vivem n'essas regiões até então desco- 
nhecidas. 

«As descobertas, expedições e conquisV» dos portuguezes enchem bellas 
paginas na historia. Esta nação pouco ampla na geographia da Europa, é to- 
davia muito vasta em todas as partes do mundo. 

«São os portuguezes soldados honestos e excellentes. Quando se levantaram 
em massa para a defeza de seu paiz, mostraram-se certamente superiores aos 
bespanboes, pois não deshourarara seu patriotismo com horríveis guerrilhas : 
e os francezes, ao combaterem contra Portugal, acharam n'elle inimigos, mas 
não aventureiros. Todas as tropas portuguezas foram encontradas com honra 
no campo de batalha, entre os soldados francezes e inglezes. 



256 CH 

•£m seguida á França de 1789 foram os portagaezes os primeiros» qii9 
adoptaram uma constituição, quo mais se approxima da franceza^eque já ser- 
viu, ou ha de servir um dia de modelo a muitos governos europeus. Por este 
meio o reino de Portugal alcançou, ha muito tempo, maiores proveitos para a 
humanidade, do que tantos outros colossos ou impérios. 

253) OHEMNITinS (M.) 

De Lusitanorum in Indiam Orietitalem navigatione Cármen, Lipsiae, 4.% 
1580. (Poesia à navegação dos portuguezes às índias Orientaes). 
Ternaux Compans., pag. 63. 

254) GHERINGTON. 

E. — Memoirs of the right honorable Lord Viscount Cherington comaining 
a gentUne description of the govermncnt, and mannet^s of lhe preserU PortU' 
guese. London, 1782, 2 vol. 8.<*— (Memorias de — contendo uma verdadeira 
descripção do governo e costumes actuaes dos portuguezes). 

255) OHERUBINI (LUIGI OARLO ZANOBI SALVATORE KA 
RIA). 

E. — Lhotellerie Portugaise, Opera, 1798. 

256) OHEVALIER (MIOHEL).— Economista francez notável, que tem 
escripto muitos artigos em diversos jornaes a respeito de nossas cousas, mas 
principalmente na Revue des deux mondeSj e que sempre se tem mostrado muito 
afíeiçoado aos portuguezes. 

Tendo recebido o diploma de sócio estrangeiro enviado pela nossa Acade- 
mia das Sciencias, na caria do agradecimento, que remetteu, entre outras coi- 
sas, diz as seguintes : 

«Quando a navegação aperfeiçoada e auxiliada pela sciencía abria um ca- 
minho inesperado á actividade commercial, industrial e scientiOca da Europa 
nos íins do século xv, e principies do xvi, Portugal compartiu com a Hespa- 
nha a gloria das descobertas admiráveis, que caracterisaram e immortalisaram 
essa época. 

«Se depois a fortuna de Portugal se eclipsou, hoje póde-se aíTirmar sem li- 
sonja, que esse accidente, que aliás experimentaram todas as naçues da terra 
em diíTerentes épocas, cada uma por seu turno, está passado. 

«O espirito novo reanima os portuguezes, e represenla-os principalmente 
um soberano, a cujo respeito em toda a Europa só ha um parcícer : represen 
ta-o uma plêiade de estadistas afamades, de sábios escriptores, cujo sabe 
eguala o patriotismo, muitos dos quaes me felicito de haver encontrado i 
theatro das exposições univtTsacs de Londres e de Paris, e de cuja amisa 
me lisonjeio. * 

«Portugal é o paiz fadado, mais que quahiuer outro, para auferir as m 

» Ánnmirio do Árchico Pitlorcsco, (IStílij, pag. loG. 



('I 257 

rea vantagens doí* invoíilos, qup distinguem a nossa época, o particularmente 
das camintios de ferro e da navegação a vapor. 

«A liberdade do conimercio, esta forma aspecial do principio da liberdade 
geral, e de que a civilisaç^o moderna tao namorada é, e com rasâo, promette 
a este paiz uma inexhaurivel fonte de prosperidade. 

«Pela sua peculiar situarão topographica, Portugal está fadado para ser um 
dos agentes mais úteis da grandeza, e da riqueza .collectiva de toda a Europa.» 

Um dos trabalhos de Míchel Clievalier é o seu estudo sobre o marquez de 
Pombal, publicado no jornal acima mencionado, em setembro de 4870. 

257) OHIUMAZERO E CARRILLO (GIOANNI). 

E. — A sa Saltita, Per — omhnscintorp di S. M. C, contra ht 'pretpmh- 
ne. dei Vescovo di Lameqo. 
C. M. B. LP. 

258) OHONSKI (DE). 

E. — Etablissemetit Portugais de Marão, par — Paris, 185(), 8." 

259) OHRETIEN (NICOLAS). 

E. — Les Portugais infortunes. Tragedie, 4608. 

260) OIBRARIO (LUIGI) — Senatore dei regno, ministro da fazenda 
da Sardenha e successor de Cavour. 

E. — Ricordi d'una missione in Portogallo ai re Cario Alberto per — . Awo- 
va edizUme accresciuta, Torino, Dalla Stamperia Reate, 4850, 8.°, 378 pag. 

Carlos Alberto, rei da Sardenha, havendo sido derrotado pelos austnacos na 
batalha de Novara e tendo em seguida abdicado, demandara um asylo na 
cidade do Porto. Aqui o foi procurar uma deputação composta do três mem- 
bros Gesare Alfíeri, Gíacinto di Callegno e Luigi Cíbrario. Os dois primeiros 
regressaram para o seu paiz, e o ultimo accompanhou o monarcha até â sua 
morte, acontecida em 28 de julho de 48i9. Publicou depois em Turim o livro 
mencionado, no qual dá uma descripção de Portugal, e trácia extensamente 
da doença, morte, e enterro do rei Carlos Alberto. 

«Não tem Portugal algum lago digno de ser mencionado, e só o Tejo for- 
ma um, o mais incantavel, e o mais bello porto do mundo.* 

•Em quanto a livros de miniaturas Portugal possue um thesouro, com o 
qual nenhum outro pode ser comparado. Yi a preciosa collecção do rei de 
Wurlemberg, vi os livros com miniaturas de Vienna, Paris, Turim, Milão, Siene 
Roma, Nápoles, Monte Cassino, o La Cava, mas não encontrei cousa, que se 
podesse comparar com a Bíblia em 7 volumes dada de presente a el-rei D. 
Manoel pelo papa Júlio III.» 

tQuer pela via terrestre cheguemos * da deliciosa província da Beira ás mar- 

^ A traducção dVsla pn!;<apem foi publirada no Panorama de 18n2. 

TOMO I 47 



1S8 Cl 

geDs, do Doaro, quer, dôixando o Oceana, vencidos os bancos de areia, que 
obstruem a foz, remontemos breve espaço do curso do rio, summamente mages- 
tosa e pitoresca ó a vista da cidade do Porto, a qual campeia sobre duas altas 
collinas, cobre com seus variados edifícios todo o declive até vir banhar quasi 
n'agua a extrema casaria. 

•Por isso, coQtemplando-se do meio do Douro i veemse umas casas surgin- 
do de traz d'outras até mais a cima dos dois montes coroados pela Sé, o pa- 
lácio do bispo, a porta do Sol e a Torre dos Clérigos, que serve de balisa aos 
navegantes. 

«Em certos logares, onde mais Íngreme é o declive, os edifícios, que se le- 
vantam a varias alturas, uns acima dos outros, parece formarem um corpo só, 
de proporções desmesuradas, de altura gigante. Junte-se alisto um rio caudal, 
entalado nas margens, e fundo, sulcado de navios e barcos de todas as nações, 
atravessado pela ponte pênsil, que liga a cidade á povoação de Yilia Nova de 
Gaya, aggreguem-se-lhe as quintas espalhadas pelas encostas de ambas as 
margens em meio das mais excellentes e robustas arvores, que bano mundo; 
o convento da Serra, que se eleva solitário à esquerda do Douro; o ceo, ora 
avivado pelos esplendores do sol meridional, ora offuscado pelos nevoeiros do 
oceano, os quaes, quando não se condensam muito, não tolhem a formosura 
das scenas da natureza, revestindo-as de tintas melancólicas, ora esfumando 
lentamente as ladeiras dos montes, ora afogando os pinheiraes solitários, em 
parte occultando, em parte escurecendo apenas os objectos, multiplicam os 
painéis, que a vista procura, e em que se compraz a imaginação, principai- 
mente quando pensamentos tristes e íntimos, fructos de amargos desenganos 
6 previsões sinistras agitam a mente, e, parece que a magoa se mitiga, se acha 
correspondência no melancólico aspecto da natureza. • 

O auctor descreve era seguida os principaes estabelecimentos, mas isto 
pouco interesse oíTerece para um portuguez, dando-se a circumstancia de ha- 
ver hoje outros muito mais modernos, e também muito notáveis. O Porto é 
uma das povoações do nosso paiz, que mais tem progredido. É realmente 
uma grande e sumptuosa cidade, cheia de vida e de animação. 

Desde pag. 184 até ao fim traia o livro da biographia, residência no Porto 
e morte de Carlos Alberto, a quem a nossa cidade prestou as maiores home- 
nagens. D'aqui proveiu serem os habitantes do Porto considerados como ci- 
dadãos da cidade de Turim. 

• A cidade do Porto, que foi a primeira que em Portugal levantou o es- 
tandarte da liberdade, não teve nem terá outro hospede egual. Povo piedoso 

' Cibrario c um do? mais «Jislinclos csrriplores (Ja Sardenha, e é geralmente consi- 
derado como um dos primeiros escriplores d.i litlcralura contemporânea em Ilalia. É au- 
rlc de uma Historia da ram (Ip Sahoya, bem conhecida e bem apreciada pelos sábios da 
Europa. Foi outrora ronsclbeiro do tribunal de contas, e por algum tempo chefe d'uma 
repartição no ministério dn fa/enda.— RerUta f^nirenal Ushonensc, vol. 10. •, pag. 546. 



CL 359 

e cortez, que comprehendes os grandes pensamentos, e te compadeceste dos 
infortúnios dos italianos, Deas te dé os agradecimentos das homenagens que 
prestaste ás virtudes de Carlos Alberto, Deus te conceda gozares por muito 
tempo d'uma verdadeira liberdade c d'uma verdadeira paz!* 

261) OIERA (MIGUEL ANTÓNIO). Natural do Piemonte, e profes- 
sor de mathematica no collegio dos nobres, e depois na universidade de Coim- 
bra. 

E. — Os ires livros de Cicero sobre as obrigações civis, traduzidos em lín- 
gua Portugueza, para uso do Real CoUegio dos Nobres. Lisboa, offícina de Mi- 
guel Manescal da Costa, 4766, 46." 

Ha outras duas edíçuos mais modernas. 

262) CINCO UBROS DE LA HISTORIA DE PORTUGAL, y 
conquista de las Islãs de los Açores en los afias de i582 y 4583. Madrid, 4594 

263) CIRCOURT (Mr. ADOLF). 

E. — Catherine d'Atayde. Tire de la Bibliotheque Universelle de Genève. 
Juillet, 4853. Geneve Imprimerie Ferd. Hamboz, 4853. 

264) . CIVIL (THE) WAR IN PORTUGAL, and the siege of Opor- 
to. By a British Officer of Hussars, who served in the Portuguese army during 
ihê Peninsular War. London, Edward Moxon, 4836, S.'», 286 pag. (Guerra ci- 
vil em Portugal.) 

Esta obra começa na conspiração de (jomcs Freire, e termina na morte de 
D. Pedro. Seu author, que dizem ser o coronel inglez Owen, mostra-se muito 
sentido pelo fallecimento doeste soberano, e acérrimo partidário de sua po- 
litica. 

Parece-me ser esta já uma segunda edição : da primeira nunca pude en- 
contrar o original inglez, mas ha uma traducção em mào portuguez com o se- 
guinte titulo : A guerra civil em Portugal, o sitio do Porto e a morte de D. Pe- 
dro, Por um estrangeiro. Impresso em Londres em 4836. 

265) OLAIRE (SAINTE-DEVILLE), geólogo francez, socío do Insti- 
tuto; 

Nasceu nas Antilhas no anuo de 1844. ^ 

E. —Voyage géologique aux Antilles et aux iles Ténériffe et de Fogo. Paris, 
1856-4864. 

266) CLARAHOND (PRIVAT JOSEPH), Comte de la Pelet de la 
Lozere. 

E. I — Coup dceil militaire sur le Portugal. 

II Relations de la Campagne de Portugal en 4840-4841. 

* Vapereau- Dirtinnnire des Contfmporainx, pag. 1611 



2(50 CL 

Conservam -se estes trabalhos inéditos, segundo diz a Nmvelle Biographie 
Vniverselle de F. Didot. 

267) OLARETA (6AR0NE GAUDENZIO). 

E. — Notizie storiche intomo delia vita ed ai tempi di Beatrice dt Porto- 
gallo duchessa di Savoia. Torioo, 1863. (Noticias históricas acerca da vida e 
tempos de Beatriz de Portugal, duqueza de Sabóia). 

268) OLEDE (N. DE LA), historiador francez. 
Nasceu no anno de 4736. 

E. — Bistoire générale de Portugal, 

Tome première contenant Vorigine, les rrumrs, et les guerres des andens Lu- 
sitaniens, leur etat sotis la Domination des Romains, Vinvaston des Gots et celle 
des Maures, Vérection du Portugal en Royaume et les fiegnès de Henry et d'Ah 
fonse jusqu'à celui de Dom Jean Illinclusivement. Paris, Chez CoUin, Fils. 1735» 
4.» gr. 783 pag. 

Tome secundième contenant les regnês de Sebastien,de Philippe II etcjus- 
qu*à celui du rol Jean á present regnant. Paris, Chez Collini, Fils. 844 pag. 

Ha outra edição do mesmo anno em 8 vol. in~8.°, em Paris em casa de 
Theodore le Gras. 

A respeito doeste trabalho litterario diz o sr. Fcrdinand Diniz. ^ «As fontes 
consultadas foram Marianna, Faria, Brandão, Bírago, Barros, Ericeira, e o con- 
de de Alegrete. Os chronistas do xv e do xm séculos lhe são desconhecidos 
completamente : Fernão Lopes, Ruy de Pina, Azurara, Rezende nunca por elle 
foram citados, e até mesmo não conhece a compilação de Duarte Nunes de 
Leão.» 

A traducção de algumas passagens dó prologo d'esla obra fará conhecer o 
mtuito d'ella : 

«Como possuímos em nossa lingua a historia geral da maior parte das mo- 
narchias da Europa, julguei ser conveniente termos a historia completa d' um 
reino, que, apezar de pouco considerável em extensão, o é todavia muito por 
sua vantajosa posição, fertilidade, industria e riqueza de seus habitantes, pelas 
gloriosas victorias, que os portuguezes obtiveram sobre seus inimigos na Eu- 
ropa, e pelas úteis conquistas, que fizeram em o novo mundo.» 

A Historia de Portugal por La Clede era out*rora muito apreciada; hoje 
as tendências históricas são mui diversas e pódese asseverar que os leitores 
d'esla obra são actualmente bem pouco numerosos. Quem terá hoje paciência 
para ler um escriplor, que narre a historia dos antigos lusitanos, seguindo as 
pisadas de Frei Bernardo de Brito? 

D'esla obra se publicou em 178i uma traducção portugueza em 16 volumes, 
illustrada com muilas notas históricas, geográficas e criticas; e com algumas 
dissertações singulares. 

» Firinin Didol — Snuvcílr r/iof/rtipUir r,h\à'nle, voi. '^^^, paj; .">35. 



CL 261 

269) CLENARTZ, KLEINARTZ, ou á latina OLENARDUS (NIOO- 
LAUS) — Philologo celebre, natural de Diest, no Brabante. 

Nasceu no anno de 1495. 

Depois de ensinar por alguns annos as línguas grega e hebraica em Lou- 
vain, veiu para Portugal^ convidado por el-rei D. João III com o fim de ser 
mestre de D. Henrique, depois cardeal e rei. Mais tarde estabeleceu aula de la- 
tim em Braga. • 

E. — I Institutiones Grammaticae Latinae, 

II Comiti^ Palatiniy Ducis Bavariae, S. R. Imperii Electoris etc, ubi de di' 
versoriis Hispanicis. Hanoviae, Typis Wecheliants apud Claud Mammm et hc' 
redes Joan. Aubrii, 1606, 8.», 340 pag. 

III Institutiones Grammaticae Graecae, Bracharae, etc. Doestes dois com- 
pêndios ha um numero extraordinário de edições. 

rV Nicolai Clenardi Epistolaram libii duo, His accedunt excerpta Huberti 
Thomae Leodii Annalibus de vita Friderici. 

Na Bibliotheca Publica de Lisboa existe um exemplar d'esta obra, que é 
rara, e que mereceria ser traduzida em vernáculo, se na época actual houvesse 
entre nós leitores para tal género de livros. 

São estas cartas escriptas em estylo faceto, e d'ellas parte foram dirigidas 
a Jacob Latòmo, mestre de Clenartz, e parte a vários outros litteratos. 

Logo na primeira dirigida a seu mestre narra como a convite do rei 
de Portugal se dirigira de Salamanca para Coimbra, e dá conta da sua via- 
gem. 

Diz que são tantos oâ mouros e etbiopes empregados na qualidade de cria- 
dos de servir em Portugal, que lhe parece maior o numero de escravos, que 
o de pessoas livres n'este paiz. 

Vamos agora ver como Clenartz aprecia alguns dos litteratos portuguezcs 
d'aquel]e tempo, e o estado dos estudos n'este paiz. 

«Est Conimbricae apud Lusitanos jam praelum ^ non solum Latinarum, sed 
otiam Graecarum literarum, vide num consiiium aliqnod reperire possis, ut 
ÍDde semper Graecorum librorum numcrum justum consequaris : id quod fa- 
cile liat, si cum Vincentio Fabrício per epistolas aliquando confabulerís, qui 
iilic Graece docet. 

«Resendius prjmas partes obtinet, poeta cum veterlbus comparandus, cuí 
si juge studium staret poeticum, non minus nobilitarei suam Eboram, quam 
Lucanus Cordobam. , 

«Georgii Coelii viri praeter Graecarum literarum peritíam, sic et prosa et 
carmine celebris, ut dubites utrb magis polleat. Míhi semper ob id probata est 
oratio ejus soluta, quod nescíam an hodic sint qui tam prope accedant ad il- 
lam Komanam eloquentiam. Scrmo est purus, concinnus, cl eleganti munditíe, 
nec quicquam tamen prao se fert afTectatum. Vidcorquc inihi non immeritu 
Resondium inter poetas, Coelium inter oralores coiiocasse, ut in bcllo, quod 

* Carla a João Vasco j paj;. 177. 



26i CO 

spíro contra Machometum, Ccelius orare meiius, Resendius canerc possít sodo« 
rius. Toter Theologos aatem quem, quaeso, praeferam Joanni Parvo?... 

«Ceteras dotes et viri probitatem hinc collígiie, qnod cum multís egregie 
doctis spectataeque vitae non careat Lusitânia, Pariam tamen nuper Rex in- 
ciytQS, caeteris postbabitis, sua sponte designavit Episcopum. 

«Erat etiam non postremae notae D. Franciscus Melionius, genere ac lite- 
ris adeo praeditus, ut et inter aulicos próceres dignitaftem, et inter eruditos cia- 
ram famam teneret. 

«Nec silentio praetereundus est Franciscus Geraites egregius medicus, atra- 
que língua bene percultus, et vir acerrimi judicií, qui tametsi inter amicos non 
infimum locum occupavít, partim eruditione commendatus, partim in me col- 
lato beneficio. 

«Missos faciam reliquos, ut properem ad Antonium Pbílippum, tam dedi- 
tum Medico Arábico, quam devotus esset Geraites Graeco. Est hic, Antoníus 
inter Eborenses summi nomlnis, et quod me titillabat libris Arabicis instruc- 
tus quamplurimis. 

• • 

cQmitto reliqua quo properemus Conimbrícam, ubi rex novam tum molíe- 
batur Academiam. Hic qnid opus est multis laudibus, quando se ipsa in dies 
magis ac magis commendat? Erant vacationes, et in ceteris professioníbus i fe* 
riae. Nec judicium ferre possum nisi de auditório Graeco, quod novo miraculo 
reddit attonitura. Vincentius Fabricius enarrabat Homerum, non ul Graeca ver- 
terei latine, sed quasi agerel in ipsis Athenis; et nihilo segnius discipuii prae- 
ceplorem iinitabantur, ferme in totum usi et ipsi sermone Graecanico. E qui- 
bus auspiciis si fas est divinare, florentissima eril Gonimbrica linguarum stndiis* 

•De Theoiogia speciorn praebuerunt três monachi, qui cum paucis mensi- 
bus in ea palaestra fuissenl versati, de themate propósito disputaverunl argu- 
tíssimo, et reipsa testaii sunt quam eruditis viris iilic darent operam. Quod si 
honos olit artcsj quid manet Conimbricam, nisi ut ipsam aliquand^ vincat Sal- 
manticam? Neque enim Rex parcit uliis sumplibus,ut tam opimis proventibus do- 
nat Cathedras, ut in universa Hispânia non sit Professoribus fruclus uberior.» 

270) CLUSn (CAROLI). 

E. — Aliqiwl notae in Garria aromatnm historiam ejusque descriptiones 
nonnullarum stirpinm et aliarum exoticarum rerum quae a generoso tiro F. 
Drake ohservatae in lanya nuvigationc. Plantio, 1582. T. Compans, pag. 62. 
(Algumas annotaçòes ao livro do Garcia da Horta sobre as drogas do oriente.) 

271) COCIO (D. MARGARIDA IRIARTE E SOMALLO AYME- 
RIK BIOSLADA DE). 

Nasceu em Buenos Ayres (Ani(.Tica) no auao de 1801, c depois condessa do 

' Epislola ad ('hristianos de profcsaionc .\)«6í>a, militiaiiuc innalitucnda adrcnui 
Machomefum. 



GO 263 

Casal, por ter casado com José de Barros e Abreu Sousa e Alvim, conde do 
mesmo titulo). 

£. — I Poema épico, dedicado á nação porlugueza. Porto, Typographia de 
Sebastião José Pereira, 1849. 

II Branca, Drama em quatro actos e oito quadros. Producção e engenho da 
condessa do Casal. Porto, Typographia de Sebastião José Pereira, 1847. 

272) OOOKBURNE (Miss. OATHERINE). 
E. — Agnes de Castro. A. Tragedy. London, 1697. 

273) COISSARD (MIOHEL). 

E. — La vie du bienheureux Franrois Xavier^ mise en (rançais sur le la- 
tiu d'Uorace Tursellini. Lyon, 1612, 8.» (Vida de S. Francisco Xavier.) 

274) OOLBATCH (Dr.) 

E. — An examination of the late Archdeacon Echard's account of mariage' 
treaty between King Charles the second and queen Catherine infama of Portu» 
gal. Cambridge, 1733: (Exame do tratado de casamento do rei Carlos, com a 
infante D. Catbarina.) 

Apparece esta obra mencionada no catalogo manuscripto da livraria do 
conde de Lavradio. 

27o) COLLECTION of general voyages, from the commencement of the 
Partuguese discoveries to the present time. London. — (Coilecção de, viagens.) 

276) COLLOQUIA et Dictionariolum octo linguarum : Latinae, Gallicae 
Belgicae, Teutonicae, Hispanicae, Italicae, Anglicae et Portugallicae. Uber om» 
nibus Linguarum studiosis domi ac foris apprime necessarius.— Colloques ou 
Dialogues avec un Dictianaire en huict languages Latin, Flamen, François, 
Allemany Espagnol, Italien, Anglois et Portuguez : Nouvellement revues, corri- 
géz et augmentéz de quatre dialogues, três pro/itables et utiles, tant au faict 
de marchandise, qu'aux voyages et autres trafiques. Londiní. Excusa typis E. 
G. impensis Michaelis Spark Junioris, 1639, 362 pag. 

277) OOLMENAR (DON JUAN ALVAREZ DE)-Escriptor hespa- 
nhol, que vivia na primeira metade do século xviii i. 

E. — I. Les Delices de VEspagne et du Portugal^ oía Von voit une descrip- 
tion exacte des Antiquitez, et des Provinces, des montagnes, des villes, des Ri- 
vieres, des Ports de mer, des Fortei^esses^ Eglises, Academies, Pulais, BcUns etc. 
De la Réligioti, des mceurs des habitants, de leurs fites, et généralement de tout 
cr qu'il y a deplus considerable à remarquer, Le tout enrichi de figures en taiUe 
douce, dessinées sur les lieux mêmes, par — A. Leide. Chez Pierre Vander, 



Firolin Didot — Aoutc//c Bioyraphic Univcrsdlc, voi II.", pag. 356. 



264 GO 

1707» 5 vol. 8.** CoD) grande namero de estampas. Leyde, 1715 em 6 vol. Esta 
obra foi traduzida em Flamengo. 

O vol. 4.* é o que trata especialmente do Portugal, se bem que nos outros 
também se enconira alguma coisa a este respeito. Diz que Portugal é um paiz 
muito bom, rico, fértil, e abundante de tudo, quanto se pôde desejar para as 
necessidades e delicias da vida. 

E8T.V1IPA8 

!.■ Vista de Villa Nova e forte da Conceição (da Cerveira?) — 2.» Vista de 
Braga.— -3.» Vista do Coimbra.— - 4.* Vista de Lisboa — 5.* Vista do Terreiro 
do Paço.— 6.* Palácio do rei em Lisboa.— 7." Vista d'um palácio, que o rei de 
Portugal comprou.— 8.* Vista de Cascaes e Belém.—- 9.* Vista da barra de Lis- 
boa e egreja do Belera.— IO.* Vista da Egreja de Belém.— H.* Vista de Setú- 
bal.— 12.* VisUa de Évora.— 13.* Vista de Estremoz.— 14.* Vista de Eivai».— 
lo.* Vista do Arronches.— 16.* Vista de Olivença.— 17.* Vista de Villa Viçosa* 
— 18.* Vista de Ferreira. 

No 2.° vol.— Vista d'uma corrida de touros em Lisboa. 

No 6.** vol.— 1.* Embarque da princesa de Portugal, Catharina, esposa de 
(Carlos II, rei dlnglatorra.— 2.* Vestuário dos cavalleiros de Portugal. 

n. Ânnales d'Espagne et de Portugal, contenant tout ce qui s^est passe de 
plíis important dans ces deux royaumes et dam les autres parties de VEurope^ 
de inème que dans les Indes Onentales et Occidentales^ depuis Vetablissement de 
ces deux monarchies jtisquW present. Avec la description de tout ce qu^U y 
a de pltís remarquahle en Espagne et en Portugal. Leur etat presente leurs 
inlerets, la forine du Gonveniement^ Vetendue de leur commerce etc, par — 
L(í loiíl cnrichi do Caries Geographiques et de tròs belles figures en taille doa- 
(•(\ A Amstenlam. Chez François Lllonoré et Fils, 1741, 4 vol. 4.*» gr. 

Alj^^nmas das estampas relativas a Portugal, que enriquecem esta obra, fa- 
zem dilTeronra, da^í que apparccoram na outra já mencionada — L<?5 Delices, 

HIH) COLMEIRO(D. MIGUEL). 

K. — La Botânica // los Botânicos de la Penituiula Hispano- Lm^itana, Es* 
índios bibliographicos y biograpJncos. Madrid, 18.')8. 

279) COLOMEZ (JUAN). 

E. — Jgnez de Cí7.ç/ro. Tragedia. Livoriiu, 1781. 

280) COLVOCORESSES (LIEUT. GEO. M. — U. S.)— Navy and uf- 

ficicr of lho oxpodilion. 

K. — Fíif(r years in thc govcrnvicnt (wploving c.rpcdilion coinmanded by 
(fíplain Charles Willces to Uw ísfand of Madeira^ Cope Verd IslandSy Brazii, 
C.oasl nf VdlammiUy Chiliy Peru, Pnnmnto (Ivonpy Solclg IslandSy Navigatmr 
gronp. Anslralia, Anfarlich Continente Me/r Zraland, Frirndly Islands, Fejre 
(iroup, Sandwich Islands. iXorlhwest Coasi of Amcricaj Oregon, Califórnia, 
Kasl Indcs, St. Uclena, ctr. etc. Scrond edilion. Now-York, It. T. loung Publis- 
lior, 18'j8, 8.", :]71 [)ag. Com aljíuinai? oilanipa^. 



CO 265 

^81) COMEDIA FAMOSA: El falso núncio de Portugal, Barcelona, 
1769. 

282) COMEDIA FAMOSA dos successos de Jahacob e EssaVy composta 
por um auctor celebrq, estampada á custa de Abraham Ramires e Ishac Cas- 
tellOy em cujo poder se acham a vender, Delft. Anno 5459. (Corresponde a 1699.) 

Falia d'esta obra o sr. Innocencio Francisco da Silva a pag. 92 do S.^" vol. 
do seu Diccionario, 

283) COMELLA (D. LUCIANO FRANCISCO). 

E. — I. Dona Inês de Castro. Escena tragico-lirica por — . Valência, 1815. 
II. El mayor rival de Roma^ Viriato. Drama trágico. Gadix. 

284) COMPARETTI (ANDREA) — Medico iUliano. 

Nasceu em Fríoiil no anno de 1746 e falleceu em Pádua no de 1801. i 
E. — Osservazioni sulla proprieta delia China dei Brasile, Pádua, 1794, 
8.» — (Observações sobre a quina do Brazil.) 

285) COMPENDIO DE LA HISTORIA DE PORTUGAL desde el 
principio de su monarquia hasta el ano de 1823 por Alfonso Rabhe... traduci* 
do ai Castellano. Paris, 1827, 2 vol. 12.<» 

286) CONCERT VAN REGLEMENT op Brasil Ghenoment by haere 
Ho. Do. de Heeren Staeten General der Hereenighde Nederdanden ende de Te- 
mindl-Hesboren der Teoctroveerde West^Iudische Compagnie, 1648, 8.*, foi. 
sem pag. — M. S. 

287) CONDER (JOSIAH). 

E. — Spain and Portugal. London, 1831, 2 vol. 

288) CONESTAGIO (JERÓNIMO DE FRANCHI-GENTILHUO- 
MO GENOVESE). 

Nasceu em Toledo no anno de 1528, e ahi morreu em 1601. 
E. — Del unione dei regno di Portugallo alio Corona di CastigUa. Istaria 
dei Sig.— In Génova. Appresso Girolamo Bartoli, 1589, 4.° peq., 412 pag. 

•Tenciono escrever as coisas do reino de Portugal, desde o tempo que el- 
rei D. Sebastião I com uma numerosa armada passou á Africa para fazer guer- 
ra aos mouros da Mauritânia Tingitana, até que (depois de vários trabalhos) 
o referido reino em tempo de Philippe II rei de Castella se uniu aos outros de 
Hespanha.» 

Eis o começo d'uma obra bem conhecida em toda a Europa, e da qual 
existem varias traducçues o edições, mas que em Portugal fez levantar altos 

1 Firrnin Didol — ^'ouvelU Biographie Univcrsellc, vol. II.*, pag. 36S. 



Í66 CO 

brados de indíguaçào contra seu auctor, ^ por se julgarem os portuguezes n'ella 
calumniados por um portuguez, 2 por isso que se accredilou que o tal Fran- 
chi Gonestagíonada mais era de que um pseudonymo, sendo o verdadeiro nome 
do auctor D. Joào da Silva, conde de Portalegre. Realmente passagens como 
estas, e outras muitas do mesmo calibre não eram muito 4)ara lisonjear nossos 
antepassados : 

•As delicias da índia, e a abundância do commercio tendo os corrompido, 
não pensaram mais que em gosar do que ganharam, sem pensarem em Deas. 
Caíram n'uma ociosidade cheia de orgulho e de presumpção. Era impossive) 
retirar um povo tão corrupto do desregramento em que estava. É a nação a 
mais orgulhosa do mundo. D. Sebastião educado no meio de mulheres e de 
frades, sustentado nos prazer&s e nas delicias, tinha tão grande paixão peia 
guerra, comu se tivesse nascido e sido educado no meio do exercito. 

«Entre todos aquelles preparativos não se via aquella ordem, e aquellaín- 
telligencia tão necessária a todas as coisas da guerra : tudo era embaraça e 
confusão; nenhuma exactidão nas revistas, nenhuma fídelidade no pagamen- 
to, uma extrema abundância de coisas inúteis, e uma grande carência do que 
era mais necessário. Toda a nobresa por um requinte extraordinário vestía-se 
á hespanhola, não se lhe viam nem armas, nem couraças, nem as provisões 
necessárias de agua e biscouto para embarcarem. Tudo eram bordados, eas- 
quilbismo de estofos magniGcos, doces e licores. Somente se via baixella de 
prata, tendas forradas com fazendas de seda, e por toda a parte equipagens 
de príncipes, ao passo que os soldados morriam á fome.» 

Realmente estas expressões parecem d' uma audácia inaudita attendendo 
aos tempos, em que se escreviam; mas os seguintes trechos deviam encher 
os portuguezes d*uma cólera inexprimivel. 

Trata-sc da batalha de Alcácer Quibir — «Os portuguezes dispararam sua 
artilharia com tão pouca ordem e intelligencia, que se tornou quasi inútil; mas 
á segunda carga dos mouros, mal viam o fogo, deitavam-se immediatamente 
no chão. Na terceira linha os portuguezes, deitando fora, as armas punham-se 
de joelhos diante dos mouros, o lhes pediam a vida. Os mouros preferem os 
prisioneiros portuguezes aos de todas as outras nações, pois sendo excessiva- 

1 £ fama publica que o verdadeiro auctor da referida obra é D. Joito da Silva, hes- 
panhol, conde de Portalegre, bem acceito ao sobredito Pbilippe II. O erudito e judicioso 
D. Francisco Manuel de Mello na sua Epanaphora 2 * faz da sobredita Historia o do S6U 
auctor em summa o seguinte juízo: Que elle se roubou a si mesmo, mais que a dós. Pois 
apesar das imposturas com que quíz esenrecer a nossa fama, os portuguezes ficaram re- 
putados por gente valerosa no mundo, e clle por auctor fabuloso do tempo.» Bibliolheca 
Histórica de Portugal, pag. 337. »> Jeronymo de Mendonça diz porém mui positivamente 
que o auctor era genovez, c occupado na feitoria da alfandega de Lisboa. 

' Escreveu obras mencionadas por Barbosa, que allribuindo-lhc a qualidade de por- 
tuguez por sua mae, lhe deu por ií?o logar nu Bibliothcra Lusitana.» Sr. Innocencio. 
Picc lorao i.", pag. 3u. 



CO íí 67 

ineote eíTeminados para soíTrerem os iDcommodos do captiveiro, sacríOcam fa- 
cilmente grandes sommas para se resgatarem. 

«Meara, foi quem n'esta conjunctara fez progredir mais os interesses de 
sen ame, mas de todos os meios, que empregou, o dinheiro e as promessas fo- 
ram os mais eíTicazes para associar os nobres ao partido de Philíppe II. 

«O calor do clima, a immundicie da cidade de Lisboa, o mau sustento do 
povo^ que em geral só vive de peixe, o pouco cuidado dos magistrados em 
separar os empestados dos que não o estavam, seu desleixo em tudo mais con- 
tribuiu muito para augmentar a epidemia de 1580. 

«A confusão, em que se achava o reino, lançou os frades n uma extraordi- 
nária relaxação. Nada mais se via que devassidão e escândalo derramado por 
toda a ordem ecclesiastíca. 

«A desordem não Qra menor no governo ecclesiastico, do que no temporal. 
Todos os religiosos, á excepção dos jesuitas, renunciando à sua profissão, e a 
seu caracter, do qual nada mais guardavam senão o habito e o nome, passa- 
vam uma vida de soldados, todas suas funcções eram uma continua profana- 
ção de seu ministério. Parecia que para elles não havia Deus, e D. António, o 
prior do Crato, no meio de suas desgraças, continuava sempre ama vida de 
devassidão. As mulheres mais honestas mal se podiam livrar de suas violên- 
cias. Violou até religiosas, entre as quaes a luxuria c o escândalo se tinham 
introduzido como entre os homens. 

• • 

Yé-se pois que inevitavelmente os portuguezes se deviam julgar escanda- 
lísados com estes e vários outros trechos, e por isso Jeronymo de Mendonça 
poblicou em 1607 a sua jornada de Africa, em a qual responde a Jeronymo 
Franqni : «Veado o modo com que alguns estrangeiros como Jeronymo Fran- 
cbi, e frei António de S. Romão, tratam d'eila, accrescentando ás faltas e mi- 
sérias outras muito maiores, como senão bastaram as que na verdade aconte- 
ceram, e que nosso descuido podia acreditar seus erros, vendo os que depois 
vieram, que ninguém os contradisse, sendo tão manifestos; me pareceu rasao 
não passar em silencio cousa alguma, porque se saiba em todo o tempo o que 
aconteceu na verdade, apontando alguns lugares nos quaes se verá claramente 
aquillo de que estes auctores deviam ter errada informação. 

«Assi que está manifesto não poder Jeronymo Franqui escrever dos portu- 
guezes, nem é rasão se lhe dé algum credito, pois não se achou presente em 
qoanto diz : errando o nome aos homens, e muitas vezes e offlcio, e quasi sem. 
pre os successos, além de ser suspeito claramente, tanto que frei António de 
S. Romão diz que a nação portugueza se pôde chamar offendida, e que as 
obras de Franqui arguem vingança contra os portuguezes, o que devia nas- 
cer de algumas paixões particulares.» 

Seja como for, o que é certo é que das obras relativas a assumptos por- 
tuguezes, a mencionada de Franqui é uma das mais conhecidas na Europa, 
sendo uma leitura muito amena. 



268 CO 

1.* edição do original italiano. Génova, 1585. 

2.* edição Génova. Âppresso Girolamo Bartolí, 1589. Traz uma dedicatória 
ao governador da republica de Génova, onde o anctor se defende de varias 
accusaçoes, que flzeram à sua obra. 

3." edição, Venetia, 1692. Outra em 1642. Firenza, 1642. 

O sr. Innocencio menciona edições de Milão, 1616, e Verona, 1642. Foi tra- 
duzido em hespanhol, por Luiz Bavia, Barcelona, 1610, 4.<' Em francez, por 
Th. Nardin, Besançon, 1596, 2.« edição, 1600, 3.» 1601, 1613. Nova tradacçáo 
em 2 vol. Paris, 1680^ c reimpresso em 1695. E em latim com o seguinte ti- 
tulo : De Portugalliae conjunctione cum regno Castellae historia^ ex itaiico 
semume tn Latinum conversa. Francofurti, 1602. 

289) OONFUTATIO NUGARUM NONH LEONIS, Júris Consulti 
LusUani, nonnullorumqite ejusce farinae interpolatorum, qui linguOy calanuh 
que vencUes, ex vafris mendaciis, atqm scurrilitate quaestum sibi paraiU^ 
molierUeSt Portugalliae regnum Philippo Austríaco, Castellae Regi, jure kae- 
reditario óbvenisse, ignaris priscorutn Portugallensium mqrum m suis Regi* 
bus eligendiSy inaugurandisque falso persuadere^ et Serenissimi Principis DO' 
mini Antonii, veri legtíimiq; Portugalliae etc, Algarbiorum Regis jus veh 

licare : 

Excerpta ex incorruptis rerum Portugallensium monimenis, sed ex erudi- 
tissimi R' P. F. Joseph Texerae, Ord, Praed. Sacr, Theol. Magistri ad Inqui- 
sitores Portugalliae Anticrisi, cujus pars magna Lugduni Galliae anno 1589 
typis mandata fuit. Ticini, Ad insigne perscquentis iníquos et mendaces, an- 
no 1594, 8.", 123 pag. além d'um longo prefacio não paginado. 

Dois fins tom este livro : 1." Refutar a gí^nealogia dos reis de Portugal, com- 
posta por Duarte Nunes de Leão, não deixando passar occasião favorável para 
dirigir insultos a este auctor. 2.° Provar que D. António, prior do Crato, é o 
legitimo rei de Portugal. Que pena, o não possuirmos um trabalho perfeito 
acerca da biographía d'este varão, um dos vultos europeus mais notáveis do 
seu tempo ! 

290) CONQUISTA DE LA ISLÃ DE LA TERCERA y de las de- 
mas islãs de los Açores que hizo D. Álvaro Bazan, marques de Santa Cruz, 
1583. 

«Le-se no fim d'este opúsculo: Fecha cn la Ciudad de Angra a onze de 
agosto de mil y quinientos ochenta y três. M. Cotton no seu Typographical ga- 
zetteer infere que este volume foi impresso em Angra. Porém eu creio que é 
erro, e que esta data se refere ao logar em que a carta foi escripta, c não ao 
logar da impressão.» F. Compans, pag. 65. 

291) CONSTANTINI (EMAN). 

E. — Historia de orígine aíque vita rcguin Limtaniac. Homae, 1601. (Ori- 
gem c vida dos reis de Portugal). 



CO J69 

292) CONTRERAS (FRANCISCO). 

E. — Nave trágica de la índia de Portugal, Madrid, 1624. T. Compans, 
pag. i48. 

293) OOOLEY AND QUEEN. 

E. — Africa, A memoir of the civilization of tlie tribes inhabiting the high- 
lands near Delagoa Bay, LoDdon, 1833. 

294) COPIA DETiTiA REPLICA fatta di ordine de S,S, dal nuntio di 
Spagna ai Ré Catholico interno la lega diffensiva e pace con Portogallo, 

Sem áaXSL, nem logar de impressão.— C. M. B. I. P. 

295) COPIA DI SCRITTURA informativa concernente le presente ver- 
tenze di Portogallo con li P.P, Gesuitiy secondo le notizie trasmesse in Roma di 
monsignor nunzio alia Segretaria di StatOy o distribuite alie signori Cardinali 
dei SanfOffizio, unitamente col memoriale presentato da Padre Genercde di 
JestUtiil die 31 Luglio 1758 alia Sanlita di Clemente viii. 

Sem data, nem logar de impressão.— C. M. B. I. P. 

296) COPPOLIiA.— Maestro italiano. 

Compoz uma opera, intitulada — Ignez de Castro, a qual foi representada 
no anno de 1841, no theatro de S. Carlos em Lisboa; mas o êxito não foi pros- 
pero, segundo diz a Revista Universal Lisbonense a pag. 169 do 1.» vo- 
lume. 

297) COPYE VAN DE RESOLUTIE van de Heeren Burgemeesteis 
ende Raden tot Amsterdam. OpH stuck vande West-Indische compagnie, Geno- 
men in August 1649, 8 pag. sem numeração. 

298) CORDUSA (P. JULES CÉSAR). 

E. — // buon Raciocinio dimostrato in dm scrittt, ossia saggi apologetici 
sul famoso processo e trágico fine dd fu P, Gabr. Malagrida, Venezia, 1782. 
Ibid. 1784. 

299) CORNER (Miss.) 

E. — The histories of Spain and Portugal from the earliest period to the 
present time, adapted for yotUh, schools and families by,^ London, S.*", 176 
pag. Com uma estampa na frente representando D. Ignez pedindo a vida ao 
rei de Portugal. 

300) CORNIDE (D. JOSÉ). 

E. — I Estado de Portugal em 1800. Obra manuscripta, que se conserva na 
Real Academia de Historia, em Madrid. 

II Descripcíon geographira e histórica de los pueblos mais notahles dei reino 
de Portugal, « 



570 GO 

<D. José Gornide demoroa-se em Portagal durante os annos de i794 e 9& 
encarregado pela Academia Hespanhola, de estudar as antiguidades de Por- 
tugal. A maior parte dos seus papeis encontram -se em Madrid; de alguns po- 
rém existem copias na Bibliotheca Nacional de Lisboa.» ^ 

301) OORONAOION DE LA MAGESTAD DEL HEY DON F£- 
LIPPE m nuestro senor. Juramento dei serenisimo príncipe de Espana, tu 
hijo. Celebrado todo en el salon de palácio de la ciudad de Lisboa, Dose qaenta 
de la forma y ceremonia con que se celebran estes solemnes actos, assistindo 
su magestad y alteza, companados de los grandes, títulos, senores, prelados y 
procuradores de las ciudades de aquel reino. Quien tomo el juramento à S. M. 
y la forma y palabras dei etc. Sasímismo se díce que dia començaron las Cor- 
tes, quien hizo por S. M. la proposicíon delias, donde se hacen ai presente, y 
quantos dias han de durar. Yla grandeza que su magestad kizo con la fu- 
queza de Acero etc. Sevilla, Í6i9. 

302) CORPORAL KNIGHT. 

E. — - Battalion at Oporto wíth adventures, anecdotes and exploits in Hol- 
land at Waterloo, and ín the expedítion to Portugal. 

303) OORREA (NIGOLAS CASTOR DE CAUNEDO SUAREZ Y). 
E. — Arvore genealógica dos Reis de Portugal. 

Pnblicou-se este trabalho no iv vol. da Revista Popular. 

304) CORRESPONDENCE relating to the affairs ef Porttigal. LoD- 
don, 1847. 

305) CORTADA (JUAN). 

E. — Historia de Portugal desde los tiempos mas remotos hasta 1839 
escrita por.— Barcelona, 1844, 8.» 

306) OOSTANZO (SALVADOR). 

E. — Juicio critico sobre la obra dei sr. Alejandro Herculano, titulada 
•Da origem e estabelecimento da inquisição em Portugal.* Tentativa historira. 
Lisboa, 1854 e 1855. 

307) GOSTE (OLIVIER DE). 

E.—Vita Sanctae Elizabethae Lusitaniae Reginae. Parisiis, 1625. Aix 
1639. 

308) COTARELO (JUAN). 

E. — Guia dei militar en mai cha, ò itinerário geiíeral de Espafia y Por- 
tugnly dividido en distritos militares por el Capitan. Madrid, 1843. 

' Hubner. ^ntirias Arrhçohgicas, pag. 7. • 



CO ,71 

309) COSTIGAN (ARTHÚR WILLIAM — ) Esq. late a captain of the 
Irísh brígade íd the servíce of Spain. 

E. — Sketches of Society and manners in Portíigal in a series of letters 
from — to his brother in Landon. In two volumes. London, Prínted for F. 
Vernor, Birchi-laDe Cornhiil. (Esboço da sociedade e costumes de Portugal). 

i.«» vol. 8.« gr., 424 pag. 

%'* vol. 8.» gr., 424 pag. 

A primeira carta de Arthur WíUiam Costigan a seu irmão Charles Arthur 
Costigan é datada de Cadiz do anno de 1778, e n'ella faz scíente a Charles de 
que deixara o serviço no exercito hespaahol, e que achando-se resolvido a re- 
tirar-se da vida publica para a particular na companhia doeste seu irmão n? 
Irlanda, approveita a occasiào da sabida d'um barco de pesca de Cadiz para 
Faro, embarcando n'elle para fugir das horríveis pousadas hespanhelas. 

•A segunda é datada já de Faro. Aqui o auctor resolveu-se a visitar minu- 
ciosamente o paiz, para se achar habilitado a asseverar com conhecimento 
próprio se os portuguezes eram ou não um povo tão despresivel como os hes- 
panhoes lh'o representavam, ^ e para melhor se entender com o povo toma 
para sua companhia um joven padre, que era um perfeito mestre, tanto de 
portuguez como de inglez. Acha esta cidade agradavelmente situada com lin- 
dos campos em volta, empinando se graduaitnente até formar uma alta cordi- 
lheira de montanhas. O principal commercio consistia em figos, e outros ob- 
jectos monopoiisados por três ou quatro casas inglezas alli estabelecidas, as 
quaes auferiam lucros exorbitantes, comprando aquelles artigos por quantias 
insignificantes. 

«Foi escripta a terceira carta em Mertola. D'esta povoação dirigiu-se para 
Tavira, onde encontrou ao entrar o povo na rua cantando o Terço, do qual 
faz a descripção. ^ 

N'esta povoação foi que o auctor nos refere ter observado o seguinte caso. 
Achava-se na companhia de mr. Bagot, e este fallava acerca da livraria d'um 
fidalgo de Tavira, o qual passava por ser muito instruído, e por ter uma ex- 
cellente bibliotbeca. Mas examinae sua livraria, dizia mr. Bagot, e se vós en- 
contraós n'ella mais de três mil volumes, não encontraes todavia três livros mi- 
litares, ou algum outro digno de se abrir, á excepção d'uma Bibiia em inglez, 
língua da qual nada entende. 

«Quando mr. Bagot fallou da Biblía, um joven padre que alli se achava, 
mostrou um grande desejo de a ler, pois, dizia elle, era livro que nunca tinha 
visto! 

«A pag. 73 e seguintes d'este volume ^ também se encontra a seguinte ane- 
dota, que pinta bem o estado de superstição, em que então nos achávamos : 



< Vol. !.•, pag. 13. 

2 Acba-se na I.' carta, datada de Beja, pag. 43. 

' «CoDsta-nos lambem que o marquei de Pombal fizera encarcerar o joii por lhe ter 
mostrado os incon?en lentes da fundaçilo de Villa Real de Santo António, no local em que 
o marquez a fundou.» Pag. 57. 



«72 CO 

«VÓS Sabeis maíto bem qae Dão se encontra nos paizes catholicos, especial- 
mente na Hespanba, e em Portugal, uma provinda, cidade» freguezia, ou mes- 
mo individuo que não tenha como tutelar seu Santo, ou Anjo, a quem se re- 
commenda a si e a seus negócios. Por conseguinte nâo ha um regimento n'este 
paus, que se nâo tenha posto ha muito tempo debaixo da protecção d'algum 
Santo particular» segundo lhe dieta sua devoção, ou aíTeição; e um d*elles 
tomou Santo António de Lisboa por seu patrono, ou protector, o qual cedo de- 
pois recebeu o posto de capitão do mesmo regimento, e soldo regular d'ahi por 
diante, o qual, bem como dois vinténs pagos regularmente por cada pessoa do 
mesmo corpo se empregam n'um determinado numero de missas pelas almas 
d'aquelles, que morrem, em fazer a festa ao Santo, em sustentar os capellães, 
em enfeitar a capella, e em pagar vários encargos eventuaes debaixo da ins- 
pecção d'um official do regimento nomeado para esse fim. Este encargo de su- 
perintendente de Santo António foi desempenhado por um major do dito regi- 
mento, fidalgo e estúpido, por muitos annos com grande zelo e devoção, e 
nunca depois cessou de importunar a corte com memoriaes e certificados de 
serviços em favor de Santo António, com o fim de ser promovido ao posto d<; 
major adjunto ao regimento. O ultimo ministro riase grandemente de taes 
memoriaes, lançava-os para os papeis velhos declarando que era apenas um 
outro meio de roubar o rei n'aquelle dinheiro empregado mensalmente em 
sustentar padres ociosos, procissões e superstições. Porém a rainha D. Maria I 
6 seus ministros tomaram o caso a serio, e promoveram Santo António para 
animar a superstição. 

«Entre os milagres mencionados nos referidos certificados havia os seguin- 
tes : Ter restituido á mulher do major um cão de regaço muito estimado, que 
lhe tinham furtado, e ao qual linha perdido as esperanças de tornar a ver ou- 
tra vez, até que seu padre director a acconselhou a importunar Santo Antó- 
nio, o que ella apenas fizera por dois dias lhe levaram o cãosinho. Ter 
salvado também um pobre soldado, ^ que o invocou estando a ponto de afo* 
gar-se ao passar um profundo rio, atirando-lhe milagrosamente com uma cor- 
da. Ter um outro escapado das bexigas agradecendo a Santo António, e isto 
depois de ter o estertor na garganta, e de ter sido abandonado pelo cirurgião 
do regimento. Finalmente uma outra certidão assevera que estando um tam- 
bor do regimento chamado João Ivo Alegre, na cama com sua mulher, e um 
filhinho dormindo no meio d'elles, quando se levantou de manhã, encontrou 
uma grande cobra (a qual se introduzira por debaixo da porta de sua barra- 
ca) na cama com estes, mamando no peito de sua mulher, em quanto ella es- 
tava profundamente adormecida, com a cauda na bocca do menino, que a es- 
tava chupando com muito contentamento. A vista de tão extraordinária appa- 
rencia o tambor immedialamente invocou Santo António, que lhe inspirou 
presença de espirito e valor suíDcientes para agarrar ao mesmo tempo pela ca- 
beça e rabo da serpente, agora empanturrada com a grande quantidade de 
leite, que linha mamado, <* pondo cada um do seus pós por cima d' estas par- 

1 Vol 1.% pag. 76 



GO Í73 

teSy segnrou-a para não lhes fazer algum mal, em quanto com sua faca de 
matto, que estava à cabeceira da cama, cortou a cabeça do animal, e fel-a em 
bocados, como se para prevenir que Ibe causasse mal. 

cD'esta forma o homem, mulher e menino tiveram uma salvação míra- 
eulosali 

O attestado para provar que o caracter de Santo António era o de um 
homem honrado, e d'um bom soldado era na forma seguinte : 

cD. Hercules António Carlos Luiz Joseph Maria de Albuquerque e Araújo 
de Magalhães Homem, moço fldalgo de Saa Magestade, cavalleiro da sagrada 
ordem de S. João de Jerusalém, e da illustrissima ordem militar de Cbristo, 
senhor do distrícto e villas de Moncarapacho e Farragudo, alcaide mór here. 
ditario da cidade de Faro, e major do regimento de infanteria da cidade de 
Lagos n'este reino do Algarve por S. M. F. a quem Deus guarde por longos 
annos. 

cAttesto e certifico a quantos virem estas presentes, escriptas por minha 
tndem, e assignadas no fim com meu sello manual, com o grande sello de mi- 
nhas armas, fechado pela minha dita assignatura, e um pouco á esquerda d*el- 
la, que o Senhor Santo António, por outro nome o grande Santo António de 
Lisboa (commum e falsamente chamado de Pádua) foi alistado, e teve praça 
n'este regimento sempre desde 2i de janeiro do anno de Nosso Senhor Jesus 
Christo i668, como se evidenciará mais particularmente abaixo : attesto mais 
que os cincoenta e nove inclusos certificados, contando desde o numero i até 
89, e com a firma de meu nome posta junto de cada nome, conteem e compre- 
hendem uma verdadeira e fiel relação dos milagres e outros serviços eminen- 
tes que o referido Santo António tem em épocas differentes feito e praticado 
n'este regimento pelo motivo de ter praça n*elle, dos quaes, além d'outras mui- 
tas incontestáveis evidencias, eu sou confirmado por ter conversado com mui- 
tas das pessoas agora vivas, que receberam estes serviços do dito Santo : Pelo 
que duvidar da veracidade doestes milagres é um atroz crime contra o Espi- 
rito Santo, bem como o duvidar de qualquer dos dogmas de nossa Santa Fé, 
ou dos milagres do próprio Cbristo, cujas evidencias não são tão fortes e con- 
vjocentesy como estas no presente caso diante de nós, e pelas quaes as pro- 
IMrias palavras de nosso bemdito Salvador são cumpridas; quando disse a seus 
discípulos, que— Depois de mim virá quem bade fazer obras maiores, que 
aqnellas, que eu tenho feito— a qual prophecia claramentõ diz respeito ao 
nosso grande Santo António. 

c Certifico outro sim por minha palavra de honra, como nobre, como ca- 
valleiro, e christão catholico (como sou pela graça de Deus) o que abaixo se 
segue: ^ 

cQue tendo lido e observado attentamente todos os papeis de notas, livros 
e registros de nosso regimento, desde o principio de sua instituição, e tendo 
cuidadosamente copiado dos referidos papeis todas as cousas relativas ao aci- 
ma mencionado Santo António, ê de verbo ad verbum como so segue aqui : por 

• Vol. I.», pag-81 

TOMO I * 18 



Í74 CO 

cuja veracidade me reporto aoã ditos livros e papeis, guardados nos arcliivos 
de nosso regimento. 

•Que a 24 de janeiro de 1688, por ordem de S. M. D. Pedro II (que Deas 
tem na gloria) então principe regente do reino de Portugal, dirigida ao viça- 
rei doeste reino do Algarve, foi Santo António alistado como soldado raso n*est6 
regimento de infanteria de Lagos» logo no principio que se formou por ordem 
do mesmo principe; e de tal entrada no serviço militar se formou um registro» 
que agora existe no primeiro volume do livro de registros do regimento, foi. 
i43 vers. e onde deu por seu fiador a Rainha dos Anjos ^ que se tomou res- 
ponsável em como nào havia de desertar do seu regimento, mas pelo contra^ 
rio se conservaria sempre como um bom soldado nas suas bandeiras; e assim 
o santo continuou a servir e a fazer serviço na qualidade de soldado raso no 
regimento até 12 de setembro de 1683, no qual dia o mesmo principe regente 
foi elevado a rei do Portugal, pelo fallecimento de seu irmão D. Afronsoyi;e 
n'esse mesmo dia S. M. promoveu Santo António ao posto de capitão no regi- 
mento, por se ter pouco tempo antes posto corajosamente á frente d'um des- 
tacamento do regimento, que estava marchando de Jorumenha para a guarni- 
ção de Olivença, ambas na província do Alemtejo, e poz em fuga um forte 
corpo de castelhanos, em numero quatro vezes maior que a gente do referido 
destacamento, o qual corpo tinha sido posto em emboscada contra o destaca- 
mento^ com a intenção de o levar todo prisioneiro para Badajoz, tendo o ini- 
migo por meio de espiões obtido esclarecimentos a respeito de sua marcha. 

•Outro sim certifico que em todos os papeis e registros acima mencionados 
não existe alguma nota de Santo Antooio, de mau comportamento ou irrega- 
larídade praticada por elle; nem de ter sido em tempo algum açoutado, pre- 
so, ou de qualquer modo punido durante o tempo, que serviu como soldado 
raso no regimento : Que durante lodo o tempo, era que tem sido capitão, vae 
quasi para cem aunos, constantemente cumprio seu dever com o maior prazer 
á frente de sua companhia, em todas as occasiões, em paz e em guerra, e tal 
que tem sido visto por seus soldados vezes sem numero, como elles todos es- 
tão promptos para testemunhar : e em tudo o mais tem-se comportado sempre 
como fidalgo e official : e por todos estes motivos acima referidos considero-o 
muito digno e merecedor do posto de major aggregado ao nosso regimento, e 
de quaesquer outras honras, graças ou favores que approuver a S. M. conferir- 
Ihe. Em testemunho do que assignei meu nome, hoje 23 de março do anno de 
N. S. J. C. 1777. 

Maoalhabns Hombm. 

o livro das viagens de Coslingan è sempre interessante, e ignoro o motivo 

poríjue, o não vi^jo ciíado pelos escriptores, que narram os feitos do reinado 

• 

' Cada dislricto é obrigado a fornecer um certo numero de reciutas, os qoaes de- 
vem >er filhos de mercadores, negociante^, campooezes, lavradores, ele, habitantes do 
districlo; e o pae, irm.lo. aljrum parente, ou outra pessoa idónea fica responsável pelo 
Imm romporUmeiílo de rnda recruta, e í-c o recruta desertar, é obrigado a apresentar 
nutra, pela qual lainl»em (ira responsável. Ê o motivo porque Santo António dá aqui por 
-cu tiador a Virgrm Maiia.» Vo! 1.". po;: Sfl 



CO 275 

de D. Joseph e D. Maria I. Os livros de viagens escriptos por estrangeiros teem 
moita cousa approveitavel para a historia. 

A 5.* carta é ainda escripta em Beja, a 6.* em Évora, a 7.* em Villa Viço- 
sa, e a 8.* em Jorumenha, e n'esta ultima^ conta como encontroa em Évora um 
padre irlandez, que lhe deu minuciosas informações acerca do estado do paiz, 
e do reinado de D. João V. A respeito d'este rei disse o irlandez (que era ho- 
mem ÍDStruido) o seguinte : 

«D. João V 1 gastou seu tempo na companhia ou de padres ou de mulhe- 
res, elevou a egreja de Lisboa a patriarchal, deixou reduzir seu exercito ana- 
da» animou a superstição, a inquisição, e a nobreza. Na velhice para se tornar 
mais próprio paia a companhia de mulheres, fazia uso de cantharídas, cujos 
eflfeitos o debilitaram a ponto que o puzeram n*uma continua desordem; e, de- 
pois de ter vivido como um sultão no goso de seu favorito prazer, teve não só 
tempo, mas também todos os meios de conversão, e de reconciliação com o 
céo, o qual padres velhacos e lisongeiros lhe podiam conceder para morrer 
como santo : de sorte que seus vassallos diziam d'elle —Viveu, como quiz, e 
morreu, como quiz. 

•A administração d'este paiz durante o ultimo reinado foi marcada por fei- 
ções muito differentes : um ministro resoluto e atropellador do direito, centra- 
lisou em si todos os canaes de poder e auctoridadc : um rei fraco e pusillani- 
me, tendo-se tornado desconQado por causa da deslealdade de sua própria no- 
breza, !ançou-se inteiramente nos braços de seu ministro, como sendo a única 
pessoa, àa qual podia confiar, e o ministro cônscio de que era odiado ou des- 
picado pela nobreza, não perdeu nenhuma opportunidade, que a loucura ou 
imprudência d'ella lhe conferia para curvar sua insolência, e abater seu pode- 
rio. Uma questão pessoal, que o ministro tivera com um jesuita, o confessor 
do rei, no principio de sua administração, addicionada a outras causas pre- 
existentes, tomaram n'o séria e cordealmente resolvido a dispor de todo o ma- 
quinismo para trabalhar para destruição dos jesuítas, o que finalmente conse- 
guiu. O terremoto de 1755 serviu apenas para confirmar sua auctoridade, e 
tomal-a mais absoluta, e foi então que se tornou dictador perpetuo. A guerra 
CMitra Hespanha, que se seguiu alguns annos depois, com a introducção de 
trôpas estrangeiras no reino, e d'um numero de oõiciaes estrangeiros nos re- 
gimentos nacionaes, habilitouo a pôr seu pó eíTectivamente em cima do pes- 
coço do clero, de sorte que desde aquelle tempo até ao fim de sua administra- 
ção, nunca o clero ousou levantar a cabeça. Fez muito bem, e egualmente 
muito mal, derivando se tudo antes de motivos pessoaes, e de interesse pró- 
prio, do que de alguma consideração pelo bem de seu paiz. Diminuiu o nu- 
mero das casas religiosas, e desanimou ou supprimiu o furor de se enterrarem 
na vida monástica. Arruinou ou empobreceu a parte mercantil de seus súbdi- 
tos, lançando o commercio (ao qual aíTectou animar muito) nas mãos de com- 
panhias exclusivas, compostas de alguns indivíduos favoritos, que foram os 

» Yol. I.^ pap. 137. 



276 GO 

uDícos a lacrar, em quanto o grande corpo d*aqaelles> cuja subdisteacia de- 
pendia do commercio, ficaram pobres. 

«Depois da guerra, poderia ter formado um exercito completo, e menos mal 
armado, que efTectivamente incutiria desconflança, em todas as forças de temi 
que a Hespanha podesso trazer contra elle, e para fazer isto tinha a coopera- 
ção d'um general muito hábil, bem conhecido na Europa pela soa capacidade» 
e pela de alguns generaes experimentados: mas em vez de assim praticar, des- 
presou o exercito, e jnlgouo excessivamente dispendioso. Comportou se para 
com o conde de Lippe da maneira mais velhaca e desagradável, e tratoa a 
maior parte dos oíQciaes estrangeiros com insolência ou despreso, de sorte qoe 
seus melhores amigos cotísideravam seu procedimento a este respeito como 
um paradoxo; e ficavam perplexos, quando se tratava de o desculparem do 
seu desprezo para com o exercito, que fora o melhor dos meios para conso- 
lidar sua auctoridade, e seria seu único recurso, se aquella auctoridade n'al- 
gum tempo houvesse mister de defesa. 

«O ultimo acto de seu governo, e quando o rei seu amo estava já no leito 
da morte, foi casar o herdeiro presumptivo da coroa, rapaz de dezeseis annos 
de edade com sua própria tia, mulher de trinta e um annos feitos, e foi este 
acto uma digna conclusão de sua tempestuosa administração. 

c A morte de D. José I foi o signal da desgraça de seu ministro, e verdades e 
mentiras industriosamente se espalharam contra elLe por um numero sa- 
perior a oito ccntas pessoaes de todas as jerarchias, as quaes elle tínha eoi^ 
sorvado nas prisões, e que agora soltas augmentavam e inflammavam o popu- 
lar rugido de clamor e insultos, que o accompanharam ao seu degredo, para 
o qual se retirou com toda a magnanimidade d'um antigo atheniense, exi- 
lado pelo ostracismo. 

«Foi substituido, como é usual em casos taes, por um de seus maiores an- 
tagonistas, que durante a precedente administração fora obrigado a conser- 
var-se muito quieto, e a pôr em acção toda a vil astúcia, de que era dotado 
para o deixarem viver em paz : pois é geralmente reconhecido que possue to- 
das as más qualidades do antecessor no governo, e isto talvez em mais emi* 
nente grau, ao passo que juizes imparciaes, e os menos affeiçoados ao scepti- 
cisroo duvidam que seja herdeiro d'alguma das virtudes de seu predecessor. 

«Segundo uma observação commum o tempo e governo presentes são sa- 
grados, e ninguém por isso se deve involver com elles. O confessor da rainha 
intromette-se excessivamente nos negócios temporaes : o confessor do rei es- 
creve ensaios, que o expõem ao ridiculo publico: a rainha permittiu que a in- 
quisição rcasumisse sua auctoridade abdicada por muito tempo; e esta cir- 
cumstancia fará com que a Europa em peso exclame —Vergonha sobre uma 
tal rainha e um lai governo. ' 

•Chagámos a Elva<: 2 ao approximar-nos da porta uma sentinclla pergun- 

1 Vol. !••, pag ni. 

- r.arla IX dalada de Ca^tííllo Bíant:». pag. \'oi. Lord licemaii andava «ctualfflenU 
viajando na companhia de Coflm^an. 



CO 277 

tuo em alta voz quem éramos, e que queríamos? Respondemos qoe vínhamos 
de Estremoz, e trazíamos cartas para s.ex* o governador. A sentinelia então 
appresentoa-nos ao officíal commandante da guarda, e este nos mandou com 
um soldado, armado segurando no freio dos dois cavallos, á presença do go- 
vernador: n'esta situação nos conservámos á sua porta na rua. Depois de s.ex.* 
acabar de ouvir missa, niandou-nos admittir á sua presença, e lord Freeman 
appresentou-Ibe uma carta que para elie trazia. Depois de ler, disse nos o gover- 
nador que elle era muito feliz por ter a honra de nos conhecer, que sua casa, 
o regimento de seu commando, os fortes adjacentes de Santa Luiza e de 
Lippe, até mesmo toda a província do Alerotejo estavam às nossas ordens para 
dispormos d*elles como julgássemos conveniente: que nos pedia o obsequio da 
nossa companhia ao jantar, que era á uma hora em ponto. 

Chegames a tempo, e servio-se o jantar. A esposa do governador era a 
única senhora que estava à mesa. O governador tomou seu logar à direita da 
mulher, pedindo a Mr. de Valeré que se sentasse á esquerda. Lord Freeman sen- 
ton-se em seguida a Yalere^ e um homem prodigiosamente gordo, com o far- 
damento de ofiQcial, e a cruz de Malta ao peito, sentou-se em seguida ao gover- 
nador. Seu nome era D. João, e a companhia dava- lhe o tratamento de ex- 
cellencia. Não disse uma palavra durante todo o tempo do jantar, mas comia 
e bebia mui regaladamente, e apparentemente com grande prazer, e ria com 
descomedimento, quando o governador e sua mulher diziam por acaso alguma 
coisa que estes desejavam que fosse tomada por engraçada. Em occasiões 
(aes seus olhos desappareciam completamente, e sua proeminente barriga au- 
gmentava de volume, e era affectada de movimentes fortes e convulsivos. O 
resto da companhia, que era numerosa, occupava seus logares segundo suas 
Jerarchias: o cavalleiro trinchante na extremidade da mesa servia os con- 
vidados em roda, os quaes estavam quietos e cerimoniosos: recorria se à aju- 
da do copo animador para alegrar os hospedes, mas parecia que a agua, da 
qual tomavam grandes golos, produzia o mesmo effeito: s. ex.* D. João em 
particular despejou três copos de quartilho, cheios do chrystalino licor, cada 
nm n*um trago, o que fazia arripiar lord Freeman. Por flm o governador man- 
dou vir nm copo de vinho, no qual deitou coisa d*um dedal doeste liquido, e 
bebeu à nossa saúde. Nós approveitámo<nos do ensejo, bem como mr. de Va- 
leré, para correspondermos ao cumprimento, mas tínhamos nossos copos mais 
bem cheios, e repetimos isto duas vezes ainda à saúde da senhora e de D. João. 
Um dos padres, que parecia ser divertido, pedia vinho repetidas vezes, pelo que 
a senhora entrou a motejalo dizendo lhe que parecia beber como um almo- 
creve ou um inglez. Então o governador pedindo uma outra gota de vinho, 
bebeu á saúde do rei de Inglaterra, chegando o copo aos beiços, mas de ne- 
nhuma vez bebeu o vinho. O padre bebeu de novo, conversava, e dentro em 
pouco se tornou o mais folgasão da companhia; a senhora sorria-se, e D. João 
continuava a dar gargalhadas com todas as suas forças. Apenas acabou o jantar 
abriu-se uma porta, que estava fechada por detraz da senhora, e a companhia 
passou para a sala contigua, onde a sobremesa, consistindo de doces e fruc- 
tas, estava posta n'uma mesa mais pequena; os convidados tomaram scas as- 



i-H CO 

sentos, e nào estavam apertados, pois mais do metade d elles se tinham re- 
tirado. 1 

«O luxo principal dos jantares portuguezes consiste na sobremesa. Cada um 

dos convidados toma uma, ou mais colheres de sopa cheias de doce liquido, e 
quanto mais está carregado de assucar, tanto roais é reputado por saboroso. 
Um criado está em pé atraz de cada cadeira com um largo copo de quartilho, 
cheio de agua muito fria, a qual bebem logo em seguida aos doces. Seus epi- 
curístas, ou requintados no prazer da comida (taes como D. João) bebiam a 
agua muito vagarosamente, com o fim de prolongarem a deliciosa seosa^, 
que a agua fria causa no paladar, quando misturada com a doçura, da qual 
n'esse me^mo instante acaba de ser tão fortemente impressionado, e asseve- 
ram que a agua n*essa occasião excede muito o sabor do mais delicioso vinho, 
que se possa beber. É verdade que os bebedores de agua na Hespanha e em 
Portugal, principalmente entre as classes mais elevadas, distinguem com ma- 
ravilhosa exacção todas as graduações de diíTerença entre as respectivas aguas, 
das quaes provam, o que seria totalmente imperceptível para nós por termos 
o nosso sentido do gosto comparativamente grosseiro e embotado pelo fre- 
quente uso de vinho e d'oulros licores embriagantes. 

«Os convidados, depois de terem comido de diíTerentes fructas, beberam om 
cálix de vinho da Madeira, o qual eslava em cima da mesa em garrafiohasde 
meio quartilho, com copinhos dourados nas cercaduras. Nós porém não bebe- 
mos d'este vinho. por ser excessivamente adocicado a ponto de enfastiar. De- 
pois de muita conversa sobre ninharias, appareceu o café, e lord Freeman ap- 
proveilouse da occasião para pedir ao governador licença para visitar o forte 
de Lippe. Valero - puchou-lhe pela manga (mas já muito tarde) para evitar 
ouvir uma recusa. O governador immedialamenle reportou-se ao próprio Va- 
leré para servir de lesieiniinha das ordens positivas, que elles tinham da corte, 
de se nào deixar ver a pessoa nenhuma, fosse quem fosse, á excepção dos of- 
ficiaes, que estavam em serviro. O governador exprimiu seu muito pezar por 
lhe não ser possivel condescender com os nossos desejos; porém que podía- 
mos visitar toda a guarniíjão e forte de Santa Luzia na companhia de Valeré. 
•Mr. de Valeré oíTereceu se para nos appresenlar ás freiras de Santa Clara, 
o que aqui se considera como uir. cumprimento ; mas lord Freeman não ac- 
ceitou, annuindo todavia a accompanhal-o á noite ao palácio do bispo, onde 
ha uma sorle de, asseinbléa, c onde podiamos jogar uma partida de whist Mas 
dizei -me, perguntou lorJ Freeman a Valeré,. (luem era aquelle oílicial mons- 
truosamente gordo, (lue estava sentado ao jantar junto do governador? Uma 
besta, respondeu este, um animal, um verdadeiro emblema e epitome da fidal- 
guia portugueza. Mas não penseis que é a matéria (pie pense, ou, se aquelle 
possue o dom de pensar, não o emprega mais que no comer, no beber, e em 

procurar rapazes K um de quatro irmãos d'uma antiga familia. Éo 

mais velho d'rlles, n casou com uma íillia do uiiimo ministro, ao qual odiava 

' Voi. 1 •'. pu i:;'). 



t]0 279 

e ddspresava; mas deram-se occarrencias taes, que fazendo aso de sua rasào 
pela oníca vez na sua vida, descubríu que era melhor estar preso pelo casa- 
mento, que por quatro fortes muros de pedra. Estes irmãos, cujo nome de fa- 
mília, é Vilhena, hão de vos beber qualquer porção de víftho com os inglezes, 
on de agua com seus compatriotas sem sentirem o mais leve incommodo com 
qualquer doestas bebidas. Durante a campanha de 1762, e mesmo por alguns 
annos depois, quando ainda havia muitos officiaes inglezes n'este serviço, 
faziam repetidos ataques sobre estes irmãos, com o íim de beberem vinho» 
poncb, ou qualquer outra bebida forte, mas eram constantemente derrotados, 
postos fora de campo, ao passo que os irmãos ilcavám triumphantes. N^elles ha 
reahnente verdadeira vida animal, sem percepção, ou instrucção de qualquer 
espécie, corpos sem almas; comer, beber e dormir é a priocipal occupação da 
íámilia dos Vilhenas. Todavia seria bem para desejar que todos os irmãos no- 
bres fossem tão innocentes e inoffensivos como estes. O fidalgo, que vos vis- 
tes, é o irmão mais novo, é coronel do regimento de cavallaria d'esta guar- 
ní^; mas ha cinco ou seis annos, que não monta a cavallo, por não ter sido 
possível encontrar um capaz de resistir ao seu peso : de forma que suppo- 
nho que depois de engordar um pouco mais^ ha de ser nomeado, como seus 
irmãos o foram successivamente, quando inhabílitados para qualquer outra oc- 
cupação, governadores nominaes de algum velho castello ou forte, para lhes 
darem o privilegio de usarem d'um colete encarnado com um grande laçarote 
por cima d'eile, e de se menearem até á corte aos dias santos para beijarem a 
mão de sua magestade. 

•Lord Freeman perguntou então porque um tão grande numero dos con- 
vidados se tinham retirado depois do jantar sem terem participado da sobre 
mesa. A isto respondeu mr. de Valeré que havia um livro intitulado o Per- 
feito capitão portuguez, approvado peio santo oíQcio, e por muitos frades de 
differentes ordens, o qual nada continha relativamente aos deveres militares 
dos officiaes, mas que era o espelho da polidez e decoro, o qual ensinava o 
numero de pregas, que devia haver na camisa, como se havia de encrespar o 
rabicho, a largura do laço sobre o colete, como se devia curvar e ajoelhar ao 
entrar n*ama sala, a natureza dos sacramentos, e como se deviam receber, e 
entre outras muitas coisas, que todos os officiaes se deviam retirar, acabado o 
jantar, e quando o general ia comer a sobremesa. ^ 

•Lord Freeman perguntou ainda qual a causa d'uma tão humilhante dis- 
tíncçao para com os subalternos do exercito? A isto respondeu Valeré que a 
oansa provmha de serem em geral os criados dos fidalgos, os que eram nomea- 
dos para officiaes dos regimentos.» 

Acaba n'este logar a carta 9.*, e a 10.* datada também de Castello Bran- 
co começa por estas palavras: «Que delicioso paiz se poderia fazer d'aqui den- 
tro em pouco, se estivesse nas mãos dos inglezes, francezes ou irlandezes, em 
vez de estar nas d' uns taes porcalhòes ! e logo continua a narração da for- 
ma seguinte : 

« Vol. 1.% pag. 1C7. 



280 CO 

•Em nossos passeios matutinos por aqui aconteceu-nos passar pelo eonvenU 
dos frades capuchos : com efíeito nossa attenção foi para alli chamada pelos 
guinchos de mulheres, os quaes puviamos ao passar junto da porta da egreja. 
Ao entrar vimos doís^os frades revestidos de sobrepelizes e estolas em pé diante 
do altar mór lendo os exorcismos contra os endemoninhados. Diante d'elles ja- 
ziam sobre o chão três mulheres. Duas d*estas uivavam piedosamente, e a en- 
tra estava guinchando e puchando pelo cabello, fazendo as mais estranhas con* 
torsões com suas feições. Pela minha parte tenho visto e ouvido tantas cousas 
a respeito d'aquellas miseráveis velhacadas, que me retirei, e lord Freenun 
observou que na sua opinião aquelles frades eram bem próprios para exorcis- 
mar as mulheres. Depois disseram-me que aquelles dois eram no convento os 
únicos peritos nos exorcismos. 

«Á noite fomos para casa do bispo. Pelo caminho nos foi dizendo Itr. de Ya. 
leré que este bispo certamente nos obsequiaria muito, mas emquanto ao cara- 
cter era o padre mais intrigante e malvado, que tinha conhecido. Sua oecopa- 
çao era propagar accusações e informações falsas pela guarnição contra o go- 
vernador que se nomeasse; que se indispozera com um governador inglez para 
alli nomeado durante a guerra, debaixo do piedoso pretexto que uma pessoa 
do bello sexo viera de Lisboa para o visitar, o que escandalizou a pretendida 
severidade do bispo, ao passo que elle mesmo bispo mantinha em casa um par 
de amantes debaixo da denominação de sobrinhas, com as quaes nós prova- 
velmente íamos jogar as cartas n'aquella noite. 

«Dirígimo-nos pois para o palácio. Algum tempo depois apparecen o bispo 
precedido par três jovens ecclesíasticos, e acompanhado das duas sobrinhas. 
Fomos apresentados e recebidos com grande cordialidade. Depois de muito 
ceremoníal e tempo, salvas de bolos e copos d'agua foram offerecidos à socie- 
dade, e em seguida veio chà e café. Pozeram-se depois as banquinhas para o 
jogo de cartas. O bispo pediu a lord Freeman que jogasse uma partida com- 
posta do governador c de sua sobrinha mais nova. Ao tirar parceiros, a 
sobrinha coube a lord Freeman, com o que a menina pareceu muito satis- 
feita. Lord Freeman julgou ser tempo de corresponder a alguns delicados to- 
ques, que tinha sentido repetidamente nos dedos dos pés, durante o jogo : 
porém não se aventurou a fazer o mais leve movimento até se certificar de 
que as pisadellas provinham da menina, e não casualmente de algum dos 
parceiros da direita ou esquerda. Porém, quando começou a segunda par- 
tida, viu os pés da menina muito bem estendidos para o seu, e não lhe restou 
a este respeito a mais pequena duvida, e então começou o jogo tanto em cima 
como debaixo da mesa. O mesmo me succedeu na mesa, em que eu jogava. 

«Era tempo de nos retirarmos. O bispo parecia muito satisfeito, eas meni- 
nas mostravam-se muito felizes.» 

As três cartas seguintes, escriplas todas em Castcllo Branco, conteem a 
biographia de Mr. Valeré, biographia que realmente mais parece um romance, 
ou conto da carochinha, que vida de um militar *. Porém a carta 14.« é já data- 

f Isto é confirmado pela obra FJogio de Mr. de Vnleré, publicada em Paris por sua filha. 



CO 



281 



da do Porto. Esta-oeeupa-se da biographia de alguns officiaes ioglezes Q'a- 
qaelle tempo ao serviço de Portugal, e de pouco mais. Nas cartas seguintes 
narram-se factos tão aviltantes praticados por portuguezes, que realmente» se 
nossos avós no flm do século passado eram taes como noi-os descreve Gostin- 
gan, tinha Byron rasão quando disse : 

Poor, pallry slavesl yet bom! midst noblest scene 
Wby, Nature, waste tby wonders on such meo! ^ 

No emtanlo as viagens de Costingan fazem-nos lembrar as Chronicas mo- 
násticas : n'estas todos os frades eram santos, apesar de serem de carne e osso 
como quaesquer outros peccadores; n'aqucllas todos os ofilciaes ingiezes são 
excellentes, e todos os portuguezes vis e miseráveis í 

•Os frades em vez de reprimirem o progresso do vicio nas familias ^ nas quaes 
eram recebidos, ou com as quaes estavam relacionados, servem de príneípaes 
alcoviteiros do grande vicio da nação : de sorte que por meio d'elles o incesto 
e o adultério eram quasi universaes, e toda a sua habilidade consistia em con- 
servar as mais rígidas apparencias exteriores de decoro; de forma que debaixo 
d'este elles revelavam cada espécie de desordem, a que aquella paixão li- 
vre de qualquer constrangimento pôde levar; e de todas as enormidades, de 
que os penitentes se accusavam, o peccado da carne era aquelle que encon- 
trava mais prompta e mais ampla indulgência, da cadeira da penitencia; e 
por isso mui provavelmente se originou d'aqui um provérbio que diz: tSe 
Deus castigar a luxuria, pode ticar só no céo.t 

Poremos ponto aos extractos das viagens de Costingan com o seguinte caso, 
o qual mostra como a inquisição ainda era formidável no tempo de D. Ma- 
ria L* 

•Sou natural da província de Entre-Douro e Minho. Meu pae possuia belias 
fazendas na margem do Lima, a duas léguas de distancia de Yianna, que é 
perto do mar. Por ser herdeiro de seus bens, tive uma educação acommodada 
á vida de fidalgo de província; ia frequentemente á cidade do Porto, onde ti- 
nha algumas relações, e conhecia muitos dos feitores e negociantes ingiezes 
d'aili, a um dos quaes meu pae vendia annualmente de cem a cento e cincoenta 
pipas de vinho. Meu pae também semeava uma considerável porção de trigo 
6 de milho, a qual vendia vantajosamente em Lisboa; de sorte que nós tí- 
nhamos uma boa carroagem, onde a minha familia costumava ir a Yianna as- 
sistir ás funcções. Ha n'aquella cidade um convento de frades capuchos, do 
qoal minha familia é padroeira. Meu pae tinha sido sempre muito liberal para 
com estes frades, e um d'elles geralmente dizia missa em minha casa aos do- 
mingos e dias santos. 

•Eu vivia muito satisfeito, mas aconteceu que n'uma manhã muito cedo 
navegando nós pelo rio abaixo, dentro do nosso pequeno barco, para irmos a 

< Cbilde Hareids Pilgrímage. Canl. 1—^. 

'Vol.íA pag. W 
» Yol. !•, pag. 178. 



382 GO 

uns navios que estávamos carregando de cereaes para Lisboa, ao passarmos 
pelo castello, qae está na barra deVianna, vimos aporta, que deita para o mar, 
aberta, e alguns homens tirando fazendas de dentro de um barco, e levando-as 
para dentro do castello : esta circumstancia maravilhou-nos por sabermos que 
aquella porta estivera tapada com pedra e cal por muitos annos, e que ainda 
assim estava, havia poucos dias; todavia, como isso nos não importava, conti- 
nuámos o nosso caminho. 

«Algum tempo depois o intendente geral das alfandegas veiu á nossa pro- 
víncia para devassar se alguém tinha transgredido as leis e ordenações, pas- 
sando fazendas por contrabando; meu pae foi citado para comparecer em Yian- 
na perante elle, e alli, depois de ter jurado aos santos evangelhos de respon- 
der com verdade ás perguntas que lhe fossem feitas, foi interrogado se em tal 
manhã tinha visto aberta a porta do castello, que deita para o mar, e um barco 
diante d'eile descarregando fazendas? Ao que obrigado em consciência res- 
pondeu affirmativamente; porém como não estava obrigado ao segredo, foi 
immediatamente procurar o commandante do castello, fldalgo, e seu amigo 
intimo, para o informar do que se passava. Este abraçou-o cordialmente, co- 
mo de costume, agradeceu-lhe sua participação, e disse que este caso de mbr 
nhum modo tinha relação com elle, e que meu pae obrara como devia, depon- 
do a real verdade do que tinha observado. 

•Coisa de dois mezes depois mandaram- nos dizer deVianna que o ditu com- 
mandante do castello tinha sido expulso do exercito pelo crime de contraban- 
do; e também nos iijformaram de que isto proviera principalmente do depoi- 
mento de meu pae contra elle. 

«A esta noticia, meu pae, que estava então em casa doente da garganta, 
mandou-me a Viaana para lhe dar os sentimentospela sua infelicidade, e asse- 
gurar-lhe quanto estava mortificado por essa causa. O major respondeu: Que 
nenhuma censura fazia a meu pae, que era um juizo de Deus contra elle mes- 
mo, por seus peccados, do qual faria o conveniente uso, segundo esperava co- 
mo bom catholico. 

«Era o dia 12 de dezembro seguinte (dia que nunca me ha de esquecer) 
um pouco antes da meia noite, quando toda a nossa familía estava deitada, e 
a maior parte acordada, pensei ouvir um forte e desusado sussurro e barulho 
da parte de fora. Corri á janelia, e vi que a nossa casa estava cercada por 
uma companhia de soldados armados. Estava para perguntar que queriam alli, 
quando fui prevenido por uma bulha como de trovão á porta principal. Man- 
dei fora saber o que queriam? Em resposta mandaram me immediatamente 
abrir a porta da parte d^el-rei, e do santo ofíicio. Obedeci sem demora, 
sabendo perfeitamente que não havia outro remédio, e alli passeiava na pri- 
meira fileira dos mosqueteiros seguidos por Constantino Rodrigues Calvo Men- 
dragão, um velho commissario da inquisição, a quem cu tinha conhecido em 
Braga, cora seu notário e alcaides ecclesiasiicos. Disse ter vindo por ordem do 
santo ofncio de Coimbra para levarem preso meu pae para alli> para respon- 
der aos artigos de accusação que tinham recebido contra elle, e que se aprom- 
ptasse para ir n'uma liteira, que estava prompta á porta para o transportar. 



^.'0 283 

Nào podia haver resistência. Toda a familía rompeu em clioros e prantos; os 
próprios soldados estavam compadecidos, todos, á excepção do endurecido ve- 
iho padre, bem costumado a taes scenas. 

•Por fim meu pae foi mettído na liteira, e eu pedi para a acompanhar, mas 
foi grosseiramente repellido. Muitos dos soldados o seguiram, e somente um 
goarda foi posto em nossa casa, a respeito da qual o notário, que também fi- 
C0D9 me notificou que estava confiscada para o santo officio, com todas as 
terras, moveis e immoveis : e que tinha ordem de fazer um exacto inventaria 
de todas as coisas, e intimou nossa familia para se retirar no dia seguinte. 

«Era por este mesmo tempo que um fidalgo de Barcellos estava para ca. 
sar com minha irmã. Escrevi-lhe participando-Ihe o que se passava, e elle 
poz-se a caminho apenas recebeu o recado. Chegou, mas minha irmã impres- 
sionada com a prisão do pae, tinha adoecido, e morreu no mesmo dia em que 
estava para casar. 

«Não tendo onde residir, fomos para Vianna com o fim de alugarmos uma 
casa, mas nem uma pessoa n'aquella terra nol-a quíz ceder, sendo unanimes 
em nos terem por abomináveis, visto ter sido indispensável o santo officio apo- 
dêrar-se da pessoa de meu pae. Foi então um inglez meu amigo o único que 
nos soccorreu, levando híos para o Porto. 

«Com dinheiro emprestado pelo inglez dirigi-me a Lisboa ver se podia fa- 
zer soltar meu pae : mas dinheiro, um anno inteiro e todas as minhas diligen- 
cias foram baldadas, até que passados oito annos, recebi uma carta do filho 
do referido major de Vianna informando-me que seu pae, em perigo de vida, 
muito anciosamente pedia para me vér antes da morte. Para aili me dirigi, 
onde o encontrei tendo já recebido todos os Sacramentos, e indo-se começar 
missas por sua alma, e estando os frades de S. Domingos a ajudal-o a mor- 
rer. Á minha vista declarou que tinha subornado falsas testemunhas para irem 
denunciar à inquisição meu pae de ter batido e cuspido n'uma cruz, que es- 
tava n'um caminho, com o fim de se vingar de ter perdido seu emprego por 
causa de seu depoimento, de ter elle major passado contrabando; masque 
agora declarava publicamente que elle estava innocente, e pedia perdão a 
Deus e a todos bons catholicos, que alli se achavam presentes. Ditas estas pa- 
lavras, expirou. Eu tive cuidado de mandar lavrar uma certidão de quanto se 
passou alli, e de a fazer assignar por quantos se achavam presentes, para com 
ella requerer a soltura de meu pae. No emtanto era isto exactamente na occa- 
sião da morte do rei D. José, e nos principies do reinado seguinte nada mais 
havia que desordem e confusão. Promettia-se-me todavia depois de muitas ins- 
tancias que meu pae seria solto pela occasião do primeiro auto de fé. 

«Passado coisa de anno e meio celebrou*se o auto de fé. Fui dos primeiros 
a dirigir-me para a grande sala da inquisição. Appareceram muitas pessoas 
de differentes trajos : alguns até eram militares, e seus differentes crimes e 
sentenças foram lidas pelo secretario do tribunal. A sala estava prodigiosa- 
mente cheia, ^ e nào era possível mecher-me no meu logar; porém alongava 

* Coítingan. Sketchfx of Socieiy and Manners, vol. 2. pag. 203. 



284 GO 

meus olhos para descobrir, se fosse possível, a face de mea pae eotre os oa- 
tros presos, o qae era realmente muito difficil por causa dos horríveis vestuá- 
rios que elles traziam, com as cabeças rapadas, ou com o cabelio cortado à 
escovinha, e as horrendas carapuças nas cabeças. Todos os presos foram por 
suas sentenças condemnados a soffrerem uma ou outra sorte de castigo, exce- 
ptuando unicamente meu pae, cujo nomo o secretario pronunciou por fim, e 
mencionou os motivos pelos quaes fora preso, por denuncias falsas, mas or- 
denava-se que sua honra fosse reintegrada e restaurada, e posto outra vez em 
posse de seus bens, dos quaes o santo officio tomara apenas administraçio. 

•Apenas os presos foram removidos, eu dirigi-me ao secretario dizendo-lhe 
ser o único Olho da pessoa ultimamente mencionada na lista do auto de fé, e 
pedia-lhe que dissesse se estava já fora da prisão, e onde o poderia encontrarf 
O secretario entregou-me então com a maior indifferença um papel dizendo-me 
que o levasse. Santo Deus 1 Porque [sobrevivi eu um instante depois d'aquella 
terrível leitura t Este papel era uma certidão assignada pelo próprio inquisi- 
dor geral certificando que meu pobre e innocente pae tinha morrido de rheo- 
matico, havia três annos, nos cárceres da inquisição, pedindo ardentemente a 
Deus que perdoasse a seus inimigos. Passados alguns dias depois d'esta noti- 
cia, logo que meu estado de saúde o permittin, transmitti a nova do falieeí- 
mento de meu pae a minha mãe^ a qual depois de a ouvir deu um alto grito 
e morreu. 

«Tratou depois o Olho de haver a restituição de seus bens em virtude da 
sentença dada pela inquisição; mas os memoriaes apresentados ao inquisidor 
geral eram por elle enviados ao secretario doestado, e este mandava-os outra 
vez para o inquisidor, e n*estas voltas se passaram annos.» 

Eis por extracto a traducção d*algumas das passagens mais notáveis da 
obra attribuida a Costingan. Mas será verdade quanto nos refere? Para apurar- 
mos alguma coisa a este respeito temos um auxiliar. Costingan no primeiro vo- 
lume traz uma biographia (não muito crível) de Valeré : ora a filha d'este ge- 
neral francez mandou publicar também o elogio-bistorico do seu pae; vejamos 
pois'se estão de accordo. 

Mas eis o que nos diz a biographia de Vallerè : «Na Bibliotheca Britan- 
nica, tomo ô.'' pag. 213 e 327, vem insertos os extractos de algumas das car- 
tas sobre a sociedade e os costumes em Portugal por Arthur Willíam Costingan, 
e impressas em Londres depois de passados dez annos. Os francezes, que teem 
feito da litteratnra um ramo de commercio, e que por isso se não teem des* 
cuidado de traduzir tudo quanto tem apparecido mau e bom sobre Portugal 
e Hespanha, não as traduziram até agora, < o que prova a pouca estimação que 
ellas merecem. Ninguém hoje ignora que o brigadeiro F. é o verdadeiro au- 
ctor das sobreditas cartas, o qual pelo seu mau caracter moral, e opiniões re- 
ligiosas foi constrangido a largar o commaudo do regimento de artilharia do 
Minho, e a sahir de Portugal no primeiro anno do reinado de S. M. que D. G* 

* O elogio de Valeré, í* edição, foi impresso em Paris em 1808. 



CR 285 

•Este homem, para exhalar o veneno, que lhe roía o coração contra o go- 
verno e a nação portugaeza, dos quaes se considerava offendido, servia-se de 
um nome sopposto para merecer mais crença, e soltar livremente as rédeas à 
sua maledicência, escrevendo am amontoado de calumnias e vitaperios contra 
a nação em geral, e em particular contra aqaeiles, qae tiveram a desgraça de 
serem d'elle conhecidos. 

«Finge pois dois inglezes de distincçao viajando em Portugal, e nas con- 
versações, que os faz ter com diversas pessoas, nâo hesita um só momento em 
eomprometter nomes respeitáveis, com tanto que satisfaça a sua raiva e o de- 
sejo insaciável que tem de dizer mal, tendo a baixesa e infâmia de attribuir 
ás pessoas, com quem suppõe fallar, o que somente escreveu a sua penna, 
saggerido pela sua imaginação. Uma d*estas foi meu pae, e por esta rasâo mo 
propuz mostrar a falsidade de tudo o que elle disser. 

«Lembro-me muito bem do brigadeiro F... ter estado em Elvas, e ser ahi 
hospedado por meu pae, que o recebeu com aquella afTabilidade e franquesa, 
qne lhes eram naturaes, e com que recebia todas as pessoas; duvido porém 
muito que elle lhe contasse alguns dos successos da sua vida, e se o fez, o bri- 
gadeiro os alterou de maneira que posso afHrmar não haver uma só verda- 
de em toda a sua narração ! !« 

Yé se, pois, que o livro publicado debaixo do pseudonymo de Costingan não 
merece grande confiança : os insultos dirigidos aosportuguezes não podem ser - 
maiores... no emtanto creio que alli ha também muitas verdades; os viajantes 
contemporâneos, e os factos históricos são concordes com muitas das asser- 
ções do Esboço da sociedade e costumes de Portugal. 

Marianne de Bailiie diz nos na sua descripção de Lisboa (tomo S.^" pag. 2) 
qne a obra attribuida a Costingan fora tão mal recebida em Poiítugal, que se 
arriscava a ser punido pela inquisição quem a tivesse em sua casa. 

É porém engano dizer que esta obra não foi vertida em francez : pelo me- 
nos o primeiro volume foi traduzido n'este idioma com o seguinte titnlo: — Ar- 
thur William Costigan — L^íírw sur le gouvemement, les mceurs et les usages 
en Portugal, Paris, 1810. 

310) GOUCHE (FRANÇOIS.) 

E. — Relations veritabiles et curieuses de VHe de Madagáscar et du Era- 
êU, etc. Paris, 16SI. 

311) OOUSTOS. 

E. — Sufferings for Freemasonry etc, in the InqtUsition at Usbon* London, 
1746.— (SofTrimentos de um pedreiro livre). 

312) CHOKER (R.) 

E.— Traveis trmigh Spain ad Poitugal, 1799. 



286 CU 

2i3) OROSSE (H.) 

E. — Faunula malacoloqique terrestre de Vile SairU-Thotnepar — . (No /otir- 
nal de Conchyliologie, vol. 8.<>, 4868, pag. 125). 

É uma lista de 9 espécies determinadas por este hábil coocbviíologista á vista 
de exemplares authenticos, parte dos quaes havíamos sabmettido ao sea exa- 
me, por occasiao da nossa ultima viagem a Paris. > 

214) CRUZ (O. DE LA — ) — Professeur de trançais, mathématiques, 
dessin d*architecture, auteur de la Metbode unique de prooonciation françai- 
se, approuvée par le conseil general dMnstruction publique. Natural de Mála- 
ga. Ensinou francez por algum tempo em Lisboa, e d'aqui passou para Me- 
sao Frio, e actualmente é professor no Porto. 

E. — I. Grammaire Française á Vusage des Porttígais, approuvée par le co»- 
le conseil de Yinstruction publique, par — . Lísbonne. 8.*, 298 pag. 

II. Diccionaire des Verbes irreguUers défectifs et impersoneles de la Lan* 
gue Française, intièremenfconjuguées dans leurs temps simples, contenant leur 
pronondatian figurée, leur signification en portugais d^après les meilleurs di" 
ctionnaires, et la solution analytique des difficultés auxquelles ils peuvent dcm" 
ner lieu,par^, Lisboa, 1866. 8.", 143 pag. 

215) OUDENA (PEDRO). 

Escreveu uma descripçào do Brasil, do qual se fez uma traducçãa em ai- 
lemão, que foi impressa em Brunswich no anoo de 1780. 

216) CUSANI (Marquez FRANCESCO). 

E. — Don Duarte de Braganza, pngionero nel rastello di Milano, episoáv) 
storico dei século xvn. (D. Duarte de Portupal preso no casteilo de Milão). 

Traz o fac-simile do prmcipo e a gravura da chave do caixão em que fo- 
ram encerrados os resios morlaos de D. I)uarlt\ 

Ksta obra apparocou niencionada no Jornal da Noite: mas d'ella ainda não 
pude ver nenhum exemplar. 



' Jornal -i': Sdrunn )ínih<*mnlvn:s rir., \n\. '}.' |»an. IÍ»S. 



D 



217) DAL (NICOLAU).— Parece ser dinamíirquez. Era missionário pro- 
testante, e morrea em 1747 em Trangambar, na índia Oriental. 

E.— I. Piimeira parte da Grammatica Portugueza para uso da escola por- 
tugueza de Trangambar. Trangambar, na officina da Real Missão da Dinamar- 
ca. 1725, 8.» 

II. Segunda parte da &vammatica Portugueza para vão da mesma escola 
Ibíd. 1726. 

2i8) DALHUNTY (MARCUS). 

Nasceu em Belfast no aono de 1816, e actualmente residente em Lisboa. 

£.— I. Grammatica Ingleza. Lisboa. Imprensa Nacional, 1855, 8.<', 275 pag. 

II. Explicações de mathematica theoiica e pratica para ensino poptUar. 
Lisboa. Imprensa Nacional, 1859. 193 pag. 

III. Explicações de Arithmetica superior, em seguimento ás da elementar. 
Lisboa. Imprensa Nacional, 1862. 

Escreveu no Panorama alguns artigos sobre coincidências notáveis de al- 
garismos com factos da historia de Portugal. £ na Revista Popular (2.<' anno, 
1849) alguns artigos sobre o ensino das linguas. 

219) DALLA BELLA (JOÃO ANTÓNIO). 

Nasceu em Pádua, e para aquella cidade se retirou pelos annos de 1818 a 
1820. Foi lente da Universidade de Coimbra, para a qual veio reger uma ca- 
deira de phiiosophia, convidado pelo marquez de Pombal. 

E.— Memoria 1.* sobre a força magnética (Memorias da Academia das 
Sciencias de Lisboa, tomo 1.°, de pag. 85 a 116. 

Memoria 2.* sobre a força magnética (Id. id., de pag. 116 a 199). 

II. Noticias históricas e praticas acerca do modo de defender dos raios, Lis- 
boa, 1783. f 

ÍII. Memorias softre o modo de aperfeiçoar a manufactura do azeite em 
Portugaly remetlidas á Academia Real das Sciencias. Coimbra, 1784. 



288 DA 

IV. Memoria sobre a ctdtura das oliveiras em Portugal. Coimbra, 1786. 
2.* edição accrescentada com um appendice, por Sebastião Francisco Mendo 
Trigoso. Ibid. 1818. 

320) DALLAS (ALEXANDER R. G. — Esq). 

E. — Félix Alvares or manners in Spain: corUaining descriptiv accountsof 
some of ihe prominerU events of tfie late Peninsular War; and autkentic anec- 
dotes illustratives of the Spanish characer; interspersed with poetryy original, 
and from the Spanish — hy — Three volumes in íwo. New York. Published hy 
J. Eastbum and Co. 1818. (Costumes dcHespanha, contendo alguns snccessos 
da guerra peninsular, etc.) 

O segundo volume é o que mais interessa aos portuguezes. 

321) DALRYMPLE (Gbneral Sm HEW — Bart.) 

E. — Memovr written by of his proceeding a^ connected with the affairs of 
Spain and the commencemenf of the Peninsular War. London— Thomíis and 
Willian Boone. 1830, 8.» longo, 317 pag. 

Esta obra trata miudamente dos feitos dos portuguezes durante a guerra 
peninsular. 

322) DARD (JEAN). 

E. — Uistoire de ce qui s'est passe en Ethiopie, Malabar, Bresil et ces Indes 
OrientaleSy traduit de VItálien. Paris, 1628. 

323) DARWIN. 

E. — Journal of researches into the various couniries visited by Beagle, 
Londoo, ISiO. (Diário das investigações geológicas de vários paizes. 

* M. Darwin contava com infinita graça suas excursões geológicas na ilha 
Terceira, onde as aves e os insectos, que observou, lhe trouxeram á idéa as 
de Inglaterra. Infelizmente o navio em que os trazia, o Beagle, perdeuse. 

324) DAUNCEY (JOHN). 

E.— A compendious Chroniclc of the kingdom of Portugal from Alphonso 
the 1.' to AlpJionso the sixth. London, 1661. (Chronica resumida dos reis de 
Portugal). 

325) DAUX (A. A.) — Francez residente em Paris. 

Trata actualmente (1875) de imprimir na referida cidade uma Historia de 
Portugal, escripta por elle em linguagem portugueza. 

O auctor esteve por algum tempo em Lisboa, onde ensinava seu idioma. 

326) DAVILLE (FRANÇOIS). 

K,—Déclaratíon sammairc des ilrgi^mcs itsurpalions des roiaumes dePartu- 



DE M9 

galy Navarre et autres pays, tendes et seigneuries faictes par le roy de Castille 
et ^es prédecesseurs sur les roys et princes de la Chretienté. Extretrait d'un 
escript de^estant à Seville adressé à frêre Luys de Grenada^ estant lor$ en 
Portugal. (C. M. B. I. P.) 

327) DAWS LETTERS ON LITTERATURE. 

Foi n'esta obra que pela primeira vez apparocea estampada aquella cele- 
bre descripçào do terremoto de Lisboa em 1755, a qaal o Penny Magazine (de 
Londres) pablicoa acompanhada de estampas no seu i.^" voiame (anno de 
1832;, e foi reproduzida tanto em inglez, como em traducções n'uma infinida- 
de selectas e jomaes litterarios. 

328) DAZA (FR. ANTÓNIO). 

E. — Quarta parte de las Ckromcas de la Qrden de S. Francisco, sive con- 
tinuatio Historia Minorum a Marco Ulyssiponensi. 1559. Yalladolid, 161 i. foi. 

329) DE BRASILSCHE BREED. E-bilofte TSanaen Spraek, Tusschen 
hees Jansz. Schott, zomende uyt Brasil^ en Jan Maet, Koopmans — knecht, 
hebbende voor desen oek in Brasil geweest Over den verlop in Brasil, In*t Jaer 
onses Heeren, 1647. 8.«, 36 pag. (M. S.) 

330) DECANDOLE. 

Na theoria Elementar de Botânica de Decandole, que foi o maior botânico 
da Europa, vem o seguinte elogio ao nosso sábio abbade José Corrêa da 
Serra: 

•O termo Symitria, foi empregado pela primeira vez por Linneo, e o seu 
emprego indica que elle tinha ídéas muito justas sobre o methedo natural. 
Porém Corrêa da Serra foi o primeiro que nas Memorias da Sociedade Un- 
neana desinvolveu realmente sobre esta matéria considerações novas e fecun- 
das, e de que eu tenho feito muitas vezes uso n'esta discussão.» ^(Bemta 
Universal lisbonense, vol. S.'', pag. 565). 

331) DECISIONES ANONIMI JURISGONSULTI. Augusta Taurino^ 
rum. 1646, foi. (Tracta da prisão de D. Duarte, infante de Portugal). 

332) DÉCLARATION DES EMBASSADEURS D'ESPAIGNE, 
touchant une treve pour Portugal. 

No fim — Fatct á Munster ce 14 Aoust, 1647, 7 pag. (M. S.) 

333) DEOLARATIONUM (NOVARUM) ET VARIARUM LEOTIO- 
NUM, resolutionumque Júris libri XXII diversorum Jurisconsultorum^ scili- 
cet: Vaconii à Vacuna, Ant. Goveani, Ant. Contii, Jac. Raevardi, Rain, Corsit 
Nic. Belloni. Coloniae Agrippae, 1575, foi. 

334) DEFENSE (THE) against the petitions of some English Factores at 

TOMO I i9 



290 



DE 



Oporto^ by tke carrespondents of the Royal Wine Campany for the AgricuUwre 

of the Wines do Alto Douro, LondoQ, 1813. (Defesa contra os i>edidos de algons 
feitores ínglezes no Porto.) 

335) DE JURE SUCCESSIONIS REGLS LUSITÂNIA, deque 
legitima regis Antonii successione, Middelbergi, 4596, (Do direito da regia sac- 

% cessão de PortugaL e da legitima successão do rei D. António). 

336) DELLE COSE DEL PORTOGALLO, rapporte à p. p. Gesmtu 
Lagano, 1760-62. 

337) DELLON. í 

E. — I. Voyage avec sa relation de Vinquisition de Goa. Cologne. 1711. 

II. Relation de l^inqusition de Goa, revue, conigée et augmentée. A Cologne 
chez les heretiers de Pierre Marteau, 17U. Segue se o 3.« vol. : HUtoire áet 
Dieux, qu^adorent les gentils des índes, avec une addition de IHnqtúsition de 
Goa, etc, — ^Todos em 8.** Kste volume è obra d'am Mi^isiona^io Portaguez. 

Esta obra é rara, princípaimeute em Portugal, onde até hoje apenas tenho 
visto três exemplares. 

Creio haver uma edição anterior, feita em 1709, mas a qual ainda não tL 

Foram estas viagens vertidas em portugaez por Miguel Vicente d^Abreo, e 
impressas em Nova Goa no anno de 1866. 

Dellon, impellido peio ardente desejo de vér o mundo, embarcoa em 
PortLouis, na Bretanha a 20 de março de 1668, na qualidade de cirurgião de 
um navio pertencente á Compagnie Royai des lades. A 30 de abril achava-se 
em Cabo Verde. A 3 de setembro ancorou seu navio na ilha de Bourbon (cha- 
mada anteriormente de Mascarenhas). A 30 doeste mez entrou em Madagáscar 
(por outro nome S. Lourenço). D'esta ilha foi mandado em um navio a serviço 
da Companhia das índias Francezas a varias povoações com o fim de receber 
o pessoal das feitorias, que a Companhia abandonava, por lhe darem prejnlso; 
e a 12 de agosto do seguinte anno (1669) de Madagáscar navegou para a ín- 
dia. A 21 de setembro achava-se em Surrate, onde permaneceu até o princi- 
pjo do anno seguinte. Saiu d'esta povoação a 6 d'este ultimo mez em direcção 
a Mirzeou, no reino de Visapur, d'onde saiu a 19. Foi depois para Tissery tra- 
tar de negócios da referida companhia, em cujo serviço percorreu muitas ter- 
ras. A 31 de janeiro de 1673 ancorou dentro da barra de Goa. 

«Haverá difliculdade em acreditar que uma cidade (Goa), cujos arrabaldes 
sào tào soberbos, contCDha em seu âmbito com que causar admiração aos que 
a vêem. Com eíTeito, apesar de seus dominadores se acharem em decadência 
pelos prejiiisos solTridos, superiores á comprehensào, e do negocio já não ser 
nem a sombra do que foi n outro tempo, Goa ainda é uma das mais bellas, e 
mais sumptuosas cidades do Oriente.» V. Pyrard. 

«A 6 de fevereiro saliiu Dellon de Goa com destino a Rajapour. Em outu- 
hro aoh:iva-se já em viaííein para a Pérsia, com desliuo aBandar Abassi para 
com seu navio comboiar um outro, que se dirigia a Surrale. A 6 de janeiro 



DE 291 

de 1673 pairava em frente de Dia, e a 12 entrava em Bombaim. Resolvea de- 
pois fazer uma digressão ás possessões portoguezas na costa de Coromandei. 
Passou a Damão, a que chama ama das praças mais fortes de todo o Oriente. 
Aceitando as vantajosas propostas qae lhe fez o governador d'esta cidade, dei- 
xoa-se ficar n*ella, na qualidade de cirurgião. Durante sua residência em Da- 
mão, fez uma digressão a Tarapour, villa pertencente aos portuguezes. 

«Havia n'esta povoação uma egreja parochial, uma da Misericórdia, e um 
convento de Dominicos, a cuja egreja foi Dellon ouvir o sermão de sexta 
feira santa. 

•Quando atravessava o claustro com destino a uma tribuna, em que lhe 
tinham reservado um 'logar, viu alguns penitentes com a cara tapada, e 
hombros mis, ferindo-se tão cruelmente com disciplinas guarnecidas de aço, 
qae o sangue esguichava com bocados de carne. Pelo receio de que com o san- 
gue lhe sujassem o fato, pediulhes que se afastassem alguma coisa para o 
deixarem passar; íÍ7eram-n'o, e depois continuaram a disciplinar-se. 

•Um momento depois de ter entrado na tribuna, appareceu o pregador. ^ 
Notei, que durante seu sermão fez muitas pausas para dar tempo a que seus 
ouvintes observassem os diíTerentes mysterios da Paixão, que estavam sendo 
representados n'um theatro, como uma tragedia dividida em vários actos. O 
tal theatro estava tapado com um panno, que se levantava a cada pausa^ que o 
pregador fazia. Da minha tribuna via quanto se passava no corpo da egreja, 
na qual os homens estão separados das mulheres por uma teia, onde ellas so 
acham : corre ao longo d'esta uma cortina, para não poderem ser vistas pe- 
los homens. 

•Mas, não obstante não se verem, teem grandes desejos de se fazerem ou- 
vir, soltando gritos agudos, dão tão grandes pancadas no peito e na cara, e 
até arrancam os cabellos todas as vezes que o pregador diz alguma coisa, 
qae desperta a compaixão dos ouvintes. O pranto das mulheres portuguezas, 
suas exclamações, a dôr de que parecem estar penetradas, não obsta a que 
muitas abusem da liberdade, que teem, de sair n*estes santos dias. £speram- 
n'os algumas vezes com a maior impaciência durante todo o anno, para os 
empregarem em usos bem differentes d'aquelles para que taes dias foram 
instituídos, e este tempo sagrado serve frequentemente para ultimar aventu- 
ras, nas quaes a prudência não toma parte. 

•Acabado o sermão, representou-se a descida da Cruz, e pozeram n'um es- 
quife a imagem de nosso Senhor, que n^aquella occasião desprenderam. Á 
vista d'este novo espectáculo redobraram os gritos e alaridos. Começou no en- 
tretanto, a procissão a satr; os penitentes, em mui grande numero, marcha- 
vam na frente com o rosto coberto, e batiam nos hombros com tal violência, 
que arrancavam ao mesmo tempo horror e piedade. Eram seguidos pelos ha- 
bitantes mais distinctos da terra, caminhando dois a dois, levando na mão uma 
vella accesa. Vinham em seguida os frades, e depois d'elles trazia-se a ima- 
gem do Senhor deitada n'um esquife armado de preto, e descoberto. Rodea- 

í Yol. í.o, pag. 4S5. 



295 DE 

vam-n'o uns víate pretos mascarados, e armados de lanças, espadas e dardos. 
Tinham à sua frente um officíal, que de vez em quando voltava atraz para 
ver o esquife, como receioso que lhe tivessem roubado o corpo. Toda esta co- 
mitiva era precedida de tambores e clarins, que produziam um som perfeita- 
mente lúgubre e fúnebre. A procissão d'esta forma disposta deu volta pela po- 
voação. Depois de entrar na egreja pozeram o esquife com a imagem, que es- 
tava dentro, n'um sepulchro muito decentemente preparado. Acompanhei esta 
procissão até parte da volta que deu. As ceremonias, ou antes as caretas, que 
faziam os guardas pretos à roda do esquife, e seu oflicial inspiravam devoro 
e arrancavam lagrimas a todos os portuguezes. Mas confesso que isto produ- 
ziu em mim um effeito differente, porque fui obrigado a parar, quando pas- 
sava por diante da casa de D. Petronilla, e de ficar allí, não podendo por mais 
tempo reprimir a vontade que tinha de rir, o que para mim seria bem peri- 
goso, se se viesse a conhecer. 

«No dia seguinte, sabbado santo, assisti ainda ao oíBcio, onde nada obser- 
vei de notável; porém no domingo de paschoa, tendo-me dirigido, com os 
mais, muito cedo para a egreja dos Dominicos, acompanhei o Santíssimo, que 
levavam em procissão com muita pompa e respeito d'alli para a parochia. 

«Esta procissão começa ao despontar do dia, e acaba ao pôr do sol.É ins- 
tituída para honrar e recordar a resurreiçào de nosso Senhor Jesus Ghristo, 
que, na opinião de muitos, saiu vivo e glorioso do seu tumulo ao nascer do 
sol. Pareceume muito edificante, muito convenientemente disposta, e a mais 
bella das ceremonias peculiares das egrejas de Portugal. Tendo o Santíssi- 
mo entrado na egreja, deu-se benção ao povo, e fechou-se depois no taberná- 
culo. Immediatamente o mesmo, que pregara na quaresma, e na sexta feira, 
subiu ao púlpito, e recitou não um sermão, mas sim um discurso jovial. A 
insliluição d'esle ridículo discurso foi, segundo se diz, para recrear os ouvin- 
tes e fazei -os rir, e para mitigar algum tanto a tristeza de que podessem ter 
sido aíTectados durante a quaresma. 

«Confesso que esta oração me pareceu tão extravagante, e tão pouco em 
harmonia com a solemnidade da paschoa, que julguei a propósito referil-a 
succintamente. 

•Tendo o pregador feito o signal da cruz, disse: Sabeis, senhores, que este 
sermão foi instituído por três rasòes. A primeira para dar as boas festas aos 
ouvintes. Para satisfazer, senhores, a esta obrigai;ào, desejo vos a todos n*es- 
tes santos dias todas as sortes de bens e de prosperidades. O segundo motivo 
d'esta pregação é para pedir os ovos da paschoa, ou, por outras palavras, os 
presentes, que é costume mandar ao pregador no íim da quaresma. Em quanto 
a este artigo, exhorto-vos a cumprir, o melhor, o mais depressa, e o mais ge- 
nerosamente possível ; e declaro-vos que receberei tanto mais gostosamente 
vossos presentes quanto mais valiosos forem. Finalmente, meus senhores, a 
terceira rasão para se pregar n'este dia, é, como sabeis, a de fazer rir algu- 
ma coisa os ouvintes, que talvez estejam abatidos e aíTliclos do mais com as 
austeridad»^s o niortilicaçoes praticadas durante a quaresma. Com o fim de 
tentar coiiscguil-o, dir-vus-hoi, que hontein pela nianlifi, ao sair do meu cou- 



DE S93 

vento, encontrei o [tansudo do Gregório, que julguei já nâo estar em jejum, e 
dísse-Ihe: Falia, ladrão, has de tu fazer sempre de Pilatos na paixão? Estas 
poacas palavras foram proferidas em um tom gracioso e chocarreiro de modo 
tal, que toda a assembiéa rompeu em gargalhadas. Depois o orador, que tam- 
bém se estava rindo, desceu vagarosamente do púlpito, sem dizer mais pala- 
vra, e sem ter deitado a benção, deixando cada um na liberdade de rir quanto 
qnizesse, e de se retirar depois do rir á vontade. 

Tendo Dellon fixado a sua residência em Damão, e vivendo com a maior 
satisfação n esta cidade, foi denunciado à inquisição por um vísiuho, e preso 
a 24 de agosto de 4673, época em que contava 24 annos de edade. As causas 
apparentes da prisão parece terem sido o dar a perceber em algumas conver- 
sas, que duvidava da validade do baptismo do fogo: o não beijar as imagens 
das santos, que alguns pedintes traziam ao pescoço em oratoriosinhos, ^ obsti- 
nar-se em não querer trazer o rosário ao pescoço, e não acreditar que o Es- 
pirito Santo assistisse ás sentenças dos inquisidores, etc, mas a verdadeira 
diz o auctor ter sido o desejo que o governador da cidade tinha de o ver re- 
movido para longe, cheio de ciúmes com a affeição que nosso viajante mos- 
trava a uma joven dama, á qual o governador fazia corte. 

«O denunciante fora um dia a casa de Dellon, e vendo um crucifixo á ca- 
beceira do leito, disse- lhe : Não se esqueça, senhor, de tapar aquella imagem 
se por àcaso vier a sua casa alguma mulher, quando com ella estiver entre- 
tido. Pois que, disse-lhe eu, acredita que nos possamos assim esconder aos 
olhos de Deus? Cré, como as mulheres devassas, que depois de tapar a cabe- 
ceíra do leito, as relíquias e rosários, que geralmente trazem comsigo, possam 
então entregar-se a toda a sorto de excessos? Vá-se embora, tenha sentimen- 
tos mais nobres a respeito da Divindade, e não creia que um bocado de trapo 
possa occuUar nossos peccados aos olhos de Deus, que vé o que existe no fun- 
do dos corações: e demais aquelle crucifixo é apenas um pedaço de marfim. 

«Meu vísinho foi-se embora, e tratou de cumprir seu dever denunciando- 
me á inquisição, pois é bom saber que todas as pessoas vivendo em paizes su- 
jeitos á jurisdicçáo do santo officio, são obrigadas, debaixo de excommunhão 
maior reservada ao inquisido-mór, a declararem no espaço de 30 dias tudo 
quanto virem ou ouvirem dizer relativo aos assumptos de que este tribunal 
toma conhecimento. E aquelles que faltarem a esta declaração dentro do re- 
ferido praso, são reputados criminosos, e depois castigados como se tivessem 
eommettido aquelles delictos, que não forem delatar. É este o motivo por que 
os amigos atraiçoam os amigos, os país seus filhos, os filhos por um zelo in- 
discreto esquecem -se do respeito a que os obrigam Deus e a natureza. 

«Dellon teve desconfianças de que seu visioho o fora denunciar, e para vér 
se desviava a tempestade, que se estava armando por cima da sua cabeça» 
resolveu-se ir ter com o commissario do santo officio, conlar-lhe como as coi- 
sas realmente se tinham passado, e pedir lhe a sua protecção, ^ e que lhe in- 

* Tomo 2.% pag 10. 

* Idem, pag. 18. 



m DE 

sJDiusse di; qae maonira se devia portar para o rutaro, declarando-lhe esur 
prompto a rctrã«;tar-se do que tinha dito, se o julgasse conveaientc 

'Reapoadea o padre que meu proceder tinha escandalisado a bastantes 
pessoas, que oitava persuadido não terem sido mjis as minhas iateações, a 
quo cm tudo quanto cu tinha dilo nada havia, que em rigor Tosse crimíaoso; 
mas que me dava o conselho de me accommodaralgam tanto aos aso9 do poTO, 
e de nào faltar tão livremente n'aqaelles assumptos.- Que mui e!^>ecialiDeote 
devia ser mab reservado, quando [aliasse das imagens, não diiendo qae não 
devem ser adoradas, e procuraudo proval-o com citações da EscripUra- Qae 
o povo realmente vivia em certos erros passageiros, que se tinham como ver- 
dadeira devoção, porém que ninguém me tinha encarregado de o corrigir e 
reformar. 

•Agradeci ao commissarío os bons conselhos, que me tinha dado, e retirei- 
me da presença dclle muito alliviado por saber que tendo-me coafessado es- 
pontaneamente antes da prisão, já me não podiam prender, segando os esta- 
tutos da inquisição. 

• Has apesar disto o governador, sempre Terido de cíamea, e sempre mos- 
trando-se meu amigo, recebendo-me obsequiosamente em soa casa, soUtcitava 
vivamente o commissario a que escrevesse para Goa íDrormando os inquiudo- 
res a respeito das otpressijes proferidas. Este, apertado pelo governador, e por 
um padre secretario do santo ofHcio, lambem inimigo de Dellon, e que tam- 
bém estava apaixonado pela mesma dama, escreveu para Goa, e d'alli raee- 
bea ordem para mandar prender o francez. 

,>A prisão de D.imào liça mais baixa que o rÍo,que d'elU fica perto, e o qoal a 
tornahumida, cos muros são muito cspesí^os. Consiste esta triste habitação em 
duas grandi.<s salas baixas, c uma superior próximo da qual 6ca o aposento do 
governador. O' homens (icaiu por baixo, e as jnulheres no andar superior. A 
maior parte das duas salas baixas te>^m uns quarenta pés de comprimento so- 
bre quinze de larjiura, a outra põJc ter dois teri,-os desta extensão. Vieste es- 
paço estávamos umas quarentas pe.^soas, e nào havia logar para satisfazer as 
nossas necessidades senão aquelle. Os presos urinavam no meio d'esia sala, 
e o ajuntamento d'eslas urinas estagnadas formava uma espécie de pântano. 
Também as mulheres nào tinham outra qualidade de latrina, e havia somente 
entre ellas e mis esta difforença : suas urinas corriam de sua sala alta, e caiam 
por entre o sobrado cm a nossa, na quai lodos estes líquidos se agglomera- 
vam. Para os outros excreiuvntos somente havia uma grande celha, que ape- 
nas se despejava uma vez na semana, de maneira que dalli se gerava ama 
multidão innumeravel de bicho», que cobriam o sobrado, e vinham até nossas 
camas. O fedor, apesar do cuidado qU'; tinha de lavar o sobrado, era insap- 
poruvel 

•Hão bavia comida determinada para os pre-^os : os magistrados descança- 
vain na caridade das pessoas, qu<- a* queriam soccerrer, e como apenas havia 
duas pessoas na cidade, que lhes rcmvtiiam comida regularmente duas veies 
nào recebiam na maior parte dos dias nenhuma coisa, viam-se 

luiidús a ama miséria digna de piedade. Alguns dos que viviam na sala pe- 




DE 295 

qaeDa, chegayam*a ponto de procdrar subsistência em seus próprios excremen- 
tos. Gontaram-me que alguns annos antes, tendo sido aprisionados 50 corsá- 
rios malabares e encerrados n'esta mesma prisão, passaram tào grande fome, 
qae uns quarenta cheios de furor se estrangularam com os seus próprios tur- 
bantes. 

cTinba-me accusado o padre commíssario de herege dogmatísantc. Ter-me- 
hia podido remelter para a inquisição de Goa logo immediatamente depois de 
minha prisão; e se assim tivesse praticado, poderia ter saido da prisão três 
mezes depois, no auto de fé celebrado em dezembro, mas não era o desejo de^ 
meus rivaes que eu fosse posto em liberdade. Por isso o commissario em vez 
de fazer que eu saisse de Damão, elle mesmo é que tinha saido d'esta cidade 
para não ouvir minhas supplicas; e, apenas deu ordem para me prenderem, re- 
tirou-se para Goa, d'onde não voltou senão acabado o auto de fé, isto é, no 6m 
de dezembro; e creio até que empregou os quatro mezes, que me fez jazer nas 
prisões de Damão, em me recommendar ao inquisidor como homem muito cri- 
minoso e perigoso^ a quem era indispensável afastar da índia, no caso de não 
julgar conveniente mandar-me matar n'ella. 

«Voltou o commissario para Damão em 20 de dezembro, e mandou-me 
preparar para partir para Cambaia. No dia ultimo de dezembro mandou o 
commissario ferros e grilhões para pôr nos pés de quantos deviam ser condu- 
zidos para Goa. Prendiam-se os pretos a dois e dois, á excepção de alguns que 
se achavam tão extenuados pela fome, que houve necessidade de lhes deixar 
a liberdade dos pés, da qual já não podiam fazer uso. Em quanto aos portu- 
gaezes e a mim Gzeram-nos a honra de nos pôr ferros a cada um em s^a- 
rado. 

«Salmos, pois, do rio, no dia 1 de janeiro de 1674 com o fim de esperar o 
resto da frota em Baçaim, ^ onde chegámos no dia seguinte. Levaram-nos lo- 
go para a cadeia, onde nos conservaram até 7 de mesmo mez, em que nos 
embarcámos, e a 14 chegámos á barra de Goa, e no dia seguinte fui remet- 
tido para o Aljube. Esta prisão é a mais immunda, mais escura e horrível de 
quantas tenho visto, e duvido até que se possa imaginar coisa alguma mais 
aseorosa e horrenda. É uma espécie de cova, onde se não vé a claridade se- 
não atravez d'uma pequena abertura, em que os raios do sol, mesmo os mais 
subtis, não penetram : o fedor é extremo; não ha outro logar para as immun- 
dicies senão uma espécie de cisterna, aonde nem mesmo ea ousaria approxi- 
mar-me. 

«Tendo chegado a noite não me pude resolver a deitar-me, tanto por causa 
dos bichos, de que a prisão estava cheia, como das immundicies espalhadas 
por toda a parte. Vi me pois obrigado a passal a assentado e encostado ao 
muro. Comtudo apesar de ser horrível esta prisão, tel-a-hia preferido ás cellas 
aceiadas e claras da inquisição, porque no Aljube havia companhia e conver- 
sa, e nas prisões do santo ofíicio não. 

^ «N^esla cidade existe o mais samptuoso c magnidco templo de quantos os poria- 
gaexM erigiram ao verdadeiro Deus no Oriente.» Tomo ^ .^ pag. 38. 



296 DE 

•A 16 da janeiro, pelas 8 horas da manhã, yeiu am official da inquisição 
com ordem de nos acompanhar a todos para o santo officio.» 

N'e8ta prisão foi retido Deilon até janeiro de 1676. Chegou a tal aage sea- 
desespero qae por vezes tentoa saicidar-se, o qae não ponde realisar por cansa 
da incessante vigilância qne havia sobre os presos. Saia por fim, depois de 
horríveis soffrimentos, no auto de fé celebrado em Goa em 12 de janeiro de 
1676, tendo sido condemnado na confiscação de todos os bens, a ser expolso 
da índia, e a servir nas galés de Portugal por espaço de cinco annos. 

Embarcaramn'o portanto com ferros aos pés, a 27 de janeiro em mn na- 
vio com destino a Portugal. A 20 de março viu-seo navio obrigado a arríbar á 
Bahia, da qual saiu a 3 de setembro n*uma embarcação, que fazia parte de uma 
(irotade30 navios, que se destinava a Lisboa, aonde chegou a;i5 de dezembro. 

Do navio foi remettido para a prisão das galés. N'esta cidade esteve por 
algum tempo obrigado a trabalhar na Ribeira das Naus, até que por influencia 
de Mr. Fabre, francez e medico da rainha, a inquisição perdoou o resto dos 
cinco annos de trabalhos públicos, com a condição de se retirar para França, 
para onde embarcou, tendo perdido toda sua fortuna, confiscada pelo infame 
tríbunal, que tão horrenda nódoa lança nas bellas paginas da historia de Por- 
tugal. A Nouvelle Biographie Universelle de Firmin Didot t diz-nos que Deilon 
na sua volta para a França exercera a medicina com muita distincção, e que 
desde 1685 nada mais se sabe a respeito d'elle. 

A leitura das viagens de Deilon deve ser recommendada áquelles que teem 
a mania de só elogiarem os tempos passados, e de nada acharem bom na ac- 
tua4[dade. Taes pessoas só podem revelar muita ignorância ou muito má fé. 
Ao mesmo tempo dà-nos noticias muito aproveitáveis para quem escrever so- 
bre os usos e costumes d'aquella época. 

tNas festas mais solemnes, depois de acabar o serviço divino, fazem vir 
para dentro da egreja as mulheres ricamente enfeitadas, as quaes, na presen- 
ça do Santíssimo Sacramento, que íica exposto, dançam ao som de guitarras 
e de castanholas, cantam modinhas profanas, tomam mil posturas indecen- 
tes e impudicas, que mais conviriam para logares públicos, que para egrejas 
que são casa de oração.» 

Não se passaram ainda muitos annos que taes danças impudicas e lasci- 
vas foram prohibidas dentro da sé do Porto, por occasiào da festa de S. Gon- 
çalo, chamada a festa das regateiras. E quem ignora o que ainda se pratica 
nos cirios e romarias? 

O terceiro volume das obras de Deilon comprehende a historia dos deu- 
ses adorados pelos gentios. Não foi composta por Deilon, mas sim traduzida 
por elle de mn manascriplo portuguoz, composto por um frade nosso, que o 
deixou por sua morte ao escriptor francez. Contém 19 capitules, e de pag. 
103 até 276 traz um curiosíssimo supplemenlo á historia da Inquisição. 

A leitura d'esla obra foi prohibida pelo edital da mesa censória de 12 de 
dezembro de 1769. Foi traduzida rom o titulo: Deilon s acconnt of the m- 

Tomo \?r. jnp i8'i 



DE »7 

« 

quisitioH of Goa. Translated from the French, With an appendix containmg an 
accourU ofthe escape of Archibald Bover (one ofthe inqitísUors) from the m- 
quisitian at Macerata in Italy. London, Í8i2. 

338) DEMERSAT (ALFRED — ) De la commission centrale de cette 
Societé, de rinstitat Historique et Géograpbíqae da Brésil, de la Societé Ar- 
cbéologique de L^Orléannais, Doctear en Medecine, etc. etc. 

E. — Une tnissíon Géographique dam les Archives d'Espagne et de Portu- 
gal. iS&t' iS&3, Fragments lus à la Societé de Géographie dans la séance gé* 
nérale du 15 avril i86i par — Paris. Librairie de L. Hacbette et compagnie 
4.», 45 pag. 

«As doas nações peninsulares maito mal conhecidas, frequentemente mal 
appreciadas, merecem as mais vivas sympatbias da França. Gonteem elemen- 
tos de prosperidade moral e material ainda cobertos do pó dos tempos passa- 
dos, mas fecundados pouco a pouco pelo sopro vivificante d'uma sábia li- 
berdade. 

«É principalmente quando se trata da geographía e da historia do Novo 
Mundo que os documentos affluem na península, e que experimentamos mui 
seriamente o embaraço das riquezas. Se a Hespanha descobriu a America, al- 
gum tanto contra vontade d'aquella, é mister que se diga que a arrojada na- 
ção portugueza a tinha precedido na carreira das descobertas, a qual coroa tão 
gloriosamente o fim do século xv : ella não tardou em achar-se de costas a cos- 
tas com sua rival; e em o novo bem como em o antigo continente uma anti- 
pathia desrasoavel continuou a dividir dois povos para os quaes, segundo a 
bella expressão de Montesquieu, parecia que o mundo se alargava. 

«Foi na America do sul, entre as províncias do Rio da Prata e o vasto im- 
pério do Brazil, cuja extensão excede doze vezes a da França, que a lucta se 
empenhou viva e encarniçada, ao mesmo tempo que no arcbipelago das Mo- 
Incas, nos antípodas da velha Europa. Será necessário recordar aqui esses tra- 
tados numerosos, sellados com promessas solemnes, muitas vezes sancciona- 
das pelo poder então incontestado do chefe da egreja, mas ainda mais frequen* 
temente ficando no estado de lettra morta? Que pareciam não ter por alvo mais 
que conseguir tréguas, durante as quaes cada potencia procurava engrande- 
cer-se, adjudicar a si mesma províncias grandes como reinos, e arruinar com 
nm contrabando desenfreado o commercio de sua rival? 

«Ha muito tempo, que o homem de estado, que nos preside, se tinha con- 
vencido do interesse que havia em propor uma exploração nos archivos penin- 
sulares; e chegando a ministro me confiou o cuidado de procurar na Hespanha 
e Portugal documentos relativos á historia da geographia Sul -Americana, e á 
da dominação dos dois povos além do oceano. No mez de novembro de 1862, 
dirigi-me a Toulon, d'aqui a Marseille, donde parti para Barcelona, de Barce- 
lona a Madrid, a d'esta capital para Lisboa. 

«Atravessemos pois o nobre Tejo, tantas vezes celebrado pelos poetas, e en- 
tremos em Lisboa, n'esta bella cidade, cujo solo appresenta ainda vestígios da 
eatastrophe que em 1755 enguliu quarenta mil de seus habitantes. 



298 DE 

«Portagal conta entre seus Glhos algons homons applíeados ao estado das 
sciencias geographieas e das associações sabias, com as qnaes nossa sociedade 
está em relações incessantes e regalares. Recebi â'elles o acolbimento mais 
favoratel, e posso dizer qne desde o homilde empregado das bibliotheeas até 
o joven soberano, qne preside aos destinos d'este bello paiz, todos procararam 
coadjavar-me no camprímento da tarefa, qne me fora confiada. 

<0s estabelecimentos scientifícos, qae me promettiam mais ampla colheita, 
eram: 

«Archivos do reino. (Torre do Tombo.) 

«Bibliotheca pablíca. 

«Bibliotbeca da Academia das Sciencias. 

«Arcbivo do Ultramar. 

«Seriam necessários maitos velames para faz^ ama enam^raçao, mesmo 
sammana, das riquezas, qae conteem os archivos celebres da Torre do Tombo. 

«A este immenso deposito de papeis do estado relativos a todos os ramos 
de administração se vieram ajuntar em 1835 os archivos dos conventos snpprí- 
midos, os das corporações religiosas e de certos tribonaes excepcionaes aboli- 
dos, entre os qaaes citarei a Mesa de Consciência e Ordens. 

«Esta collecção, qae aagmenta continuamente, abrange hoje mais de vinte 
mil maços, compondo-se cada maço d*algamas centenas de documentos. 

«Só a inquisição fomecea quarenta mil processos. 

«Algumas obras manuscríptas teem um grande valor biblíographico ou 
histórico: tal é o Atlas de Fernão Vaz Dourado; tal é a Bíblia celebre do con- 
vento de Balem, que Junot levara para França, e que foi restituida a Portugal 
na época de nossos desastres. 

«Quando o marquez de Pombal decidiu a suppressão da ordem dos Jesuí- 
tas, mandou reunir n'estes archivos os documentos pertencentes á Companhia, 
porém mais tarde desappareceram alguns, que mais a compromettiam. Inves- 
tiguei comtudo 03 que ainda restam, e este trabalho não foi infructuoso. 

«A Bibliotheca Publica continha em outubro de 1853, 13^:000 volumes, sem 
contar as obras dos conventos supprimidos. E entre os seus dez mil volumes 
escolhi dois para d'elles fazer analyse. Papeis relativos à entrega da colónia do 
SS. Sacramento, onde encontrei documentos do mais alto interesse para a his- 
toria da guerra hispano-portugueza causada pela fundação da colónia em fren- 
te da cidade de Buenos Ayres. 

«Outro volume contem o diário da segunda marcha, que fizemos com o 
nosso exercito poríuguez auxiliando o de sua magestade cathoUca para a eva^ 
cuação das sete missões N'cste acha se uma narração muito circumstanciada 
da campanha de 175o a 1756. Esclarece com uma luz muito viva uma multi- 
dão de pontos, que tinham ficado obscuros na historia d' esta longa expedição. 
Mandei copiar as passagens mais notáveis d'este manuscripto para as offere- 
cer á Bibliotheca Imperial. 

«A Bibliotheca da Academia das Sciencias possue cerca d'uns 50:000 vo- 
lumes e 833 manuscriplos. 

O Archivo do Ultramar contém papeis relativos ás colónias. Encontram-se 



DE 299 

alli reunidos com ordem os officios dos vice-reis, relatórios dos governadores 
das províncias dirigidos ao sen chefe immediato, on ao primeiro ministro, as 
propostas relativas ás operações militares, aos reconhecimentos dos rios, ás 
obras publicas, etc. 

•A parte politica doestes relatoríos(só fallo dos concernentes á America) mos- 
tra a cada instante usurpações de territórios commettidas pelos bespanhoes. 
Mostra, por assim dizer, dia por dia, a historia das relações do Brasil com seus 
visinhos. Consultei com fructo a correspondência dos governadores da pro- 
víncia de S. Paulo, cujas dependências se estendem até aos confins do Para- 
guay. Sabe-se a guerra encarniçada que durante mais de um século os pau- 
listas, debaixo do nome de mamelukos, fizeram aos estabelecimentos dos je- 
suítas, cujos habitantes estes vinham roubar para os fazer trabalhar nas mi- 
nas, ou vender como escravos nos mercados do Rio e da Bahia. 

«Nem todos os documentos relativos á historia das possessões transoceâni- 
cas de Portugal estào encerrados nas ricas collecções da capital, bom numero 
dos mais interessantes fazem parte da Bíblíotheca de Évora. É n'esta biblio- 

theca que se euarda o celebre esmalte de Limoges, o qual pertenceu a Fran- 
cisco I, e lhe foi tomado na batalha de Pavia. ^ 

339) DE PORTOGYSEN GOEDEN BVYRMAN QHETROOHEN 
uzt de Registers van syu goet Gebuers van syn goet Gebuerschap gehouden m 
Ussabona, Manngan Coep Sint AugusHn, Sint Paulo de Loando, en Sant Thomé. 

Gheduckt tot Lisbon, inde groote Druck sael Doer uzt hangh her Verra- 
âich Portegael. Ânno i649, den 24 Decembei\ 8 folhas sem paginação. (M. S.) 

340) DEPPING. 

E. — Vocubulaire geographique de VEspagne et du Portugal, smvt d'un iti- 
néraire de ces deux royaumes, traduit de Vespagnol; revu et augmenté d'un 
Aperçu historique et geographique de VEspagne et du Portugal, par — . Paris, 
i823, 8.* longo, iii pag. 

É um resumido Diccíonario geographíco de Hespanha e Portugal. 

34i) DER NEUSTE STAAT DES KONIGREICKS PORTAGAL. 
(Situação actual do reino de Portugal, e de suas possessões na Europa, e em 
todas as outras partes do mundo, descripta conforme os escriptores antigos e 
modernos mais dignos de credito.) Halle, 1714, 2 vol. S.** 

342) DESORIPTIO URBIUM TOTIUS ORBIS. Foi. 

«N'esta obra 2 impressa no-meiado do século xvi vem não só a vista de 
Lisboa em referencia ao anno 1500, mas também a de Gascaes, e outras, Goa, 
Diu, Damão, Gochim etc. com a descripção de cada uma d'ellas. 

^ Sobre as bibltothecas de He^panba pôde Ter-se um artigo mui curioso, que vom do 
n.* 100 do Diário do Governo de 1835. 

s Reviila Universal Lisbonense, toI. 5.*, pag. 64. 



300 DE 

343) DESORIPnON DE LA VILLE DE LISBONNE oò PontraUe 
de la cour de Portugaly de la langtte portugaise, et des mcBurs des habitanit; 
du gouvemement, des revenus du roi, et de ses forces par mer et par terre, 
des coUmes portugaises et du commerce de cette capitale. A Paris, chez Pierre 
Praolt, 1738. 8 % 268 pag. 

«Sendo Lisboa uma das mais celebres cidades da Europa, tanto por saa 
grandesa, como pela vantagem que tem de ser a residência dos reis de Porta- 
gal, e até pela extensão de seu commercio, julgoa-se qae o poblico receberia 
com algum prazer a descripção d'esta capital 

«Esta grande cidade está situada sobre sete montes, na margem do Tejo, 
a três léguas do Oceano. 

«Avançando coisa de duas léguas, encontramse*algumas povoações; a ul- 
tima, que tem o nome de Balem, dá á margem um ar muito risonho, por ha- 
ver alli bellas quintas e magníficos conventos, entre os quaes um é da ordem 
de S. Jeronymo, de grandesa prodigiosa, e magnificamente construído, onde 
se vêem os túmulos de alguns reis de Portugal. Ha n'esta povoação uma torre 
grande e forte, edificada sobre uma lingua de terra que entra pelo mar dentro. 

«Ao passo que se continua a subir pelo rio, este alarga-se, e acba-se defen- 
dido por diversos fortes de distancia a distancia ató ás approximações da ci- 
dade, e do primeiro logar destinado para ancoradouro dos navios. D'alli des- 
cobre-se Lisboa, que ostentando-se como um soberbo amphitheatro, offerece á 
vista, por sua elevação, por sua extensão, e por uma espécie de symetría na- 
tural um dos mais bellos aspectos do mundo. O Tejo forma também em frente 
d'esta capital um porto muito considerável, quo tem três léguas de largura, e 
está sempre cheio de grande numero de navios. 

«As ruas próximas do rio sào Íngremes, estão bem calçadas, e são de lar- 
gura variável, mas muito immundas, não as varrendo senão de três em três, 
ou de quatro em quatro dias. Enconlram-se alguns bellos palácios, e em ge- 
ral as casas são bem bonitas. A pedra é muito vulgar, mas não produzindo o 
paiz quasi nenhuma madeira, véem-se obrigados a servirem-se de pinho, que 
se manda vir do norte. 

«O palácio do rei fica no meio da cidade, na margem esquerda do Tejo, so- 
bre uma praça chamada Terreiro do Paço. Sua fâce principal reina sobre to- 
da a largura doesta praça, e termina n'um magnifico pavilhão, em cuja frente 
ancoram os navios, d'onde o rei tem o praser de vêr quantos entram ou saem 
do porto, e mesmo de olhar para o mar até ao mais longe que a vista pôde 
alcançar. A área d'este palácio é considerável, as salas muito grandes e mui 
ricamente mobiladas. Prolonga-se de um lado ao comprimento do rio, e do 
outro para as ruas visinhas. Contém ura pateo cercado por um edifício qua- 
drado, sustentado por arcadas, debaixo das quaes numerosos mercadores apre- 
sentam á venda tudo o que o coramercio pôde fornecer de mais raro em mer- 
cadorias. 

«Entre outras praças as mais consideráveis são aquelias onde está situado 
o palácio real, e a que se chama o Rocio. A primeira tem uns quatrocentos 
passos de comprido sobre duzentos de largo. Além do palácio real, ella é ter- 



DE 301 

minada pela alfandega, qae é maito vasta, pelo tribanal de contas, e oatros 
tribanaes, e por varias casas pertencentes a particulares, porém estes differen- 
tes edifícios não teem nenhuma conformidade uns com os outros, e a vista 
d'esta praça é além d'isto am pouco repugnante por algumas barracas, que 
servem de açougues. A praça do Rocio também não é mais regular, nem tão 
grande como a primeira. Tem d'um lado arcadas, onde quantidade de peque- 
nos vendilhões armam suas barracas, no meio um chafariz sem agua quasí 
sempre. N'esta praça estão o palácio da Inquisição, o grande convento dos Do- 
minicanos e o hospital de todos os Santos. 

«A Sé patriarchal está estabelecida na capella do palácio do rei. Sua archi- 
tectura e pintura nada tem senão de muito vulgar, mas é muito vasta. Conta 
além do altar do coro, doze capellas especiaes, que estão soberbamente orna- 
das. Vé-se alli uma grande tribuna, d'onde o rei e a rainha ouvem ordinaria- 
mente missa. Officia n'ella o patriarcha regularmente todos os domingos e 
dias de festa : dezoito cónegos o acompanham no altar, e ojajudam todos com 
mitra. O coro composto de perto de trinta ou quarenta beneficiados é acom- 
panhado de musica á romana, isto é, sem orchestra, mas entre o grande nu- 
mero de vozes que alli ha, são excellentes algumas. 

«Quando o patriarcha sae á rua, caminha na forma seguinte : Vé-se pri- 
meiramente a cruz patriarchal levada por um homem a cavallo; logo em se- 
guida vae o patriarcha levado n'um rico coche ladeado de vinte lacaios a pé; 
a isto seguem-se quatro coches de um gosto e uma grandesa extraordinária, 
cada um puxado por seis mulas. O primeiro coche, que é o de honra vae va- 
sio, e os outros três contéem os officiaes de seu séquito. Os cónegos andam 
quasi sempre de trem, seguidos de seis criados a pé. 

«A casa da camará é contigua á egreja de Santo António. Nenhuma bellesa 
ou particularidade encerra. 

«Expõem algumas egrejas, particularmente em quinta feira d'Ascenção 
canários em gaiolas muito aceiadamente enfeitadas com flores e fitas, de sorte 
que estes passarinhos animados pelo cantar dos padres, não interrompem seu 
canto, e formam um concerto e um espectáculo assaz novo para os estran- 
geiros. 

«Além do convento dos Capuchinhos italianos existe à porta de Santa Ca- 
tharina uma egreja d*esta nação muito grande e muito rica, e que tem um ór- 
gão o mais bello de Lisboa. Tem capellãomór, vinte capellães, oito clérigos, 
dois sacristãei>, e outros empregados que recitam diariamente o officio di- 
vino. 

«Encontra-se na parte occidental, á borda do Tejo, uma casa da moeda, 
onde se fabrica dinheiro, tão bem, pelo menos, como em França. Perto vé-se 
o Arsenal, que é muito bello. 

«O estaleiro para os navios de guerra quasi que toca no palácio. 

«Vé-se na extremidade da cidade occidental uma casa chamada das ga- 
lés. Tomou este nome do uso, em que se está de prender n'ella os condemna- 
dos ás galés, que pela maior parte procedem das assaltadas que osportugue- 
zes fazem de vez em quando sobre os mouros, com os quaes estão continua- 



30Í DE 

mente em gaerra. Esta sorte de escravos está empregada durante o dia nos 

navios de gaerra, oa a acarretar lenba e agaa para uso dos principaes oífi- 
ciaes de marinha, e de noite levam-nos para a prisão. 

«A cidade tem algmis hospitaes perfeitamente administrados. 

«Lisboa nao tem nenham passeio publico, nem outro divertimento roais que 
um mau tbeatro bespanhol. Os grandes e fidalgos frequentam muito, comta- 
do, este espectáculo; e quando saem d*elle vão passar o resto do dia a passeia- 
rem dentro de seus trens na praça do Rocio, onde conversam uns com os ou- 
tros até à noite, sem sairem de suas carruagens. Vôem-se muito poucas car- 
ruagens, por serem as ruas muito más. / 

«Ha muita caça, presuntos de Lamego, que são melhores que os deBayona 
e de Magence. Os alugueis das casas são muito elevados. 

«O açougue principal, que fica na praça do palácio, é notável tanto por 
sua extensão e aceio, como pela boa policia, que alli se observa. Todas as pa- 
redes pela parte interior estão revestidas de quadradinhos de azulejo e cober- 
tas de uma quantidade prodigiosa de carnes, expostas na altura de seis pés e 
mais: os compradores indicam as peças de carne que desejam, e immediata- 
mente os cortadores, que estão em cima de estrados muito aceiados, á manei- 
ra de theatro, lh'as entregam ao longo d'uma taboa posta muito conveniente- 
mente para esse fim. No meio doeste recinto está um assento para um empre- 
gado, com balanças; e este empregado está sempre presente, a fim de se op- 
pôr á desordem, e de administrar justiça promptamente áquelles que forem le- 
zados. 

«Pouco adiante fica uma praça para a veada de peixe, que ó das mais bem 
fornecidas, que existem em todo o mundo. O peixe é em quantidade prodigio- 
sa, e muitíssimo barato. É trazido em duzentas ou trezentas caravellas e mu. 
letas que diariamente o transportam. As peixeiras distinguem-se pelo seu aceio 
e ricos ornatos, consistindo era braceletes de oiro, que trazem nos braços 
cordões, anéis, cruzes, brincos, de sorte que se vêem algumas trazendo em 
cima de si até um marco d'e$te metal. 

»N'esta cidade não ha mais que três chafarizes com agua de beber; trazem- 
na em cima de burros, e vendera-na a quatro soldos a carga. Ha o inconve- 
niente de ficarem todos no mesmo bairro, e de se estar exposto a ser engana- 
do pelos vendedores, que para pouparem a caminhada, vendem algumas vezes 
agua d'uma quarta fonte muito perto das outras, que não é boa senão para 
cavalgaduras, o que faz cora que as pessoas ricas a mandem buscar por seus 
próprios criados. 

«Acha-se ao lado da praça do palácio ^ uma rua onde estão os confeitei- 
ros, rua que tem a particularidade de, apesar de ficar sua área no mesmo 
nivel que o rio, o qual esUi sempre salgado, c do nào estar distante mais de 
trezentos passos, terem as casas poços de agua doce excellente. As pessoas que 
vão àquclla rua regalar-se com doces, segundo o costume do paiz, não põem 
duvida em bobel-a, e os quo alli moram não bobem d'oulra.» 

a 

* Dcscriplion de Lisbonno, pag. 4í. 



DE ao3 

«Apesar de serem os viveres maito baratos, as boas hospedarias qaasi to- 
das francezas, inglezas e bollandezas são muito caras. Na melhor, que é fran- 
ceza, situada na margem do Tejo, n'uma pequena praça chamada Romuiares, 
o preço é seis francos por dia, e as inferiores, onde pessoas decentes se pos- 
sam accomodar, varia o preço de 48 soldos a 3 libras. Tanto n'uma como n*ou- 
tra, fica a gente mal hospedada, mas come soffrivelmente. A causa doesta ca- 
restia procede do pequeno numero de pessoas que vão hospedar-se n'ellas, e 
faz com que a maior parte dos viajantas, que teem de se demorar na capitai, 
vão hospedar-se em casa de amigos, eu aluguem quartos. 

«As pessoas que tomam este ultimo partido, contentam-se ordinariamente 
com muito pouca mobília e da mais medíocre; apenas uma mesa com seis ca- 
deiras de palha^ alguma loiça de barro e camas, muito em voga no paiz, isto 
é^ sem leito nem cortinas, consistindo apenas n*uma enxerga e dois colchões, 
que se estendem de noite por cima de esteiras, ou tecidos de junco muito 
aceiados. Gomtudo, como as casas estão sempre muito caiadas, e teem por 
toda a parte até certa altura um revestimento de azulejo e são muito risonhas, 
prescindimos facilmente de cortinados. Por esta forma poupa-se consideravel- 
mente, e achâmo-nos alojados muito commodamente em comparação d*aquel- 
les, que estão em casas térreas, e pela maior parte nos sitios mais ordinários K 

«Aífirmam que o rei tenciona augmentar a cidade, construindo em linha 
recta de uma extremidade à outra um cães, que deve entrar pelo Tejo dentro 
nmas cincoenta toezas, o que se pôde fazer facilmente, porque o rio quasi que 
não tem profundidade até ao sitio, a que as obras devem chegar. E no local 
chamado a Boa Vista deve o rei mandar abrir uma doka para n*ella se aco- 
lherem os navios de guerra em occasiões de mau tempo. 

«Em 1724 appareceu em Lisboa o cavalheiro Porta, gentilhomem de Lau- 
sanna na Suissa, para um negocio particular, que era reclamar os bens de 
D. António, que foi antigamente proclamado rei de Portugal, de quem a es- 
posa d'este gentilhomem descende em linha recta. Houve por esta causa diversas 
audiências do rei, que o recebeu honrosamente, e que nomeou duas juntas ou 
conselhos para a decisão de seu negocio. Porém os letrados opinaram que 
este gentilhomem não tinha nenhum direito legitimo, pois D. António fora 
proscripto por Filippe II como traidor à pátria, e seus bens justamente confis- 
cados em proveito da coroa. Depois doesta decisão o gentil homem despediu-se 
do rei, e este lhe mandou dar um presente. 

«A corte de Lisboa é muito triste. Ordinariamente não se encontra muita 
nobreza junta. O rei come sosinho, raras vezes com a rainha, e nunca em pu- 
blico: sáe muito pouco, e apezar de ter uma casa de recreio em Salvaterra, a 
dez léguas de Lisboa, rodeada de vastos terrenos para caça, passa annos in- 
teiros sem ir lá. Nada é mais simples do que sua saída ordinária; véem-no 
n'uma carruagem puchada por seis cavallos, na companhia do infante D. An- 
tónio seu irmão, o duque D. Jaime, seu escudeiro mór, e gentil homem de se- 
mana. Sua comitiva não passa de cinco ou seis pessoas a cavallo. 

* Description de la tiiUe de LisbonnCj pag. 48. 



m DE 

«A rainha sae também muito poucas vozes. Vae todos os sabbados, depois 
do jantar, por devoção a imi convento que flca no fim da cidade de Lis- 
boa, acompanhada do príncipe do Brazíl, das príncezas sua filha e canhada, 
da condessa de Unhão sua primeira camarista. Sua saída é sempre annoncia- 
da de manha por um tambor e um pífaro, que andam a tocar pela cidade com 
o fim de que a este signal todos os archeiros, que não estão de guarda se di- 
rijam para o palácio. A carruagem da rainha vae rodeada de alguns pagens 
a pé, e precedida por todos estes archeiros sem chapeo, commandados por 
nm capitão e por um tenente a cavallo. O resto da sua comitiva consiste em 
quatro carruagens, em três das qnaes vão doze damas de honra. 

•Antigamente os dias de grande gala eram festejados com corridas de toi- 
ros, que duravam alguns dias; foram porém supprimidas no fim do ultimo 
reinado pela influencia da rainha. Como o rei D. Pedro, seu marido, que ti- 
nha uma força extraordmaria, gostava immenso de ir n'estas occasiões agar- 
rar um toiro à unha, a rainha receíando com razão que lhe acontecesse algu- 
ma desgraça^ tanto trabalhou que obteve d'elle a suppressão doestas corridas, 
e contentaram-se depois com o dal as por occasião do nascimento de prínci- 
pes e princezas. 

«Os portuguezes são ciumentos no ultimo grau, dissimulados, vingativos, 
escarnecedores, vãos e presumpçosos sem motivo, não tendo, com excepção da 
nobreza, senão uma educação muito medíocre, não estando acostumados á 
leitura, e quasi que não viajando para outra parte mais que para o Brasil, 
Africa e índias Orientaes. São porém estes defeitos contrabalançados por ou- 
tras qualidades estimáveis. Teem muita vivacidade e penetração, uma affeição 
extraordinária a seu príncipe, são muito guardadores de segredos, amigos 
fieis, generosos, caritativos para com seus parentes, sóbrios na comida: quasi 
que só comem peixe^ arroz, aletria, legumes, bolos, e não bebem ordinaria- 
mente senão agua. 

« Yé-se andarem os homens pela rua trazendo uma espada comprida, a maior 
parte do tempo debaixo do braço, e um rosário na mão, fallando acerca de 
negócios e de seus divertimentos, mas não deixando de resar, ou pelo monos 
de o fmgir, particularmente quando estão uns com os outros. Sua maior pai- 
xão no exterior consiste n'uma devoção apparente, capaz de enganar aqueUes 
que não tiverem alguma pratica d'este paiz. 

< A gente ordinária ajunta-se em ranchos nas ruas em frente de nichos, onde 
rezam e dão bofetadas em si mesmos. Nas procissões de Quaresma azorragam- 
se a si próprios horrivelmente, ou arrastam ao andarem cadeias presas às per- 
nas, trazem barras de ferro com os braços em cruz e outras penitencias simi- 
Ihantes. Com tudo n'estas mesmas occasiões alguns trazem uma fita no hom- 
bro para serem reconhecidos de suas namoradas. Outros namoram por signaes 
na egreja, e isto diariamente, entregam cartinhas de namoro com multa dex- 
treza. Estão mesmo tão acostumados a verem todas estas coisas, que as pes- 
soas do paiz as mais morigeradas não se escandalisam por observarem isto. 
A bondade do clima e a doçura da vida tornam-os preguiçosos, fazem com 
que trabalhem pouco, e se contentem cora uma fortuna medíocre. 



DE 305 

«Os jadens são maito mais laboriosos, o qae provém de sua paixão ordiná- 
ria para ajuntar riquezas, e do desejo de se verem em estado de deixar um 
paiz, onde a Inquisição lhes faz uma guerra cruel. De vez em quando alguns, 
depois de terem adquirido fortuna, embarcam secretamente e passam para In- 
glaterra, Hollanda e outros paizes, em que podem exercer livremente sua re- 
ligião. Sua vida em Portugal está cbeia de contrariedades e inquietações. Fa- 
zem exteriormente todos os exercícios da nossa religião com a maior pontua- 
lidade para que não desconfiem que são judeus. 

«Os que se convertem egualmente passam por muitos desgostos. São des- 
prezados e marcados para sempre com o epítheto infamante de Christão novo, 
que 08 exclue a elles e a seus descendentes, a não ser por um extremo favor, 
da maior parte dos cargos seculares, e Ibes tira para sempre a esperança de 
se poderem alliar com os christãQS velboa. Fazem-se estas allianças algumas 
vezes, mas só por occasião de alguma aventura amorosa, ou quando christãos 
novos, sendo ricos, fazem a fortuna de raparigas pobres. Mas os filhos prove- 
nientes doestes casamentos são chamados meio christãos novos^ e successiva. 
mente à proporção. Finalmente quando se perdeu a memoria do grau de soa 
origem judaica, chamam- lhes parte de christão novo^ de sorte que esta espécie 
de infâmia não se extingue quasi nunca. ^ 

«Dizem que as mulheres por Índole são muito aífeiçoadas a seus maridos * 
e que é raro encontrar alguma que lhes seja infiel. É comtudo necessário con- 
fessar que o excessivo ciúme dos maridos, e as precauções extraordinárias que 
tomam, poderiam fazer julgar que ellas são de uma compleição bem diffe- 
rente. Seja como fôr, o que é certo é que sua sorte ó bem triste. Teem^nas 
quasi sempre fechadas, e véem-se até mesmo simples commerciantes terem em 
soa casa capellas, em que mandam dizer missa para tirarem a suas mulheres 
e filhas qualquer pretexto para saída. 

Não podem ellas fallar senão aos padres e aos frades: estão privadas abso- 
lutaúiente de todo o commercio com oi outros homens, e não teem mais re- 
creação que de dentro das gelosias olharem para quem passa. 

Apenas se podem ver na egreja quando lá vão: collocam-se na téa separa- 
das dos homens, mas isto não obsta a que por signaes e linguagem de dedos 
substituam a palavra. Accrescentarei ainda que estes signaes se fazem de 
uma e outra parte d'uma maneira tão subtil e tão prudentemente dirigida que 
nm estrangeiro, que não estivesse prevenido d'este uso, juraria que elles não 
disseram uma unlca palavra. 

Esperam com grande impaciência as procissões de Quaresma, porque se 
lhes permitte então saírem para irem ver as ceremonias, e porque aquellas que 
teem desejo de fazer outro uso da liberdade d'aquelle tempo, o podem fazer 
sem perigo, não sendo quasi possível expial-as por causa da quantidade de 
mulheres, que se vêem n'estas occasiões, e da conformidade de seus vestuá- 
rios. Vão também na noite de Quinta-feira Santa visitar as egrejas, e em quanto 

* Description d$ la vUle de LUbonn$i paç. 99. 
' Idem^ pag. 110. 

TOMO I 20 



306 DE 

os maridos dormem tranquillamente por causa do preconceito gorai que não Ibes 
pérmitte resistirem à devoção verdadeira ou fingida de ^uas mulheres, diz-se 
que ha então muitas, que se indemnisam do tempo que passaram no constran- 
gimento. 

«Os médicos portnguezes passam no espirito da nação por muito hábeis: 
odaviasão extremamente pródigos de sangue, e quasi que não conhecem ou- 
tro remédio senão a sangria. Nas doenças ordinárias começam por applicar 
meia dúzia de sangrias; e, quando o mal é teimoso, elevam a receita até quinze 
ou vinte, de forma que o que de melhor pôde acontecer ao doente é ficar li- 
vre da moléstia por meio de uma debilidade de que com muita difflculdade se 
restabelecerá. Finalmente se seus remédios não aproveitam, e o doente cae 
n'um estado desesperado, receitam-lhe Agua do FranceZy e experimenta-se que 
muitas vezes os doentes recuperam súa saúde com o uso d'esta agua. O firan- 
cez, que a vende, é um provençal por nome Estíenne, estabelecido em Lisboa, 
ha muitos annos^ o qual sem ser medico ou cirurgião applica a toda a qualidade 
de doenças esta tisana, cajá composição diz ter aprendido de um turco. Apre- 
senta certidões de uma infinidade de pessoas, a quem curou perfeitamente; e 
bem que mostrando o credito de sua tisana ou suas curas maravilhosas, tenha 
grande cuidado de guardar silencio a respeito das occasiões em que ella pro- 
duziu effeito contrario; é todavia certo que tem ajuntado grossos cabedaes, e 
conservado sempre sua reputação com o mesmo vigor. 

cObserva-se que a maior parte dos médicos e dos advogados são de raça 
judia: os cirurgiões, apezar de serem ignorantes, acham o sangrar muito 
abaixo de sua dignidade: são os barbeiros os que se prestam a este mister. 

«Os homens e mulheres tecm grande devoção a S. Bento, cujas relíquias 
repousam n'uma grande egreja de seu nome. Vé-se a 21 de março, dia da 
festa doeste santo, um concurso extraordinário de povo, que batendo á porta 
d'esta egreja pede ao Santo que não lhe deixe faltar o pão: e pelo anno adiante 
as raparigas mandam ali dizer missas para encontrarem bons maridos. 

«Os velhos e pessoas achacadas teem egualmenle uma singular devoção a 
S. Gonçalo, porlugucz de nação, que está no convento dos dominicanos, na 
praça do Rocio. No dia de sua festa fazem ali suas danças bailando e cantando: 

Quem com o santo quizer sarar. 
Ao santo ha de bailar. 

«Comtudo as ceremonías mais respeitáveis de nossa religião fazem -se n'este 
paiz de uma maneira pomposa. Leva*se o corpo de Nosso Senhor aos doentes 
com muita magestade. O padre vae debaixo de um pailio sustentado por seis 
pessoas, caminha vagarosatnente, precedido por varias espécies de trombetas, 
e seguido de uns vinte irmãos de capas encarnadas, uniformes, levando cada 
um uma vela na mão e as coisas necessárias para administração do Sacra* 
mento. 

«A procissão do Corpo de Deus faz -se desde alguns annos com uma pompa 
c solemnidade, que excede tudo o que se pratica nos outros paizes da chris- 



DE 307 

Undade. As roas por onde passa a procissão, estão juncadas de verdora e de 
flores, e gaamecídas de tropas: estão tapadas pelo telhado das casas de um 
lado a outro com um toldo de damasco carmesim: véem-se alli grandes lus- 
tres de distancia a distancia e magnificos altares. Ha n'aqueile dia, na praça 
do palácio e na do Rocio, uma fileira de columnatas de madeira em arcadas 
muito largas e altas, em forma de arcos de triumpho envernizados e enriqueci- 
dos de bellas pinturas, debaixo dos qnaes passa a procissão, como em todo o 
resto do caminho a coberto das injurias do tempo. 

«As casas estão armadas com sedas; vôem-se ás janellas as mulheres mui 
ricamente ornadas^ e é prohibido aos homens apparecerem n*ellas. 

«O rei assiste á ceremonia acompanhado de todos os grandes de sua corte, 
e precedido de todas as irmandades, cavalleiros de Christo, de Aviz, de 
S. Tfaiago, de todas as ordens ecclesiasticas, do patriarcha com seu cortejo, 
ao qual os cónegos mitrados dão grande esplendor K 

«A rainha dirige-se n'esta occasião para a residência do ministro, cuja casa 
está situada de modo que S. M. tem o prazer de se ver alli no meio da Pro- 
cissão; porque ella descobre-a ao longe vindo da sua esquerda, d'onde se es- 
tende depois para a grande rua dos ourives de oiro, que fica na frente das 
janellas que ella occupa, vé-a ainda voltar pela rua dos mercadores, que fica 
á sua direita. 

«Esta procissão contém tanta gente, que grande parte está já de volta antes 
que a outra tenha acabado de passar por este sitio: de maneira que a rainha 
avistando a procissão de princípio a fim a egual distancia da janella de saca- 
da que occupa, a vé então em forma de cruz, e a vista é soberba. 

. Tanto os portuguezes são económicos em suas casas, tanto são gastadores 
na celebração de seus casamentos, e nas ceremonias publicas. Para sustenta- 
rem o explendor e despeza pedem emprestado sobre penhor, e alienam seus 
rendimentos; de maneira que ha poucas casas, que não estejam muito indivi- 
dadas. Algumas d'ellas qualificam-se de puritanas, o que quer dizer, que não 
houve em suas famílias alguma mistura com o sangue dos moiros ou dos 
christãos novos, e d'isto se ufanam a ponto de não quererem alliar-se com as 
que não o são, e por esta razão é que se vé mui commummente os portuguezes 
casarem-se com suas parentas, apesar de lhe custarem muito dinheiro as dis- 
pensas em Roma. Véem-se ainda casas de tal forma enfatuadas de sua nobre- 
sa, que ellas preferem anniquilar-se a alliarem-se com outras menos illus- 
ires do que as suas. 

jA lei permitte todavia ás filhas casarem-se conforme a sua inclinação, de 
maneira mesmo que um homem do commercio, a quem uma menina de pri- 
meira nobresa tivesse promettido casamento, poderia desposal-o apesar da re- 
sistência dos pães, com tanto que a menina não se retractasse : comtudo isto 
qnasi nunca acontece, porque o pretendente seria infallivelmente assassinado, 
porém estes exemplos são vulgares na nobresa ordinária, e entre os mecâni- 
cos. Eis a maneira como os pretendentes se comportam n^estas occasiões: ex- 

^ Deter ijUion de la villc de Lisbonnef pag. Hli. 



308 DE 

paem seos direitos ao vigário geral, qae ordena ímmediatameDte qae a me* 
iiiaa compareça na soa presença. Feito isto, este ministro a interroga, e se as 
respostas se acham conformes á exposição do cavalheiro, dà-lhes immediata- 
mente licença para irem casar-se. 

«Esta lei dá occasião a aventuras maito divertidas, das qoaes referirei ama 
(|ue aconteceu à filha de um bom commerciante. Tendo-se esta pessoa enamo- 
rado de um particular, apesar de sua figura muito medíocre, o qual morava 
defronte d*ella^ o amante não perdeu tempo em ir ter com o vigário geral; 
não procedeu todavia com tanto segredo, que o